Agenda de arte contemporânea da ARTE!Brasileiros reúne exposições, eventos culturais, mostras, feiras, cursos e atividades em museus, galerias e centros culturais de todo o Brasil.
Agenda de Arte, Exposições e Eventos Culturais
julho
Detalhes
Resultado de uma pesquisa desenvolvida por André Pitol, que assina a curadoria e o texto crítico da exposição, Edival Ramosa: alfabeto solare apresenta a trajetória
Detalhes
Resultado de uma pesquisa desenvolvida por André Pitol, que assina a curadoria e o texto crítico da exposição, Edival Ramosa: alfabeto solare apresenta a trajetória do artista a partir de sua primeira individual no Brasil, África-Brasil, realizada em 1971 na Petite Galerie, no Rio de Janeiro. Radicado em Milão, Ramosa retorna à cena brasileira com uma produção marcada por esculturas instalativas de grandes dimensões, materiais industriais, cores vibrantes e formas geométricas.
A mostra destaca obras como Ponte, Flecha Negra e O Sol dos Povos de Cor, trabalho que ocupa grande parte do espaço expositivo e incorpora superfícies refletoras para aproximar obra, ambiente e espectador. Sua produção organiza um vocabulário visual próprio, o alfabeto solare, formado por círculos, semicírculos, discos, flechas, sóis, luas, cometas e gradações cromáticas intensas.
A obra de Ramosa dialoga com as neovanguardas, a comunicação visual e uma atmosfera pop-geométrica. Suas peças combinam geometria construtiva, símbolo, objeto tridimensional e experimentação material, aproximando sua produção de debates críticos sobre arte, design, cor e linguagem visual.
A exposição também evidencia a relação entre sua produção visual e a poesia, especialmente nas colaborações com Roberto Sanesi e Guido Ballo. Essa aproximação amplia a leitura de sua obra para além da escultura e da pintura, inserindo-a em um campo de experimentação entre palavra, ritmo, forma, cor e leitura.
Ao reunir obras dispersas, Edival Ramosa: alfabeto solare conecta diferentes momentos da trajetória do artista, entre Brasil e Itália. A mostra revela uma produção que articula abstração geométrica, referências afro-indígenas, imaginário cósmico, contracultura e projetos de futuro.
Serviço
Exposição | Alfabeto solare
De 09 de junho a 08 de agosto
Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, das 10:00h às 19:00h; Sexta, das 10h às 18h, das Sábado, das 11h às 15h
Período
Local
Galeria Galatea Salvador
R. Chile, 22 - Centro, Salvador - BA
Detalhes
O que resta de um lugar quando ele é atravessado pela memória? Como a paisagem continua a se transformar quando passa a existir também no campo da imaginação? Essas questões
Detalhes
O que resta de um lugar quando ele é atravessado pela memória? Como a paisagem continua a se transformar quando passa a existir também no campo da imaginação? Essas questões atravessam A invenção do Paraíso: Gabriela Melzer & Ygor Landarin, exposição que coloca em diálogo, pela primeira vez, os dois artistas nos espaços principais da Galatea Salvador. A abertura acontece durante as celebrações da Independência da Bahia, período em que a cidade revisita sua história e reafirma sua potência cultural.
Tomando a ideia de paraíso como construção simbólica, provisóriae subjetiva, a mostra coloca em diálogo duas pesquisas que investigam as relações entre matéria e transformação. Embora partam de linguagens distintas, Melzer e Landarin compartilham o interesse por elementos do mundo visível, como formações geológicas, organismos marinhos, relevos, arquiteturas e vestígios materiais, que são continuamente reelaborados em suas obras.
Gabriela Melzer dá continuidade à investigação que vem desenvolvendo nos últimos anos em torno da abstração, da cor e da percepção. Em suas pinturas, referências observadas na natureza e na paisagem construída são transformadas em composições marcadas por contornos orgânicos e pela construção de paisagens interiores.
Parte das obras nasce da observação da arquitetura de Salvador e dos desgastes provocados pela ação do clima sobre suas superfícies. Em vez de representação direta, Melzer converte essas referências em estruturas pictóricas nas quais formas orgânicas, campos cromáticos e sistemas lineares coexistem em negociação constante. Linhas sinuosas atravessam áreas de cor organizadas por divisões modulares, produzindo composições que equilibram controle e improvisação, estabilidade e mudança.
Suas pinturas são construídas por meio da sobreposição de sucessivas camadas de tinta, às quais se somam gestos realizados com bastões oleosos que registram movimentos e ritmos sobre a superfície. Em Desenhos (2026), série realizada com bastão de óleo sobre painel telado, Melzer intensifica a presença do desenho e aprofunda uma investigação voltada a aspectos que escapam à observação imediata. Linhas e campos de cor organizam-se em composições que convidam a uma observação prolongada.
Sobre seu processo criativo, Gabriela Melzer declara: “Nas obras, o meu objetivo não é meramente representar o mundo, mas explorar essas brechas — lugares onde o físico e o não físico se tocam, criando uma realidade que sentimos, mas não vemos. Essa é uma busca por abrir espaços que todos podem acessar, mesmo que não estejam claramente delineados. Trata-se de nos permitir sentir além do que estamos acostumados, juntos, e encontrar uma maneira de dar forma ao que normalmente passaria despercebido.”
Já Ygor Landarin apresenta obras que nascem de seu interesse pelos lugares que atravessam sua trajetória e pelos vestígios que permanecem neles. Bordado, escultura e materiais como areia, porcelana fria e cimento aparecem como ferramentas para investigar relações entre matéria, tempo e memória. Em muitos de seus trabalhos, referências arqueológicas, concheiros e sambaquis servem como ponto de partida.
Parte dessa produção foi desenvolvida para a exposição após uma temporada de pesquisa em Salvador, quando Landarin realizou coletas em praias da cidade e ampliou seu contato com referências locais. A obra de Juarez Paraíso torna-se referência central na construção de Paraízo (2026), que reúne areia, conchas, ouriços e pedras. O trabalho transforma esses elementos em uma espécie de cartografia afetiva da cidade, construída a partir de vestígios, deslocamentos e das marcas deixadas pela passagem do tempo na paisagem soteropolitana.
A mostra também marca o início da representação de Ygor Landarin pela Galatea. Em um momento de crescente projeção institucional, o artista integra, em 2026, a exposição 39º Panorama da Arte Brasileira: Depois que tudo foi dito, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e foi indicado ao Prêmio Pipa. Sua produção artística também integra a coleção do Museu de Arte do Rio.
Mesmo partindo de práticas distintas, Melzer e Landarin compartilham interesses estéticos que se cruzam. Na pesquisa artística de ambos, a matéria está sempre em transformação, entre acumulação e modificação ao longo do tempo e dos territórios. O Paraíso, aqui, transita entre o real e o imaginado, não como um lugar idealizado, mas como uma experiência em permanente mudança, onde imagens emergem como resultado de operações que articulam memória, observação e imaginação.
A programação da mostra inclui ainda uma conversa com Camila Yunes Guarita – fundadora da Kura e uma das principais art advisors do Brasil – ao lado de Gabriela Melzer e Ygor Landarin. O encontro será uma oportunidade para conhecer os caminhos que deram origem à exposição, destacando as aproximações entre as pesquisas dos artistas e a maneira como suas experiências em Salvador aparecem nos trabalhos apresentados. A atividade acontece no dia 3 de julho, às 16h30, pouco antes da abertura, no espaço principal da galeria.
Serviço
Exposição | A invenção do Paraíso: Gabriela Melzer & Ygor Landarin
De 03 de julho a 10 de outubro
Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, das 10:00h às 19:00h; Sexta, das 10h às 18h, das Sábado, das 11h às 15h
Período
Local
Galeria Galatea Salvador
R. Chile, 22 - Centro, Salvador - BA
Detalhes
Na exposição Alegorias ancestrais apresentamos um conjunto de desenhos produzidos por Elias Santos em 2004, pertencentes à série iniciada em 1995. A presença das máscaras dos Zambiapungas abre
Detalhes
Na exposição Alegorias ancestrais apresentamos um conjunto de desenhos produzidos por Elias Santos em 2004, pertencentes à série iniciada em 1995. A presença das máscaras dos Zambiapungas abre espaço para uma leitura que articula as marcas de sofrimento presentes nesses corpos à violência histórica exercida contra populações africanas e afrodescendentes no Brasil. Nessa perspectiva, a deformação das figuras deixa de remeter apenas a experiências individuais e passa a evocar os processos de repressão que incidiram sobre essas práticas culturais e religiosas.
Paralelamente ao desenho, Elias desenvolve uma investigação escultórica ligada ao reaproveitamento de materiais cotidianos. Suas primeiras esculturas revelam o interesse por caixas de papelão, tecidos e materiais comuns encontrados no cotidiano urbano, como lixas adquiridas em lojas de construção civil e retalhos de tecidos. As esculturas apresentadas nesta exposição pertencem a dois momentos distintos de uma mesma pesquisa, compreendendo peças produzidas entre 2010 e 2013 e, posteriormente, entre 2024 e 2026. Em ambos os períodos, o papelão ocupa um lugar central em sua prática: um material simultaneamente frágil e resistente é utilizado tanto como estrutura prototípica quanto como parte constitutiva das peças. Após a modelagem dos volumes, as esculturas passam por sucessivas etapas de emassamento, lixamento e revestimento com tecidos preparados pelo próprio artista. O processo evidencia uma relação cuidadosa com a matéria, na qual cada etapa de elaboração contribui para a transformação de materiais ordinários em formas de grande sofisticação formal. Apesar de transitar por diferentes materialidades, suas esculturas encontram unidade na atenção dedicada aos processos construtivos, ao trabalho paciente de execução e à transformação dos materiais.
Na série mais antiga de esculturas geométricas aqui apresentada, predominam tonalidades sóbrias, como preto, branco e cinza, reforçando a dimensão estrutural e quase arquitetônica das peças. Suas formas pontiagudas e rigorosamente construídas evocam uma reflexão sobre a própria natureza da geometria, entendida não apenas como um sistema abstrato, mas como um princípio presente na constituição do mundo. Como observa o próprio artista, a forma geométrica está na base das formações minerais e das moléculas que compõem os organismos vivos e, consequentemente, as formas orgânicas.
À medida que essas esculturas se desenvolvem, seu geometrismo vai se complexificando, remetendo a repertórios simbólicos associados às religiões afro-brasileiras. Entre essas referências, destaca-se a relação que Elias Santos desenvolve com Exu, orixá responsável pela comunicação entre os mundos material e espiritual, cuja presença se manifesta de maneira recorrente em seu imaginário formal e simbólico. Em uma de suas peças, por exemplo, o tridente surge de forma explícita, tensionando a fronteira entre abstração geométrica e signo ritual. Esses elementos do universo das religiões afro-brasileiras atravessam o repertório visual do artista e se incorporam ao seu vocabulário formal. Embora não tenha sido iniciado na religião, Elias passou a conviver com esses universos, a frequentá-los e pesquisá-los após mudar-se para Salvador, onde ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Entre terreiros, festas populares, feiras e manifestações culturais afro-brasileiras, esse conjunto de referências sedimentou-se em seu imaginário, tornando-se parte constitutiva das estruturas simbólicas e formais que atravessam sua produção.
A série mais recente de esculturas inaugura um novo momento em sua pesquisa. Nos últimos anos, a partir do convite da Galatea para participar da exposição coletiva Cais (Galatea Salvador, 2024) e dar continuidade à apresentação de suas obras na galeria, Elias retoma sua produção escultórica, incorporando formas mais curvas, camadas cromáticas intensas e materiais brilhantes, especialmente o lamê, tecido amplamente utilizado tanto nas vestimentas do candomblé quanto nas fantasias carnavalescas afro-baianas. Apesar da produção recente, a investigação desses materiais é anterior e remonta à sua experiência como assistente na confecção de adornos para o bloco afro Olodum, entre 2009 e 2010, quando teve contato direto com tecidos, brilhos e estampas, preservando as sobras desses materiais para futuras experimentações.
É nessa nova fase, apresentada nesta exposição por meio de esculturas inéditas, que suas obras se tornam mais sensuais, vibrantes e luminosas, intensificando suas dimensões performáticas. Os tecidos metálicos, brilhos e superfícies cintilantes projetam signos afro-brasileiros em um horizonte futurista, unindo ancestralidade e imaginação. As formas evocam memórias e cosmologias herdadas, refletindo um brilho do passado como forma de iluminar novas fabulações para o futuro.
Ao longo de sua trajetória, Elias Santos transforma a geometria em um campo de investigação no qual rigor formal, observação da natureza e repertórios afro-brasileiros se entrelaçam. Em suas esculturas, ritmos simétricos, estruturas modulares e volumes cuidadosamente construídos evocam tanto princípios presentes na constituição do mundo natural quanto símbolos e cosmologias associados às tradições afro-diaspóricas. Nesse sentido, sua produção aproxima-se de uma linhagem de escultores afro-brasileiros, como Rubem Valentim, José Adário dos Santos e Ayrson Heráclito.
Seja nos desenhos inspirados pelas formas híbridas das orquídeas, nos corpos mascarados que evocam os Zambiapungas ou nas esculturas construídas a partir de materiais reaproveitados, a obra de Elias revela um interesse contínuo pelos processos de transformação, nos quais natureza, corpo e ancestralidade se conectam em uma mesma investigação. Entre a precisão construtiva e a exuberância sensorial, suas obras articulam passado e presente, permanência e reinvenção, afirmando sua prática como forma de atualização de memórias e cosmologias que permanecem vivas e em constante transformação.
ALANA SILVEIRA é produtora cultural, curadora e diretora da Galatea Salvador
Serviço
Exposição | Alegorias ancestrais
De 03 de julho a 10 de outubro
Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, das 10:00h às 19:00h; Sexta, das 10h às 18h, das Sábado, das 11h às 15h
Período
Local
Galeria Galatea Salvador
R. Chile, 22 - Centro, Salvador - BA
agosto
Detalhes
Resultado de uma pesquisa desenvolvida por André Pitol, que assina a curadoria e o texto crítico da exposição, Edival Ramosa: alfabeto solare apresenta a trajetória
Detalhes
Resultado de uma pesquisa desenvolvida por André Pitol, que assina a curadoria e o texto crítico da exposição, Edival Ramosa: alfabeto solare apresenta a trajetória do artista a partir de sua primeira individual no Brasil, África-Brasil, realizada em 1971 na Petite Galerie, no Rio de Janeiro. Radicado em Milão, Ramosa retorna à cena brasileira com uma produção marcada por esculturas instalativas de grandes dimensões, materiais industriais, cores vibrantes e formas geométricas.
A mostra destaca obras como Ponte, Flecha Negra e O Sol dos Povos de Cor, trabalho que ocupa grande parte do espaço expositivo e incorpora superfícies refletoras para aproximar obra, ambiente e espectador. Sua produção organiza um vocabulário visual próprio, o alfabeto solare, formado por círculos, semicírculos, discos, flechas, sóis, luas, cometas e gradações cromáticas intensas.
A obra de Ramosa dialoga com as neovanguardas, a comunicação visual e uma atmosfera pop-geométrica. Suas peças combinam geometria construtiva, símbolo, objeto tridimensional e experimentação material, aproximando sua produção de debates críticos sobre arte, design, cor e linguagem visual.
A exposição também evidencia a relação entre sua produção visual e a poesia, especialmente nas colaborações com Roberto Sanesi e Guido Ballo. Essa aproximação amplia a leitura de sua obra para além da escultura e da pintura, inserindo-a em um campo de experimentação entre palavra, ritmo, forma, cor e leitura.
Ao reunir obras dispersas, Edival Ramosa: alfabeto solare conecta diferentes momentos da trajetória do artista, entre Brasil e Itália. A mostra revela uma produção que articula abstração geométrica, referências afro-indígenas, imaginário cósmico, contracultura e projetos de futuro.
Serviço
Exposição | Alfabeto solare
De 09 de junho a 08 de agosto
Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, das 10:00h às 19:00h; Sexta, das 10h às 18h, das Sábado, das 11h às 15h
Período
Local
Galeria Galatea Salvador
R. Chile, 22 - Centro, Salvador - BA
Detalhes
O que resta de um lugar quando ele é atravessado pela memória? Como a paisagem continua a se transformar quando passa a existir também no campo da imaginação? Essas questões
Detalhes
O que resta de um lugar quando ele é atravessado pela memória? Como a paisagem continua a se transformar quando passa a existir também no campo da imaginação? Essas questões atravessam A invenção do Paraíso: Gabriela Melzer & Ygor Landarin, exposição que coloca em diálogo, pela primeira vez, os dois artistas nos espaços principais da Galatea Salvador. A abertura acontece durante as celebrações da Independência da Bahia, período em que a cidade revisita sua história e reafirma sua potência cultural.
Tomando a ideia de paraíso como construção simbólica, provisóriae subjetiva, a mostra coloca em diálogo duas pesquisas que investigam as relações entre matéria e transformação. Embora partam de linguagens distintas, Melzer e Landarin compartilham o interesse por elementos do mundo visível, como formações geológicas, organismos marinhos, relevos, arquiteturas e vestígios materiais, que são continuamente reelaborados em suas obras.
Gabriela Melzer dá continuidade à investigação que vem desenvolvendo nos últimos anos em torno da abstração, da cor e da percepção. Em suas pinturas, referências observadas na natureza e na paisagem construída são transformadas em composições marcadas por contornos orgânicos e pela construção de paisagens interiores.
Parte das obras nasce da observação da arquitetura de Salvador e dos desgastes provocados pela ação do clima sobre suas superfícies. Em vez de representação direta, Melzer converte essas referências em estruturas pictóricas nas quais formas orgânicas, campos cromáticos e sistemas lineares coexistem em negociação constante. Linhas sinuosas atravessam áreas de cor organizadas por divisões modulares, produzindo composições que equilibram controle e improvisação, estabilidade e mudança.
Suas pinturas são construídas por meio da sobreposição de sucessivas camadas de tinta, às quais se somam gestos realizados com bastões oleosos que registram movimentos e ritmos sobre a superfície. Em Desenhos (2026), série realizada com bastão de óleo sobre painel telado, Melzer intensifica a presença do desenho e aprofunda uma investigação voltada a aspectos que escapam à observação imediata. Linhas e campos de cor organizam-se em composições que convidam a uma observação prolongada.
Sobre seu processo criativo, Gabriela Melzer declara: “Nas obras, o meu objetivo não é meramente representar o mundo, mas explorar essas brechas — lugares onde o físico e o não físico se tocam, criando uma realidade que sentimos, mas não vemos. Essa é uma busca por abrir espaços que todos podem acessar, mesmo que não estejam claramente delineados. Trata-se de nos permitir sentir além do que estamos acostumados, juntos, e encontrar uma maneira de dar forma ao que normalmente passaria despercebido.”
Já Ygor Landarin apresenta obras que nascem de seu interesse pelos lugares que atravessam sua trajetória e pelos vestígios que permanecem neles. Bordado, escultura e materiais como areia, porcelana fria e cimento aparecem como ferramentas para investigar relações entre matéria, tempo e memória. Em muitos de seus trabalhos, referências arqueológicas, concheiros e sambaquis servem como ponto de partida.
Parte dessa produção foi desenvolvida para a exposição após uma temporada de pesquisa em Salvador, quando Landarin realizou coletas em praias da cidade e ampliou seu contato com referências locais. A obra de Juarez Paraíso torna-se referência central na construção de Paraízo (2026), que reúne areia, conchas, ouriços e pedras. O trabalho transforma esses elementos em uma espécie de cartografia afetiva da cidade, construída a partir de vestígios, deslocamentos e das marcas deixadas pela passagem do tempo na paisagem soteropolitana.
A mostra também marca o início da representação de Ygor Landarin pela Galatea. Em um momento de crescente projeção institucional, o artista integra, em 2026, a exposição 39º Panorama da Arte Brasileira: Depois que tudo foi dito, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e foi indicado ao Prêmio Pipa. Sua produção artística também integra a coleção do Museu de Arte do Rio.
Mesmo partindo de práticas distintas, Melzer e Landarin compartilham interesses estéticos que se cruzam. Na pesquisa artística de ambos, a matéria está sempre em transformação, entre acumulação e modificação ao longo do tempo e dos territórios. O Paraíso, aqui, transita entre o real e o imaginado, não como um lugar idealizado, mas como uma experiência em permanente mudança, onde imagens emergem como resultado de operações que articulam memória, observação e imaginação.
A programação da mostra inclui ainda uma conversa com Camila Yunes Guarita – fundadora da Kura e uma das principais art advisors do Brasil – ao lado de Gabriela Melzer e Ygor Landarin. O encontro será uma oportunidade para conhecer os caminhos que deram origem à exposição, destacando as aproximações entre as pesquisas dos artistas e a maneira como suas experiências em Salvador aparecem nos trabalhos apresentados. A atividade acontece no dia 3 de julho, às 16h30, pouco antes da abertura, no espaço principal da galeria.
Serviço
Exposição | A invenção do Paraíso: Gabriela Melzer & Ygor Landarin
De 03 de julho a 10 de outubro
Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, das 10:00h às 19:00h; Sexta, das 10h às 18h, das Sábado, das 11h às 15h
Período
Local
Galeria Galatea Salvador
R. Chile, 22 - Centro, Salvador - BA
Detalhes
Na exposição Alegorias ancestrais apresentamos um conjunto de desenhos produzidos por Elias Santos em 2004, pertencentes à série iniciada em 1995. A presença das máscaras dos Zambiapungas abre
Detalhes
Na exposição Alegorias ancestrais apresentamos um conjunto de desenhos produzidos por Elias Santos em 2004, pertencentes à série iniciada em 1995. A presença das máscaras dos Zambiapungas abre espaço para uma leitura que articula as marcas de sofrimento presentes nesses corpos à violência histórica exercida contra populações africanas e afrodescendentes no Brasil. Nessa perspectiva, a deformação das figuras deixa de remeter apenas a experiências individuais e passa a evocar os processos de repressão que incidiram sobre essas práticas culturais e religiosas.
Paralelamente ao desenho, Elias desenvolve uma investigação escultórica ligada ao reaproveitamento de materiais cotidianos. Suas primeiras esculturas revelam o interesse por caixas de papelão, tecidos e materiais comuns encontrados no cotidiano urbano, como lixas adquiridas em lojas de construção civil e retalhos de tecidos. As esculturas apresentadas nesta exposição pertencem a dois momentos distintos de uma mesma pesquisa, compreendendo peças produzidas entre 2010 e 2013 e, posteriormente, entre 2024 e 2026. Em ambos os períodos, o papelão ocupa um lugar central em sua prática: um material simultaneamente frágil e resistente é utilizado tanto como estrutura prototípica quanto como parte constitutiva das peças. Após a modelagem dos volumes, as esculturas passam por sucessivas etapas de emassamento, lixamento e revestimento com tecidos preparados pelo próprio artista. O processo evidencia uma relação cuidadosa com a matéria, na qual cada etapa de elaboração contribui para a transformação de materiais ordinários em formas de grande sofisticação formal. Apesar de transitar por diferentes materialidades, suas esculturas encontram unidade na atenção dedicada aos processos construtivos, ao trabalho paciente de execução e à transformação dos materiais.
Na série mais antiga de esculturas geométricas aqui apresentada, predominam tonalidades sóbrias, como preto, branco e cinza, reforçando a dimensão estrutural e quase arquitetônica das peças. Suas formas pontiagudas e rigorosamente construídas evocam uma reflexão sobre a própria natureza da geometria, entendida não apenas como um sistema abstrato, mas como um princípio presente na constituição do mundo. Como observa o próprio artista, a forma geométrica está na base das formações minerais e das moléculas que compõem os organismos vivos e, consequentemente, as formas orgânicas.
À medida que essas esculturas se desenvolvem, seu geometrismo vai se complexificando, remetendo a repertórios simbólicos associados às religiões afro-brasileiras. Entre essas referências, destaca-se a relação que Elias Santos desenvolve com Exu, orixá responsável pela comunicação entre os mundos material e espiritual, cuja presença se manifesta de maneira recorrente em seu imaginário formal e simbólico. Em uma de suas peças, por exemplo, o tridente surge de forma explícita, tensionando a fronteira entre abstração geométrica e signo ritual. Esses elementos do universo das religiões afro-brasileiras atravessam o repertório visual do artista e se incorporam ao seu vocabulário formal. Embora não tenha sido iniciado na religião, Elias passou a conviver com esses universos, a frequentá-los e pesquisá-los após mudar-se para Salvador, onde ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Entre terreiros, festas populares, feiras e manifestações culturais afro-brasileiras, esse conjunto de referências sedimentou-se em seu imaginário, tornando-se parte constitutiva das estruturas simbólicas e formais que atravessam sua produção.
A série mais recente de esculturas inaugura um novo momento em sua pesquisa. Nos últimos anos, a partir do convite da Galatea para participar da exposição coletiva Cais (Galatea Salvador, 2024) e dar continuidade à apresentação de suas obras na galeria, Elias retoma sua produção escultórica, incorporando formas mais curvas, camadas cromáticas intensas e materiais brilhantes, especialmente o lamê, tecido amplamente utilizado tanto nas vestimentas do candomblé quanto nas fantasias carnavalescas afro-baianas. Apesar da produção recente, a investigação desses materiais é anterior e remonta à sua experiência como assistente na confecção de adornos para o bloco afro Olodum, entre 2009 e 2010, quando teve contato direto com tecidos, brilhos e estampas, preservando as sobras desses materiais para futuras experimentações.
É nessa nova fase, apresentada nesta exposição por meio de esculturas inéditas, que suas obras se tornam mais sensuais, vibrantes e luminosas, intensificando suas dimensões performáticas. Os tecidos metálicos, brilhos e superfícies cintilantes projetam signos afro-brasileiros em um horizonte futurista, unindo ancestralidade e imaginação. As formas evocam memórias e cosmologias herdadas, refletindo um brilho do passado como forma de iluminar novas fabulações para o futuro.
Ao longo de sua trajetória, Elias Santos transforma a geometria em um campo de investigação no qual rigor formal, observação da natureza e repertórios afro-brasileiros se entrelaçam. Em suas esculturas, ritmos simétricos, estruturas modulares e volumes cuidadosamente construídos evocam tanto princípios presentes na constituição do mundo natural quanto símbolos e cosmologias associados às tradições afro-diaspóricas. Nesse sentido, sua produção aproxima-se de uma linhagem de escultores afro-brasileiros, como Rubem Valentim, José Adário dos Santos e Ayrson Heráclito.
Seja nos desenhos inspirados pelas formas híbridas das orquídeas, nos corpos mascarados que evocam os Zambiapungas ou nas esculturas construídas a partir de materiais reaproveitados, a obra de Elias revela um interesse contínuo pelos processos de transformação, nos quais natureza, corpo e ancestralidade se conectam em uma mesma investigação. Entre a precisão construtiva e a exuberância sensorial, suas obras articulam passado e presente, permanência e reinvenção, afirmando sua prática como forma de atualização de memórias e cosmologias que permanecem vivas e em constante transformação.
ALANA SILVEIRA é produtora cultural, curadora e diretora da Galatea Salvador
Serviço
Exposição | Alegorias ancestrais
De 03 de julho a 10 de outubro
Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, das 10:00h às 19:00h; Sexta, das 10h às 18h, das Sábado, das 11h às 15h
Período
Local
Galeria Galatea Salvador
R. Chile, 22 - Centro, Salvador - BA
