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A reencenação na fotografia

Fine, 1996-1997, Qiu Zhijie, chromogenic print. The J. Paul Getty Museum, Anonymous Gift. © Qiu Zhijie

*Gustavo Von Ha

Duas exposições realizadas no primeiro semestre no J. Paul Getty Museum, em Los Angeles, atravessam mais de um século de fotografia, documentando um processo que impactou não apenas o nosso entendimento da fotografia na contemporaneidade, como também nossa ideia sobre política e cultura ocidentais. Ambas as exposições abordam, de formas distintas, a noção de reencenação na fotografia.

A expo “Encore Reenactment in Contemporary Photography” reunia trabalhos de sete artistas (Eileen Cowin, Cristina Fernández, Samuel Fosso, Yasumasa Morimura, Yinka Shonibare CBE, Gillian Wearing e Qiu Zhijie) que utilizam a fotografia para “reencenar” o passado e assim a partir dele destacar lacunas históricas e apontar de forma crítica para narrativas já estabelecidas no cânone da história da arte.

Paralelamente, na sala que antecede esse grupo contemporâneo, havia uma exposição individual de Oscar Rejlander, a primeira grande retrospectiva desse fotógrafo sueco do século XIX que também utilizava a reencenação como estratégia para a construção de seus trabalhos. Ao recriar em fotografia ícones históricos como a Virgem em Oração do pintor italiano Sassoferrato, o trabalho perde a referência temporal, dando a sensação de que todas aquelas imagens compartilham do mesmo tempo onde passado, presente e futuro habitam um único espaço, um ambiente criado pelo artista para além daquelas imagens. Essa percepção é reforçada por uma luz que parece escapar da moldura das fotografias, revelando que estamos diante de uma cena, de um teatro metafórico e real. Mas a que tipo de teatro essas imagens se referem afinal?

Já na exposição de artistas contemporâneos, os trabalhos mostram abordagens distintas ao explorar narrativas históricas da arte, enquanto outros reinterpretam histórias mais pessoais. De todo modo, todos eles usam a reencenação como estratégia na construção daquelas imagens trazendo à vida textos, relatos e registros visuais que traduzem a formação histórica de cada um. Por meio de esforços obsessivos para garantir fidelidade em relação às narrativas originais, os artistas “reencenadores” se tornam especialistas nos assuntos que investigam e podem transmitir um conhecimento íntimo sobre eles. Por meio dessa pesquisa todos eles acessam um museu imaginário, pois trabalham à luz de imagens reconhecíveis no âmbito da história da arte.

A repetição está diretamente ligada ao processo de aprendizado humano, nosso desenvolvimento intelectual se dá muito por meio da imitação. No campo da arte, podemos citar os ateliês em que, desde a antiguidade clássica, havia um mestre para ensinar seus discípulos por meio da cópia dos modelos e padrões estéticos vigentes, em um ambiente em que a autoria tinha um caráter mais coletivo.

Essas exposições me fizeram olhar para dentro do jogo do cenário artístico brasileiro e todas as suas categorias que se criam para certos grupos hoje. Como um artista em constante deslocamento, penso toda essa produção mostrada no Getty a partir de minha própria origem, latino-americana, e formação.

O que todos esses artistas têm em comum é a ideia de um narrador/intérprete: eles próprios desempenhando um papel fictício que esbarra na técnica do tableaux vivant muito utilizada no século XVIII para a produção de imagens, em sua maioria, para pinturas históricas. Isso também fala sobre uma atuação no campo da performance e do próprio teatro. Nessas imagens, todos sujeitos estão atuando como verdadeiros atores. Quando artistas reencenam “obras de arte” mais antigas, muitas vezes agregam um novo significado aos temas originais. A nova imagem se torna ainda mais complexa, somando-se a ela as características da original e seu objetivo é, muitas vezes, criticar narrativas convencionais e destacar histórias sub-representadas.

Apesar da proximidade entre diversos trabalhos ali apresentados, existe uma questão que parece importar muito mais a nós, latino-americanos, do que a esses artistas: a busca pelo ineditismo. Nossa formação acaba sendo anestesiada por tantas imagens desse mundo hegemônico e por isso essa busca incansável por uma independência através do “novo”. Mas a ideia de ineditismo é, na verdade, uma ilusão. Segundo o crítico Roland Barthes, em A morte do autor, tudo o que se produz vem de inúmeras colaborações, diluindo, desta forma, a ideia de autoria.

Dessas fotografias “encenadas” surge mais uma pergunta: o que seria de fato a identidade de um artista nos dias de hoje? Até que ponto podemos ou devemos usar apenas mecanismos próprios individuais para olhar o mundo e fazer “arte”? A ideia da reencenação é também uma quebra na construção da narrativa histórica linear, e dessa forma, ela poderia apontar para modos plurais de construção de outras perspectivas sobre a história. Em que medida somos formados artisticamente por toda essa visualidade que nos atravessa o tempo todo a partir de uma narrativa hegemônica?

Fotografia e aura

Mesmo em grandes mostras como essas, as fotografias ainda parecem ser menos consideradas do que a pintura. No Getty e em quase todos os museus elas são sempre apresentadas no subsolo, “protegidas da luz”. Mas seria esse o real motivo? Ou sua natureza facilmente reprodutível é considerada menor? A aura está relacionada à autenticidade, a existência única de uma obra de arte. Portanto, teoricamente, ela não existe em uma reprodução. Mas considerando que a fotografia capta um momento que não pode mais ser alcançado para além daquele “clique”, a fotografia é, segundo filósofo Walter Benjamin, a última instância da aura em torno de uma imagem.

Avançando para o presente, na era do Instagram, quando esse “momento decisivo” é determinado por um processo totalmente diferente e a mudança para a fotografia digital tornou o papel bastante obsoleto, as reproduções caminharam para uma democratização da cultura, onde a imagem reproduzida pode ser acessada e produzida por qualquer pessoa, reforçando esse mecanismo. A mesma imagem que está no museu está também no site do museu, na revista, no jornal, está solta na internet. Isso nos ajuda a entender como uma única imagem pode capturar e imortalizar um momento decisivo criando um ícone instantâneo. Esses ícones parecem compor um storytelling; são imagens que sequencialmente formam uma narrativa quase linear. As imagens produzidas hoje são inseparáveis da história pois elas continuam a contar uma história seja ela qual for e podem funcionar como índices que contribuem para o sentido de uma narrativa.

Aquele conjunto de fotos é muito mais do que uma exposição, é um ambiente que nos coloca imediatamente num outro tempo, talvez no tempo da arte, aquela cheia de aura, na contramão desse mundo acelerado inundado por imagens onde tudo se dilui.

Éder Oliveira, Regina Parra e Virginia de Medeiros expõem no Instituto Tomie Ohtake

Obra de Éder Oliveira da série “Cenas Singulares”. Foto: Octavio Cardoso

Na oitava edição do programa Arte Atual – série de exposições inéditas realizadas pelo Instituto Tomie Ohtake – os artistas Éder Oliveira, Regina Parra e Virgínia de Medeiros apresentam Jamais me Olharás lá de Onde te Vejo, uma mostra com “reflexões acerca do retrato como gênero pictórico e como forma de reconhecer e atribuir uma identidade ao retratado”.

Segundo texto dos curadores Diego Mauro, Luana Fortes, Priscyla Gomes e Theo Monteiro, “é possível, por intermédio dos trabalhos, discutir parâmetros de como os artistas constroem os limites entre o ‘eu’ e o ‘outro’, e delimitam relações de afinidade e de distinção. Mais do que isso, os trabalhos presentes explicitam como os artistas convidados se valem da figura humana como uma de suas ferramentas para abordar a violência que imputamos ou a que são imputados nossos corpos, os limites e rastros do tempo e a noção do corpo como um lugar de resistência”.

Enquanto o paraense Éder Oliveira é reconhecido pela pintura de retratos coloridos, em diferentes escalas e suportes variados, que têm como objeto principal o homem amazônico – problematizando também a violência na região –, a paulistana Regina Parra trabalha com pintura, fotografia e vídeo abordando questões como novas hierarquias de poder, limites, controle e mudanças de limites culturais. Segundo texto da mostra, ela “traz no retrato um processo de desconstrução mitológica sobre si”, sem que com isso produza autorretratos.

Virginia de Medeiros, por sua vez, baiana de Feira de Santana que vive em São Paulo, propõe na exposição uma nova montagem para sua série Alma de Bronze (2016-2018), realizada a partir de sua convivência com lideranças femininas da Frente de Luta por Moradia (FLM) do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), iniciada com sua participação no Programa de Residência Artística Cambridge e posteriormente transmutada para a Ocupação 9 de Julho. A nova montagem, de caráter instalativo, traz retratos em vídeo de doze importantes líderes femininas da ocupação.

O programa Arte Atual, segundo o Instituto Tomie Ohtake, desde 2013 busca alimentar pesquisas artísticas experimentais, para criar possibilidades de aprimorar e enriquecer a pesquisa de cada participante. Para isso conta com a parceria de galerias para a produção das obras, desenvolvidas por meio de diálogos entre a equipe curatorial do Instituto Tomie Ohtake e os artistas convidados. Nesta oitava edição, as galerias Millan, Nara Roesler e Periscópio tornaram possível sua realização.

Jamais me Olharás lá de Onde te Vejo
Instituto Tomie Ohtake – Av. Faria Lima 201
De 07 de agosto até 29 de setembro de 2019
Entrada gratuita

“É uma outra face do meu processo criativo”, diz Sérgio Mamberti sobre colagens

Colagem de Sérgio Mamberti

Foi entre os idos dos anos 70 e 80 que o célebre ator Sérgio Mamberti, conhecido por seus personagens no cinema, na TV e no teatro, passou a levar material para recortar a produzir colagens nos camarins antes de apresentações teatrais que realizava. Um dia, ele mesmo conta à ARTE!Brasileiros, o cenógrafo e arquiteto Flávio Império observou-o em um desses momentos e insistiu que ele deveria levar isso adiante.

Mamberti realiza agora, a partir do dia 5 de agosto, uma individual que reúne 30 suas obras na Galeria São Paulo Flutuante, famoso estabelecimento paulistano que havia pausado suas atividades há mais de 15 anos e que anunciou seu retorno no final do ano passado. Além dos trabalhos de Sérgio, são expostas em Comandante Mamberti fotografias do artista ao longo de sua vida, com 80 anos de idade e 63 de carreira.

“É uma atividade que eu prezo bastante. O artista sempre tem uma multiplicidade de meios para se expressar e certamente é uma das formas que eu encontrei para me expressar”, ele afirma. Em paralelo à exposição, Sérgio realiza a peça Visitando o Sr. Green, no Teatro Renaissance, em São Paulo, ao lado do ator Ricardo Gelli.

Para ele, as colagens também tem relação com a forma que constrói seus personagens nas artes cênicas, considerando a “justaposição de imagens, que de uma certa maneira constitui o personagem que estou interpretando. Foi a partir disso que me animei a continuar e a desenvolver ainda mais este trabalho com as colagens”.

A primeira exposição da qual participou foi organizada por seu grande incentivador, Império. Os alegres pintores do Bexiga aconteceu no Teatro Igrejinha, em 1977, e homenageava o popular bairro paulistano. Após isso, Mamberti fez muitas exposições fora do circuito de galerias de São Paulo, como em bares e cafés. O intuito, ele conta, era fazer com que as obras chegassem a lugares que pessoas costumavam frequentar.

Durante os anos de governo Lula e no início do primeiro mandato de Dilma Roussef, o artista foi atuante no Ministério da Cultura, ocupando ao longo dos anos cargos como Secretário de Música e Artes Cênicas, Secretário da Identidade e da Diversidade Cultural, Secretário de Políticas Culturais e Presidente da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE). Durante este período, ele conta, a produção nas artes visuais foi interrompida por certo momento, para que pudesse se dedicar com mais ênfase às atividades de gestão cultural. Para fazer colagem deve-se ter um tempo que se possa doar somente àquilo, ele diz, mas confessa que hoje quando não encontra tempo para realizar os trabalhos acaba fazendo pequenas colagens nas páginas de sua agenda pessoal: “É uma forma que tenho de me relacionar com esse universo de imagens dentro da minha vida diária”.

O teatro e a política são os temas mais recorrentes nas colagens de Mamberti, mostrando que realmente é a atividade do universo do artista, apesar de ser uma faceta desconhecida por muitos. A ideia do desconhecido foi um dos elementos que chamou a atenção da galerista Regina Boni, surgindo assim o convite para a exposição. Comandante Mamberti fica em cartaz até 31 de agosto e a abertura tem início às 19h do próximo dia 5.


Sérgio Mamberti: Comandante Mamberti
De 5 a 31 de agosto
Galeria São Paulo Flutuante: R. Estados Unidos, 2186
(11) 3064-7019

MASP recebe doação de mais de 10 mil itens de Rubem Valentim

Rubem Valentim em foto de Silvestre Silva

Instituição recém-criada para divulgar e proteger a obra do artista baiano, o Instituto Rubem Valentim acaba de doar para o MASP um arquivo de mais de 10 mil itens de Valentim (1922-1991), entre manuscritos, datiloscritos, cartas, fotos e desenhos – a maioria peças raras ou inéditas. O material ficará armazenado no Centro de Pesquisas do museu paulistano, que realizou entre 2018 e 2019 a mostra Rubem Valentim: Construções Afro-atlânticas.

O artista, que criou uma linguagem bastante pessoal misturando traços da arte construtiva com um universo simbólico ligado ao candomblé, à umbanda e à cultura afro-brasileira, buscava, segundo suas próprias palavras, “uma linguagem universal, mas de caráter brasileiro”, sem se filiar a nenhum dos movimentos ou correntes artísticas estrangeiras ou nacionais. Leia aqui matéria que foi capa da edição 45 da ARTE!Brasileiros.

Segundo Fernando Oliva, curador da exposição no MASP, a doação concretiza um antigo sonho do artista: reunir a maior parte de seus documentos e arquivos pessoais em um mesmo local, disponível para o acesso de pesquisadores do Brasil e do mundo. “O material pode jogar nova luz sobre a obra do artista e sua relação com a arte afro-brasileira e africana”, diz o curador em nota divulgada pelo museu.

Feira Tijuana acontece neste fim de semana na Casa do Povo

Primeira feira de publicações e livros de artista organizada no Brasil, a Tijuana comemora 10 anos de existência neste fim de semana (dias 3 e 4 de agosto) com a realização de sua 23ª edição. Organizada em parceria pelo Ministério da Cidadania, Casa do Povo, Edições Tijuana e Galeria Vermelho, a Tijuana se especializou, a partir de 2009, em conectar editoras da América Latina. Com o tempo a feira se tornou itinerante, com edições em São Paulo, Rio de Janeiro, Lima, Buenos Aires e Porto.

Atualmente, o evento trabalha com uma rede de editoras que abrange a produção de países como Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru, Uruguai e Venezuela, entre outros. Nesta edição, com o intuito de ir além dos limites da arte impressa, a Feira Tijuana tem uma programação curada pela pesquisadora Beatriz Lemos e o artista Fabio Morais, incluindo encontros e performances que incluem linguagens como o slam, inserções sonoras e outras.

A feira será realizada mais uma vez na Casa do Povo, no bairro paulistano do Bom Retiro (leia aqui matéria sobre a Casa), com mais de 100 editoras participantes. Na programação de debates serão tratados temas como relações raciais contemporâneas e africanidades no Brasil, causas indígenas e autonomismo político. Clique aqui e veja a programação completa.

23ª Feira Tijuana
Casa do Povo – Rua Três Rios, 252 – Bom Retiro
Dias 3 e 4 de agosto de 2019
Entrada gratuita

Galeria Karla Osório inaugura três individuais simultâneas

Rodrigo Garcia Dutra, A Linguagem da Serpente, 2019.

A partir do dia 27 de julho, o público poderá conferir uma sólida programação na Galeria Karla Osório, em Brasília. Serão três exposições individuais abertas simultaneamente a partir das 17h. As mostras de Rodrigo Garcia Dutra, Gustavo Silvaamaral e Bruno Duque ocuparão os ambientes internos da galeria, nos pavilhões I e II, e também a parte externa, nos muros e no pátio. O espaço tem 5 mil metros quadrados e está localizado no Lago Sul.

Em A Linguagem da Serpente, na galeria 4 do pavilhão II, Rodrigo Garcia Dutra apresenta uma série de códigos criados a partir de recortes em dobraduras de papel. Intuitivamente, os códigos criam uma suposta linguagem abstrata e geométrica. O resultado é uma enigmática forma de comunicação entre espécies humanas e não-humanas. Estes recortes foram transformados em desenhos cortados a laser em placas de madeira e pintados com tinta acrílica.

Já Bruno Duque leva à Karla Osório a mostra Expedições, situada nas galerias 1, 2 e 3 do pavilhão I, que dialoga com as mais tradicionais formas representações. A exposição apresenta três séries – Matas, Alter e Ebó – que têm em comum a referência fotográfica e se relacionam mais por contraste do que por contiguidade. Os animais de “Alter” seguem isolados das paisagens de “Matas” e ambos se mantenham livres de seres humanos. Em “Ebó” não é a cultura e o simbolismo que são exaltados, mas a própria vida que os orixás evocam.

Por fim, Gustavo Silvamaral propõe a intervenção Três quadrados amarelos na parte externa da galeria. O trabalho é composto de três painéis, em muros distintos, apresentando diversos elementos da pesquisa do artista que vem se desdobrando em uma série de ações, objetos, instalações, desenhos e pinturas. Todas as exposições podem ser conferidas até 7 de setembro.


Gustavo Silvamaral: Três quadrados amarelos + Bruno Duque: Expedições + Rodrigo Garcia Dutra: A Linguagem da Serpente
Galeria Karla Osório: St. de Mansões Dom Bosco CJ 31 – Lago Sul, Brasilia
De 27 de julho até 7 de setembro
Mais informações: (61) 3367-6303

Simpósio internacional discute transformações nas artes visuais

Acima, Néstor García Canclini e Nathalie Moureau; abaixo, Paul O'Neill e Moacir dos Anjos. Foto: Divulgação.

Com a participação de Moacir dos Anjos (Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Recide/PE), Maria Lucia Bueno Ramos (docente permanente do PPGCSO, da UFJF), Mônica Hoff (artista, curadora e pesquisadora), Nathalie Moureau (professora de economia e pesquisadora no laboratório ART-Dev), Néstor García Canclini (doutor em Filosofia pelas universidades de Paris e de La Plata), e Paul O’Neill (curador, artista, escritor e educador irlandês), o 2º Simpósio Internacional de Relações Sistêmicas da Arte acontece entre os dias 29 e 31 de julho no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) Sesc São Paulo.

Segundo o texto de apresentação, o evento – que tem inscrições esgotadas – discute as transformações pelas quais as artes visuais passam, abrigando abordagens da ampla gama de relações que permeiam o fazer artístico, sua legitimação, visibilidade, circulação e acesso.

O texto explica, ainda, que “os debates se debruçarão sobre a construção social dos valores estéticos na contemporaneidade, discutindo como falar em História da Arte e Estética ao lidar com objetos e eventos que fogem aos valores originalmente instituídos por tais disciplinas; as revisões  dos valores da estética clássica; as estratégias e discursos que vem sendo institucionalizados e incorporados ao sistema da arte; a reverberação do mercado de arte na legitimação de práticas artísticas emergentes; as formas de reorganização das práticas artísticas, da crítica de arte e das instituições para dar conta das mudanças que ocorrem num mundo global e desigual”.

O simpósio é uma parceria entre o Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAV-UFRGS), o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) e o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo (CPF Sesc).

A aura, a reprodutibilidade e o vintage

Marcel Giró
“Caixas de Luz”, 1950, de Marcel Giró

O que diria Walter Benjamin se reaparecesse por aqui? Como reagiria frente à arte e sua reprodutibilidade depois, sobretudo, da internet e dos smartphones? Reveria sua crença na perda da aura da obra de arte diante da suposta desartização das obras produzidas com os meios tecnológicos? E quanto ao valor de culto da arte tradicional, Benjamin confirmaria que ele foi, de fato, suplantado pelo valor de exibição?

Entusiasta da propagação da arte pelos meios de reprodução, Benjamin via a fotografia e o cinema como fundamentais para a democratização da obra de arte. Reproduzida ou produzida por esses meios, ela seria finalmente despojada do prestígio ligado à sua suposta origem religiosa, possibilitando, assim, uma outra relação com o homem comum. Nesta nova situação, todos passariam a ser vistos não mais apenas como receptores, mas também como produtores possíveis.

Passadas décadas da publicação do ensaio de Benjamin, “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, filas e filas se formam para ver de perto a Mona Lisa, de da Vinci, no Louvre (cuja imagem foi e é reproduzida inúmeras vezes) – para ficarmos apenas com um único exemplo ligado às artes visuais. Hoje filmes os mais diversos são “cult”. “Cult” é também o título de uma revista dedicada ao culto da cultura e de uma plataforma do Telecine on demand; “cult” é a cantora trans, como também “aquela” fotografia “daquele” fotógrafo.

Segundo Benjamin, a obra de arte tradicional trazia com ela o valor de culto por causa da aura que dela emanava: ela era única, preciosa mas, na medida em que perdeu essas qualidades, devido aos processos de reprodução, passou a ser igual a todos os tipos de objetos, restando-lhe apenas o seu valor de exibição, ou seja, sua capacidade de estar em todos os lugares.

Qualquer fotografia, portanto, teria como base o seu valor de exibição suplantando qualquer possibilidade de possuir ou vir a possuir algum valor de culto. Afinal em sua própria condição de existência, reina sua capacidade de se reproduzir indefinidamente, certo? Não, errado. Não há dúvidas de que as câmeras digitais acopladas a celulares estão levando a proliferação da fotografia a patamares até então impensáveis. Entretanto, ao mesmo tempo em que os smartphones transformam seus proprietários em produtores compulsivos de fotografias que se espalham e se exibem rapidamente por todo o globo, existem fotografias que têm seu valor intrínseco de exibição restringido, sendo a ele sobreposto o antigo valor de culto.

Existe no mundo um conjunto de fotografias cujo valor de culto é criado por terem como característica o fato de serem vintage (foram reproduzidas na época de sua captação pelos próprios autores, elevados agora à condição de artistas e não de “meros” fotógrafos), ou por fazerem parte de uma produção post mortem, porém com um número limitado de exemplares. São essas relíquias sobreviventes de um tempo heroico qualquer – construído pela história e/ou pelo mercado –, que nos fazem peregrinar por museus e galerias a prestar-lhes homenagens, que fazem com que nos desloquemos para esses templos a fim de compartilharmos com poucos o nosso deleite frente àqueles fetiches quase únicos, praticamente únicos.

Os advérbios “quase” e “praticamente”, neste contexto, alertam para um fato na prática inquestionável: postar-se diante de uma fotografia produzida, por exemplo, em 1939, e que teve apenas alguns exemplares produzidos por aquele ou aquela que captou a imagem, é como estar frente a uma pintura. E isso porque, hoje em dia, um exemplar de, por exemplo, seis reproduções idênticas produzidas há 80 anos – num mundo saturado de imagens –, é capaz de fazer emanar uma autenticidade, uma aura de mistério e revelação (não é isso o que os objetos votivos provocam em quem os olha?), que nos embriaga de puro deleite, como se ele fosse único.

Se fitar essas imagens raras é um deleite, possuí-las, então, é um sonho de poder e gozo. E, por mais cara que possa ser uma fotografia vintage, ou de restrita edição, quase sempre ela é mais acessível do que “aquela” pintura ou “aquela” escultura que sobretudo o colecionador médio nunca irá possuir.

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Essas questões surgiram a partir da visita à “Fotografia Moderna 1940-1960”, em cartaz na Luciana Brito Galeria, em São Paulo. A mostra possui uma particularidade: apresenta obras de alguns dos fotógrafos brasileiros modernos mais prestigiados no espaço que antes foi uma residência projetada pelo arquiteto modernista Rino Levi. Difícil melhor container para abrigar alguns vintages de Geraldo de Barros, Thomas Farkas e outros, além de obras de uma única fotógrafa, Gertrudes Altschul. O espaço concebido por Levi traz solenidade às obras, dado que renova/amplia a aura que delas emana (embora a própria aura da casa também não deixe de impregná-las).

Se a exposição se inicia com alguma tibieza, com algumas obras de Paulo Pires, dentro da cartilha do que deveria ser uma fotografia em “estilo moderno”, logo na sequência ela passa a apresentar a dimensão experimental alcançada pela fotografia do período. Se na mostra se destacam os sempre estimulantes Geraldo de Barros e Thomaz Farkas, a grata surpresa foram as fotos de Marcel Giró, um modernista cuja produção mereceria ser mais divulgada.

Se os fotógrafos presentes na mostra, cada um à sua maneira, acreditavam que a fotografia poderia ser encarada e produzida como arte ou, mais como uma das “belas artes” (em alguns casos), não resta dúvida de que conseguiram provar que tais disposições eram possíveis, quer pela obediência às normas foto-clubistas então imperantes, quer pelo rompimento das mesmas. Hoje, devidamente emolduradas e dispostas em um ambiente que as reflete e endossa, reiteram a aparente falência dos constructos teóricos de Walter Benjamin, aqui comentados, em parte solapados pelos próprios fotógrafos, pelo mercado de arte e pelo colecionismo que conseguiram transformar aquelas peças em “quase” originais – objetos de deleite e de culto.

Tanto para aqueles que não se importam com tais questões, quanto para os que as consideram fundamentais para pensar sobre o estatuto da fotografia nos dias de hoje, “Fotografia Moderna – 1940-1960” é uma exposição obrigatória.

Exposição na Casa de Cultura do Parque discute produção tridimensional contemporânea

"Calda", 2005, de Tatiana Blass. Foto: Paulo D’Alessandro e André Conti

Novo espaço cultural da cidade de São Paulo, inaugurado no início deste ano (leia aqui), a Casa de Cultura do Parque apresenta mais uma exposição coletiva a partir deste sábado, dia 27 de julho. Intitulada Do Volume e do Espaço: Modos de Fazer, a mostra reúne obras tridimensionais, discutindo o pensamento atual em torno do trabalho escultórico.

A exposição é dividida em dois eixos principais: um endereçado à figura humana, em diálogo com a história tradicional da escultura; e outro endereçado às formas geométricas, que não surge em oposição à realidade do corpo, mas conjugada a ele. “É o corpo que experimenta a geometria, é ele quem a produz”, explica Ana Avelar no texto de apresentação.

Os artistas participantes são Alexandre da Cunha, Claudio Cretti, Edgar de Souza, Eduardo Frota, Felipe Cohen, Flávio Cerqueira, Ivens Machado, José Rezende, Laura Vinci, Nino Cais, Pablo Reinoso, Ricardo Becker, Rodrigo Cardoso e Tatiana Blass.

No dia da abertura da exposição, a Casa de Cultura do Parque e o Terra Nova, novo módulo de Artes Plásticas da Flip, promovem um encontro com José Miguel Wisnik sobre o processo de criação da performance Máquinas do Mundo, do Núcleo de Arte da Mundana Companhia de Teatro. A obra contempla elementos das artes plásticas, da literatura e do teatro e coloca e em diálogo textos de Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis e Clarice Lispector. A ARTE!Brasileiros esteve presente na apresentação da performance na Igreja da Matriz, em Paraty, durante a 17ª Flip. Veja a galeria de fotos acima.

Do Volume e do Espaço: Modos de Fazer
Casa de Cultura do Parque – Av. Prof. Fonseca Rodrigues, 1300 – Alto de Pinheiros
De 27 de julho a 13 de outubro
Entrada Gratuita

 

Casa Roberto Marinho apresenta mostra com artistas estrangeiros de sua coleção

Obra de Giorgio de Chirico, de 1941. FOTO: Divulgação

A Casa Roberto Marinho, localizada no tradicional bairro do Cosme Velho, no Rio, apresenta até outubro a mostra . Com cerca de 150 obras e curadoria de Lauro Cavalcanti, a exposição apresenta peças da plural coleção do empresário e jornalista carioca que dá nome à casa, morto em 2003.

Pinturas, esculturas, aquarelas, litogravuras, serigrafias e tapeçarias compõem a mostra com obras de artistas de diferentes épocas, entre eles Jean-Baptiste Debret, Giovanni Battista Castagneto, Marc Chagall, Salvador Dalí, Fernand Léger, Maria Helena Vieira da Silva, George Mathieu e Jean Cocteau.

Estrangeiros que adotaram o Brasil como lar também foram incluídos na exposição. Lasar Segall, Tomie Ohtake, Franz Weissmann, Frans Krajcberg, Yutaka Toyota, Joaquim Tenreiro, Maria Polo, Manabu Mabe e Roberto Moriconi são alguns deles.

Simultaneamente, a Casa Roberto Marinho apresenta a mostra Djanira: A Memória de seu Povo, produzida em parceria com o MASP. Com curadoria de Rodrigo Moura e Isabella Rjeille, a exposição expõe o trabalho de Djanira da Motta e Silva, uma das mais importantes pintoras modernistas brasileiras.

Estrangeiros na Coleção Roberto Marinho
Instituto Casa Roberto Marinho – Rua Cosme Velho, 1105
De 19 de junho a 27 de outubro