Em 2019, um grupo de produtores, gestores e artistas se uniu num movimento político que colocou a cultura na centralidade dos debates sociais e econômicos do país. Tinha início o Bloco da Cultura.

O movimento, idealizado pela equipe que trabalhava na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, visa expandir as experiências de gestão da cidade, criando planos e estratégias que coloquem as políticas culturais em foco.

Nós entramos na Secretaria com o setor sendo muito atacado do ponto de vista nacional e bastante fragilizado na própria cidade. Então, criamos um programa que enfrentasse o obscurantismo e reafirmasse a cultura como abordagem fundamental para a redução das desigualdades e para o desenvolvimento do país”, diz Alê Youssef. O ex-secretário da Cultura de São Paulo é um dos fundadores do movimento, ao lado de Hugo Possolo (atual secretário), Carlota Mingolla e Thais Lara (ex e atual chefes de gabinete da secretaria), Laís Bodanzky (presidente da SP-Cine), Erika Palomino (à frente do CCSP), entre outros.

Hoje, o Bloco estrutura ações focadas nos períodos eleitorais, fornecendo base para que a cultura seja pensada de outra forma nos planos de governo. Em uma primeira etapa, foca nas eleições municipais e, para 2022, desenvolverá estratégias voltadas aos âmbitos estadual e federal. “Estamos aberto para todas as candidaturas que estejam vinculadas ao espírito democrático e progressista e que apresentem elementos disruptivos para que possamos mudar a situação do país”, afirma Youssef. 

Alê Youssef, co-fundador do Bloco da Cultura e ex-secretário da cultura da cidade de São Paulo. Foto: Divulgação.

A arte!brasileiros conversou com o co-fundador do movimento sobre as ações e metas do Bloco, a situação da cultura no país e a importância do setor. Leia a seguir.

ARTE!✱ – Por que decidiram criar o Bloco da Cultura?

O Bloco da Cultura nasceu da percepção de que nós precisávamos qualificar a ação dos agentes culturais, no sentido de criar alternativas para que fosse possível colocar a área no eixo central do desenvolvimento econômico e social do país. Eleição após eleição, ano após ano, muito se fala e promete, mas pouco se realiza em respeito à essa centralidade da política da cultura. Em países como a Inglaterra, Portugal, Espanha e Coreia do Sul, o setor foi colocado em um ponto estratégico do desenvolvimento, e isso apresentou resultados muito proveitosos. Acreditamos que o Brasil  tem um potencial gigantesco para seguir esse mesmo caminho. Só que não vemos esse potencial sendo representado em propostas e estratégias efetivas. Por isso, nós, que trabalhamos a gestão da maior cidade do país, absorvemos a experiência que tivemos nesses meses, entendemos os gargalos de orçamento e as potências necessárias para um projeto consistente e criamos o Bloco da Cultura, um movimento nacional em defesa do setor, que visa reconstruir a política pública cultural, que está sendo tão atacada e massacrada.

ARTE!✱ – Em outras entrevistas, vocês [Bloco da Cultura] também falam sobre esses ataques à cultura. Pode explicar um pouco melhor a que se referem?

Acho muito importante a gente sempre dizer, em todas as oportunidades, que a cultura está sob ataque no Brasil. Ela está sob ataque desde antes da pandemia. Com a pandemia, a fragilidade aumentou ainda mais – porque a área foi o primeiro a ser paralisada pelas restrições da vigilância sanitária e será a última a retornar. Mas é importante lembrar que esse ataque acontece desde muito antes… A começar pela extinção do Ministério da Cultura, passando pela mudança no teto da Lei Rouanet [Lei de Incentivo à Cultura] – sem nenhuma discussão com o setor –, avançando para a paralisação dos patrocínios das empresas estatais, chegando na determinação da existência do que foram chamados de “filtros” – mas que, na verdade, são mecanismos de censura – para definir apoios culturais com verba pública [Youssef se refere às vezes que o Presidente da República utilizou o termo ‘filtro’ para explicar se manifestações artísticas podiam ou não ser apoiadas com verba pública e acontecer em espaços de entidades do governo]. Para além, é claro, dos ataques absurdos, os flertes com o fascismo e o obscurantismo, a retenção do fundo setorial de cinema, mudanças na política da Ancine etc.

ARTE!✱ – Por que acha que esses ataques acontecem?

Porque cultura é identidade nacional. Ela representa aquilo que nos conecta, é o potencial do reencontro do Brasil consigo mesmo. Acredito que esse governo tem um projeto de destruição dessa identidade, num sonho delirante de criar uma outra identidade nacional. Então, ataca-se a cultura, ataca-se a Amazônia, ataca-se os indígenas, os quilombolas e os movimentos identitários, como uma forma de atacar a identidade nacional e a diversidade – que é uma parte tão grande da construção da nossa essência. Acho ainda que isso se soma à uma série de fake news geradas na época eleitoral, que buscaram a criminalização da arte e do artista, dizendo que as pessoas viviam de Lei Rouanet e que todo mundo era bandido. Isso gerou essa distopia maluca, mas nós precisamos ser estratégicos e buscar alternativas mais viáveis. Precisamos entender o que pode dar certo para valorizar essa potência que temos e não cairmos nessas discussões polarizadas que não levam nada a lugar nenhum. 

ARTE!✱ – Como pretendem enfrentar essa postura limitante do governo em relação à cultura e às artes? Que alianças políticas o Bloco da Cultura está disposto a construir na defesa do setor?

Primeiro, acho que a gente precisa iniciar o nosso processo de defesa a partir das experiências municipais. Nesses dois anos que temos pela frente (com a permanência do governo federal e a permanência desses ataques sistemáticos), é necessário criarmos uma rede de apoio forte, que dê vazão às políticas públicas culturais e crie um ciclo virtuoso pós-pandemia. Creio que a cultura pode ser um vetor de um novo ciclo de desenvolvimento, mais democrático e mais contemporâneo levando em conta a economia circular, a importância da diminuição das taxas de emissão de carbono e trazendo todas essas vantagens da economia criativa. Creio também que estratégia e planos políticos são necessários para desenvolver essas ações. O Bloco da Cultura está aberto para todas as candidaturas que estejam vinculadas ao espírito democrático e progressista, que conheçam a necessidade dos papéis do Estado no desenvolvimento humano, econômico e social, e que apresentem elementos disruptivos, novos e contemporâneos para que possamos mudar a situação do país. Acredito que temos que romper com a polarização atualmente estabelecida no país, através de alternativas que buscam um centro democrático e humano, que possam juntar as correntes todas do progressismo.

“Não dá mais para a cultura ser um departamento isolado no governo, ela precisa ser eixo central do desenvolvimento econômico e social do país”, explica Alê Youssef

ARTE!✱ – Como tem sido a aceitação dessa proposta por parte dos partidos, dos candidatos e de outros movimentos políticos?

A nossa ação pretende expor os problemas atuais para que a cultura seja levada em conta e seja colocada no centro do desenvolvimento econômico e social do país. Consideramos a cultura esse vetor que pode unir, assim como achamos que vários outros setores também podem ter essa visão de defesa e união, uma visão abrangente, tolerante e inclusiva, para que possamos chegar a uma situação diferente dessa polarizada que vivemos hoje. O que temos percebido é que no meio cultural muita gente tem aderido à ideia de colocar a cultura num lugar de destaque. Muita gente quer sair dessa lógica de ser usado, eleição após eleição, por candidato A, B e C, mas depois nada acontecer do ponto de vista concreto e nosso setor seguir desvalorizado.

ARTE!✱ – De que forma a cultura pode assumir esse papel?

Acreditamos que não dá mais para a cultura ser um departamento isolado em cada governo, com um orçamento pequenininho que vai ser disputado a tapa por diversas linguagens, gerando uma série de problemas que inviabilizam o posicionamento do setor nesse lugar estratégico de desenvolvimento econômico e social. A cultura precisa passar a ser vista como um assunto de desenvolvimento econômico, de fazenda e economia, de trabalho e renda, de educação, de saúde, de segurança. Acreditamos nessa centralidade. É para isso que estamos lutando. Então, nosso projeto é tolerante e aberto para todos que compreendam essa função.

ARTE!✱ – No período de pandemia, tem-se falado muito da arte como um “respiro”, uma “válvula de escape” para este momento. Acredita que essa relação pode ser uma forma de enxergarmos a cultura com mais importância no futuro?

Acho que a arte de fato exerceu um papel fundamental. O que seria ter um isolamento social (ou as regras impostas pela nossa questão sanitária) se não fossem as séries, as novelas, as músicas e os livros? Acho que isso traz a necessidade de valorização do papel do trabalhador e da trabalhadora da cultura como figuras fundamentais na construção de elementos essenciais para a existência humana. Por consequência, traz a valorização da própria cultura em si, como sendo estratégica e vital. Acho importante a gente usar essa óbvia importância para aniquilar de uma vez por todas os discursos de ódio que se formaram contra o nosso setor, e construir essa agenda virtuosa e positiva em torno da colocação da cultura num eixo estratégico de desenvolvimento. Pode parecer distante diante dos repetidos ataques que temos sofrido por parte do governo federal, mas nós temos um ponto de partida muito importante que são as eleições municipais. A gente sabe a importância das cidades – das capitais, especialmente – nessa defesa. A partir dessas eleições municipais, é possível criarmos uma rede que seja uma espécie de anteparo nessa defesa do setor. São Paulo, por exemplo, teve um contraponto muito importante e necessário ao governo federal, tivemos muitas ações fundamentais para que defendêssemos a cultura diante de tantos ataques.

ARTE!✱ – Você fala que, nesse momento de pandemia, a importância da cultura ficou explícita. Porém, ainda há quem diga que outras necessidades de investimento (como a saúde) se evidenciaram ainda mais e devem ser prioridade. Como defender a importância da cultura frente a uma crise sanitária? 

Essa situação de contraponto não existe, porque não existe você tirar recursos de uma área para colocar em outra. Existem orçamentos robustos e fundamentais nessas áreas absolutamente cruciais e eles precisam ser bem executados. A cultura também pode exercer um papel importante no complemento das ações governamentais em diversas áreas, impactando inclusive na saúde (mental, por exemplo) e na educação (com um papel pedagógico fundamental, que já exerce naturalmente). Acho que faz parte da sociedade polarizada, antagonizar tudo. O “não vamos investir em cultura porque é menos importante”, é um “não vamos investir em mais nada além do que é uma coisa obviamente importante”. Em nenhum momento se deixará de investir o que se tem que investir nessas áreas absolutamente fundamentais e estratégicas, o que não significa que nós temos que abdicar do investimento na cultura para que isso aconteça. Também não significa que esse investimento não seja estratégico. Você tem que ter uma visão holística na gestão. Essa visão [de que a área é menos importante e deve ceder verba] é resultado desse processo de polarização e criminalização que vemos o setor permanentemente envolvido. É muito mais isso do que a efetiva constatação da cultura como menos importante, entende? 

Da mesma forma que nós temos a reação da barbárie contra a cultura, temos processos virtuosos de reação e de afirmação da importância do setor – como é o caso da votação da Câmara de São Paulo com a aprovação da contratação de atividades culturais online, da aprovação da Lei Aldir Blanc etc. As forças da sociedade estão vivas, elas não são estáticas e a gente precisa exercer o papel de influência da cultura e mostrar o quanto ela é fundamental nos dias de hoje. 

ARTE!✱ – Neste ano, vocês começaram a agir nesse sentido lançando o programa Capital da Cultura. Pode falar um pouco mais sobre ele?

O programa Capital da Cultura foi inspirado no programa que desenvolvemos em São Paulo, que criou uma dinâmica de movimentos estratégicos para que a gente fizesse a gestão cultural efetiva da cidade. Nós entramos na Secretaria Municipal de Cultura com a o setor bastante fragilizado e, então, criamos um projeto que enfrentasse o obscurantismo e reafirmasse a cultura como abordagem fundamental para a redução das desigualdades. O Capital da Cultura é organizado em movimentos estratégicos interconectados, que são: calendário-integrado, difusão, pertencimento, memória, formação, incentivo, novo modernismo (reconhecer e convocar as expressões artísticas que emergem das periferias, revigorando a percepção sobre a produção cultural e fortalecendo o multiculturalismo), fomento, reconhecimento e, para amarrar tudo isso, tem a gestão – que é a ideia de ser capaz de formular políticas públicas baseadas em evidências. Isso é muito importante na cultura, a gente precisa buscar evidências, criando mecanismos de participação e transparência para permitir inovações e reconhecimento do próprio servidor. A gente tem que aproximar a ideia do gestor cultural do gestor público e acabar com essa ideia de que o pessoal da cultura não sabe gerir. 

Estrutura do Programa Capital da Cultura. Ilustração: Divulgação/Bloco da Cultura

Algumas das propostas concretas são: remodelar a política de fomento de maneira estratégica, tendo tanto um voltado para as linguagens (dança, teatro, música, etc.), como a possibilidade de fazer fomentos estruturantes – como em São Paulo foram criados o Fomento de Cultura da Periferia e Fomento das Culturas Negras; a vinculação de políticas de renúncia fiscal a métricas e indicadores de desigualdade, sendo uma ação concreta de transformação das leis de incentivo do setor; e a compreensão de quem são esses novos agentes da cultura brasileira. Quem são os novos modernistas? Quem são as pessoas que estão revigorando e reorganizando a cultura do Brasil? Dessa forma, buscando uma percepção da cidade mais modernista e menos bandeirante. Entre diversas outras ações. 

ARTE!✱ – Acredita que os próximos passos do Bloco da Cultura são tornar iniciativas permanentes dessas ações e a expansão para outros territórios e para o âmbito federal?

Acredito que a nossa principal busca, neste momento, é apresentar um programa de dez movimentos estratégicos para que toda capital brasileira possa ser considerada também uma capital da cultura. Ou seja, torne-se uma espécie de central de difusão e de aglutinação de suas próprias experiências culturais. Dessa forma, teremos um mínimo denominador comum em todas as regiões do Brasil, para que possamos colocar o setor nesse outro patamar. É o primeiro passo que estamos dando. Em seguida, começamos o ciclo para reconstruir a estrutura pública cultural brasileira, que está sendo destruída pelo atual governo federal. Esse ciclo é muito importante e terá que ter a dimensão estadual e federal desse processo de reconstrução. Precisamos de uma grande mobilização da sociedade em torno dessa visão de futuro que coloque a cultura com essa centralidade. É um enorme desperdício e uma enorme perda de oportunidade não ter a cultura nesse local de centralidade.

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