Foto horizontal, colorida. Obra MIL OLHOS, de Lia Chaia. Ao fundo, uma parede branca. Uma mulher branca, com os olhos fechados e os cabelos castanhos presos. A fotografia a enquadra dos ombros para cima. Tem os ombros nus. Sete fios vermelhos envolvem sua cabeça horizontalmente e de forma espaçada. O primeiro na linha do cabelo, os demais paralelos, cruzando o restante do rosto, sendo o último na altura de seu queixo. Penduradas nos fios, diversas peças redondas remetem a olhos, são brancas com um círculo castanho dentro e um círculo preto dentro deste, como se fossem íris e pupila. A obra é parte da exposição DIZER NÃO
"Mil Olhos", de Lia Chaia. Foto: Divulgação

Como e por que continuar produzindo em tempos de morte e luto? O que pode a arte contra a barbárie? Essas provocações foram o ponto de partida para que 47 artistas se reunissem na exposição Dizer Não. Organizada por Adriana Rodrigues, Edu Marin, Érica Burini e Thaís Rivitti, com o apoio do Ateliê397, a mostra teve início no último dia 22 de julho e segue em cartaz até 19 de setembro.

Para Rivitti, a iniciativa é, sobretudo, um posicionamento político. “Dizer Não retoma a possibilidade de a arte dizer. Enunciar conflitos, dirigir-se ao presente, materializar aquilo que está posto socialmente mas que ainda não foi elaborado de forma consciente, coletiva e pública”. Durante os últimos meses, a tristeza e o inconformismo em relação aos rumos do país pareciam constantes nas conversas daqueles que hoje participam do projeto. As posturas do governo frente à pandemia de coronavírus, às atividades culturais e ao meio ambiente, bem como a legitimação de uma série de posturas racistas e LGBTfóbicas, eram alguns dos conflitos que precisavam ser enunciados. Dessa necessidade de enunciação, nasce o título da mostra, “‘dizer não’ nos parece uma expressão forte para marcar a profunda discordância e a indignação que as declarações e medidas políticas do atual governo vêm despertando em boa parte da população e, mais especificamente, nos artistas e demais profissionais do campo da cultura”, explica Rivitti.

Manifestações ao redor do Brasil têm se colocado frente a essas questões, e, inicialmente, os organizadores pensaram em construir a exposição baseada na lógica dos protestos: quanto mais gente melhor. Assim, reuniriam o maior número possível de participantes. “A força do protesto poderia ser medida pela quantidade de pessoas que nele se engajassem”, conta Rivitti. Porém, um questionamento emergiu dessa estratégia: a opção por uma mostra quantitativa não reforçaria a invisibilização dos artistas perpetrada pelo governo? “Percebemos que era preciso, mais do que nunca, dar a ver a experiência singular que cada trabalho de arte é capaz de propor. Assim, optamos por convidar o máximo de artistas que conseguíssemos abarcar desde que fosse possível apresentar seus trabalhos sem atropelo, com a força e a presença que cada um demanda”, conclui.

Hoje, Dizer Não reúne artistas e coletivos de diferentes gerações, entre nomes consagrados e jovens em início de carreira. A lista completa é formada por Adriano Machado, Ana Dias Batista, André Komatsu, Bertô, Bruna Kury e Gil Porto Pyrata, Cildo Meireles, Clara Ianni, Craca e Raphael Franco, Cuca Ferreira, Daniel Jablonski, Denise Alves-Rodrigues e Pablo Vieira, Edu Marin, Elizabeth Slamek, Fernando Burjato, Flora Leite, Frederico Filippi e C. L. Salvaro, Graziela Kunsch, Isael Maxakali, JAMAC, João Loureiro, Juçara Marçal, Kadija de Paula & Chico Togni, Kauê Garcia, Laura Andreato e MuitasKoisas, Leda Catunda, Lia Chaia, Lícida Vidal, Lucimélia Romão, Marcelo Amorim, MUSEUL*RA e Ateliê Um bom lugar, Paola Ribeiro, Rafael Amorim, Raphael Escobar, Regina José Galindo, Rochelle Costi, Shima, Sol Casal, Vânia Medeiros e Wagner Pinto.

Com intervenções no espaço expositivo, obras criadas a partir de materiais “de combate” – como canetões, lambes e cartazes -, e produções em grande escala – que buscam contrapor a invisibilidade das temáticas tratadas -, a exposição propõe uma resistência não apenas discursiva, mas também plástica, explica a organizadora Érica Burini. “Há obras aqui que podem nos ajudar a reformar questões e modos de ver o presente, a história e também o futuro”.

Sem patrocínio, verba ou apoios financeiros, Dizer Não se constrói de forma independente, através de participações voluntárias e de um financiamento coletivo. “Ter sido possível organizar essa movimentação toda de forma independente é o maior sinal de que os artistas estão mobilizados e pensando sobre a grave crise que o Brasil está enfrentando”, declara Rivitti. Ao que Érica Burini completa: “A realização dessa mostra é mais uma demonstração, dentre outras, de que ainda que com muitas limitações, a arte e os artistas não se calarão diante da barbárie”.

Dizer Não
ONDE: R. Cruzeiro, 802 – Barra Funda, São Paulo (SP). Acesse o site do projeto.
QUANDO: 22 de julho a 19 de setembro. Quintas e sextas, das 14h às 18h; sábados e domingos, das 11h às 19h.
Entrada gratuita

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