É difícil medir a influência de Aníbal López na arte contemporânea da Guatemala. López propõe interferências e investigações colocando as relações de política e economia no plano ético. Com isso, cria disrupções dentro da arte produzida até o momento.

por Alexia Tala*

Um estranho no ninho

Assaltou uma pessoa e com esse dinheiro pagou o cocktail da sua exposição “El Préstamo”, 2000 – atualmente exposta na 33a Bienal de São Paulo, esparramou carvão nas ruas antes do desfile de aniversário do Exército guatemalteco (30 de junho de 2001), transformou a instituição que expôs seu trabalho em cúmplice de atividade de contrabando (500 caixas de contrabando, 2007). Entre outras intervenções.

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Em 2014, surpreendeu à Documenta de Kassel ao levar à Europa um “sicário” (assassino de aluguel) por ele contratado a fim de responder perguntas dos visitantes. Entre elas, “quanto cobra para matar uma pessoa?”, “como assassina as crianças?”, “desenvolveu um estilo para assassinar?”, “como era o vínculo com a polícia que o encobria?”.

Testimonio, 2014, representa exemplarmente seu impulso. A potência da sua obra, pode-se dizer, consiste em “produzir cúmplices”. Assim, trazer ao plano da arte a radicalidade da própria realidade por meio de estratégias sofisticadas devido a sua simplicidade. López nos incrimina, nos envolve e nos mancha nos delitos que calcula.

O efeito Aníbal López

Seu raciocínio de criação é produzir fatos reais eliminando o plano da representação, exibindo o paradoxal no campo da arte. O paradoxal da sua fragilidade ética ou a violência da sua imunidade legal.

O efeito é frequentemente desorientador, pois provoca grandes questionamentos: quais os limites entre o bem e o mal enquanto conceitos crus relativos à América Latina? Essa crueza se comprova no deslocamento que sua obra produz na Documenta e na Bienal de Veneza.

Assim, parece extremamente pertinente o destaque recebido na 33a Bienal de São Paulo, Afinidades Afetivas. Não só porque a cena regional está em dívida com seu reconhecimento, mas também pela semelhança de conflitos entre Guatemala, Brasil e seus passados recentes.

Referências como Aníbal, para quem foi crucial ter vivido na violenta e dividida Guatemala, colaboram mais do que nunca para pensar a situação de divisão social. Seja ela entre a extrema direita e as esquerdas radicais, as elites e os grupos vulneráveis e segregados. Vejo como uma homenagem a resolução curatorial e, conhecendo a obra, gostaria de apontar duas questões.

 

Série Ladino, todas as imagens são cortesia da coleção Hugo Quinto e Juan Pablo Lojo, Guatemala.

Uma específica: a falta de obras da série Ladino, um grupo de obras gráficas e instalações nas quais López trabalha em torno das semelhanças anatômicas do corpo humano. A partir da fragmentação de corpos e faces que pinta sem pele, enuncia que as diferenças econômicas, sociais e raciais estão na superfície.

Ela demarca um momento crucial de sua trajetória, anterior às ações que veremos, onde se reconhece um diálogo com Santiago Sierra. Este erro de ênfase vemos também na forma museográfica em que se apresenta Testimonio.

Por outro lado, um comentário geral. Na Bienal, sua obra representa o maior “coeficiente de contexto”, dada a situação do país. Com relação ao conteúdo da edição, a obra de López é a única a envolver-se com as problemáticas do entorno. Ele forma parte do grupo de artistas sensibilizados com as violências locais e também globais. Potencial catalisador para os artistas contemporâneos de corte mais político.

Seu legado artístico ainda não foi devidamente valorizado pela arte internacional. Atrevo-me a dizer que dentro da América Latina não há outro artista que utilize-se deste tipo de recurso de forma tão sagaz e firme no tempo. Insisto: a influência de López é fundamental para a atual geração de artistas na América Central, na Guatemala. E, com o resgate certo, da expansão da sua obra para outras latitudes.

*Alexia Tala é investigadora e curadora. Atualmente curadora-chefe da Bienal de Arte Paiz Guatemala 2020, curadora do Projeto Solo em SP-Arte 2019 no Brasil e diretora-artística da Plataforma Atacama. Foi co-curadora da 8va Bienal do Mercosur em 2011.

 

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