Bem Me Quer, Mal Me Quer (2011), Sidney Amaral, exposta em VIVER ATÉ O FIM O QUE ME CABE - SIDNEY AMARAL: UMA APROXIMAÇÃO
"Bem Me Quer, Mal Me Quer", Sidney Amaral, 2011. Foto: Coleção particular/Cortesia Sesc Jundiaí
“Gargalheira ou quem falará por nós”, Sidney Amaral, 2014. Foto: Coleção particular/Cortesia Sesc Jundiaí

*Por Daniel Lima

Nunca te conheci, Sidney. Apesar de sermos dois artistas plásticos da mesma geração, da mesma cidade, não nos encontramos em vida. Mais raro ainda se faz este desencontro se pesarmos que somos dois artistas negros, uma exceção no mundo da arte contemporânea – mais ainda no início dos anos 2000, quando iniciamos nossas carreiras.

Logo nas minhas primeiras exposições, meu caminho bifurcou para um trajeto distante das galerias de arte. Fui parte desta geração que optou por um encontro com a cidade, com as contradições do espaço urbano. Um campo de batalha para criações poéticas num embate de escala, linguagens e contextos político-sociais.

Enquanto você desenvolvia estes trabalhos poderosos que fazem parte da exposição Viver até o fim o que me cabe! – Sidney Amaral: uma aproximação, com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, eu estava também na lida de trabalhos poéticos com soluções plásticas e conceituais distintas. Mas os atravessamentos são os mesmos, Sidney…

Percebi estas transversalidades no meu encontro com sua obra quando estava realizando a exposição Agora Somos Todxs Negrxs?, no Galpão Videobrasil em 2018. Com a ajuda do Claudinei Roberto – que tinha sido colega na USP e que certamente pode compactuar de ser negro nestes espaços de exceção -, pude encontrar suas obras em seu habitat natural: o ateliê onde deitavam cobras douradas de dentes de garfo; barbies sem cabeça em sólido bronze; colheres armadilhas de comer. Os desenhos e pinturas de um virtuosismo da técnica em encontro com este duplo da identidade: a contradição da negritude.

Ser parte de uma imensa minoria na arte contemporânea e maioria na população nos dá esta certeza da importância de inscrever essa perspectiva afro-brasileira tão invisibilizada. Ao mesmo tempo, é certa a armadilha identitária que temos que transcender. Um duplo desafio de trazer o contexto singular que nos forjou, mas também, de atravessar os limites do que se considera como denúncia de mazelas sociais do nosso mundo. Uma contradição a ser elaborada em dois sentidos: em relação à armadilha identitária e outro, conexo a identidade, na articulação da denúncia social e do anúncio de outras perspectivas futuras.

As armadilhas são semelhantes à medida que colocam o problema de como fugir dos quadros criados para um fazer político poético. Em outras palavras, Sidney, tivemos à frente o desafio de falar a partir do lugar de indivíduos negros – e nesta operação do olhar para si mesmo é quase impossível ignorar as violências que nos atravessam – mas, ao mesmo tempo, desvestir-se da roupa identitária negra pois foram criadas para nos amarrar e tolher potências de vida. Como coloca Achille Mbembe em Crítica da Razão Negra:

“Não persistirá ele próprio a se reconhecer apenas pela e na diferença? Não estará convencido de ser habitado por um duplo, uma entidade estrangeira que o impede de se conhecer a si mesmo? Não vivenciará seu mundo como um definido pela perda e pela cisão e não nutrirá o sonho do regresso a uma identidade consigo mesmo, que regride ao modo da essencialidade pura e, por isso mesmo, muitas vezes, do que lhe é dessemelhante?”

Este duplo na sua obra, Sidney, surge em ataque a si mesmo. Afirmar-se negro em imagem, plenitude, luta, dignidade, num sentido reverso à animalização histórica do negro no mundo colonizado. Simultaneamente golpeado pela certeza que algo nos enterra numa retórica de morte:

“A ameaça assombrosa, para milhões de pessoas apanhadas nas redes da dominação racial, de verem seus corpos e pensamentos operados a partir de fora e de se verem transformadas em espectadores de algo que, ao mesmo tempo, era e não era a sua própria existência” (MBEMBE).

Sidney, quando fui à África pude entender que “negro” foi criado aqui nas Américas para nos definir, dominar e diminuir. Um termo que, como coloquei no título-pergunta provocação da nossa exposição Agora somos todxs negrxs?, foi criado para “significar exclusão, embrutecimento e degradação, ou seja, um limite sempre conjurado e abominado”, escreve Mbembe. Mas que, pela necessidade de sobrevivência, foi ressignificado por um caminho de luta da mesma história de violência e resistência. Ser negre passou a significar que somos irmãos e irmãs, filhos e filhas da diáspora afro-atlântica. E desde então este ser negro “tornou-se o símbolo de um desejo consciente de vida, força pujante, flutuante e plástica, plenamente engajada no ato de criação e até mesmo no ato de viver em vários tempos e várias histórias simultaneamente”.

Acredito que este duplo que reencenamos juntos com tantos outros nesta geração redefine significados de imagens consolidadas e consolidadoras de estereótipos. O menino negro com a camiseta máscara; o anjo soldado; a mulher que sorri com coroa de flores… Maneiras de recolocar imagens no mundo – e, desta forma, nos recolocamos.

Estes movimentos são conscientes da limitação em “simplesmente estabelecer novos símbolos de identidade, novas ‘imagens positivas’ que alimentam uma ‘política de identidade’ não reflexiva”, como escreve Homi Bhabha em O Local da Cultura. Por desgaste e provocação desta dupla identidade, construímos um labirinto que leva, afinal, a identidade multiplex: não fluidas, amorfas ou escorregantes, mas antes sólidas em muitos lados definidos pela negação, pelo o que não somos.

Assim, os temas, seja da escravidão como em Gargalheira ou quem falará por nós?, seja da religião católica colonial em Demiurgo ou O Pão Nosso, mas também da história recente em Diálogos/Encontro retornam como este “presente disjuntivo”, um presente quebrado em interpretações conflitantes, contraditórias. Este deslocamento incomoda muitos porque desconstrói mundos de crenças estáveis. Somente o deslocamento racial, a figura negra no contexto canônico da arte, já desloca o mundo à sua volta.

Estas imagens mito, imagens memória, imagens tempo que invadem e colonizam subjetividades, Sidney, estão sendo reinscritas por nós não como símbolos heróicos de uma política de identidade. São reinscritas na “própria textualidade do presente, que determina tanto a identificação com a modernidade quanto o questionamento desta: o que é o ‘nós’ que define a prerrogativa do meu presente?”, aponta Bhabha.

Certo que este “nós” da nação brasileira nunca nos incluiu. E, neste estágio do capitalismo, muitos começam a perceber que também não os inclui mais. O estágio atual de exploração, seja material, seja cognitiva, coloca uma grande maioria lado a lado numa fractal de segregação. “De agora em diante todos serão conhecidos genericamente como negros”, afirmava a Constituição Haitiana de 1805, fruto da única revolta negra a tomar o poder definitivo e da primeira nação americana a abolir a escravidão. “Agora somos todos negros!”, afirmavam para pactuar a resistência entre nós.

Nós pactuamos, entre trancos e barrancos, entre batalhas e guerras, entre desconstruções e descolonizações, que não vamos sucumbir ao sequestro do futuro. Reencenamos
o passado com os delírios do presente. Vejo na sua obra, Sidney, uma força nada próxima do surreal onírico, mas sim limítrofe do delírio: uma potência de fascinação e alucinação.

Sidney, tomei a vacina imunizante do vírus Covid-19 no dia que fui visitar a sua exposição Viver até o fim o que me cabe!, no Sesc Jundiaí. De manhã, já tinha preparado meus documentos. A médica que me recebeu depois da pouca espera na fila, estava sentada no drive-thru desativado. Algumas pessoas passavam perguntando qual vacina estava sendo aplicada e que dia chegaria a da Pfizer. Os olhos verdes da médica examinaram o diploma da PUC cheio de escritos dourados. Depois ela preencheu uma ficha e me perguntou sobre minha autodenominação: negro. Lembro que consigo escapar da estatística que coloca a população negra entre as menos vacinadas do país. O Brasil vacina duas vezes mais pessoas brancas do que negras (dado da Agência Pública). Escapei porque entro na faixa dos que têm diploma em Psicologia Clínica. Este é um tipo de medida que subterraneamente abre caminho para uma parcela branca – que não necessariamente tem maior risco – se vacinar antes. “Aceitar somente o diploma é medida feita para branco se vacinar”, a médica concorda. E me vejo aqui. Sim, sempre fomos a exceção, Sidney.

VIVER ATÉ O FIM O QUE ME CABE – SIDNEY AMARAL: UMA APROXIMAÇÃO
ONDE: Sesc Jundiaí (Av. Antônio Frederico Ozanan, 6600 – Jardim Botânico, Jundiaí – SP)
QUANDO: 11 de maio de 2021 a 4 de setembro 2021. Terça a sexta, das 14h às 19h e sábados das 10h30 às 13h30
Ingresso gratuito. Visita mediante agendamento prévio.

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