Relevo Emblema N. 4, 1977. acrílica sobre madeira, 100 X 150 X 5 cm. Acervo Museu de Arte Moderna da Bahia
Composição 12, 1962. Óleo sobre tela. A obra foi doada para o acervo do Masp pelos galeristas Ana Dale, Antonio Almeida e Carlos Dale Junior 61

Em seu “Manifesto Ainda que Tardio”, publicado em 1976, o pintor, escultor e gravurista baiano Rubem Valentim (1922-1991) deixava bastante claro de onde emergia sua arte: “Minha linguagem plástico-visual-signográfica está ligada aos valores míticos profundos de uma cultura afro-brasileira (mestiça-animista-fetichista). Com o peso da Bahia sobre mim – a cultura vivenciada; com o sangue negro nas veias – o atavismo; com os olhos abertos para o que se faz no mundo – a contemporaneidade”. Ele buscava, como dizia no mesmo texto, “uma linguagem universal, mas de caráter brasileiro”, sem se filiar a nenhum dos movimentos ou correntes artísticas estrangeiras ou nacionais.

Imagem: Rubem Valentim, Pintura 2, 1960 / Foto: Tomás Toledo, curador-chefe do MASP

Ainda assim, em sentido contrário às palavras do próprio artista, boa parte da crítica, do mercado e da historiografia da arte definiu Valentim como um artista basicamente construtivo, relegando à segundo plano o universo simbólico de sua obra, ligado ao candomblé, à umbanda e à cultura afro-brasileira. Houve uma “insistência em enquadrá-lo, um tanto à força, no contexto das correntes construtivas canônicas, forjadas no eixo Rio-São Paulo, apartando das reflexões os sentidos religioso, espiritual e social, portanto político, que são parte integrante da conformação de seus trabalhos e de sua vida como artista”, afirma Fernando Oliva, curador da mostra “Rubem Valentim: Construções Afro-Atlânticas”, uma grande individual do artista em cartaz no Masp até março de 2019.

Marcus Lontra, curador de “Rubem Valentim: Construção e Fé”, outra exposição do artista baiano em cartaz em São Paulo, na Caixa Cultural, segue na mesma linha. “Assim ele se tornava mais palatável. Quiseram adocicar o Rubem Valentim dizendo que ele era um modernista com temperinho brasileiro. Como se falassem: ‘Vamos jogar um dendê aqui nesse escargot’. Mas acontece que o dendê não era o final, era a base”, diz Lontra. “Quer dizer, o Valentim parte dessa visualidade africana e, com um olhar erudito, sintetiza isso através da cor e da forma.”

De outro lado, quando não foi classificado como construtivo ou concretista, Valentim foi visto como um artista “místico, sobrenatural e mágico”, sendo enquadrado em um universo folclórico também simplificador de sua obra. “É equivocado e muito limitador da potência deste artista reduzi-lo a apenas construtivo ou apenas tributário da cultura do candomblé”, diz Oliva. “Nós queremos apresentar o artista total que ele era, que transitava e fazia a síntese entre formas associadas ao abstracionismo geométrico de linhagem europeia, canônico, e as formas que ele encontrou originalmente nas religiões de matriz africana”, explica.

A proposta de apresentar uma leitura mais complexa da obra de Valentim, destacando seu caráter híbrido e sua força política, é o que move as duas mostras em cartaz em São Paulo. No Masp, 80 pinturas e 12 esculturas perpassam principalmente os períodos em que o artista residiu no Rio de Janeiro (1957-1963), em Londres e Roma (1963-1966) e em Brasília (1967-1981). A exposição privilegia também os três elementos do candomblé com os quais ele mais se relacionou: a flecha de Oxóssi, o machado de Xangô e as hastes de Ossain (ou Ossanha). “Essas formas do candomblé são um ponto de partida, mas o que ele faz é depurar, sintetizar, recriar e transfigurar essas formas em outros elementos. E aí está a potência do seu trabalho. Como todo grande artista, ele cria um universo próprio, algo único e original”, diz Oliva.

A exposição no Masp é parte do ciclo “Histórias Afro-atlânticas”, eixo curatorial do museu em 2018, constituído por mostras individuais de artistas cujas obras são atravessadas por questões raciais e por uma grande exposição coletiva que sintetizou o tema. Com foco na diáspora negra e nos “fluxos e refluxos” entre África, Américas e Europa, ressaltando as violências e resistências que marcaram essas histórias, o museu deu sequência aos ciclos de “Histórias da Loucura e Histórias Feministas” (2015), “Histórias da Infância” (2016) e “Histórias da Sexualidade” (2017). O eixo curatorial em 2019, também focado em narrativas não tradicionais, é intitulado “Histórias Feministas, Histórias das Mulheres”.

Na Caixa Cultural, a mostra com cerca de 60 pinturas e uma escultura também se concentra no universo simbólico e na questão da negritude na obra de Valentim. Com foco no período em que o artista viveu em Brasília e nos anos finais de sua vida, passados entre a capital federal e São Paulo, a exposição apresenta o que Lontra considera “uma obra híbrida, perturbadora, que atua no território da fantasia e da formação da identidade nacional”. “Ele rompeu as designações tradicionais; desprezou anacrônicas fronteiras entre o popular e o erudito, entre o nacional e o internacional, entre razão e emoção”, escreve o curador no texto de apresentação da mostra.

ENGAJAMENTO E ATUALIDADE

Valentim nasceu em Salvador, em 1911, e cresceu em contato íntimo com um universo sincrético. Apesar de ser de família católica e ter feito a primeira comunhão, frequentava com o pai os terreiros de candomblé da cidade. Formado em odontologia, passou a se dedicar à produção artística com mais afinco na segunda metade dos anos 1940, quando se aproximou do pensamento de esquerda e de artistas como Mário Cravo Jr., Carlos Bastos e Raymundo de Oliveira. Juntos deram início a um movimento de renovação nas artes plásticas na Bahia. Valentim ainda cursou jornalismo no início dos anos 1950, em busca de uma formação mais humanista, e a partir do meio desta década começou a incorporar em suas pinturas os emblemas e signos do candomblé e da umbanda. Com o uso de cores fortes e formas geométricas, criou um repertório pessoal “com base em uma complexa dinâmica de recortes, subtrações e justaposições”, como explica Oliva.

Relevo Emblema N. 4, 1977. acrílica sobre madeira, 100 X 150 X 5 cm. Acervo Museu de Arte Moderna da Bahia

A geometria e as preocupações formais, no entanto, não se sobrepunham às questões simbólicas, como ressaltou o próprio artista: “Nunca fui concreto. Tomei conhecimento do concretismo através de amizades pessoais com alguns dos seus integrantes. Mas logo percebi, pelo menos entre os paulistas, que o objetivo final de seu trabalho eram os jogos óticos e isto não me interessava. Meu problema sempre foi ‘conteudístico’ (a impregnação mística, a tomada de consciência dos valores culturais de meu povo, o sentir brasileiro)”. Neste sentido, tanto o movimento de enquadrá-lo em correntes construtivas como o de chamar sua obra de mágica e sobrenatural acabaram por tirar de Valentim seu caráter político, retomado agora de modo atento nas duas mostras paulistanas. No Masp, a discussão ganha profundidade também em um grande catálogo que, além de apresentar a exposição, reúne textos históricos, desenhos e anotações de cadernos do artista e ensaios inéditos de Lilia Schwarcz, Helio Menezes, Lisette Lagnado e Marta Mestre, entre outros.

Como explicam os curadores, Valentim foi um artista engajado não só no conteúdo de sua obra visual, mas também nas posições políticas que assumiu em textos e entrevistas ao longo da vida. Em seu manifesto, por exemplo, escrito em plena ditadura militar, Valentim se posiciona como defensor do intercâmbio entre todos os povos e nações, mas contra o colonialismo cultural e a subserviência aos padrões vindos de fora; defende uma poética visual brasileira que beba na iconografia afro-ameríndia-nordestina, mas que fuja de modismos e das “violentações caricatas do folclore e do genuíno”; e afirma, por fim, que “a arte é uma arma poética para lutar contra a violência como um exercício de liberdade contra as forças repressivas”.

Relevo Emblema 78, 1978, acrílica sobre madeira. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Compra do Governo do Estado de São Paulo, 2013

“Diferentemente do discurso purista do modernismo, Valentim representa a possibilidade real de construção de uma linguagem que reflita especificidades brasileiras”, diz Lontra. E são essas especificidades, para o curador, que devem ser identificadas e destacadas, especialmente no contexto atual. No momento em que o Brasil elege um presidente que ofende quilombolas e despreza os direitos humanos, em que o país vivencia assassinatos como o da vereadora negra e feminista Marielle Franco e do mestre de capoeira Moa do Katendê, retomar a obra de Valentim e seu caráter político ganha nova potência e significado.

“Nós estamos diante de violências constantes, com o Brasil revelando toda sua maldade, o horror de uma classe média reacionária. E tem essa ideia do país cordial, da nação boazinha, que é o discurso do opressor e que não engana mais. Antes de aceitar nossa miscigenação temos que aceitar que a mulher negra foi estuprada”, diz Lontra, ressaltando a importância de identificar os elementos negros como fundamentais na história da arte brasileira e na compreensão de um país mestiço. “E acho que o Rubem assumiu essa questão política de modo muito forte e importante. Ele nunca escondeu a violência”. Sobre o futuro próximo, o curador conclui: “Agora temos que enfrentar a ameaça à democracia. E a arte sempre enfrentou isso: ditadura, perseguição, ausência de apoio. E seu papel vai continuar sendo esse, de mostrar o Brasil de verdade”.

 


Rubem Valentim: Construções Afro-Atlânticas

De 14/11/2018 a 10/03/2019

MASP – Av. Paulista, 1578, São Paulo

Rubem Valentim: Construção e Fé

De 07/10/2018 a 06/12/2018

CAIXA CULTURAL – Praça da Sé, 111


 

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