Carlos Zílio, Identidade ignorada

Identidade ignorada | Carlos Zílio

Por Nayani Real

Carlos Zílio nasceu em 1944, no Rio de Janeiro. Psicólogo formado pela UFRJ, tornou-se doutor em Artes pela Universidade de Paris VIII, durante seu exílio na década de 1980. Antes disso, entre 1960 e 1970, participou ativamente da oposição ao regime militar ditatorial instalado no Brasil, por meio de uma arte engajada e militância política.

Em sua obra Identidade ignorada, 1974, Zílio aborda os desaparecimentos durante a ditadura militar no Brasil. A imagem porém faz-se atual e pertinente num momento em que a diversidade e as lutas identitárias são combatidas e censuradas pelo Estado e grupos sociais conservadores.

Nos últimos 20 anos, uma cultura de reconhecimento, valorização do outro, inclusão e respeito à individualidade  e a diversidade de grupos sociais, fez enormes avanços no Brasil e no mundo. As questões de gênero e posicionamentos políticos diferentes encontravam espaço na sociedade democrática. Hoje, a (re)ascensão de pensamentos conversadores e de extrema direita questionam comportamentos contemporâneos, utilizando-se de discursos autoritários e reducionistas.

 

Marcados | Claudia Andujar

Por Marcos Grinspum Ferraz

Para os médicos que acompanhavam Claudia Andujar nos territórios Yanomami, no início dos anos 1980, as fotos deveriam ser simples registros dos habitantes daquela região amazônica. Como os índios Yanomami não pos-suíam nomes próprios, os números nas placas penduradas em seus pescoços serviriam como identificação para que os profissionais pudessem fazer o trabalho de saúde pública necessário. Dado o contato crescente com o homem branco, a vacinação se tornava urgente para que epidemias não dizimassem os Yanomami. Para os médicos, “deveria ser um clique e acabou”, como contou Andujar anos depois. “Mas para mim não poderia ser assim.” De fato, a série “Marcados” é muito mais do que um trabalho de identificação. Os gestos, expressões e olhares dos Yanomami, captados pela câmera de Andujar, revelam o trabalho não apenas ético, mas estético da artista, com sua capacidade de apresentar mundos objetivos e subjetivos, de captar sutilezas e violências, esperanças e tragédias, corpos e almas. Não à toa as fotos integraram tantas exposições ao longo das décadas, incluindo a Bienal de São Paulo, tornaram-se parte do acervo do pavilhão da fotógrafa em Inhotim e viraram livro. Marcados – para viver ou morrer? – revela um mundo índio que, sempre ameaçado, parece correr risco ainda maior quando um presidente eleito diz ser contra demarcações de terra e promete acabar com o “coitadismo” das minorias. Contra tamanha violência e ignorância, vale lembrar das palavras do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: “Temos que aprender a ser índios, antes que seja tarde. Aprender como viver em um país sem destruí-lo, como viver em um mundo sem arrasá-lo e como ser feliz sem precisar de cartão de crédito. O encontro com o mundo índio nos leva para o futuro, não para o passado”. Em imagens, Claudia Andujar parece nos fazer esta mesma afirmação.

Projeto Brasil nunca mais | D. Paulo Evaristo Arns

Por Fabio Cypriano

Durante os anos 1970, cerca de 50 pessoas nas semanas mais movimentas procuravam o então cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, em busca de parentes desaparecidos. “O senhor tem alguma notícia do paradeiro de meu filho”, era uma frase que o cardeal ouvia de forma recorrente.

Por iniciativa dele, inspirado nas centenas de testemunhos colhidos na sede da Arquidiocese de São Paulo, em Higienópolis, mas em uma rede que integrou lideranças de outras religiões, jornalistas e advogados, foi criado o Projeto Brasil Nunca Mais, em agosto de 1979. Até março de 1985, em sigilo, um grupo trabalhou em 850 mil páginas de processos do Superior Tribunal Militar para a publicação de um relatório e um livro, que revelaram a gravidade das violações aos direitos humanos promovidas pela repressão política durante a ditadura militar. Lançado em 1985, o livro permaneceu na lista dos dez mais vendidos por 91 semanas consecutivas, tornando-se – à época – o livro de não-ficção brasileiro mais vendido de todos os tempos. Hoje em dia, o Projeto possui uma versão digital disponível em http://bnmdigital.mpf.mp.br/pt-br/.

 

Missão/Missões – Como Construir Uma Catedral | Cildo Meireles

Por Leonor Amarante

Uma de minhas obras políticas preferidas é a instalação Missão/Missões – Como Construir uma Catedral, realizada por Cildo Meirelles em 1987. A obra reforça a ideia de que o artista tem o compromisso moral de denunciar as atrocidades político-sociais em qualquer país, em qualquer época. Nesta instalação, Cildo aponta as práticas genocidas da igreja católica em suas Missões Jesuítas iniciadas em 1610 no Brasil, Paraguai e  Argentina. Na tentativa de evangelização dos índios da região, combinou-se força e violência, o que exterminou parte deles. Na instalação, o elo entre as duas estruturas, uma feita de ossos e outra de moedas, é construído com hóstias que ligam o chão de ouro ao céu macabro, em franca denúncia sobre as relações de poder da Igreja. A controvertida obra hoje faz parte do acervo da Daros-Latinamerica, em Zurique, na Suíça.

 

Operação Tutoia | Fernando Piola

Por Maria Hirszman

“Operação Tutoia”, trabalho realizado em 2007 e 2008 por Fernando Piola, desafia de forma contundente a estratégia de silenciamento em torno dos aparelhos de repressão e explicita, por meio de um lento processo de subversão das aparências, o caráter violento de instituições simbólicas da ditadura, como o Doi-Codi. Durante meses, o artista trabalhou no número 921 da Rua Tutoia, em São Paulo, apresentando-se como paisagista. E, semana a semana, substituiu as plantas do jardim por diferentes espécies de coloração vermelha, transformando o entorno da antiga sede do centro responsável pela detenção e tortura de milhares de pessoas e assassinato de 50 opositores ao regime em palco de uma ação ousada de intervenção urbana, denúncia política e investigação poética.

A ação subverteu o espaço das forças de poder e tornou visível o que  se pretendeu varrer da história e da memória. Os registros fotográficos (forma definitiva de um trabalho êfemero por natureza) hoje pertencem à coleção do Museu de Arte Contemporânea (MAC). E mostram como o tingimento da paisagem de vermelho, uma cor tão cheia de simbologias, foi pouco a pouco tornando concreta, pulsante e real a necessária tomada de consciência, não apenas em relação às brutalidade cometidas naquele local (que ainda hoje, surpreendentemente, abriga o 36º Distrito Policial da cidade), mas ao descaso em relação a um período negro de nossa história.

 

Assentamento | Rosana Paulino

Por Jamyle Rkain

O que acho mais belo na obra Assentamento, de Rosana Paulino, é como ela vai além de uma questão mais ampla de como os negros escravizados precisaram se reconstruir para caber em um local desconhecido ao qual foram levados. Gosto especialmente de olhá-la a partir de uma perspectiva que pensa especificamente sobre a mulher negra na sociedade.  A fotografia da mulher desconhecida registrada pela expedição Thayer, entre 1865 e 1866, refere-se a uma escrava. Rosana intervém na fotografia de sua forma, seccionando-a e sobrepondo nela a ideia da costura, enquanto o coração sangra. Isso me leva às discussões que os movimentos negros trazem também, de forma mais contemporânea, sobre a solidão da mulher negra. Esse assunto, muito discutido pelos feminismos negros, cuida de refletir sobre como a mulher negra heterossexual é facilmente abandonada pelos homens em um relacionamento amoroso, independente de brancos ou negros, por serem colocadas pela sociedade em uma posição diminuta. Talvez essa costura também possa ser o juntar dos cacos em uma situação dessas. Vejo essa discussão como algo essencial, embora seja preterida. Pontuo isso porque acredito que mesmo a obra trazendo uma perspectiva mais histórica, ela também mostra olhares do contemporâneo sobre assuntos das militâncias negras que são urgentes.

 

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