"Épuras", "Linha de Terra", "Alfabeto da Reta" e "Projectante", de Edith Derdyd. Foto: Instagram da artista
Edith Derdyk é uma artista radical. Não se contenta em ficar na superfície das coisas. Está permanentemente experimentando, dando continuidade a uma pesquisa incansável acerca do desenho – seu tema e sua linguagem por excelência –, tentando entendê-lo não como mero instrumento de representação, mas como forma de estar no mundo. “Desenho não é só coisa de lápis e papel”, repete ela, parafraseando Mário de Andrade na tentativa de explicar seu combate permanente contra uma visão cartesiana, instrumental e reducionista do meio.
Em Linha de Chamada, pesquisa que nasceu da vontade de aproveitar o momento de paralisia da pandemia para repensar modelos e paradigmas, Edith parte de uma base muito específica. Elege como ponto de partida a Geometria Descritiva ou Mongeana, técnica desenvolvida pelo matemático francês Gaspard Monge (1746–1818). Originalmente destinada à engenharia militar, este método-base do desenho técnico, que permite representar esquematicamente máquinas, instrumentos, objetos em representações bidimensionais, é um agente fundamental da revolução industrial, tornando possível a repetição fiel e exata de modelos objetivos. Visualmente, remete à estética de movimentos como o construtivismo russo ou o futurismo italiano, marcados por um forte grafismo e intimamente vinculados à uma ideia otimista de progresso. E, na reconfiguração formal e poética de Edith, torna-se um material ao mesmo tempo físico e simbólico.
O que eram originalmente simples ilustrações de livros didáticos da década de 1950 recolhidos pela artista em sebos, transformam-se em ponto de partida para um processo de improvisação semelhante àquele desenvolvido por um DJ. São recombinados, condensados, desconstruídos, sampleados, gerando trabalhos de diferentes linguagens e intensidades. Alguns deles têm um caráter mais projetivo, são elaborados de forma mais calculada e vagarosa, no silêncio do ateliê, como a série Alfabeto da Reta, nas quais lida com questões como espelhamento e simetria. Ou o conjunto batizado de Épuras (formado por desenhos impressos e trabalhados em diferentes tipos de papel, que configuram uma espécie de arquivo de experimentações e serão reunidos num livro de artista, linguagem tantas vezes e tão bem explorada por ela. Outras obras trazem à tona uma forte pulsão construtiva, uma clara intenção de reconfiguração performática do espaço. É o caso de Projectante, instalação que a artista considera como uma espécie de pólo gerador de toda a exposição.
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Do conjunto "Épuras", de Edith Derdyk. Foto: Divulgação
Do conjunto "Épuras", de Edith Derdyk. Foto: Divulgação
Do conjunto "Épuras", de Edith Derdyk. Foto: Divulgação
Do conjunto "Épuras", de Edith Derdyk. Foto: Divulgação
É interessante notar que, apesar dos diferentes formatos e suportes, os trabalhos reunidos na mostra atual compartilham não apenas o anseio por questionar uma visão reducionista do desenho, como derivam de uma poética extremamente coerente, que vem sendo pouco a pouco construída por Edith, num longo processo iniciado ainda nos anos 1980. Neles estão evidentes as recorrências, que ela chama de “mitologias pessoais” e que constituem o chão no qual trabalha. A linha preta; o desenho que passa do plano para o espaço, numa clara vocação arquitetônica; o movimento inquieto e repetitivo do traço; um certo caráter de improviso são alguns desses elementos que compõem a gramática da artista.
Seu leque de procedimentos e gestos é enxuto, seco, mas seu leque de interesses é vasto. Edith parte de símbolos concretos como a Bíblia, ou de pequenos gestos da natureza como o vai-e-vem das formigas ou a sensibilidade construtiva das aranhas, para investigar estruturas fundamentais da ação humana. Associa poesia, religião, filosofia e, procura, incansavelmente encontrar o que está na base dos acontecimentos, mobiliza procedimentos artísticos e poéticos que permitem ao mesmo tempo questionar esse modelo unívoco de crescimento através da produção em série e propor uma reflexão acerca dos limites desse modelo vigente que, paradoxalmente, combina razão e insanidade.
Não se trata, de forma alguma, de uma rejeição à ciência ou a herança da modernidade, mas de uma necessidade premente de olhar para as nossas origens, voltar ao germe dessa idéia de desenho cartesiano, que condensaria em si essa idéia de progresso, de evolução pelo consumo e produção incessante, que nos tempos atuais dá claros sinais de esgotamento.
SERVIÇO ONDE: Galeria ArteFormatto (al. Gabriel Monteiro da Silva, 1364, São Paulo) QUANDO: de 16 de outubro a 16 de novembro
Fachada da ARCA, na Vila Leopoldina. Foto: Divulgação/ Arca
A 17ª edição da SP-Arte, maior feira de arte do país, acontece este ano entre os dias 20 e 24 de outubro, em São Paulo. Após uma série de edições no pavilhão do Ibirapuera e uma apenas em ambiente virtual, em 2020, a feira reúne 128 expositores na ARCA, no bairro paulistano da Vila Leopoldina. A SP-Arte 2021 não deixa de acontecer também no universo online, adotando este ano formato híbrido.
Entre as galerias de arte, a feira reúne casas brasileiras já estabelecidas como Millan (SP), Luisa Strina (SP), Bergamin & Gomide (SP), Fortes D’Aloia & Gabriel (SP-Rio), Silvia Cintra + Box 4 (RJ) Almeida & Dale (SP), Dan Galeria (SP), Pinakotheke (SP), Mendes Wood DM (São Paulo-NY-Bruxelas), Nara Roesler (São Paulo-NY-Rio de Janeiro), Jaqueline Martins (São Paulo-Bruxelas), Karla Osorio (Brasília) e Paulo Darzé (Salvador). Entre as estreantes, estão jovens galerias como Quadra (RJ), HOA (SP) e Projeto Vênus (SP), com foco em artistas emergentes e práticas artísticas renovadas.
Estão presentes também nomes internacionais, entre eles Galleria Continua (Brasil, Itália, China, Canadá, Cuba e França), Galeria de las Misiones (Uruguai), Opera Gallery (EUA), Piero Atchugarry Gallery (EUA), Marian Goodman Gallery (EUA, França e Inglaterra), Galeria de Arte Patricia Ready (Chile) e Galería SUR (Uruguai).
No espaço anexo à ARCA, o STATE, estarão presentes com livros de artista e publicações especializadas as editoras Cobogó, Ubu, Familia Editions, Ikrek e Taschen, BEI, ArtNexus, Desapê, Edições SESC, Fotô Editorial e Olhares. O Viewing Room desta edição contempla também sete lojas de design: ETEL, Artemobilia Galeria, Jacqueline Terpins, Mobília Tempo, Passado Composto Século XX, Sandra & Marcio e Hugo França.
Espaço interno ARCA. Foto: Divulgação/ Arca
Por fim, no espaço virtual destinado às instituições culturais estão Pinacoteca do Estado (SP), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), Instituto de Arte Contemporânea (IAC), Instituto Inhotim (MG) e Instituto Tomie Ohtake. Entre os projetos artísticos especiais já confirmados participam 01.01 Art Platform, Casa Chama, Levante Nacional TROVOA, Espaço Delirium e Piscina.
Programação
Neste ano, as discussões, debates e visitas de ateliês da edição acontecem tanto virtual quanto presencialmente. “Pensou-se em uma programação ampla, que contemplasse desde assuntos atuais relacionados ao mercado da arte até a promoção de debates entre artistas, galeristas e curadores”, comenta Fernanda Feitosa, fundadora da SP-Arte.
O Viewing Room contará com curadorias exclusivas feitas por Catarina Duncan, Diane Lima, Pollyana Quintella, Ricardo Sardenberg, Tiago Mesquita e a especialista em design Winnie Bastian. Cada um dos seis profissionais selecionou dez obras a partir de um tema livre de acordo com sua pesquisa e elaborou um texto guia sobre o assunto.
Presencialmente, há ampla programação no STATE, espaço vizinho ao ARCA. A exposição Arte e tecnologia: uma revolução em curso, com curadoria de Ana Carolina Ralston, ocupa o galpão com cerca de vinte trabalhos. “Estão reunidas obras de artistas nacionais e internacionais e de diferentes gerações que, em comum, desdobram suas pesquisas utilizando a tecnologia como processo intrínseco de suas criações. A mostra visa discutir o lugar da tecnologia em cada produção, seja ela gerada e nascida na esfera digital ou materializada pelos recursos e reflexões que a própria nos possibilita”, afirma a curadora. Por sua vez, o Talks ocupa a arquibancada do STATE, assumindo um novo formato com conversas informais entre profissionais da arte e o público da feira. Confira abaixo:
20 de outubro, às 14h: A Casa Chama promove uma conversa entre os fundadores da ONG, Digg Franco, Matuzza Sankofa e a artista Cinthia Marcelle, em torno da importância da visibilidade e reconhecimento das produções artísticas de pessoas trans.
20 de outubro, às 16h: Potência Ativa é uma articulação de projetos de arte que debatem as urgências do mundo e geram recursos para organizações que trabalham diariamente no front das lutas sociais. Foram convidadas para falar sobre o projeto, as integrantes Maíra Marques e Gabriela Davies acompanhadas pela artista e pesquisadora Fabiana Faleiros .
20 de outubro, às 18h30: A curadora Ana Carolina Ralston conversa com Eduardo Kac e Giselle Beiguelman, artistas que participam da mostra Arte e tecnologia: uma revolução.
22 de outubro, às 14h: Central Galeria promove um encontro entre a artista Gretta Sarfaty e a pesquisadora da arte Mirtes Marins de Oliveira, âncora do podcast da SP-Arte, sobre o processo de reedição do livro Auto-Photos, um fac-símile de uma edição rara de 1978.
22 de outubro, às 16h: O galerista Thiago Gomide conversa e apresenta a artista Luiza Crosman.
22 de outubro, às 18h: O artista Francisco Hurtz, da Verve Galeria, conversa com o jornalista Mateus Nunes sobre o encontro entre sua produção artística e a do fotógrafo Alair Gomes.
23 de outubro, às 14h: Promovida pela Casa do Povo, a mesa Espaços Autônomos e Dependências Táticas convida Benjamin Seroussi (Casa do Povo), Mauro Restiffe (artista) e Eliana Finkelstein (diretora-sócia da Galeria Vermelho) para uma conversa sobre as colaborações entre os diferentes agentes do sistema da arte.
23 de outubro, às 15h: Lançamento do livro Fernando Zarif – Múltipla Unidade
23 de outubro, às 18h: A 01.01 Art Platform promove o encontro Abdias Nascimento, Mestre Didi e a arte africana contemporânea, com mediação e apresentação da artista Ana Beatriz Almeida.
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"Sintonizada", 1969, de Sepp Baendereck, na Galeria MaPa. Foto: Divulgação SP-Arte
"Aceita (Oxalá)", 2019, Moisés Patrício, na Galeria Karla Osorio. Foto: Divulgação SP-Arte
Fumaça, 2020, de Bernardo Glogowski, na Casanova. Foto: Divulgação SP-Arte
"Saint Sebastian", 1994-2021, Miguel Rio Branco, na Galeria Millan. Foto: Divulgação SP-Arte
Organizada pela consultora e especialista no mercado de arte Vivian Gandelsman, a SP-Arte Experiências Digitais complementa o ciclo de palestras. A atividade integra um movimento que busca sustentabilidade no mercado de arte digital e reúne, em uma série de conversas na quinta-feira 21 de outubro, uma rede de profissionais que estão em constante diálogo e enfrentam desafios comuns. Confira:
21 de outubro, às 16h40: O artista Thiago Martins de Melo e o designer Raul Luna conversam sobre o processo criativo e a concepção da exposição digital Animal Crepuscular, realizada ano passado; e Vivian Gandelsman conta do processo de venda do Animal Crepuscular e do mapeamento de compradores.
21 de outubro, às 17h25: O colecionador Bernardo Faria e Vivian Gandelsman falam sobre o mercado da arte digital e, mais especificamente, sobre a criptomoeda NFT.
21 de outubro, às 17h45: A artista Vitória Cribb apresenta relações entre seus processos tecnológicos criativos, formalização e perspectivas pessoais na produção artística digital.
21 de outubro, às 18h20: A artista Ode apresenta Notas sobre Travecaceleração, pensamento sobre a negritude ladeada pela travestilidade enquanto práticas de desmonte capital-colonial cisgênero da artista.
21 de outubro, às 18h40: A artista Dani Pinheiro e o dramaturgo João Turchi, do grupo Mexa, contam sobre as ações do coletivo, que transitam entre arte e política, além de abordar as práticas transdisciplinares e colaborativas de projetos digitais.
Fique atento também ao Instagram da SP-Arte e das diversas galerias. O projeto Cápsulas, por exemplo, uma realização da Galeria Jaqueline Martins, apresenta conversas conduzidas por Lisette Lagnado e Mirtes Marins com convidados como Sandra Benites, Anita Eckman, Denilson Baniwa e Edgar Caleo.
Protocolos na pandemia
Para a feira presencial na ARCA a SP–Arte adota uma série de medidas de segurança: a compra do ingresso (de R$ 25 a R$ 50) acontece apenas online e mediante agendamento, com capacidade de público limitada; para o acesso ao evento será necessário apresentar comprovante de vacinação (impresso ou digital) ou um teste negativo para a Covid-19, realizado em, no máximo, 48 horas anteriores à data de visitação ao evento. Os interessados podem realizar o teste na Drogasil, com custo de mercado, aos visitantes que forem à SP-Arte.
No local, também haverá verificação de temperatura, além da recomendação de distanciamento social de, no mínimo, 1,5 m entre as pessoas. O uso da máscara é obrigatório para a permanência no local.
“Discutir a arte e a cultura é missão árdua, ainda que a Constituição Federal brasileira, promulgada em 1988, traga em suas linhas a previsão de que se trata de direito garantido”, afirma a Comissão de Direito das Artes da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo) na introdução do seu novo livro O Direito das Artes, uma visão jurídica da cultura, disponibilizado online de forma gratuita.
Capa do e-book “O Direito das artes: uma visão jurídica da cultura”
Logo no primeiro capítulo do e-book, a presidente da comissão, Cindia Regina Moraca, observa: “O preconceito, o conservadorismo e o desconhecimento da importância da cultura e da arte como agentes de educação são os principais motivos que vêm dizimando a história cultural brasileira e, principalmente, o acesso às políticas públicas de fomento e incentivo à cultura e às artes”. É com o objetivo de combater a desinformação e com a intenção de ampliar o acesso a todo tipo de conhecimento que se origina na cultura e nas artes que surge a proposta deste livro. Antes disso, Cindia conta que a comissão se reúne para debater os temas da atualidade, promover encontros com grupos, órgãos e entidades que atuam nesse setor, no sentido de colaborar com o entendimento do papel da advocacia nas relações permeadas por cultura e artes.
Seguindo a introdução da presidente, a coletânea de artigos retoma cronologicamente à reabertura política e à Constituição Federal de 1988. Sobre ela, Rodrigo Guimarães Buchiniani destaca a inovação ao estabelecer o dever de garantir o pleno exercício por artistas e público dos direitos culturais de acesso às fontes da cultura, incentivo, valorização e difusão das manifestações de diversos grupos participantes do processo civilizatório nacional. “O texto normativo, ao conceituar o patrimônio cultural brasileiro, esclarece que pode ser constituído de bens de natureza material e imaterial desde que tombados por procedimento específico para serem reconhecidos como portadores de referência à identidade, à ação, à memória, às formas de expressão, aos modos de criar, fazer e viver e às criações artísticas”, aponta.
Mais à frente, no capítulo 4 do livro, Iago Camilo Fernandes de Sousa se desdobra justamente sobre o tema do patrimônio cultural, fornecendo uma breve explicação da relação entre a sua proteção e o direito internacional. Iago assinala que no artigo primeiro da Carta das Nações Unidas, entre os problemas internacionais que merecem atenção e cooperação internacional são listados aqueles de caráter cultural, junto aos econômicos, sociais e humanitários. “A cultura enquanto valor ganha tamanha relevância que um dos objetivos da entidade é que os Estados e demais organismos cooperem para lidar com questões culturais”, escreve. “E nesse sentido, um dos caminhos é a proteção do patrimônio como corolário do desenvolvimento, emancipação e preservação da identidade dos povos”, adiciona Iago. No mesmo capítulo, o advogado explica o papel da UNESCO nessa seara e lista alguns acontecimentos de relevância ao longo dos anos que ajudaram a reconhecer a gravidade da preservação cultural. Entre eles a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, adotada na Conferência Geral da UNESCO de 2003.
“A aprovação desta Convenção levou em conta os efeitos do processo de globalização e de transformação social e a consequente necessidade de se criarem condições, através de compromissos assumidos entre os Estados, de salvaguardar o patrimônio imaterial enquanto vontade universal”. Reconhecendo, por exemplo, que comunidades, grupos e indivíduos desempenham um importante papel na produção, salvaguarda, e manutenção desse patrimônio.
O capítulo seguinte complementa e expande a discussão sobre patrimônio imaterial iniciado na seção anterior do livro. Nele, Marjorie Prado Junqueira de Faria frisa que há instrumentos de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial, leis que os resguardam, e questiona: “O que falta para evitar a estética do apagamento no território?”. Ela ressalta a urgência do debate sobre instrumentos processuais jurídicos de prevenção ao desaparecimento de manifestações culturais tradicionais “de modo a evitar atos lesivos a esta geração e às próximas”. Memória é a identidade em ação, como ela aponta.
Partindo para o campo comercial, Tais Capito e Luiz Guilherme Veiga Valente abordam o direito da propriedade intelectual e a aproximação entre o mundo da arte e das marcas comerciais, do qual eles fazem o alerta que é preciso observar determinados cuidados do ponto de vista jurídico. “Legalmente, marcas e obras artísticas (sejam pinturas, esculturas, livros ou filmes) são protegidas por tipos diferentes de Propriedade Intelectual: respectivamente, o Direito Marcário e os Direitos Autorais. Cada regime tem suas próprias regras, escopos e limitações”, afirmam. Desse modo, o artigo visa informar tanto empresas como artistas quanto aos direitos que lhes cabem sobre suas respectivas marcas e obras, bem como os cuidados para se evitarem violações aos direitos de terceiros.
“Considerando-se a possibilidade quase infinita de reprodução de exemplares de uma mesma obra (especialmente no cenário digital), os Direitos Autorais são um mecanismo para atribuir ao autor uma forma de controle, tanto do ponto de vista econômico, como do conteúdo, sobre sua criação”, explicam. E chamam atenção para o artigo 24 da Lei de Direitos Autorais: “Nesse sentido, ela assegura ao criador as prerrogativas de ter a autoria atribuída (ou omitida, se assim quiser) à obra; de opor-se à atribuição de autoria a terceiros que não o criador; de manter a integridade da criação; de modificá-la; de conservar seu ineditismo, de tirá-la de circulação e de ter acesso a exemplar único e raro”.
Ao considerar os direitos culturais dentro do mercado, o e-book não deixa de abordar a relação dos artistas com as galerias, a evicção e os riscos decorrentes da informalidade nessa associação. No capítulo 6, Gustavo do Abiahy Carneiro da Cunha Guerra indica que: “Quando há a iniciativa para a formalização da relação, ela costuma partir do galerista, o que não é de todo uma surpresa, por ser este o agente habituado ao ambiente negocial, e não o artista. Mas pela mesma razão, os galeristas menos organizados costumam manter relacionamentos com grande informalidade e até mesmo de maneira não transparente com alguns de seus artistas. Nesses casos, maior será a informalidade quanto menos famoso for o artista em questão”.
Para Gustavo, a não habituação do artista no ambiente negocial pode vir de uma certa imagem pejorativa do artista preocupado com a comercialização ou com os lucros das suas obras. “Parece haver muito mais valor naquela arte que não tem finalidade lucrativa ou comercial, como se fosse uma arte mais autêntica ou mais pura, talvez pela suposição de que se trate de uma expressão artística livre de influências.” O autor aponta que embora a obra artística não tenha como objetivo ser lucrativa, evitar o diálogo transforma o aspecto comercial das obras em um grande tabu. Para ele é indispensável que a natureza da relação entre artista e galerista seja delimitada: “O galerista se responsabilizará por algum dos custos do artista? Se não dos materiais como tintas e telas, ao menos do transporte das obras? A quem incumbe contratar seguros? Quem as inscreverá em prêmios, concursos, exposições e editais? Caso a obra seja vitoriosa em alguma dessas iniciativas, como se dará a divisão dos resultados?”. Essas questões podem parecer pequenas no início de qualquer relação, mas sua importância se mostra conforme o tempo passa e a parceria se desenvolve, ele afirma.
Ainda, em O Direito das Artes, uma visão jurídica da cultura, se fala sobre os direitos dos autores quando há adaptações da literatura para o audiovisual. Já o artigo que fecha a coletânea da OAB, escrito por Guilherme Genestreti, aborda a regulação dos serviços de streaming, que também leva em consideração a preservação de locais de cultura como os cinemas de rua e a necessidade ou não de uma cota para produções nacionais nas plataformas desses serviços. “Se outros setores da economia brasileira, como o alimentício e o automobilístico, encontram proteção diante da concorrência com o equivalente estrangeiro, por que motivo ficaria de fora o audiovisual, que é uma indústria que estampa na tela a identidade brasileira?”, questiona o autor.
"Ha... Ha... Ha...", 1968-2009, Gilberto Salvador. Fotos: Lucas Evangelista e Paula Campoy/ Galeria Frente
A exposição Memórias Resistentes, em cartaz na galeria Frente a partir de 16 de outubro, é quase um acerto de contas de Gilberto Salvador com as certezas ideológicas/afetivas que pulsavam à flor da pele no ano de 1968. O artista teve duas de suas obras parcialmente destruídas no Salão de Arte Contemporânea de Santos – ambas premiadas no evento pelo júri formado por, entre outros, Aracy Amaral e Fabio Magalhães, que também laurearam Antonio Henrique Amaral. Paralelamente ao episódio, sucessivas ameaças obrigaram Gilberto Salvador a se refugiar no sítio de um amigo por alguns meses. Era o momento pesado da ditadura militar que tomara o poder no Brasil com o golpe de 1964. Meses depois, de volta do exílio compulsório, ciente das novas condições artístico/ideológicas, participa da 9a Bienal de São Paulo com trabalhos diferentes, de estilo mais geométrico e voltados para o gesto. “Mostrei três grandes esculturas que hoje integram o acervo da Pinacoteca de São Paulo.”
A mostra traz as duas obras censuradas: Um, Dois, Três, alusão ao domínio americano no Brasil, e Há… Há… Há…, uma paródia sobre os Estados Unidos e a liberdade sexual dos jovens brasileiros com a descoberta da pílula anticoncepcional. Com a curadoria de Fabio Magalhães, o conjunto evidencia o desequilíbrio sociopolítico cultural da década que respingou no sistema da arte. Era o momento de transições ideológicas e comportamentais que deram voz aos jovens e os colocaram como protagonistas das principais mudanças daquela época.
“Bang”, 1969, Gilberto Salvador. Fotos: Lucas Evangelista e Paula Campoy/ Galeria Frente
A exposição abrange de 1966 a 1969 com uma reflexão que avança em dois sentidos: o momento da ditadura e a situação caótica que o Brasil enfrenta hoje. “Espero que eu tenha deixado claro qual foi a tomada de posição naquele momento e consiga fazer entender as diferenças que separam os anos 1960 dos dias de hoje.” Cada um desses trabalhos agrega vários elementos figurativos executados com uma superfície de contaminação colorista intensa. Neste cenário, Gilberto Salvador desenvolve múltiplas narrativas e seu gesto é como uma irrupção no espaço cotidiano, com o mesmo princípio reciclador que aplica na pintura.
Chama atenção a obra BANG, potencializada pela camada vermelha transparente aplicada sobre a foto, em clara alusão à truculência da Guerra do Vietnã. Como observa Fabio Magalhães, “Gilberto Salvador dinamiza a ação visual do tema e transforma a narrativa em um confronto entre a obra e o espectador. Ou seja, constrói uma linguagem que nos impulsiona para o centro da cena”. A assemblagem traz cenas retiradas dos jornais, como a foto realizada pelo jornalista Eddie Adams em 1º de fevereiro de 1968 nas ruas de Saigon. Um militar do Vietnã do Sul aponta para a cabeça de um prisioneiro e Adams clica a cena segundos antes do disparo. Essa fotografia lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de 1969.
Vista geral da exposição. Fotos: Lucas Evangelista e Paula Campoy/ Galeria Frente
Gilberto Salvador começou na arte muito jovem. Em 1965, aos 18 anos, realizou sua primeira individual na galeria do Teatro de Arena, a convite do ator e diretor Gianfrancesco Guarnieri, com texto assinado pelo igualmente jovem compositor Jorge Mautner. Nesse momento ele estava ligado ao expressionismo, mas logo depois se engaja na Nova Figuração. “Minha ligação com uma linguagem internacional, no caso a pop arte, não era tão significativa. Eu tentava passar uma mensagem política com uma direção muito específica.”
Quatro anos depois, com posição política muito definida, ele participa da chamada Bienal do Boicote, quando é realizado um protesto internacional. No entanto, ele e muitos outros artistas brasileiros não aderem. “Me mantive com a posição do partido e com o crítico Mário Schenberg, também de esquerda e que organizou uma sala de jovens brasileiros da qual eu fiz parte. O partido dizia para nunca ter uma atitude derrotista, o importante é estar sempre presente, mesmo que seja na resistência”. Para ele, não participar daquela Bienal, no ápice da ditadura, seria aceitar a ditadura como ela é, assim eles tinham que correr o risco. “Eu estive em uma reunião em Buenos Aires e havia todo um movimento contra a Bienal e ali mesmo eu declarei que iria expor”.Ele apresentou Ação Dialética Sobre…, que aborda o tema da Guerra do Vietnã, um grito rebelde contra as atrocidades do conflito.
“Zet 4, 5 e 6”, 1967, Gilberto Salvador. Fotos: Lucas Evangelista e Paula Campoy/ Galeria Frente
Qual o sentido de retomar esse período nos dias de hoje? Passado tanto tempo, Gilberto Salvador sente que agora é a hora de mostrar essas obras, não só por causa do tenso momento político brasileiro, mas por razões pessoais. “Estou com 74 anos e com uma síndrome pós-pólio super adiantada. Brinco com os meus filhos que a minha ampulheta virou e não vai girar novamente. Então, eu que tenho uma obrigação para com o meu trabalho e devo mostrar esse momento, que é um momento germinal de toda minha produção.”
SERVIÇO ONDE: Galeria Frente (R. Dr. Melo Alves, 400, Cerqueira Cesar, São Paulo) QUANDO: de 16 de outubro a 16 de novembro de 2021
Vista da exposição Temporada de Projetos 2020, em cartaz no Paço das Artes até 7 de novembro. Foto: Bia Stein/Paço das Artes
Fomentar a produção, reflexão e memória da arte é o objetivo do Paço das Artes desde sua criação, há 50 anos. Buscando dar enfoque também às produções não legitimadas pelo circuito oficial e oferecer subsídios para artistas, críticos e curadores, a instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo desenvolveu a Temporada de Projetos, que em 2021 chega à seu 25º ano de atuação como um dos mais longevos editais de arte contemporânea do Brasil.
Anualmente é lançada uma convocatória que seleciona trabalhos artísticos e curatoriais. Os projetos selecionados pelo júri especializado compõem uma exposição na sede do Paço das Artes – contando com cachê de participação e verba para a montagem dos projetos – e são publicados em um livro sobre a mostra. Leda Catunda, Marcos Chaves, Adalgisa Campos, Lenora de Barros, Jorge Menna Barreto e Regina Parra são alguns dentre os muitos nomes que já passaram pela iniciativa.
Até o dia 22 de outubro estão abertas as inscrições para a edição 2021/2022, que destinará aos selecionados prêmios de R$ 2.000 (para os artistas) e R$ 4.000 (para o projeto de curadoria). O edital também prevê acompanhamento crítico, verba para produção das obras e montagem das exposições, além de ajuda de custo caso os participantes residam fora da cidade de São Paulo. Os critérios de seleção contemplam múltiplas manifestações artísticas e a instituição afirma que “os concorrentes terão ampla liberdade quanto às linguagens de arte contemporânea desenvolvidas em seus projetos”.
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"Peso Da Biblioteca Ausente", de Simone Moraes, contemplado pela Temporada de Projetos 2019/2020. Foto: Divulgação
"Força Volátil", Fernando Soares, obra contemplada pela Temporada de Projetos 2019/2020. Foto: Divulgação
"Brasília", Bruno Faria, parte da série "Lembranças de Paisagem", selecionada na Temporada de Projetos 2019/2020. Foto: Divulgação
"Um dia com os Friesser", Ana Caroline de Lima, produção selecionada na Temporada de Projetos 2019/2020. Foto: Divulgação
Para participar, é necessário preencher o formulário fornecendo currículo, textos conceituais, memorial descritivo, cronograma de execução e orçamento. O resultado será divulgado em novembro de 2021 no site do Paço das Artes. Em paralelo à convocatória, segue em cartaz até 7 de novembro a exposição da Temporada de Projetos 2019/2020, adiada em decorrência da pandemia de Covid-19. É possível visitá-la gratuitamente na sede da instituição de terça a sábado, das 11h às 19h, e aos domingos e feriados, das 12h às 18h.
“O rio é uma serpente porque se esconde e camufla, e entre o imprevisível e o mistério, cria estratégias para o seu próprio movimento.” Assim sintetiza o texto curatorial da terceira Frestas – Trienal de Artes, que partindo de uma cosmovisão decolonial manteve foco nos diálogos de seu processo e agora os leva ao Sesc Sorocaba em uma exposição final, que dá continuidade às reflexões encontradas no percurso. Com curadoria de Beatriz Lemos, Diane Lima e Thiago de Paula Souza e assistência curatorial de Camila Fontenele, a edição recebeu o título O rio é uma serpente e contou com uma ampla programação, incluindo viagem curatorial pelo Norte e Nordeste do país, programa de formação de professores, programas de estudos com artistas, curso de expografia, mentoria e uma publicação educativa (saiba mais sobre os projetos, clicando aqui).
Participam da mostra 53 artistas e coletivos de diferentes nacionalidades. São nomes
do Brasil, África do Sul, Bolívia, Chile, Colômbia, Estados Unidos, França, Holanda, México, Peru, República Dominicana e Suíça que exibem obras nos mais diversos suportes, de pinturas a instalações e performances. “Esse grupo de artistas tem a ver com um interesse nosso de pesquisa, da curadoria, em entender quais são as narrativas possíveis dentro do campo da arte contemporânea que excedem a linearidade de uma história da arte ocidental. Então estamos falando de um grupo de artistas que são majoritariamente negras e negros, dissidentes, indígenas e que [quando brasileiros] habitam outras geografias do país que não as localizadas no eixo Rio-São Paulo”, explica Diane Lima.
A arte!brasileiros visitou a exposição e conversou com a curadora Diane Lima. Assista ao vídeo:
O rio é uma serpente, exposição da terceira Frestas – Trienal de Artes, fica em cartaz até 30 de janeiro de 2022 e pode ser visitada gratuitamente, mediante agendamento prévio. É necessária apresentação de comprovante vacinal, a utilização de máscara durante toda a visita e a medição de temperatura dos visitantes na entrada da unidade.
Leia também a crítica de Fabio Cypriano, clicando aqui.
Vista da exposição individual de Alex Flemming, "Alturas", em cartaz na Arte132. Foto: Henrique Luz/Divulgação
“Temos particular interesse na produção menos conhecida dos [artistas] mais reconhecidos pelo circuito brasileiro das artes e, também, na produção dos consagrados pela história da arte brasileira, mas que demandam revisão. Contudo, a arte de um país e de um período não é constituída apenas por alguns nomes definidos pelo mercado, mas por todos os artistas que desenvolveram um entendimento do Mundo e do Homem num momento. Pretendemos reincluir nomes no cenário das galerias e instituições”, conta Telmo Porto. Fundador da Arte132, é assim que ele define os rumos da nova galeria, inaugurada em agosto de 2021 em Moema, zona sul da cidade de São Paulo.
Mais do que uma galeria tradicional, a Arte132 pretende se projetar como espaço múltiplo, promovendo discussões e cursos com especialistas – que interdisciplinarmente envolverão temas como artes visuais, história, literatura, música e humanidades -, bem como recitais de música, tornando-se um lugar de encontro.
Engenheiro de formação, Telmo Porto lecionou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo por 40 anos, mas sempre teve a arte como um de seus pontos de maior interesse. Conselheiro e patrono de museus em São Paulo, ele agora abre a galeria como um das frentes de sua atuação no cenário artístico brasileiro. “O que se pretende oferecer são obras que reflitam o tempo em que foram criadas, contemporâneo e passado, e que possam ser adquiridas como testemunho. Obras que mantenham seu poder de propor e deslumbrar”, conta sobre o projeto. E complementa: “Queremos mostrar e oferecer arte de qualidade ao maior número de pessoas possível. Entre o grande colecionador, com apoio curatorial, e a jovem família, que quer ter arte relevante em sua parede, mas enfrenta restrições orçamentárias”.
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Vista da exposição "Alturas", individual de Alex Flemming na Arte132. Foto: Suzana Mendes
Obra de Alex Flemming com as alturas de Hélio Campos Mello, Paulo Mendes da Rocha, Gil Vicente, Emanuel Araújo e German Lorca. Foto: Divulgação
Obra de Alex Flemming com as alturas de José Wilker, Jorma Puranen, Marlene Almeida, Mariana Vassileva, Karin Aïnouz e Lia Chaia. Foto: Divulgação
Foi com uma exposição individual inédita de Alex Flemming, com curadoria de Angélica de Morais, que a casa abriu suas portas. Em cartaz até 16 de outubro, Alturas reúne obras da série homônima iniciada em 1988. São 15 pinturas de grande escala nas quais “sobre fundos abstratos, Flemming registrou a altura física de pessoas que admira e que foram ao seus ateliês (no Brasil ou na Alemanha). Não são registros de celebridades, são homenagens”, explica Porto em um dos vídeos sobre a mostra publicado no Instagram da galeria. “Nesta série, retrato concretamente a altura das pessoas do nosso tempo, com toda a carga artística que uma obra requer. A série é abstrata, mas também absolutamente real e concreta”, comenta Alex Flemming.
“Flemming apropriou-se e expandiu em pintura um antigo hábito incorporado ao cotidiano doméstico da sua família: medir o crescimento dos filhos. Quando garoto, habituou-se a ter sua altura conferida em uma régua de traços construída e acumulada em uma parede da casa ao longo dos anos. O procedimento, que ele replicou para todos seus retratados, consiste em tirar os sapatos e, de costas para uma tela in progress, ficar imóvel para também ter sua estatura mensurada”, explica Angélica de Morais no texto curatorial. E destaca: “Coerente com o foco de sua obra, fortemente ancorada na figura humana, ele substitui a imagem do corpo pelo índice da presença: a régua que informa a altura do retratado”.
Paulo Mendes da Rocha, Gilberto Gil, João Moreira Salles, German Lorca, Ayrson Heráclito, Eduardo Galeano, José Mujica são alguns dentre os tantos que tiveram sua estatura registrada. No total da série, “33% dos homenageados nessas telas são artistas plásticos brasileiros, 16% são artistas plásticos estrangeiros, 19% são fotógrafos, 6% cineastas, e há também atores e atrizes, esportistas, escritores, poetas, filósofo, bailarina e bailarino, cantores e cantoras”, explica Porto.
O artista padroniza o tamanho das telas para que constituam uma espécie de “Código de Barras da cultura de nosso tempo”. Para a curadora, o conceito de medir é subvertido nessas obras por outra escala de valores: a relevância cultural, “entendida aqui não só na esfera das artes mas também de outras atividades que, somadas, definem a cara do que é estar no mundo hoje e as muitas contribuições que tivemos para estruturar nossa própria visão de mundo, cada vez mais fragmentária e contingente, caleidoscópio de muitas facetas iluminadas que se completam por oposição ou complemento”.
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Obra da série "Alturas", de Alex Flemming, com as estaturas de Karla Woisnitza, Amelia Toledo, Robert Schad, Adriane, Guimarães, Sergio Paulo Rouanet e Dimitris Tzamuranis. Foto: Divulgação
Obra de Alex Flemming com as alturas de Cristina Canale, Anatolij Shuravlev, Milton Hatoum; Luiz Pizarro, Miguel Rotschild, Kurt Meyer-Clason, Frank Thiel e Cristina Pape. Foto: Divulgação
Obra de Alex Flemming com as alturas de José Roberto Aguilar, Fernanda Torres, Hudinilson Jr., Paulo Bruscky, Flávio Shiró e Nelson Ascher. Foto: Divulgação
SERVIÇO
Alturas, individual de Alex Flemming
Arte132: Av. Juriti, 132 – Moema, São Paulo (SP)
Visitação: Em cartaz até 16 de outubro. Segunda à sexta-feira, das 14h às 19h; sábado, das 11h às 17h
“Desde muito jovem sempre fui um apreciador de arte. Logo cedo me encantei com Kandinsky, Polock e Miró”, conta Claudio Steiner, um dos donos da steinART, escritório de arte recém transformado em galeria. No início dos anos 2000, Claudio e sua esposa Yael fundaram a steinART ao começar sua, até então, pequena coleção. Tendo Administração como formação, Claudio conta que, à medida que sua coleção crescia, o casal começou a analisar o mercado e vender obras quando sentiam que era o momento certo. Antes de montar seu escritório, ele havia trabalho 25 anos no mercado têxtil. “Após sair da empresa me aprofundei no mercado de arte, unindo minha experiência comercial com o amor à área. Comecei como art dealer, e nasceu a steinART como escritório de arte e agora galeria.”
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Visão geral do escritório da steinART. Foto: cortesia do escritório.
Visão geral do escritório da steinART. Foto: cortesia do escritório.
Visão geral do escritório da steinART. Foto: cortesia do escritório.
“Arte abstrata sempre foi a minha preferência, ela me emociona, me encanta, me provoca e me deixa em estado meditativo”, diz ele em referência ao foco da galeria: abstracionismo na arte contemporânea brasileira. No acervo da steinART, o diálogo se dá por uma geração de brasileiros e latino-americanos com trajetórias já construídas e que rompem com o modernismo e experimentam através de cores e texturas. Claudio conta que a motivação inicial para uma aquisição pela galeria é a estética e a qualidade da obra. “Em seguida investigamos a origem e certificação da obra. Recentemente adquirimos obras do Amílcar de Castro, Amélia Toledo, João Carlos Galvão, Almandrade, Yutaka Toyota, Ascânio e Eduardo Sued, entre outros.”
Embora estejam focados no mercado secundário, a steinART já colocou um pé no mercado primário com, por exemplo, a retrospectiva dos 60 anos de carreira do Yutaka Toyota com lançamento de seu livro na SP-Arte 2019. Na edição deste ano, a galeria irá expor 20 obras no viewing room da feira, com a continuidade do formato híbrido das feiras de arte. No entanto, Claudio confessa que a concretização das vendas, mesmo que iniciada pela internet, sempre acontece presencialmente. Ele nota, também, que apesar da preocupação inicial do mercado da arte, as vendas continuaram e com um aumento sensível do interesse das pessoas por obras de arte. “Inicialmente achei que os negócios fossem parar, porém foi o contrário: as vendas cresceram”, conta. Para o futuro, os donos da galeria planejam uma exibição de suas obras e a continuação dos seus trabalhos, também, como marchands e art advisors.
"A mulher de cabelos verdes", s.d., de Anita Malfatti. Foto: Reprodução/ Fund. A. Queiroz, Fortaleza CE
“A mulher de cabelos verdes”, s.d., de Anita Malfatti. Foto: Reprodução/ Fundação A. Queiroz, Fortaleza/CE
Às vésperas do centenário da Semana de Arte Moderna, é oportuno refletir sobre a crítica daquele que é visto como o intelectual que levaria o modernismo paulistano a ganhar dimensão pública: Monteiro Lobato. Como repete a historiografia oficial, teria sido a partir de seu texto “contra” Anita Malfatti que os modernistas, ainda em 1917/1918, começaram a se arregimentar[1].
Antes de entrar na crítica lobateana, minha intenção é introduzi-la num quadro mais amplo, deixando os limites do debate artístico de São Paulo na segunda década do século passado para pensar sua atuação na luta entre dois tipos de arte que, desde o final do século 19, estavam em disputa. Uma delas, a mais nova, impunha-se como potência insurgente; a mais antiga resistia às investidas da primeira, convocando forças para uma luta que, no final, se revelaria inglória. Me refiro ao embate entre a arte tradicional, que se estruturava desde o Renascimento, e a arte modernista que, surgida no século 19, buscava efetivar-se como um novo paradigma.
Traçar esse quadro permitirá compreendermos de forma menos circunscrita o papel desempenhado por Lobato como crítico. Na segunda parte examinarei algumas questões da crítica lobateana dentro desse quadro mais alargado.
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No livro Después del fin del arte – el arte contemporáneo y el linde de la história,[2] o filósofo norte-americano Arthur C. Danto propõe uma “era da arte” iniciada mais ou menos a partir de 1400. Sobre a produção anterior a essa data, o autor, tendo como referência o estudioso alemão Hans Belting, em Likeness and Presence: A history of the Image before the era of art, assim se manifesta:
Isso não significava que essas imagens não fossem arte em seu sentido amplo, e sim que sua condição artística não figurava na elaboração das mesmas, dado que o conceito de arte ainda não havia aparecido realmente na consciência coletiva. Consequentemente essas imagens – na verdade ícones – tiveram um papel bastante diferente na vida das pessoas do que tiveram as obras de arte quando esse conceito apareceu enfim e começou a reger nova relação com elas (…) Nem sequer eram consideradas no sentido elementar de terem sido produzidas por artistas (…), e sim que eram observadas como se sua origem fosse milagrosa (…)[3].
Se houve essa quebra na compreensão do fenômeno da arte, seria possível, então, conceber um fim para a “era da arte”. Essas questões são o início da apresentação da tese de Danto, justificando o objeto do seu livro: a produção artística levada a cabo “após o fim da arte”. Para ele não se tratava de discutir o “fim da arte” – como vários autores decretaram nos últimos tempos –, mas sim, o fato de que uma era havia findado:
Minha opinião não era que não devia haver mais arte (…) e sim que qualquer nova arte não poderia sustentar nenhum tipo de relato que pudesse ser considerado como sua etapa seguinte. O que havia chegado a seu fim era esse relato, mas não o tema do relato”[4].
Dentro desse grande relato proposto por Danto, ainda segundo ele, teria havido um período – o modernismo –, em que os pintores que, antes, se dedicavam “à representação do mundo, pintando pessoas, paisagens e eventos históricos tal como se apresentavam a seus olhos. Com o modernismo, as condições da representação se tornam centrais, e é daqui que a arte, em certo sentido, se torna seu próprio tema”[5].
Danto citará o crítico norte-americano Clement Greenberg como o responsável pelo relato sobre o modernismo, que teria substituído a narrativa baseada na vida dos artistas, criada por Giorgio Vasari, no século 16[6]. Para Greenberg, Manet teria exercido na pintura o papel de Kant na filosofia. Se esse último se questionou sobre como seria possível o conhecimento, as pinturas de Manet “se tornaram as primeiras imagens modernistas, em virtude da franqueza com a qual se manifestavam as superfícies planas em que eram pintadas”.[7] Danto, afirma:
Se Greenberg estiver certo, é importante assinalar que o conceito de modernismo não é meramente o nome de um período estilístico que começa nas últimas décadas do século 19, ao contrário do maneirismo que é um período estilístico que começou nas primeiras décadas do século 16 (…) O modernismo está marcado pela ascensão a um novo nível de consciência, refletido na pintura como um tipo de descontinuidade, como se acentuar a representação mimética tivesse se tornado menos importante que outro tipo de reflexão sobre os sentidos e os métodos de representação (…) A questão é que ‘moderno’ não significa somente ‘o mais recente’. Significa, na filosofia e na arte, uma noção de estratégia, estilo e ação”[8].
“Olympia”, 1863, de Édouard Manet. Foto: Reprodução/ Museu D’Orsay, Paris
Ainda segundo Danto, para se estabelecer, o modernismo precisou impor um novo paradigma, substituindo aquele praticado antes, o da mimesis, que durante séculos serviu aos propósitos da arte[9]. Continuando:
Durante um período histórico, se supôs que para ser uma obra de arte, especialmente uma obra de arte visual, a obra teria que ser mimética: imitar uma realidade externa, atual ou possível (…). Mimesis era a resposta filosófica habitual à pergunta sobre o que era arte, desde Aristóteles até o final do século 19, inclusive o século 20 (…) A mimesis se converteu em um estilo com o aparecimento do modernismo (…)[10].
Na sequência, em meio às suas considerações sobre o modernismo e seu fim (que ele situa a partir de meados dos anos 1960), Danto demonstra como eram percebidas as transformações da arte mimética para a arte moderna. Para tanto, citará o esteta inglês Roger Fry que, em 1912, ao resenhar uma exposição de pós-impressionistas em Londres, afirma:
Quando ocorreu a primeira exposição de pós-impressionistas há dois anos nessas galerias, o público inglês soube majoritariamente pela primeira vez que existia um movimento artístico, um movimento que foi o mais desconcertante por não ser uma variação dos temas aceitos e sim que implicava uma reconsideração dos próprios propósitos e metas, assim como dos métodos da arte pictórica e plástica (…) Foram feitas livremente acusações de torpeza e incapacidade [por um público] que em uma pintura admira principalmente a destreza com que o artista produz a ilusão e que resiste a uma arte em que a destreza está completamente submetida à expressão direta do sentimento”[11].
Nota-se que Fry entende estar frente a uma arte não mimética – principal valor para o público de então. Porém, mesmo não possuindo repertório para julgar a pintura pós-impressionista, nota-se o respeito com que o inglês se acerca da arte não mimética proposta pelos expositores.
Mas sabemos que quase ninguém agiu com a sensibilidade ao falar sobre a arte moderna. A recepção que a arte modernista teve na Europa, desde finais do século 19, até os primeiros anos do século seguinte, foi ditada pela incompreensão e pela tentativa de fazer prevalecer o paradigma da verossimilhança, mesmo em intelectuais que, de início, lutaram a favor dos impressionistas. Aqui a figura do francês Émile Zola é emblemática. Defensor de Manet e dos impressionistas, em 1896 ele se escandaliza frente à arte da época, demonstrando seus limites frente ao próprio impressionismo:
Mas minha surpresa se converte em cólera quando comprovo a demência a que pôde conduzir em trinta anos a teoria dos reflexos. E esta foi uma das vitórias que nós obtivemos, os precursores! Com toda razão, sustentávamos que a iluminação dos objetos e das figuras não é simples, que sob as árvores, por exemplo, as carnes nuas assumem tonalidades verdes, que se produz assim um contínuo intercâmbio de reflexos que é mister ter em conta se se pretende dar a uma obra a vida real da luz. A luz se decompõe sem cessar, se quebra e de esparrama. Se alguém não quiser cair na pintura acadêmica feita à luz fictícia do ateliê, se se aborda a natureza imensa e cambiante, à luz eternamente diversa chega a ser a alma da obra. Mas nada há mais delicado e difícil de captar e representar que esta decomposição e estes reflexos, estes jogos do sol que, sem deformá-las, banham as criaturas e as coisas. Quando se insiste em um aspecto e quando intervém a racionalização se chega rapidamente à caricatura. E são realmente obras desconcertantes essas mulheres multicores, essas paisagens de cor violeta e esses cavalos alaranjados que nos oferecem os artistas, explicando-nos cientificamente que são assim por obra de determinados reflexos ou de determinada decomposição do espectro solar. Oh! Essas senhoras que têm uma bochecha azul à luz da lua e a outra bochecha amarelada sob a luz da cúpula de uma lâmpada! Oh! Esses horizontes em que as árvores são azuis, as águas vermelhas e os céus verdes! É horrível, horrível, horrível![12].
É notável como Zola se exaspera frente aos artistas que superam questões caras aos realistas e primeiros impressionistas, abandonando expedientes para conseguir maior efeito mimético. Agora eles investem no próprio ato de pintar.
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Em 1905, sete anos depois do texto de Fry e 12 antes daquele de Lobato, um casal de colecionadores norte-americanos se posiciona sobre o Salão de Outono de Paris:
Agora chegamos à mais assombrosa galeria neste Salón tão rico em surpresas. Aqui toda descrição, todo informe, o mesmo que qualquer crítica, se tornam igualmente impossíveis dado que o que nos apresentou aqui – com exceção do material empregado – não tem nada em comum com a pintura: alguma confusão informe de cores: azul, vermelho, amarelo, verde: algumas manchas de pigmento cruamente justapostas: o bárbaro ingênuo esporte de uma criança que brinca com a caixa de cores que acaba de receber como presente de Natal (…). Esta seleta galeria de aberração pictórica, de loucura de cor, de indizíveis fantasias produzidas por gente que, se não joga algum jogo, deveria ser enviada de novo para a escola[13].
De novo o preconceito frente aquilo que só parecia se assemelhar à pintura devido ao uso dos mesmos materiais. De resto, uma visualidade que nada tinha a ver com a mimesis, nada a ver com a arte “culta” ou “adulta”. Daí a relação direta com a arte da criança ou de gente que, se não estivessem brincando, deveriam ser enviadas de imediato para a escola para aprenderem o “certo”.
Na sequência, mais uma declaração de pouca empatia frente à arte moderna, também citada por Danto. Trata-se de uma matéria publicada em Munique em 1909, sobre uma exposição que então ocorria na Nova Associação de Artistas:
Há só duas formas possíveis de explicar esta exposição absurda: uma, que alguém assuma que a maioria dos membros e convidados da Associação são dementes incuráveis, ou outra que se trata aqui de desavergonhados enganadores que apenas conhecem muito bem o desejo de sensacionalismo do nosso tempo e tratam de aproveitar-se de seu auge.[14]
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Os trechos acima reafirmam a dificuldade de muitos (e não apenas de Lobato) em encarar que a pintura poderia ir além da criação de duplos do real.
Desde o Renascimento acreditava-se que a arte poderia captar o real de maneira idealizada ou não, e os debates caminhavam sempre dentro deste limite. Até a segunda metade do século 19 jamais havia sido colocado em dúvida que a pintura não tivesse o compromisso de ser um análogo da realidade. Porém, na medida em que alguns artistas levantavam outro paradigma – afirmando que a arte poderia voltar-se para a análise da própria produção, para a exploração de suas “verdades” intrínsecas –, as reações perante essa nova possibilidade tendiam a se manifestar por meio de três posturas:
1 – a arte moderna era uma produção realizada por “analfabetos” artísticos, e daí o melhor era que eles fossem estudar; 2 – a arte moderna era praticada por pessoas insanas, e então eles deveriam voltar para o manicômio; 3 – a arte moderna era uma produção praticada por mistificadores que teriam como objetivo confundir a opinião pública, desbaratando os valores da arte tradicional.
“Rosita”, 1913, Ignacio Zuloaga
Levantados esses dados, leio agora um trecho do famoso texto que Lobato escreveu sobre a exposição protagonizada pela artista Anita Malfatti, em 1917:
Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem as coisas e em consequência fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres.
Quem trilha esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Reynolds na Inglaterra, é Dürer na Alemanha, é Zorn na Suécia, é Rodin na França é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno desses sóis imorredoiros.
A outra espécie é formada dos que veem anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva (…); são frutos de fim de estação, bichados no nascedouro. Estrelas cadentes (…).
Embora se deem como novos, como precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu como a paranoia e a mistificação (…)
(…) Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem da latitude nem do clima (…)
(…) Enquanto a percepção sensorial se fizer no homem normalmente, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá “sentir” senão um gato; e é falsa a “interpretação” que o bichano fizer do toró, um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes (…)[15].
Este texto ecoa de perto os excertos que comentei. Frente à produção que via na mostra protagonizada por Anita Malfatti, para ele existiriam duas opções para enquadrar aquelas obras: ou eram fruto da paranoia ou puras mistificações.
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Reler o texto de Lobato no cenário da batalha travada entre os defensores da “era mimética da arte” e a “era modernista”, faz com que seu provincianismo e reacionarismo encontrem seus pares na cena internacional. Embora exista um pequeno gap entre os textos citados e aquele de Lobato, não restam dúvidas de que, caso fôssemos encetar um levantamento nos arquivos europeus e norte-americanos da segunda década do século passado, encontraríamos outras provas de que Lobato, em 1917, não estava só. Por outro lado, seu texto redimensiona a recepção da arte modernista como um todo: ela não foi belicosa apenas no Brasil. Em outros países os partidários do antigo paradigma e daquele proposto pela arte moderna também entraram em uma luta que ainda não foi devidamente recuperada e estudada em seus mais variados alcances.
Como no caso brasileiro, a adesão às ideias modernistas no exterior também ocorre com algum retardo. No Brasil, seria justamente a partir de 1917, com a exposição protagonizada por Malfatti, que tal fenômeno se iniciaria.
Mas esta adesão – não podemos esquecer – se deu num momento em que as vertentes mais radicais do modernismo europeu se encontravam em fase de refluxo, perdendo a força que tiveram desde o final do século 19. Em 1917, em alguns setores do ambiente europeu, muitos artistas, antes ligados às vanguardas, começavam a repudiar parcial ou irrestritamente as manifestações mais radicais das vanguardas, recolocando o renascimento da mimese a partir do retorno a uma visualidade anterior[16].
Assim, em 1917, quando Lobato fica indignado frente à exposição protagonizada por Malfatti – por ver ali indícios de que haveria um projeto que se opunha ao seu próprio projeto de arte brasileira (sobre o qual retornarei) –, no plano internacional já se esboçava outra situação de complexidade ainda maior: muitos artistas renegavam os ganhos estabelecidos pelo paradigma modernista.
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Sem título, 1887, de Anders Zorn. Foto: Reprodução/ Museu Nacional, Estocolmo
Vale a pena reler o seguinte trecho do texto de Lobato:
Quem trilha esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Reynolds na Inglaterra, é Dürer na Alemanha, é Zorn na Suécia, é Rodin na França é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno desses sóis imorredoiros.
O crítico evoca grandes artistas ligados à tradição europeia, (Praxíteles, Rafael, Reynolds e Dürer), ao lado de contemporâneos: Zorn, Rodin[17] e Zuloaga. Se os primeiros ainda hoje são referências para a arte ocidental, Zorn e Zuloaga foram para o limbo da história por praticarem uma pintura que mesclava estilemas naturalistas a uma estrutura conservadora.
O que, então, teria feito com que Lobato juntasse esses dois conjuntos de artistas, sem se preocupar em definir as diferenças entre eles? É que, “clássicos” ou “modernos”, “bons” ou “medianos”, todos eram adeptos da arte mimética. Frente às vertentes que ameaçavam romper com esse paradigma, as diferenças entre os dois grupos deixavam de existir, pois era necessário convocar a todos contra o inimigo comum.
Lobato, desde seus primeiros textos posicionou-se como filiado à arte naturalista, acreditando ser ela a vertente moderna para a arte do Brasil. Essa filiação servia-lhe de filtro para a apreciação que fazia sobre qualquer artista, inclusive Pedro Américo – a quem não aceita por ser um artista idealista e não naturalista – e Almeida Jr. – para ele o grande pintor do país, por ter retratado, dentro do naturalismo, o homem brasileiro “puro”.
Saudade, 1899, de Almeida Jr. Foto: Reprodução
Porém, após a exposição protagonizada por Malfatti, Lobato demonstra-se chocado com a possibilidade de um outro projeto de arte moderna para o Brasil. Ele então titubeia e, como crítico, dá sinais de que se encontra em questionamento. É neste sentido que se entende seu súbito interesse por Pedro Alexandrino, fiel ao mimetismo idealizado e produtor de naturezas-mortas arrebanhadas com sofreguidão pela burguesia da cidade. É justamente Pedro Alexandrino quem Lobato visitará em 1918 e sobre o qual escreverá, enaltecendo os valores tradicionais da pintura e do agir daquele artista. Ao finalizar, ele deixa o seguinte conselho:
Se nos fosse concedida a liberdade de aconselhar alguém, diríamos a todos os jovens pintores em formação: frequentai Pedro Alexandrino, aprendei com ele a fazer da arte uma religião, tomai como norma de vida moral a sua simplicidade encantada; como norma de vida mental o seu ódio a tudo o que é falso, charlatanesco, burlesco, vila-marianesco, Kyrialesco, idiota, cúbico ou futurístico, e o seu amor à verdade e à sinceridade[18].
Interessante a necessidade de Lobato em procurar um grande divulgador daquilo que entendia como sendo a arte de “amor à verdade e à sinceridade”. Isto, após ter escrito sobre a exposição protagonizada por Malfatti, que trazia para São Paulo uma arte que, para ele, era pura paranoia ou mistificação.
Tal atitude demonstra que, para Lobato, a exposição protagonizada por Anita não significou pouca coisa. Suas convicções se abalaram frente ao novo paradigma que a artista, seu professor e colegas apresentavam[19]. Por isso, talvez, a necessidade de visitar Alexandrino, buscando a “verdade da arte” que parecia querer escapar. Por isso a ideia de aconselhar os jovens artistas em formação a irem ao ateliê do artista mais velho em busca da “verdadeira arte”[20].
“Maçãs e uvas”, s.d., de Pedro Alexandrino. Foto: Reprodução/ Pinacoteca de São Paulo
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Lobato considerava-se um crítico moderno e essa afirmação dá a medida da complexidade do ambiente artístico paulistano dos anos 1910. Ele considerava-se moderno e opositor da arte acadêmica e, assim, associava-se a críticos brasileiros do final do 19, como Angelo Agostini e Felix Ferreira, também naturalistas. Ele também se alinhava a Zola, o crítico que, tendo divulgado da arte “científica” e positivista dos naturalistas e impressionistas franceses, encontrou-se inconformado, no final daquele século, frente à “deturpação” que vinham impingindo ao paradigma da arte como duplo do real.
A diferença de Lobato frente aos três era que, aliado à sua adesão irrestrita ao naturalismo, ele juntava o nacionalismo. Sua crítica propugnava um naturalismo nacionalista e esse, de fato, era o anteparo que ele usava para refletir sobre arte.
Lobato constituiu um projeto de estetização nacionalista da vida brasileira, não ficaram restritas à pintura e à escultura. valendo a pena atentar para seus textos sobre arquitetura, os estrangeirismos na língua portuguesa e suas propostas para uma moda nacional[21].
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O que poderíamos concluir sobre a crítica de Lobato contra investidas do modernismo? Em primeiro lugar, não devemos esquecer a complexidade da situação, lembrando que tal resistência ocorre com maior força a partir de 1917, quando, ao mesmo tempo, vertentes do Retorno à Ordem passam a jogar contra as vanguardas, insistindo no retorno a uma produção ligada à mimesis, tornando ainda mais complexa a implantação do modernismo paulistano. Por outro lado, não se deve pensar Lobato como um crítico “acadêmico”. Sua produção é conservadora, sobretudo se a pensarmos tendo as próprias vertentes modernistas como base. Porém, se atentarmos para o debate artístico durante sua atuação mais aguerrida, será visto que ele representava uma alternativa naquele quadro e isso porque, além de adepto do naturalismo, postulava o nacionalismo na arte. Naturalismo nacionalista: esta era a diferença da crítica de Lobato no debate brasileiro. Foi essa posição que o tornou não apenas mais um crítico, mas O crítico de arte mais respeitado em São Paulo entre 1914 e 1918[22].
No entanto, para dar a exata dimensão da complexidade daquele momento, não é possível deixar de lado que Lobato foi atropelado pelo modernismo que chegava através da exposição protagonizada por Malfatti. Tal fato fez com que ele se visse obrigado a deixar de lado suas diferenças com a arte acadêmica, para nela arregimentar forças contra o inimigo que vinha colocar em risco a crença positiva em uma arte que fosse um análogo do real, idealizado ou não.
[1] – “Paranoia ou Mistificação”, Monteiro Lobato in LOBATO, Monteiro. Ideias de Jeca Tatu. 7ª. São Paulo: Editora Brasiliense, 1956 pág. 59-65. Em tempo: Lobato não escreveu o famoso artigo contra Malfatti, e sim contra a arte moderna (Daí, a palavra contra ter vindo grafada entre aspas no parágrafo.
[2] – DANTO, Arthur C. Después del fin del Arte. El arte contemporâneo y el linde de la historia. Barcelona: Paidós, S.A., 1999.
[6] – Giorgio Vasari, pintor, arquiteto e historiador que, em 1550, publicou Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos, pautado no relato das biografias dos artistas. Vasari é considerado por muitos o primeiro historiador da arte.
[7] – Greenberg, C. Apud DANTO, Arthur C. Idem. Pág. 29.
[15] – “Paranoia ou mistificação”, Monteiro Lobato. Op. Cit. Recentemente o estudioso Daniel Rincon Caires publicou o artigo “Bichado ao nascedouro – cientificismo e degeneracionismo na crítica de arte de Monteiro Lobato”, (https://www.snh2021.anpuh.org/site/anais),em que avança nos estudos sobre as filiações intelectuais de Monteiro Lobato em relação aos preconceitos contra a arte moderna.
[16] – Refiro-me ao Retorno à Ordem, tendência artística do entre guerras que recuperou vários aspectos da arte mimética. Sobre o assunto, ler, entre outros, CHIARELLI, Tadeu. Arte internacional brasileira. 2ª. São Paulo: Lemos, 2002.
[18] – “Pedro Alexandrino”, Monteiro Lobato. Revista do Brasil, ano 3, vol.7, n.26, fev 1918. Pág, 118-130. Apud CHIARELLI, Tadeu. Um Jeca nos vernissages. São Paulo: Edusp, 1995. Pág. 210-211.
[19] – Não nos esqueçamos que, pelo fato de Anita Malfatti ter apresentado sua produção ao lado de obras de seu professor norte-americano A. S. Baylinson, e de suas colegas Floyd O’Neale e Sara Friedman, a exposição pode ser considerada não propriamente uma mostra individual, mas uma coletiva protagonizada por Malfatti. Corroborando essa hipótese, o título da mostra: “Exposição de Arte Moderna. Anita Malfatti”.
[20] – Irônico é que, pouco depois, acolhendo direta ou indiretamente o conselho de Lobato, Malfatti vai estudar com Alexandrino, em cujo ateliê conhecerá Tarsila.
[21] – Sobre esses temas, vale a leitura de artigos como “A caricatura no Brasil”, “A criação do estilo ( A propósito do Liceu de Artes e Ofícios)”, “A questão do estilo”, “Ainda o estilo” e “Estética oficial”, entre outros. IN LOBATO, M. Op.Cit.
[22] – Importante não esquecer que o nacionalismo modernista emprestará algumas questões vindas dos postulados lobateano. Sobre o assunto ler: CHIARELLI, Tadeu. Pintura não é só beleza. A crítica de arte de Mário de Andrade. Florianópolis: Letras contemporâneas, 2007.
In Ocupar os memes é preciso, the researcher and professor of University of São Paulo, Giselle Beiguelman, resumes the origin of the word “meme”, tracing it back to a time before the internet. The name we use today was coined by the English biologist Richard Dawkins, in 1976, in the book The Selfish Gene. In Dawkins’ theory, as Beiguelman summarizes, “the meme is a replicator unit that spreads by imitation, always subjected to mutation and mixing, and that functions as critical resistance”.
Dislinking itself from its origin, and “back to the future”, the meme as we understand begins to appear in the 2000s and spreads with sharing via social networks. Far from being restricted to pop culture, memes have taken roots to other fields, such as politics, and, gradually, have been operated by propaganda and advertising.
“Star Trek Memes Untamed”, @freeze_magazine. Courtesy of Cem A. aka @freeze_magazine.
Without imprisoning them in a categorical definition, Beiguelman rather points to their frequent composition: “They present a format in which the text does not function as an explanatory complement to the image nor the image serves merely to illustrate the text, but the two elements chain themselves together to produce a third sense”. On Instagram, in particular, another visual element is included, positioned in a certain “between” – neither completely inside or outside the post – which is the location of the photo, used more and more to add depth to the joke. “Low resolution, bastards and without signature; [memes] are poor images, in the sense given by the German artist and essayist Hito Steyerl to the expression, which can act as a counterpoint to the dominant representation systems”, Beiguelman describes. The Brazilian profile New Memeseum is in line with the argument when it indicates that memes possibly help to formulate narratives different from the hegemonic ones. “Maybe show their unfoldings, contradictions and oppositions”. For them – whose identities are preserved in anonymity – the power of memes lies in their fictional character. “Paraphrasing Karl Ove Knausgård, maybe we are trying to combat fiction with fiction”. At the end of the second volume of the Norwegian writer’s series My Struggle, it reads – and the New Memeseum quotes: “It was a crisis, I felt it in every fibre of my body, something saturating was spreading through my consciousness like lard, not least because the nucleus of all this fiction, whether true or not, was verisimilitude and the distance it held to reality was constant. In other words, it saw the same. This sameness, which was our world, was being mass-produced”.
By @newmemeseum. In Portuguese, it reads: “Bolsonarismo” / “visiting museums with R$ 45 tickets” / “leftist elite”. Courtesy of @newmemeseum
By @newmemeseum, front text: “I make political works that stand for a just, egalitarian and anti-capitalist society”. Located behind: “I inherited my family’s money, am represented by a mega gallery and only expose my work in spaces that resemble the white cube, where poor people are not allowed”. Courtesy of @newmemeseum
With regard to this counterposition activity, Cem A. (also known as @freeze_magazine, in parody of the British art magazine) presents the possibility of memes as agents of change, although not in a revolutionist way, but reformist. “Memes should be seen as a tool to popularise forward-thinking ideas. Their popularity can give us the upper hand in the conversation. This is where their strength lies. The crucial danger here is how they might be absorbed by the art market. If memes were commercialised with a short sighted approach, this would only make them less popular, genuine and efficient. It would make me question if they could be considered memes at all”.
When the establishment begins to swallow memes (which, until then, resisted it with acidic and humorous criticisms), do they lose strength (by integrating what they once have challenged)? An important observation is made by Hilde Lynn Helphenstein, creator of the virtual character Jerry Gogosian (the name alludes to two recognized figures in the art world, the critic Jerry Saltz and the mega gallerist Larry Gagosian): “The ways in which I plan to monetize what I’ve created with @jerrygogosian will be a means to achieve a version of the art world I can live with on a micro-scale. My artistic achievements will be perpetuated by the capitalist machine and I have no problem with that. An artist has to dream big (and eat)”.
“We are not sure whether the institutionalization of memes can cause any impact or change for content creators”, notes New Memeseum, when considering that, perhaps, the impact is on the institutions themselves, who, “by looking with less distinction between high and low culture, are incorporating languages that can attract new audiences into their programming”. Digging deeper, they question whether the narrative could not be told in reverse: from the perspective of social networks, it may be that museums and galleries are the “spaces of exception”, precisely because art is still somewhat inaccessible to the majority of the population [at least in Brazil]. According to what they observe in today’s scenario, institutions have started to seek their space on the Internet, investing and worrying about their virtual platforms.”There is a desire for audience engagement. The economy of likes has also impacted the sources of sponsorship – let’s remember the cultural edict that, recently, assumed as criterion the sum of social media followers of the members from each project”, they add. With these questions put on the horizon, they point out that New Memeseum (in the same way as Jerry and Freeze) is an Instagram profile and, as such, works within an app managed by a trillion-dollar conglomerate. “We also live under the regency of algorithms”.
Under such regency, is humor an effective format to face the established powers?, asks Hilde, to which she herself responds negatively. “Being the jester who states the obvious to the court in the presence of the king is still beholden to the king. Humor is a medicine which temporarily soothes the pain of those not in power and creates the illusion of taking back control. Taking money from the powers that be and redistributing wealth is probably the only way to “win” in late stage capitalism…but it feels good to laugh, whether you’re winning or losing”. In The Value of Laughter, Virginia Woolf expresses that laughter preserves our sense of proportion, recalls New Memeseum. In Woolf’s words: “Dogs, mercifully, cannot laugh, because, if they could, they would realise the terrible limitations of being a dog. Men and women are just high enough in the scale of civilisation to be intrusted with the power of knowing their own failings and have been granted the gift of laughing at them”. In that same text, reminding us of the importance of proportion, the British writer ends up also mentioning the nonexistence of a “complete hero”, the one who needs to be put on a pedestal.
The “complete hero”, does it look like a pretension familiar to some figures in the art world? Such self-mythologized characters, not rarely, make up the cast of this memetic play. Is it possible, though, to get them off the pinnacle and back to proportion? “We don’t know if the satire of institutions and their characters by arts-related memes make these same characters/elements more accessible”, confesses New Memeseum. “Perhaps, it makes more visible the narrative plot in which they are involved: the problems, weaknesses, contradictions, professional and personal dramas etc”.
By @newmemeseum. In Portuguese, it reads: “The dream of every single Brazilian worker of the culture sector”. Courtesy of @newmemeseum.
If not to demystify the linguist, can memes decode their language? For Cem A., memes can be useful both for communicating complex ideas and for criticizing inaccessible texts – frequent in the art world – when they don’t fight hard enough to win their reader. To the latter, Hilde refers to as “show off texts where people are really proud to show you they have a master’s degree in polysyllabic words”.
“I think that this sort of language is used as an intimidation tactic and rarely are the people wielding this language in full control of what they say. If they were, they’d say much less in a smoother, more palatable way”, she states and, wittily, poses the question: “Have you ever heard of a meme?”. According to Jerry Gogosian’s creator, “you do need cultural literacy to understand memes as well as a general sense of the topic, but you can learn to read them rather quickly and there’s not grammar to learn (please see how poorly I spell in my memes)”.
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By @freeze_magazine. Courtesy of Cem A. aka @freeze_magazine.
By @freeze_magazine. Courtesy of Cem A. aka @freeze_magazine.
For New Memeseum, the memetic panorama is too diverse to state categorically that memes make something more accessible, and can be as or more truncated than many curatorial texts or artists’ speeches. “Sometimes the reception of memes ranges from ‘ok, I get it’ to ‘what does that really mean?’ – there’s a wide spectrum between transparency and opacity and that makes this language so interesting to work with”.
Such nuance combined with humor allows memes to address important issues, sometimes relegated by consolidated media and/or cultural commentators. The anonymity of the producers of memes (Hilde had her identity revealed against her will, in fact, in an Artnet article, whose writer did not get the memo, nor the joke) along with their irreverence and the release from the pretense heroes of the art world, really allow them cross narrower corridors.
By @jerrygogosian. Courtesy of the creator.
“ It is nearly impossible to run a sustainable business in the art world. Media outlets are included in this too. So I can see why their editorial choices tend to be conservative. Having said that, I don’t agree with their approach at all”, says Cem A. when I mention the case of the exhibition Arte em Campo, held in late 2020 and reported on with the neutrality of a detergent. The event brought together about 25 galleries and 54 artists to celebrate the “new Pacaembu”, the result of its concession to the private sector for 35 years. It was the opportunity to “say goodbye” to the beloved stadium that would have, months later, the area that housed its most affordable tickets demolished. Curator Pollyana Quintella tells she wondered what role the exhibition played there, in addition to camouflaging, “sophisticating” and providing “a cool façade that would justify interests that were far from the ones favoring the city [and the public interest, rather than the private sector]”. Therefore, this kind of news – or distribution of “merely carefully crafted pieces of PR”,” as Hilde describes it – also gets on the radar of meme creators.
Taking advantage of the busted art ♡ neoliberalism affair, Cem A. does not cease to draw attention to the “invisible work” of digital projects: “People often overlook the time and effort it takes to put together a digital project. Memes are included in this too. The pandemic showed us that the internet is now an integral part of the art ecosystem and often can reach bigger audiences than what is possible in the physical world. We need to do more to address the financial inequalities in this paradox and compensate digital-first artists more fairly”.
By @jerrygogosian. Courtesy of the creator.
To approach the elephant in the room before finishing this article: after all, memes are art? “We often think that, no matter how far away, they have some connection with the conceptualism of the 1960s and 1970s, especially with regard to operations performed between word and image”, notes New Memeseum. Cem A. believes that memes should be recognized in the context of art because they carry aesthetic and conceptual qualities. “However, this doesn’t necessarily mean they should be considered artworks or as ‘contemporary art’”, and stresses: “In fact, we should collectively question the assumption that contemporary art stands on a higher level”. This and the other issues mentioned above might still gain momentum. “We believe that nothing has been exhausted [in relation to memes] because, in art, these debates have barely begun”, the Brazilian meme creators reiterate.
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