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ARCOmadrid: feiras de arte e recuperação do mercado frente à pandemia

ARCOmadrid
Vista geral, ARCOmadrid. Foto: Divulgação

Por Victor Valery*

“Objetivo cumprido”. Este é o título da matéria publicada no website da feira de arte contemporânea ARCOmadrid no dia do encerramento de sua 40ª edição. O objetivo? Reativar o mercado, promover a venda de arte e possibilitar o reencontro entre os profissionais do meio e grandes colecionadores mundo afora. Mas como garantir a qualidade de conteúdo e a presença internacional de galerias e colecionadores enquanto enfrentamos uma das maiores pandemias da história? Para tentar responder a esta questão, estive presente nas últimas duas edições, antes e já durante a pandemia.

A edição do ano passado da feira ARCOmadrid ocorreu entre 26 de fevereiro e 1º  de março de 2020, encerrando uma semana antes da Europa se fechar completamente devido à Covid-19. Já a edição de 2021, ano de seu aniversário de 40 anos, ocorreria também em fevereiro, porém foi remarcada para ocorrer entre os dias 7 e 11 de julho na IFEMA (Instituição de Feiras de Madrid).

Assim como as semanas de moda regem as tendências do setor, no mercado da arte não é diferente: o calendário das feiras de arte pelo mundo aponta os artistas em ascensão, consolida novas galerias e reafirma a presença dos grandes players do circuito. Feiras como a Art Basel (Suíça), Art Basel Miami Beach (EUA), FIAC (França), SP-Arte e ArtRio (Brasil) e as feiras de Nova York (EUA) passaram o ano de 2020 montando quebra-cabeças e oscilando entre formatos presenciais e virtuais para que pudessem ocorrer de maneira segura.

ARCOmadrid
Vista geral, ARCOmadrid. Foto: Divulgação

Com o avanço da vacinação na Europa esperava-se uma rápida recuperação do mercado, que sofreu sua maior crise dos últimos tempos, culminando no fechamento de inúmeras galerias. Sendo assim, a ARCOmadrid deu o pontapé inicial na tentativa de reativar este lugar de encontro de galerias, colecionadores e profissionais da arte dos cinco continentes. Nesta edição, o número de visitantes diário foi limitado, além dos três primeiros dias serem de acesso exclusivo aos colecionadores e profissionais da arte, liberando para o público geral apenas nos dois últimos dias.

Curiosamente, tanto em 2020 quanto em 2021 o número de galerias na feira foi o mesmo: no primeiro, 209 galerias de 30 países (sendo 36 latino-americanas); e neste ano 209 galerias (15 latinoamericanas) de 30 países. Isto se deve a uma possível redução dos requisitos para entrar na feira devido à pandemia. Outra curiosidade foi a dimensão da feira, pois os stands eram maiores para evitar aglomerações, tornando os espaços amplos e as distâncias percorridas mais longas.

A única representante na feira com filial no Brasil foi Baró Galeria, que trouxe trabalhos do também brasileiro Sidival Fila. A galerista e fundadora Maria Baró, além de possuir filiais em Lisboa, Madri e São Paulo, inaugura sua nova sede em Palma de Mallorca (Espanha) esta semana e comenta sobre o trabalho do artista: “Fila tem uma história de vida muito interessante, pois vive em Roma há 35 anos e aos 28 anos se tornou frei franciscano, deixando de lado a arte para estudar teologia, porém retornando às práticas artísticas há 15 anos com uma força incrível. Não vejo a hora de, no próximo ano, apresentá-lo no Brasil pela primeira vez”.

A galerista também vendeu, pela primeira vez na ARCOmadrid, uma obra em NFT (non-fungible token). O trabalho Tree Hash (2021) do artista Solimán López, que trabalha o conceito de NFT desde 2013, consiste na fotografia 3D de uma árvore bonsai em uma estrutura de plástico biodegradável; o arquivo original do 3D está armazenado em blockchain e o colecionador recebe um certificado com a localização geográfica (latitude e longitude) real que a árvore está plantada.

Conversando com o artista, ele se diz satisfeito com a venda da obra, que foi adquirida pela fundação El Secreto de la Filantropía, porém afirma que “ainda há um certo medo por parte dos colecionadores e galeristas em assimilar o NFT como arte, e não apenas especulação”. Soliman conclui dizendo que “todo mercado é especulação, o da arte inclusive”, e acredita que a arte, biologia e tecnologia ainda têm um caminho muito longo para trilhar.

Outra presença brasileira na feira foi na seção Remitente (remetente, em espanhol), projeto do curador Mariano Mayer para encurtar a distância entre a feira e a arte latino-americana. Trata-se de uma exposição com obras de 19 artistas da América Latina representados por 15 galerias da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru; suas obras compartilhavam o mesmo espaço expositivo. Destacam-se, entre as obras, a escultura Bichinha quadrada circular (2020), de Lyz Parayzo (Casa Triângulo), e com os vídeos Campo (1977), de Regina Silveira, e Photokinetic (2020), de Hector Zamora, ambos trazidos pela Luciana Brito Galeria.

A ARCOmadrid trouxe qualidade nos trabalhos expostos, porém baixas vendas em comparação às edições anteriores. Mesmo promovendo soluções como a comercialização de NFT, o mercado ainda reafirma o modelo tradicional de apresentar artistas já consolidados: no geral homens, brancos, acima dos 50 anos ou já falecidos, ignorando que os jovens artistas poderiam ser a chave no combate à crise do mercado que vivemos hoje. Se não aos colecionadores, instituições ou grandes galerias, a quem cabe encurtar o abismo e fazer a ponte entre jovens artistas e o mercado?

Próximos eventos da ARCO:

A ARCOlisboa, braço lusitano da feira de Madri, acontecerá entre os dias 16 e 19 de setembro deste ano. Serão 71 galerias de 17 países trazendo mais de 470 artistas na Doca de Pedrouços. A ARCOmadrid 2022 celebrará sua 41ª edição de 23 a 27 de fevereiro nos pavilhões 7 e 9 da IFEMA MADRID.

* Victor Valery tem formação em Produção Cultural e atua no mercado da arte, curadoria e representação de artistas. Em 2019 inaugurou um apartamento-galeria em São Paulo, que funciona, entre outros, como espaço conservação do acervo da VANDL ART, selo que promove seus artistas em parcerias de arte, música, moda e tecnologia (@victorvalery).

 

 

Mostra coletiva leva arte contemporânea ao Museu de Arte Sacra

Obra de Moisés Patrício. Foto: Silvia Balady/ Divulgação
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Obra de Moisés Patrício presente na exposição. Foto: Silvia Balady/ Divulgação

Mais acostumado a expor obras, objetos e publicações de séculos passados, o Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS/SP) tem se voltado também, em tempos mais recentes, à produção de arte contemporânea que dialoga com as temáticas tratadas pela instituição. É nessa linha de atuação que ganhou corpo no museu o projeto LUZ Contemporânea, com curadoria do canadense Simon Watson, que montará ao todo 12 exposições individuais ou coletivas no espaço paulistano. Após a exibição de Corpo e Alma, de João Trevisan, que ficou em cartaz até o fim de junho, o museu apresenta agora o segunda mostra da série, Esperança, aberta até 22 de agosto.  

Com trabalhos de 12 artistas – Ana Júlia Vilela, Andrey Rossi, Desali, Enivo, João Trevisan, Leandro Júnior, Lidia Lisbôa, Mag Magrela, Moisés Patrício, Paulo Nazareth, Thiago Rocha Pitta e Yasmin Guimarães -, a exposição dialoga diretamente com os tempos atuais de crise por conta da pandemia de Covid-19, como explica Watson no texto de divulgacão: “Vista pelas lentes de diversas práticas artísticas contemporâneas, Esperança é uma observação curatorial caleidoscópica buscando resposta aos 18 meses de pandemia. Para muitos de nós, o ano passado pareceu se arrastar, de forma lenta e dolorosa. Foi um tempo de espera e esperança, um tempo de autorreflexão. Um período que despertou consciências, tanto pessoais como coletivas, em resposta a uma crise global de saúde; como cada um de nós se relaciona com o outro e como compartilhamos nossa saúde coletiva”.

Deste modo, Esperança procura criar uma sensação de acolhimento, do olhar para frente, do ser bem-vindo. Como mote para exposição, um dos conceitos que interligam os trabalhos são as múltiplas formas pelas quais as mãos e corpos dos artistas se fazem presentes na criação dessas obras de arte. “Ao reafirmar sua presença, esses artistas confirmam nossa existência como humanos e, com a presença de sua mão somos lembrados de nossa impermanência, da fragilidade de nossas vidas. E por serem obras de arte, possuem uma permanência no registro de nosso tempo. Na presença da mão do artista, encontramos sinais pessoais de propósito, determinação e esperança”, conclui o curador.

Os 54 trabalhos – bidimensionais, tridimensionais, tecnológicos – de Esperança, que abrangem técnicas diversas como aquarelas, pinturas, grafitti, esculturas, fotografias e vídeo performances, estão dispostos na sala de exposições temporárias do MAS/SP bem como em seu jardim interno – Jardim do Claustro. Cada obra é acompanhada de um texto crítico assinado pelos curadores convidados Thierry Freitas, Márcio Harum, Fernando Mota, Carlo McCormick, André Vechi, Jackson Gleize, Mirella Maria, Gabriela Longman, Guilherme Teixeira, Janaina Barros, Ulisses Carrilho e Carollina Lauriano.  

O Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS/SP) está localizado no centro da cidade, na Avenida Tiradentes, 676 – Luz (ao lado da estação Tiradentes do Metrô). A visitação acontece de terça-feira a domingo, das 11h às 17h. O ingresso (acesse aqui) custa R$ 6,00 (Inteira), R$ 3,00 (meia entrada nacional para estudantes, professores da rede privada e I.D. Jovem – mediante comprovação) e a entrada é gratuita aos sábados.

Galeria Camões, em Brasília, apresenta mostra de Gabriela Albergaria e Marcelo Moscheta

Vista geral da exposição. Foto: Jean Peixoto/ Divulgação

A relação entre o homem, o espaço e a natureza, mais especificamente no contexto da cidade de Brasília, é o tema que percorre a mostra Orédeas, em cartaz até 19 de agosto na Galeria Camões, em Brasília. Inspirada na Capital Federal, na paisagem característica do cerrado em contraposição com o ideal moderno e utópico da arquitetura da cidade, a exposição coloca em diálogo trabalhos da portuguesa Gabriela Albergaria e do brasileiro Marcelo Moscheta.

Já habituados a trabalhar com temáticas relacionadas ao território e à paisagem, os dois artistas – ambos representados no Brasil pela galeria Vermelho – se encontram agora em trabalhos com temática comum, apesar das especificidades de cada produção: “Eu e Gabriela somos amigos e expomos na mesma galeria. A ideia inicial era comemorar os 60 anos de Brasília, e quisemos celebrar também a relação entre o espaço, a cidade e o natural”, diz Moscheta em texto de apresentação da mostra.

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Detalhe da série “Antes”, de Marcelo Moscheta. Foto: Joana França/ Divulgação

Para Albergaria, na mostra na Galeria Camões a busca por encontrar pontos de comunicação entre o homem, a natureza e a cultura ganharam destaque através do Jardim Botânico. Ao conhecer o local, contrapôs a naturalidade do cerrado com o paisagismo de Burle Marx e percebeu que o artista e paisagista brasileiro “de fato fez uma paisagem política, no sentido em se encontram juntas no mesmo local espécies de todo Brasil”. A principal peça apresentada por ela é intitulada 1/20 de terra cultivável necessária para preencher o espaço da galeria, feita com terras provenientes de diferentes regiões do Brasil.

O trabalho de Moscheta volta-se para a memória do lugar e questiona as fronteiras do território, a geografia e a física. “Minha relação com a paisagem repousa numa tentativa primeira de construir um lugar ideal, uma imitação da natureza como retrato fiel das relações de perfeição e equilíbrio”, explica no texto de divulgação. Na instalação Hiato, obra de maior dimensão da mostra, o artista convida o visitante a caminhar entre os galhos, por um corredor criado no interior da peça.

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Detalhe de “1/20 de terra cultivável necessária para preencher o espaço da galeria”, de Gabriela Albergaria. Foto: Joana França/ Divulgação

As visitas à mostra na Galeria Camões, que fica na Embaixada de Portugal no Brasil (Av. das Nações, Quadra 801, Lote 2) estão limitadas a dez pessoas, seguindo todos os protocolos de segurança.

Yona Friedman e o direito de compreender

Yona Friedman (1923-2020) no "Museu sem Edifício", realizado no CNEAI (Centre National Édition Art Image, Pantin, França), em 2018. Foto: Cortesia Fonds de Dotation Denise et Yona Friedman, com a colaboração do CNEAI e de Sylvie Boulanger.


“Tão importante quanto o direito à vida, o direito ao trabalho, o direito à justiça, além de muitos outros”, escreveu Yona Friedman, é o “direito de compreender”. Este seria – para o artista, arquiteto, urbanista, sociólogo e antropólogo – um dos direitos humanos essenciais, já que “compreender as coisas permite saber se comportar diante daquilo que nos cerca”. “Pois compreender as coisas é ser capaz de dominá-las”, seguia ele. Estas afirmações, grafadas ao lado de ilustrações de traços simples e em formato de quadrinhos, fazem parte de um dos vários manuais produzidos por Friedman ao longo de sua vida (1923-2020), que agora são apresentados na mostra Democracia, no Memorial da Resistência de São Paulo.

Nesta mesma peça, o artista prossegue com críticas a um intelectualismo ou cientificismo que despreza os leigos e iletrados: “Um conhecimento que é considerado verdadeiro pode ser explicado tão facilmente na linguagem do leigo quanto naquela do intelectual. É mais vantajoso, no entanto, expressar uma verdade na linguagem mais simples”, afirma o texto, acompanhado de imagens em que matemática, ciência ou engenharia são explicados através de situações do dia a dia.

Apesar das variadas facetas e da vasta produção de Friedman – judeu húngaro que vivenciou a Segunda Guerra, passou anos na Romênia e em Israel antes de se radicar definitivamente na França -, a exposição destaca especialmente este aspecto da comunicação e dos direitos humanos na obra do autor, com sua busca pela criação de uma linguagem acessível e democrática. “Quem quiser compreender deve primeiro fazer perguntas. Nenhuma questão é tonta (enquanto muitas respostas o são)”, segue o manual do autor. Este e outros manuais, dedicados a temas sociais como moradia, democracia e meio-ambiente, feitos para instituições como Unesco e Universidade das Nações Unidas, dão a linha principal da exposição.

Com curadoria de Ana Pato, coordenadora do Memorial desde maio de 2020, e assistência de Carolina Faustini Junqueira, a mostra reúne produções de diferentes momentos da trajetória de Friedman, incluindo ainda filmes, desenhos, colagens, instalações e propostas para espaços culturais. A curadora, que já desenvolvia anteriormente pesquisa sobre Friedman – incluindo uma residência no CNEAI, na França, em 2019 – propõe um paralelo entre o trabalho do franco-húngaro e os ideias do memorial paulistano, dedicado principalmente à memória dos períodos de ditadura no Brasil: “Em tempos de negacionismo sobre temas que são postulados inegociáveis para o Memorial da Resistência, a defesa de Yona Friedman por formas de transmissão de conhecimento abertas e participativas é essencial para pensarmos o papel da comunicação na luta pela valorização de princípios democráticos, pelo exercício da cidadania e pela educação em direitos humanos”, escreve ela no texto de apresentação.

A multidisciplinaridade e o hibridismo na produção de Friedman são notáveis na exposição, ainda que nem todas as facetas de seu trabalho sejam aprofundadas. Na construção do espaço expositivo – concebido por Anna Ferrari, Isabella Rosa e Pedro Lins -, um slide show é projetado, os desenhos e manuais são grafados diretamente nas paredes, cartazes “descem” pendurados do teto, lambes são colados ao chão e uma instalação realizada em fios de alumínio surge suspensa, evocando técnicas construtivas intuitivas. Em tudo isso, destaca Ana Pato, a imagem se mostra central: “Ele coloca esse ponto de vista de que o direito a compreender e o direito a interpretar vêm sempre de acordo com a experiência de cada pessoa e, neste sentido, a imagem se torna central para comunicar. Pois para ele a imagem é uma linguagem que exige atenção, mas não necessariamente conhecimento”.

Uma arquitetura pouco usual

A produção mais propriamente arquitetônica de Friedman – pela qual ficou conhecido em universidades e influenciou meios da contracultura no século 20 – surge mais discretamente na exposição em uma das duas vitrines expositivas. Estão ali apresentados o que o autor chamou de espaços culturais, sendo eles o Museu de Rua, o Museu dos Grafites, o Museu ao Ar Livre, o Museu do Passeio e o Museu sem Edifício. De modo geral, eram mais proposições do que projetos a serem construídos, por mais que alguns tenham saído do papel – como o Museu de Tecnologia Simples, construído em 1987 na cidade indiana de Chennai. Estruturas efêmeras e adaptáveis e materiais reutilizados a serem moldados coletivamente surgem nestes projetos que certas vezes são apenas desenhos e escritos: “Ele dizia que não se trata mais de construir, objetos ou prédios, mas de expressar funções. Então ele vai discutir muito essa possibilidade de imaginar configurações sociais que fossem realizáveis. Sem dúvida, o Yona não se importava muito com o resultado. Ele trazia a proposição e por isso sua obra é tão livre”, explica a curadora. A Cidade Espacial pensada pelo autor surge também em desenhos na exposição.

Voltando ao texto do manual citado ao início desta matéria, as palavras do próprio Friedman aprofundam o porquê de suas propostas inovadoras, e como as ideias de comunicação democrática e arquitetura se entrelaçam: “Um museu não é um museu sem seu público: um museu sem público é apenas um depósito de objetos inúteis. Mas aqueles que visitam um museu nem sempre fazem parte de seu ‘público’ de iniciados. Muitos visitantes são passantes que não observam atentamente aquilo que é oferecido à atenção de todos, iniciados ou não, e que não fazem perguntas porque eles não ousam fazê-lo envergonhados de sua ignorância. Esses desistem de saída de compreender.”

Neste ponto da mostra, não passa desapercebido ao visitante algum contraste entre a proposta de Friedman – que “elegeu a rua como lugar público e democrático para criar espaços colaborativos de intervenção na cidade” – e a própria configuração da exposição no Memorial da Resistência, que ocupa um dos andares do edifício compartilhado com a Pina Estação, com pouca abertura para a rua. Incrustada numa das áreas mais vivas e carentes do centro de São Paulo, a instituição está ao lado da movimentada Estação da Luz, da cracolândia e de espaços urbanos que abrigam uma série de coletivos e movimentos sociais.

Ana Pato explica, no entanto, que diálogos com a população e os coletivos da região foram estabelecidos ao longo do processo de concepção da mostra, e assim seguirá sendo feito até o seu encerramento em março de 2022. A ideia de criar alguma espécie de museu de rua na região acabou sendo impedida pela pandemia de Covid-19, com a impossibilidade de gerar aglomerações. “Eu tinha sempre muita preocupação em não criar qualquer situação artificial dentro do espaço, como por exemplo construir um museu de rua dentro do memorial. Eu achava isso totalmente incoerente com a proposta do Yona, porque tudo que ele fala dessas estruturas móveis, do aproveitamento de material, das soluções dadas pelo próprio habitante e morador, são coisas que estão ali no centro de São Paulo”, diz Pato.

Entre o que foi possível fazer, os coletivos artísticos casadalapa e Paulestinos foram chamados para colaborar com a produção dos lambes da mostra e de uma bandeira que será fixada à frente da exposição – eles devem participar ainda de outras ações urbanas. “Eles se aproximam do pensamento do Yona neste diálogo entre comunicação e política, falando de reciprocidade nas trocas humanas”. Em parceria com o Sesc Bom Retiro será realizado na primeira semana de agosto o ciclo de encontros “A democracia é possível: experiências de resistência no território”. E, para ir além apenas do espaço expositivo, boa parte dos materiais apresentados, como os manuais e slideshows, estão disponíveis no site do Memorial, partindo de uma liberdade dada pelo autor, ainda em vida, para que seus trabalhos fossem divulgados, traduzidos e apropriados.   

A busca, portanto, é de que a exposição Democracia siga os passos propostos pelo próprio Friedman, mais uma vez naquele mesmo manual citado anteriormente: “Um museu não satisfaz o direito de compreender se se limita a apresentar uma única resposta às perguntas que foram feitas, nem se as respostas são dadas de forma hermética, nem, sobretudo, se as respostas dadas não tiverem relação com a vida cotidiana do público. (…) Ele deve provocar no público o desejo de compreender”.

MAC USP e MAM-SP apresentam exposição conjunta “Zona da Mata”

Foto horizintal, colorida. Vista da exposição ZONA DA MATA no MAM São Paulo. Em primeiro plano, uma obra em um aquário de vidro suspenso e um pequeno canteiro no chão, em formato de pentágono. Ao fundo, as paredes de vidro do espaço expositivo trazem o ambiente do Ibirapuera para imagem, é possível ver vegetação e a Oca ao fundo.
Vista da exposição “Zona da Mata” no MAM São Paulo. Foto: Karina Bacci

A faixa litorânea da região nordeste do Brasil, que se estende do Rio Grande do Norte até a Bahia, recebe o nome de Zona da Mata. Porta de entrada para a colonização, é historicamente um território de conflito, teve seu solo fértil explorado de modo predatório e foi palco da destituição dos povos originários e da diáspora africana no país. Com curadoria de Ana Magalhães, Marta Bogéa e Cauê Alves, a nova exposição adota o termo Zona da Mata como metáfora simbólica para tratar das relações entre cultura e natureza e lança luz às problemáticas latentes do Brasil atual. Em cartaz até março de 2022, ela acontece simultaneamente no Museu de Arte Contemporânea (MAC USP) e no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP).

Apesar de partir de uma questão geográfica, a exposição se debruça sobre as mudanças da paisagem que esses encontros entre colonizadores e povos originários trouxeram ao país e reflete como elas se desdobram e nos afetam até os dias de hoje. “Diante do Brasil em febril convulsão, violentamente retrógrado, Zona da Mata é hoje todo o país. Alinhados ao desafio mundial, precisamos mais do que nunca nos reposicionarmos frente ao nosso pacto de país e sociedade, a começar por reconhecer saberes ancestrais que não soubemos acalentar, sem aprisioná-los em um passado histórico, mas como parte fundamental de nosso desejável presente”, afirma o trio no texto curatorial da mostra.

Organizada em quatro partes, em diferentes espaços e com diferentes temporalidades, a exposição nunca nos é apresentada em sua totalidade, mas de forma fragmentada. No quinto andar e no térreo do MAC USP nos deparamos com duas de suas faces. Já a Sala de Vidro do MAM-SP abriga as outras duas, não de forma simultânea, mas em dois tempos distintos. De 19 de junho a 17 de outubro, o espaço recebe obras de Marcius Galan, Guto Lacaz e Gustavo Utrabo; e de 23 de outubro a 6 de março de 2022, será apresentado o trabalho do artista Rodrigo Bueno feito especialmente para o local. A mostra no MAC USP, exibida em uma única montagem, traz trabalhos de Brasil Arquitetura (Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci), Claudia Andujar, Fernando Limberger, Gabriela Albergaria, Gustavo Utrabo, Guto Lacaz, Jaime Lauriano, Julio Plaza, Leandro Lima, Gisela Motta em uma das áreas expositivas e Claudia Andujar, Marcius Galan, Paulo Nazareth e Rodrigo Bueno na outra.

É por essa fragmentação que Zona da Mata propõe uma condição de atravessamento, articulando os dois museus vizinhos. “Intenta um ir-e-vir aderente ao chão da cidade, endereçada ao presente e ao porvir, no pacto indissociável de uma paisagem compartilhada e simultaneamente desviada, a partir da singularidade vibrante de cada obra convidada e do acervo de ambas as instituições que integram essa mostra-paisagem”, sugerem os curadores.

Para eles, essa conexão entre MAM e MAC é crucial. “Há uma ligação histórica entre essas duas instituições que integram o eixo cultural do Ibirapuera. É essencial somarmos esforços, nos reposicionarmos a partir de parcerias e refletirmos sobre o modo como arte e arquitetura abordam a transformação da paisagem e seus vínculos com questões socioambientais”, diz Cauê Alves, curador-chefe do MAM-SP.

ZONA DA MATA
ONDE: MAM São Paulo – Parque Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portões 1 e 3 – Vila Mariana – São Paulo, SP)
QUANDO: terça à domingo, das 12h às 18h
Agende sua visita através do site da instituição

ONDE: MAC USP (Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 – Vila Mariana – São Paulo, SP).
QUANDO: terça à quinta, das 11h às 19h, sexta a domingo das 11 às 21 horas.
Agende sua visita através do site da instituição

“Trabalhadores Ilustrados” no Sesc Santo Amaro; assista ao vídeo

Foto horizontal, colorida. Vista da exposição TRABALHADORES ILUSTRADOS, com curadoria de Chico Homem de Melo. Nas laterais esquerda e direita, painéis vermelhos trazem impressões de ilustrações de trabalhadores. Ao fundo, no centro, a ampliação, em cerca de dois metros e meio, da ilustração OPERÁRIO FABRIL de Odileia Toscano. À sua frente, uma mesa comprida, que leva o fotógrafo ao painel, traz os livros e revistas originais, de onde foram tiradas as ilustrações.
Vista da exposição "Trabalhadores Ilustrados" no Sesc Santo Amaro. Foto: Wagner Linares

Com um conjunto de ilustrações vindas da literatura, do jornalismo, da produção musical e de ensaios históricos, geográficos e sociológicos, Trabalhadores Ilustrados oferece um panorama diversificado do mundo do trabalho no Brasil do século 20. A exposição, em cartaz no Sesc Santo Amaro, tem curadoria de Chico Homem de Melo e parte da premissa de que os ofícios ocupam um importante espaço na vida das pessoas – por vezes, confundindo-se com a própria noção de identidade.

“O trabalho surgiu como tema por uma percepção minha de que ele é menos representado no universo literário do que deveria, do que a importância que ele tem para a nossa vida justificaria”, explica o curador. Partindo dessa reflexão, Homem de Melo reuniu cerca de 300 ilustrações. “Coloquei elas em cima da mesa e vi o que tinham a me dizer”, explica. Observando-as, notou possibilidades de divisões temáticas, algumas por ofício, outras por período ou lutas sociais. “Os temas vieram das ilustrações, então o ponto de partida foram imagens que tivessem força de informação, que tivessem impacto e que fossem sedutoras”. Cruzando essas divisões temáticas com as possibilidades de expografia, o curador reduziu seu escopo de trabalho e definiu os 22 painéis que organizam a mostra, cada um deles composto por três ou quatro ilustrações que gravitam em torno de um mesma questão, mas com linguagens distintas.

Foto horizontal, colorida. Vista da exposição TRABALHADORES ILUSTRADOS. Ao fundo, pessoas contemplam os painéis onde estão dispostas as ilustrações. À frente delas, uma mesa com os livros e revistas onde constam as ilustrações originais.
Vista da exposição “Trabalhadores Ilustrados” no Sesc Santo Amaro. Foto: Wagner Linares

A ideia inicial era que a literatura fosse o principal eixo da exposição, mas durante a pesquisa, ficou evidente que isso não seria possível. “Enquanto o universo rural está bem representado na atividade dos ilustradores e no universo literário, a indústria não. É impressionante como existe um certo silêncio em relação ao trabalho urbano em geral, mas industrial em particular”. Assim, a seleção passou a englobar, além de ilustrações literárias, produções ligadas ao jornalismo, ensaios históricos, geográficos e sociológicos, de forma a oferecer um panorama diversificado do mundo do trabalho. Assim, Trabalhadores Ilustrados passa a ser “uma espécie de quadro da ilustração editorial do Brasil do século 20”, explica.

A arte!brasileiros visitou a exposição e conversou com o curador sobre a história e os conceitos que a permeiam. Assista ao vídeo: 

Trabalhadores Ilustrados fica em cartaz até 25 de julho e pode ser visitada gratuitamente de terça a sexta, das 15h às 21h, e aos sábados, das 10h às 14h, mediante agendamento prévio pelo site do Sesc Santo Amaro. A utilização de máscara durante toda a visita e a medição de temperatura dos visitantes na entrada da unidade são obrigatórias.

Paulista Cultural tem sua primeira edição online

Foto horizontal, colorida. Em meio à exposição BEATRIZ MILHAZES - AVENIDA PAULISTA, dois bailarinos dançam. Ele usa uma camisa branca e uma calça preta. Ela usa um vestido vermelho de mangas longas. Ambos estão descalços. A performance é parte da programação da PAULISTA CULTURAL.
O MASP apresenta o registro audiovisual da performance de dança “Avenida Paulista - Gamboa III’, realizada na exposição "Beatriz Milhazes: Avenida Paulista" por intérpretes da Márcia Milhazes Companhia de Dança. Foto: Eduardo Ortega

Com ações voltadas a artes visuais, teatro, música, dança, literatura, histórias em quadrinhos e fotografia, a Paulista Cultural reúne sete grandes instituições localizadas na Avenida Paulista, em São Paulo, para uma ampla programação digital gratuita entre os dias 29 de junho e 3 de julho. O festival é organizado por uma parceria entre Casa das Rosas, Centro Cultural Fiesp, Instituto Moreira Salles, Itaú Cultural, Japan House São Paulo, MASP e Sesc Avenida Paulista.

Em sua primeira edição, realizada em março de 2018, a iniciativa reuniu mais de 40 mil pessoas, chegando a 46 mil no ano seguinte. Já a edição de 2020 foi cancelada em decorrência da pandemia. Agora, retorna em formato digital. As atividades propostas pelas instituições são transmitidas pelas redes sociais da Paulista Cultural e ficarão disponíveis posteriormente em seu canal de YouTube

A programação teve início com a estreia de As Janelas da Paulista. Inspirada na exposição WINDOWOLOGY – Estudo de janelas no Japão, em cartaz até 22 de agosto na Japan House, a série trata da relação dos sete edifícios culturais com a icônica avenida paulistana, através de suas janelas.  

A atividade não é a única a se conectar com o calendário presencial de uma das instituições participantes. Enquanto o Sesc faz uma imersão em videodocumentação na exposição Oficina Molina – Palatnik, a Casa das Rosas e o IMS promovem bate-papos com curadores e artistas de mostras atualmente em cartaz – o primeiro, em torno de Coestelário, na Casa das Rosas, acontece no dia 29 às 19h; já o segundo, no dia 30 às 20h, é sobre a exposição Mario Cravo Neto: Espíritos sem nome, e conta com a participação do coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles, Sérgio Burgi.

O Itaú Cultural faz a conexão entre presencial e virtual ao abordar as trajetórias de Chiquinha Gonzaga e Ivone Lara em uma vivência online na Ocupação Chiquinha Gonzaga e ao promover a prática digital Experiência: Obras e Processos de Beatriz Milhazes. A exposição da artista, feita conjuntamente com o MASP ganha foco também na performance de dança Avenida Paulista – Gamboa III, realizada por intérpretes da Márcia Milhazes Companhia de Dança em meio às obras expostas no Museu de Arte de São Paulo.

A programação da Paulista Cultural ainda contempla uma série de cursos e oficinas, bate-papo sobre práticas pedagógicas, atrações voltadas para o público infantil, bem como apresentações de performances e shows. Para saber mais, confira o calendário completo no site da iniciativa.

Kassel aims collective experiences in art

ruangrupa cura a documenta quinze
ruangrupa, 2019. Foto: Jin Panji
ruangrupa cura a documenta quinze
ruangrupa, 2019. Photo: Jin Panji.

The idea of the artist isolated in his studio has long sounded like an old-fashioned image to describe the production field of contemporary practices, but finally documenta, considered the most important exhibition of current art, focuses on collectives of activist character as one of its main axes.

After a bold edition in 2017 that divided the exhibition part into two cities, Athens (Greece) and Kassel (Germany), under the direction of Polish Adam Szymczyk, the show now has ahead precisely a collective of artists, ruangrupa, based in Jakarta, Indonesia. In 2014, the group participated in the 31st Bienal de São Paulo, How to talk about things that do not exist.

Part of the collective was last March in São Paulo, at the Casa do Povo, where held about 10 meetings with 40 people and groups, from Jamac (Jardim Miriam Arte Club) to Councilwoman Erica Malunguinho, passing through Movimento Sem Terra and indigenous leader Jerá Guarani. From the list, there is no doubt that the documenta will have a strong activist character.

"Gladness Demo", reencenação de "Gladness" de Endre Tót, por Kristóf Kovács como parte de GAUDIOPOLIS 2017/OFF-Biennale Budapest, 2017. Foto: Zsolt Balázs / Arquivo OFF-Biennale Budapest
“Gladness Demo”, reencenação de “Gladness” de Endre Tót, por Kristóf Kovács como parte de GAUDIOPOLIS 2017/OFF-Biennale Budapest, 2017. Foto: Zsolt Balázs / Arquivo OFF-Biennale Budapest

“We want to create a globally oriented, collaborative and interdisciplinary art and culture platform that will remain effective beyond the 100 days of documenta fifteen. Our curatorial approach seeks a different kind of collaborative model of use of resources – in economic terms, but also with regard to ideas, knowledge, programs and innovations,” announces ruangrupa on the documenta’s website.

There, by the way, are already listed 14 invited collectives to this edition, originating from 13 different countries: Germany, Kenya, Denmark, Palestine, England, Hungary, Colombia, Cuba, Indonesia, Spain, Mali, New Zealand and Bangladesh. Among them is inland, a collaborative agency started in 2009 by the Spanish Fernando García-Dory, which provides a platform for various actors involved in agricultural, social and cultural production. In 2018, Dory participated in the start of the creation of a garden on the terrace of the Casa do Povo.

INLAND é um dos coletivos a participar da documenta 15
INLAND, 2019. Photo: Courtesy INLAND.

The themes of these collectives are broad and diverse, such as Project Art Works, a collective of artists and creators based in Hastings, UK. They produce and disseminate art supported by radical approaches to neurodiversity, rights and representation, and are one of five collectives nominated for the prestigious Turner Prize, now in 2021. That’s right, for the first time there are five collectives nominated for the award organized by Tate, which in 2015 had already awarded a collective, the British Assemble.

According to Alex Farquharson, director of Tate Britain and chairman of the selection committee, in an interview with The Guardian, “the jury selected five notable collectives whose work not only continued during the pandemic but became even more relevant as a result.” It’s certainly stimulating the harmony between Tate’s and documenta fifteen’s decisions.

Another coincidence between the two art institutions is the Cuban Tania Bruguera, who in 2019 was responsible for occupying the Turbine Hall of Tate Modern, and who will participate in documenta fifteen with her collective instar, based in Havana (Cuba). The Instituto de Artivismo Hannah Arendt (INSTAR) emerged as a civic literacy institution in 2015 from an artistic intervention organized by Bruguera, where people read and discussed Hannah Arendt’s book, The Origins of Totalitarianism, for 100 hours.

Since its inception, instar is thought of as a democratic and horizontal space, where decisions are taken by consensus. “We are interested in claiming social justice and rights sometimes foreign to the Cuban context, such as fair wages, a work environment that is favorable to motherhood, supporting independent projects and artists, respect for freedom of expression and building a project with people who think differently, but want to make a country for everyone,” the collective says of its work , on the website of documenta fifteen.

Collective rice barn

One of the concepts that ruangrupa is launching to account for these collective practices is lumbung, an Indonesian term for community rice barn. It will be used as a guiding principle of the show’s core values and ideas.

Nothing more appropriate, after all the adversity crossed by the planet during the pandemic, that art rescues community values and respect for nature. It is thus, at least, that one perceives the idea of lumbung, “as an artistic and economic model rooted in principles such as collectivity, communal sharing of resources and equal distribution, which is incorporated in all parts of collaboration and exhibition”, according to the description of the show’s website.

Acima, desfile de moda na Trampoline House em Copenhagen (Dinamarca), 2019. Foto: Lars Vibild
Trampoline House’s fashion show in Copenhagen (Dinamarca), 2019. Photo: Lars Vibild.

The proposal of sharing and collaboration materializes, during the creating process of the show, in Kassel, in a space called ruruhaus, a few meters from the Fridericianum, the museum that was the first place of the documenta, in 1955, and has been occupied by it for every five years. Ruangrupa has now announced a digital and interactive ruruhaus experience, which can be accessed here. In June it was possible to answer the question: “What kind of living room does a city need?”.

In times of social distancing, the question even sounds utopian, but, after all, it is a good thing that art continues to believe in new worlds and, as seems to be the objective of this documenta, pointing out who is leading this movement with solidarity practices.

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“Presente”: a publication that emerges from caring and dialogue

Anna Maria Maiolino, "Capítulo I", da série "Mapas Mentais", 1971. Foto: Divulgação
Anna Maria Maiolino, "Capítulo I", da série "Mapas Mentais", 1971. Foto: Divulgação

 

Anna Maria Maiolino, "Capítulo I", da série "Mapas Mentais", 1971. Foto: Divulgação
Anna Maria Maiolino, “Capítulo I”, from the series “Mapas Mentais”, 1971.

A hybrid between magazine and book, released in digital and free format, Presente is a publication with very unique characteristics in the world of arts. It is not a publication of critical texts or reviews, nor a book focused on images, whether photographs or reproductions of works. It is also not a collection of academic articles, nor even a journal of journalistic language. Presente, a new publication conceived by curator Paulo Miyada and artist Anna Maria Maiolino, focuses on correspondence – or we can call them letters – and “other formats of texts and productions made between two or more people”.

Created in response to the difficult times of the pandemic – in which the need for social distancing, at least physically distanced people -, the magazine appears as a proposition for dialogue and exchanges, as a form of approximation and even care and zeal among the participants . Launched quarterly last April, Presente is the unfolding of the first correspondence exchanged between Miyada and Maiolino in the first months of the Covid-19 pandemic. “In the first half of 2020, when we started to make isolation – at least who could and despite the absence of a State policy in this sense -, I imagined that for artists the suspension of meetings between them, and also of their works with the audience, it would have been difficult”, says Miyada. “And I tried to think about how, despite all the cancellations and suspensions, it would be possible to maintain some level of dialogue with these people.”

Castiel Vitorino Brasileiro, "Corpo-Flor", 2016-2021 Série fotográfica. Foto: Divulgação
Castiel Vitorino Brasileiro, “Corpo-Flor”, 2016-2021.

That’s when the curator started writing a set of letters to artists he admired and with whom he already had some kind of relationship. Among them was Anna Maria Maiolino, to whom the curator addressed words about that pandemic context, so uncertain, revealing his fears and insecurities, but also commenting on artistic dreams and daydreams. An affectionate dialogue followed with the artist’s response, and the conversation ended up being published on the blog Entretempos da Folha de S.Paulo. “Months later, at the end of 2020, Anna called me and proposed that we do something, a publication or a magazine, a conversation channel not only between us, but now expanded to other people who wanted to think about the present”. With the invitation came the title, as well as the decision that it should be a predominantly correspondence publication.

The name, therefore, refers to the three meanings of the word “present”. First, the current time, “which means putting in the foreground the possibility of art debating its time, being part of a public sphere, in which ethical problems are a fundamental parameter of aesthetic problems”, explains Miyada. This “present time” can only exist, he emphasizes, when looking closely at the past, without making the memory invisible, and having some horizon for the future, “at least the possibility of collective construction and of consequence for individual actions”. Secondly, “present” is the interjection enunciated by students when responding to the school’s call and issued by protesters in an assembly. “And this seems important to me as a beginning of the conversation, assuming that the magazine wants to expand the dialogue beyond the sphere family or private. We are here, thinking out loud about the situation”, says Miyada. Finally, “present” refers to the gesture of giving something, the gift, an important pillar of past and present societies. “It is an exchange regime not based on money, nor on the assumption of infinite accumulation, but based on expenditure and exchange. And I think Presente has a bit of that spirit.”

Presente: Pat Bergantin, da série "Metal", 2020. Frame de vídeo, 30’’. Foto: Divulgação
Pat Bergantin, video frame from series “Metal”, 2020.
Another time

As well as distancing itself from academic or journalistic texts, the letter format also proposes a type of conversation that is not that of social networks and applications – with the accelerated dynamics and ephemeral air that are usual for it. For Miyada, the physical distance between people ended up being compensated, somehow, by the use of “certain technological channels that have virtues, but also have vices and tend to emphasize only one type of communication”. And he adds: “Going back to the logic of correspondence, something that takes time to write, to be read, to be answered, is a way of exercising another model, which is not in itself better or worse, but which ends up having a contrasting pace with the means we have been using to communicate”. Presente, in this way, gives space to what Miyada calls “procedural texts”, open, which appear as a way of sharing ideas and dealing with the moment without definitively proposing reflections.

Along with Maiolino and Miyada, the critic and curator Lisette Lagnado, teacher and psychoanalyst Tania Rivera, artists Dalton Paula and Paloma Durante and the artist and dancer Pat Bergantin. Interspersed between sets of correspondences, poetry by Edimilson de Almeida Pereira and visual works by Castiel Vitorino Brasileiro, Fernanda Gomes, Pedro Moraleida appear in the pages of the publication. There is also an unpublished translation of a 1986 essay by the American writer Ursula K. Le Guin. The diversity of fields of activity of the authors of texts and works reflects, therefore, in the multiplicity of themes and languages ​​that run through the magazine, beyond the field of visual arts. But the tying of everything is, once again, in the search for dialogue and in the zeal between people, a kind of care that contrasts with the almost dystopian reality that presents itself on the globe.

Pedro Moraleida, "Ave Maria Gracia Plena", da série "Casais sorridentes de mãos atadas 02", 1998/1999. Foto: Guilherme Horta/ Divulgação
Pedro Moraleida, “Ave Maria Gracia Plena”, from the series “Casais sorridentes de mãos atadas 02”, 1998/1999. Photo: Guilherme Horta.

“In the contemporary world, what has been exacerbated are very old kinds of violence. From racism, the programmed genocide of indigenous populations, ecocide, environmental attacks, the restriction of freedom of expression. Processes that span centuries, imbricated in the history of Brazil and the world”, says Miyada. “Perhaps what is unique at this moment is what has been called necropolitics, which comes with a perverse rationalization that delegitimizes the right to life, which goes beyond the restriction of citizenship and rights and reaches a banalization of life itself. And we’ve seen this exacerbated in the context of the pandemic, in an even more obscene format.” And he concludes: “So inevitably critical thinking today needs to be done in a way that doesn’t reproduce this contempt for each person’s life – and I think artists, researchers and thinkers are looking for this vocabulary. This is one of the things that appear in the cards from Presente”.

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“Pardo é Papel” or the epic grandeur of a people in formation

"Cantos de Esquinas", Maxwell Alexandre, 2019. Photo: Gabi Carrera.
"Cantos de Esquinas", Maxwell Alexandre, 2019. Photo: Gabi Carrera.

*By Claudinei Roberto da Silva

Those responsible for the programming of Tomie Ohtake Institute, in São Paulo, coincided in their galleries the exhibitions of two artists of African descent: Pardo é Papel, itinerant exhibition by the artist from Rio de Janeiro Maxwell Alexandre; and Di Cavalcanti – Muralista, an exhibition by the renowned modernist painter, curated by Ivo Mesquita.

This “encounter” allows us to follow the strength of the history of Afro-Brazilian painting in two different moments and from distant but intertwined pictorial perspectives. A more patient look would perhaps notice important narrative coincidences between these seemingly disparate universes, but here we will focus on this young black artist who burst onto the national and international scene with peculiar force.

Since the end of the 19th century, in the West, art academies have established canons that lent importance – relative – to the various genres of painting. Thus, more meritorious and worthy of consideration (and consumption) would be the processes that resulted in works dedicated to the affirmation of the elites on duty, whether ecclesiastical or not. Works that portrayed these aristocracies would be guaranteed at the top of a hierarchical pyramid of aesthetic and political values.

Being represented was imperative and, in the absence of the monarch, the figure and authority expressed by painting or sculpture was revered. The representations of the king or nobles symbolically projected their powers and, therefore, were copiously carried out and distributed. Likewise, his deeds received great attention, since from his paintings of a historical character, warrior or pious deeds of the monarchs and their likes were disseminated.

Among us, this historical painting, which is almost necessarily epic in its appearance and pretension, was also practiced and some of these works still occupy a central place in the narratives that predict the birth of the Brazilian state and nation.

UM CIGARRO E A VIDA PELA JANELA, de Maxwell Alexandre
“Um cigarro e a vida pela janela”, Maxwell Alexandre, 2019. Photo: Gabi Carrera.

In our case, obeying the inherited and colonially imposed academic canons, these paintings show heroes in action, such as that Independência ou Morte, made in 1888 by Pedro Américo (1843- 1905) from Paraíba and currently belonging to the collection of the Paulista Museum of the University of São Paulo, where you see the still Prince Pedro flanked by an entourage and escorted by cavalrymen raising their swords and decreeing Brazilian independence from Portugal.

The other, Batalha do Avaí, also by Américo, was completed in 1877 and can be visited at the National Museum of Fine Arts in Rio de Janeiro. It represents a veritable crowd of soldiers engaged in a fierce battle and which has in the background a Duke, by the way, Caxias, whose uniform is open – as it appears, this provoked the displeasure of the portrayed -, who mounted on his white horse, coordinates haughty and distant the movements of “his” fatally victorious troop.

These works have in common the gigantic dimensions, the profuse number of soldiers who star in or support the actions described and, above all, the subordinate and peripheral role of characters representing the popular fraction of that society, whether black, women, indigenous or miserable white.

A Batalha do Avaí is notorious for the number of characters represented in it, for the technical prodigy involved in its realization and, of course, for the impressive description it makes of a crucial moment in the battle it describes. In that profusion of characters, bodies in dynamic and dramatic shock, in a central foreground and at the foot of the scene, we see the body of a black soldier who lies with a wounded head – from the split skull the encephalic mass escapes. The black people represented in this battle fight for the sovereignty of the country that kept them enslaved. However, the body dehumanized by slavery is the same one that sheds blood and viscera in that titanic combat presented by Pedro Américo.

A LUA QUER SER PRETA, SE PINTA NO ECLIPSE, de Maxwell Alexandre
“A lua quer ser preta, se pinta no eclipse”, Maxwell Alexandre, 2019. Photo: Gabi Carrera.

Maxwell Alexandre’s paintings exhibited in the Pardo é Papel show – initially shown at the Contemporary Art Museum in Lyon (France), in 2019, and later at the Rio Art Museum (mar) and at the Iberê Camargo Foundation, in Porto Alegre – also have an epic, grand, consecrating, and certainly historic character.

They were not made in Europe, like the one by Americo. They are not the result of a request from the State, nor were they painted in fine linen. Nor do they boast an ornate gilded frame that displays the weapons of the empire. On the contrary, Alexandre’s paintings exhibited at Tomie Ohtake Institute were made on a fragile support that is not even supported by a chassis. The fragility of this support, paper, is easily detected and perceived in the tears that were incorporated into the painting. Arte Povera, poor, that emerged in Italy in the 1950s and 1960s also praised the cheap material used by artists who adhered to this aesthetic. There as here, this choice highlights a political attitude.

As in the classics, Maxwell Alexandre’s painting also brings crowds in a dynamic movement. But, unlike other works, the bodies presented there are purposely all black, unmistakably black, and painted in everyday situations. And they are not anonymous. Despite not having their faces outlined, it is possible to identify the poet and samba artist Cartola, the demiurge Arthur Bispo do Rosário or Jean-Michel Basquiat, who join the myriad of other subjects in this fairy black scene that only on the flat surface of the paper seems chaotic , since the projected space is well composed of solid colors decorated with gold.

Sem título, da série Novo Poder, Maxwell Alexandre, 2019.  Gabi Carrera / Divulgação
Sem título, da série Novo Poder, Maxwell Alexandre, 2019. Photo: Gabi Carrera.

At the entrance to the gallery that houses the exhibition there is a huge painting representing a group of black people observing and commenting on a painting presented as a panel, beige or brown, a large empty rectangle yellow Naples, a very pale yellow. There is painting within painting, meta-painting. Maxwell Alexandre makes us contemplate people who, in turn, observe a panel (inside the panel) where a single color is seen. An acidic and intelligent commentary on the white cube, on the cultural institution that projects it and that reflects in a narcissistic way only the color of white allowed in this space, without mirroring blacks that also occupy it. If there are references to Basquiat in Alexandre’s painting, this influence does not take away the power of the artist’s works and, moreover, it is legitimate. It is nonetheless consecrating that young black and black female artists can refer to other equally black artists, excellent as their influences.

The opulence of gold over blue, iridescent gold over red, sparkling gold over green, are present in the composition of these paintings almost as a reminder of the precious metal that, prospected by the enslaved in the mines of Minas Gerais, made the wealth of many – less than those extract it. The gold frames the elements of pop culture, consumption, the symbols of social ascension promoted by sport, work, art and the sometimes inevitable delinquency in the path of the excluded.

"Eramos as cinzas", de Maxwell Alexandre. Foto: Cortesia Instituto Tomie Ohtake
“Eramos as cinzas”, de Maxwell Alexandre. Photo: Courtesy Instituto Tomie Ohtake.

It may be that we identify in Maxwell Alexandre’s paintings some festive character, of profane and sacred celebration. In this case, it is necessary to understand how much the party translates into resistance for that portion of the population that is the preferred target of the “stray bullets”, of necropolitics ammunition that mutilate families and liquidate young lives or even in the wombs of young mothers, but that it does not contain or dissipate the unsubmissive genius of this insurgent contemporary black Brazilian art.

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