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"Mulata", 1927, Alfredo Volpi. Foto: Romulo Fialdini/ Divulgação

*Por Maria Hirszman e Patricia Rousseaux

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“Mulata”, 1927, Alfredo Volpi. Foto: Romulo Fialdini/ Divulgação

Alçada a símbolo maior da modernidade no País, a Semana de Arte Moderna – realizada no Carnaval de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo – foi apenas o lado mais barulhento de um processo amplo e descontínuo de ruptura com os modelos culturais vigentes no século 19 e de desenvolvimento de uma forma inovadora de pensar a cultura e a arte no Brasil. Com o intuito de explicitar esse caráter abrangente e multifacetado do desenvolvimento da arte moderna nacional, a exposição Moderno onde? Moderno quando?em cartaz até 12 de dezembro – reúne um conjunto diverso de obras produzidas nas primeiras décadas do século 20 em diferentes regiões do país.

Com obras de mais de 30 artistas, produzidas entre 1900 e 1937 (tendo como marco final o início do Estado Novo, momento de virada na trajetória política nacional), a exposição enfatiza alguns dos aspectos mais marcantes desse ímpeto modernizante: a adoção de temáticas e linguagens novas, desprezadas no passado oitocentista. Destaca-se um olhar atento para a cena local, seja por meio de registros do ambiente rural, seja na atenção crescente à renovação e expansão urbana vivenciada nas grandes cidades, bem como a incorporação crescente de modos de pintar, esculpir e fotografar muito mais próximos das experimentações de vanguarda que já há algum tempo sacudiam a arte europeia. Como explicam as curadoras Aracy Amaral e Regina Teixeira de Barros, nota-se claramente no período um desejo de renovação, uma vontade de se reconhecer nessa nova produção e uma alteração dos anseios no Brasil após a queda do Império. “Queríamos comemorar o Brasil recente, o Brasil novo”, sintetiza Aracy.

Apesar das dificuldades decorrentes da pandemia, que tornou muito mais difícil a pesquisa e a obtenção dos empréstimos das obras, foi possível reunir um conjunto bastante significativo de trabalhos. Propositalmente, não há uma divisão clara entre os três núcleos centrais da exposição (pré-modernismo, a Semana e os desdobramentos do movimento nos anos subsequentes). Como num fluxo livre, a montagem permite ao visitante acompanhar, sem rigores didáticos, alguns pontos altos da produção do período. Ora os trabalhos selecionados têm uma força individual potente e catalizadora, ora representam de forma sintomática eventos centrais do período abordado, como a disruptora entrada do expressionismo pelas telas de Anita Malfatti, na pioneira exposição de 1917; a já citada Semana de 22; ou o também célebre Salão Revolucionário, realizado em 1931 no Rio, quando o urbanista Lucio Costa assumiu, mesmo que por pouco tempo, a Escola Nacional de Belas Artes. Do ponto de vista regional, São Paulo e Rio – e, num segundo plano, Recife – são as cidades com maior representação, mas nota-se uma clara intenção de desmontar uma versão bairrista da modernidade brasileira, evidenciando o espraiamento das ideias e práticas modernistas pelo território nacional. A ideia era “fugir um pouco desse ufanismo paulistano”, pontua Aracy Amaral. Procuramos “esparramar um pouco a ideia de modernidade e de modernismo pelo Brasil, não só temporalmente, mas em termos de território”, complementa Regina Teixeira de Barros.

“Fachada do Teatro Municipal”, 1911, de Valério Vieira.

A seleção combina desde obras icônicas da modernidade nacional a investigações menos conhecidas do público e normalmente dissociadas desse anseio modernizador, como por exemplo a tela Baile à Fantasia, pintada em 1913 por Rodolpho Chambelland, uma cena vibrante e de inspiração popular tendo a festa por tema. Vamos do violeiro ao carnaval, ilustra Aracy, enfatizando a multiplicidade de caminhos representados por autores tão diversos como Almeida Junior e Chambelland. A progressiva urbanização, que impõe uma acelerada incorporação de modelos mais sofisticados de comportamento e de configuração das cidades, também se faz presente no trabalho Fachada do Teatro Municipal, uma fotopintura executada em 1911 por Valério Vieira que destaca a exuberância do edifício e a intensa movimentação dos citadinos.

“Eu vi o mundo…Ele começava no Recife”, de Cícero Dias. Acima, na íntegra, abaixo, em detalhes. Foto: © Dias, Cícero dos Santos/ AUTVIS, Brasil, 2021

Curiosamente, o exercício de representação da cidade moderna de Vieira se encontra face a face da obra de maior destaque da exposição, o painel Eu vi o Mundo… ele começava no Recife, realizado entre 1926 e 1929, por Cícero Dias. Exposta originalmente num congresso psiquiátrico realizado no Rio de Janeiro e posteriormente no Salão Revolucionário, a obra tem uma enorme dimensão histórica e estética. A ousadia da composição, que mescla reminiscências de sua infância no Recife a referências contemporâneas da cena carioca, foi tamanha que ela foi vandalizada por conservadores e perdeu três dos 15 metros que possuía originalmente. “Há vários mundos aí dentro, vários brasis, que acontecem simultaneamente e desordenadamente”, afirma Regina Teixeira de Barros. “Há ali uma multidão de referências. Cada metro nos chama à meditação”, complementa Aracy. Pertencente a uma coleção privada, a obra é raramente mostrada ao público.

Esse desejo de Brasil, um anseio por “demarcar o território que vai ser amplamente desenvolvido no século 20”, como dizem as curadoras, se faz sentir na obra de todos os artistas representados, mesmo que em termos temporais fiquem claras mudanças internas nos processos pessoais de criação. É o caso, por exemplo, de Di Cavalcanti, representado com obras de diferentes momentos, da ainda sisuda Amigos ou a aguçada série de ilustrações intitulada Fantoches da Meia Noite, ambos de 1921, à sua peça de destaque, Cinco Moças de Guaratinguetá, de 1930. O artista é um exemplo claro dessa tentativa de modernização da linguagem tão ansiada nas décadas de 1910 e 1920 e que, no anos 1930, adquire uma clara dimensão política e de engajamento social.

Para complementar esse mergulho na produção visual e cultural do período, também será lançado um catálogo com texto de diferentes autores, como Ana Maria Belluzzo, Felipe Chaimovich, Ruy Castro e Cacá Machado, em data ainda a definir. Esses ensaios acabam por estender ainda mais o alcance da mostra, iluminando áreas e movimentos que não puderam ser contemplados na seleção expositiva.

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