impressos de propaganda comunista. Foto: Reprodução

Em um curioso paradoxo, os arquivos policiais reunidos pelo Departamento Estadual da Ordem Política e Social de São Paulo (Deops) com o intuito de reprimir e perseguir qualquer pessoa, movimento ou partido que se opusesse à ideologia dominante acabaram tornando-se um rico manancial de informações para um alentado estudo exatamente sobre as críticas que queria silenciar. Foi a partir dos dados reunidos ao longo de décadas pelas forças de espionagem e repressão que a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro estruturou sua pesquisa Impressos Subversivos: Arte, Cultura e Política no Brasil 1924-1964, que procura mapear o trabalho cuidadoso, dedicado e muitas vezes anônimo de dezenas de artistas, artesãos e militantes, que lançaram mão das artes gráficas para denunciar desmandos e desigualdades, demonstrando uma tenaz resistência e desejo de transformação política e social. “Além de arquivarem os impressos subversivos, também preservaram, por ironia do destino, a memória da intolerância”, sintetiza a autora.

Impressos de propaganda comunista com legenda do Gabinete de Investigações do Deops. Foto: Reprodução

No livro, lançado este ano pela editora Intermeios, a pesquisadora analisa um amplo acervo documental, que veio garimpando ao longo de diversas pesquisas realizadas junto aos arquivos do Fundo Deops, liberado para consulta desde 1995 e revisitado por ela em diferentes ocasiões. Cópias dessas gravuras, panfletos, publicações e outros itens que pertencem ao universo dos impressos estavam guardados em uma gaveta de seu escritório, à espera de uma ocasião para um estudo mais aprofundado, momento trazido pela epidemia e o obrigatório recolhimento doméstico. Também contribuiu para a urgência em revisitar esse vasto acervo a sensação de que vivemos um momento no qual várias das situações denunciadas pelos artistas e artesãos parecem estar se repetindo e agudizando. “É uma provocação que eu faço. Convido o leitor a se indignar com o que estamos vivendo, cobro uma posição, nestes tempos de total anormalidade, contra todas as formas de violência perpetradas por um governo tão insensível”, explica.

Afinal, resistência, crítica e desejo de mudança parecem ser o ponto em comum entre uma produção tão diversificada como os impressos estudados por Tucci Carneiro. Se nos restringirmos a analisar apenas publicações que envolvam imagens – que constituem uma ampla parte, mas não exclusiva, do corpo de estudo, que apresenta também uma produção textual, de mais fácil circulação e disseminação –, a pesquisa da historiadora se subdivide em dois grandes grupos de autores: de um lado, estão aqueles que tiveram formação artística, pertenciam à classe burguesa, transitavam pelos círculos intelectuais ou eram reconhecidos como figuras importantes das artes e da política brasileira.

Também fazem parte desse primeiro grupo de artistas profissionais um leque amplo de exilados políticos, com destaque para os refugiados das perseguições nazistas que assolavam a Europa, sobretudo no período que antecede e durante a Segunda Guerra Mundial e que são tema de grande importância na trajetória da pesquisadora. Em seu livro, Tucci Carneiro faz um amplo levantamento desses artistas, apresenta sintéticas biografias, sempre procurando traçar as relações entre as poéticas em sintonia com as pesquisas de vanguarda no campo da arte e o ideário político que conduz tais ações.

Mas talvez a contribuição singular desse estudo seja o esforço feito em dar um lugar a um segundo grupo, os autores anônimos, provenientes das classes trabalhadoras, muitos deles operários, artesãos, sem formação artística ou, em alguns casos, tendo uma base formal adquirida nos Liceus de Arte e Ofícios do Rio e de São Paulo. São aqueles que Mário de Andrade chamou de “artistas proletários”, de origem humilde, filhos de imigrantes. “Permaneceram à margem dos principais movimentos culturais e artísticos da história da arte moderna, sem dispor de um ateliê e sem frequentar os circuitos dos vanguardistas de protesto”, explica Tucci Carneiro. Apesar da clandestinidade, essencial para aqueles que não dispunham de nenhum tipo de proteção, e da grande dispersão desse material (naturalmente, a imensa maioria dos impressos de protesto produzidos no Brasil foi esquecida ou perdida), a historiadora conseguiu reunir alguns vestígios capazes de identificar alguns autores dessa militância. Há, por exemplo, Moyses Kalinas, romeno, pintor e funcionário da fábrica de papel Klabin, que chegou a ter portaria de expulsão editada, mas que até 1948 permanecia no país. Outros nomes, como Angelo de las Heras, J. B. Pelayo, J. Matheus, Otávio Falcão e Novac foram identificados. Apesar das informações rarefeitas, seu reconhecimento é uma forma de – como diz Tucci Carneiro – “dar um lugar, um espaço de memória para eles”.

Definindo-se como “historiadora das ideias políticas”, Tucci Carneiro procurou sobrepor no livro diferentes camadas de interpretação. Propõe reflexões sobre o caráter altamente repressivo de uma ditadura como a de Getúlio Vargas, que se apropria da estética vanguardista, mas adota uma estratégia sistemática de perseguição contra comunistas, anarquistas, socialistas, estrangeiros e judeus. Mas as articula com um olhar atento às estratégias artísticas e políticas adotadas no período, na tentativa de transformar a arte e a sociedade, lançando mão de referências expressionistas e debruçando-se sobre dramas humanos como tema preferencial. “O discurso do Estado ordenador assumiu, através da propaganda e da repressão policial, um tom acusatório (maniqueísta) ao apontar os grupos de esquerda como inimigos da nação brasileira”, escreve ela, demonstrando como repressão e propaganda anticomunista eram face da mesma moeda. Isso torna-se evidente, por exemplo, com a constatação de que pouca ou nenhuma ação inibidora foi lançada contra os movimentos de extrema-direita.

Em contrapartida, figuras de proa como Lasar Segall – tachado como “artista judeu, produtor de arte degenerada” pelo serviço secreto da Policia Política – ou Tarsila do Amaral eram constantemente vigiados. Há um saboroso trecho no livro que reproduz os comentários de um agente infiltrado no Clube dos Artistas Modernos (CAM) após assistir uma palestra da pintora: “Incontestavelmente, Sra. Tarsila do Amaral é a maior e mais arrojada comunista dentre todas as comunistas nacionais. É a maior porque impressiona e quase converte todos que a ouvem. É também a mais arrojada, porquanto os seus parceiros procuram sempre arrabaldes e lugares ocultos para pregarem o comunismo, ao tempo que ela se serve de salões nobres onde, sem rodeios, ensina teórica e praticamente a doutrina vermelha”.

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