Painel da série "Propaganda", de Lucia Koch, em Inhotim. Foto: Cortesia Inhotim

Em um sábado de novembro de 2019, ao lado de centenas de visitantes que passeavam pelos jardins e pavilhões de Inhotim, a reportagem da arte!brasileiros acompanhou o que a instituição considerava ser uma celebração – o fim de um período conturbado e a retomada de fôlego do maior museu a céu aberto do mundo. Com a abertura de uma grande exposição, a reabertura ao público de trabalhos célebres de Matthew Barney, Tunga e Yayoi Kusama e a inauguração de novas obras permanentes de Robert Irwin e Claudia Andujar, Inhotim botava um ponto final em um período que incluiu batalhas judiciais de seu criador, Bernardo Paz, em 2017; um surto de febre amarela na região em 2018; e o trágico rompimento da barragem da mineradora Vale em janeiro de 2019, que inundou grandes áreas de Brumadinho e deixou mais de 250 mortos. Era difícil imaginar que algo pior iria acontecer. No entanto, apenas quatro meses depois, Inhotim, assim como todas as instituições culturais do país, teve de fechar as portas por conta da pandemia de Covid-19 – e de seus desdobramentos especialmente trágicos no Brasil. 

Foi mais uma vez na busca por tempos melhores, portanto, que o “parque museu” mineiro inaugurou, no final do último mês de agosto, grandes obras comissionadas de Lucia Koch e Rommulo Vieira Conceição e uma mostra da artista polonesa Aleksandra Mir. Se o público, com máscaras nos rostos, era muito menos numeroso do que aquele visto em 2019 por conta dos protocolos sanitários, não deixava de ser notável mais uma vez um clima de celebração – ou pelo menos alívio – entre visitantes, funcionários, artistas e curadores presentes. “Precisamos da vacina no braço, mas aqui a gente cuida também da cabeça das pessoas. Acho que devemos trabalhar com essa ideia de que Inhotim pode ser uma vacina para a alma”, diz o diretor-presidente do instituto, Antonio Grassi.

“Viemos de experiências que nos afetaram muito e, quando achamos que tínhamos superado essas etapas, veio a pandemia, a pior das situações”, diz Grassi sobre a gravidade do quadro atual. Por outro lado, ele ressalta: “Não é que a gente tenha se especializado em enfrentar crises, mas certamente aprendemos muita coisa sobre esse ‘modo de sobrevivência’ que fomos obrigados a ter nestes períodos”. O “modo de sobrevivência” na pandemia se deu em diferentes direções. Na relação com o público, intensificou-se a presença virtual – com mostras online, postagens nas redes de imagens e textos sobre o acervo, vídeos inéditos feitos com artistas e apresentações musicais, entre outros. “Nós sabemos que nunca seria possível o Inhotim existir sem a experiência presencial, mas hoje eu acredito que não conseguimos mais abrir mão também da experiência virtual. Isso fica”, diz Grassi.

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Outdoor da série “Propaganda”, de Lucia Koch, em Brumadinho. Foto: Cortesia Inhotim

Em tempos sem arrecadação de bilheteria – mesmo agora, o público permitido é de mil pessoas por dia, ante 5 mil nos tempos pré-pandêmicos – o instituto seguiu com relativa estabilidade financeira graças ao seu plano plurianual vigente, que já tinha recursos garantidos de patrocinadores como Vale, Itaú e Barbosa Mello Construtora. No início da pandemia, alguns cortes no quadro de funcionários foram feitos – são cerca de 400 contratados diretos e mais algumas centenas de terceirizados -, mas, segundo Grassi, com a retomada gradual do funcionamento o número já se reaproxima do que era. “E naquele ponto priorizamos reformular as diretorias, cortar ‘em cima’ para preservar os empregos de quem necessitava mais, especialmente as pessoas de Brumadinho”. Sendo 80% de seus trabalhadores moradores da cidade – localizada na região metropolitana de Belo Horizonte e que tem por volta de 40 mil habitantes -, Inhotim é um dos maiores pilares da economia local.

O instituto nunca deixou, no entanto, de depender também dos aportes de Bernardo Paz para fechar as contas – que variam entre R$ 36 e R$ 39 milhões ao ano. Afastado da presidência desde 2017, Paz segue presente no dia a dia do museu. Nesse sentido, Grassi conta dos esforços atuais para aumentar a captação, não só através de empresas brasileiras e do círculo de patronos, mas também de fundos internacionais que apoiam a cultura e o meio ambiente. Categorizado como organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP), Inhotim foi reconhecido em 2010 também como Jardim Botânico, além de museu, e reúne mais de 4,3 mil espécies nativas brasileiras e exóticas. Segundo Grassi, se os custos totais para a manutenção forem cobertos por patrocínios e apoios, os recursos vindos de Bernardo Paz podem se voltar apenas para novos projetos no instituto. 

Grassi tem a percepção clara, no entanto, de que o quadro atual do país não é dos mais favoráveis para quem trabalha com cultura, meio ambiente e educação – o setor educativo do museu envolve amplo programa de formação e escola de música. “Mesmo que a situação política atual não tenha nos afetado diretamente, no sentido de termos um plano aprovado, com apoiadores e patrocinadores bem consolidada, é inevitável constatar que estamos em um cenário onde instituições artísticas e culturais, a arte e a cultura em geral, tem patinado para sobreviver. E embora isso já viesse sendo anunciado desde a campanha eleitoral – com o papo dos ‘mamadores da Lei Rouanet’ -, pensava-se que o exercício do poder traria alguma adequação um pouco mais diplomática. E, tragicamente, nós não tivemos isso, vemos um acirramento cada vez pior. Isso é muito grave.” Quanto ao ambiente de censura às artes que volta a surgir no país, Grassi completa: “Nunca tivemos algum caso específico em Inhotim, mas viver em um contexto em que sabemos que isso existe já nos contamina, nos atinge”.   

Obra da série “Propaganda”, de Lucia Koch. Foto: Ana Luiza Albuquerque/ Divulgação

Novas obras

Da relação de Inhotim com Brumadinho surge a obra comissionada de Lucia Koch, que ocupa tanto áreas do museu quanto outdoors nas ruas da cidade. Koch afirma, na verdade, que Propaganda surge na cidade e desemboca no instituto, não o contrário. Convidada para pensar uma trabalho em 2019, a artista gaúcha, radicada em São Paulo, encontrou uma situação atípica na região após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão: “A cidade, inteira de luto, revirada de lama e minério, começa a receber indenizações enormes [da Vale], situação que leva a uma explosão no mercado de carros importados e condomínios de luxo. Isso se revela nas imagens espalhadas pela cidade, na quantidade de outdoors por lá”. Intrigada com aquela situação paradoxal, Koch deu sequência a uma pesquisa de quase três décadas na qual fotografa interiores de embalagens vazias e as imprime em grandes dimensões.

Dessa vez, as embalagens escolhidas foram um saco de carvão Arco-Íris – marca comum nos mercados de Brumadinho -, uma queijeira utilizada na região e uma caixa de papelão. Sem deixar totalmente nítido o que registram as fotos, que acabam lembrando um tipo de caverna ou alguma estrutura arquitetônica, as imagens passaram a ocupar outdoors da cidade. “A ideia de que esses painéis não terão, por um ano, publicidade de carros, condomínios, venda de seguros ou de cursos de informática e, ao mesmo tempo, estarão substituídos por imagens que não se entende muito o que fazem ali… esse tipo de perturbação é o que me interessava colocar naquele lugar”, conta a artista. Além disso, ela conclui: “Embalagens vazias tem a ver com o depois das coisas, que é algo com que nós e Brumadinho temos que lidar”.

“O espaço fisico pode ser um lugar complexo, abstrato e em construção”, de Rommulo Vieira Conceição. Foto: Cortesia Inhotim

É também da relação com o lugar, físico e cultural, que foi pensado o trabalho site specific de Rommulo Vieira Conceição, intitulado O espaço físico pode ser um lugar abstrato, complexo e em construção. Com cores fortes e formas que remetem tanto a elementos religiosos – como templos cristãos, judaicos e muçulmanos – quanto a um parque infantil, o artista propõe uma reflexão sobre o conhecimento e a convivência. “A obra conduz o olhar do visitante para diferentes pontos de vista, acentuando a desorientação desse espaço em estado de construção”, explica o artista. Segundo o baiano, que habita Porto Alegre há mais de 20 anos, “ao embaralhar elementos arquitetônicos de religiões diferentes, com as quais o público pode se identificar, busquei criar uma espécie de harmonia, ainda que labiríntica; possibilitar uma convivência estranha”. Ele se refere, por fim, à importância desse debate no contexto em que aumentam os extremismos religiosos e discursos fundamentalistas no Brasil.

A terceira abertura em Inhotim, a mostra Entre Terras, reúne quatro desenhos em grande escala da artista polonesa, radicada na Inglaterra, Aleksandra Mir. Parte da série Mediterranean (2007), os trabalhos foram produzidos durante um período passado pela artista na Sicília, quando se atentou para a importância do Mar Mediterrâneo enquanto território político, marcado por fluxos migratórios e disputas de poder. Com o aspecto de mapas, mesclados a representações de pequenas pessoas, flores, cruzes e escritos em letras estilizadas, “o trabalho chama atenção para as manifestações culturais carregadas por aquelas águas ao longo de milênios, como agentes de troca entre sociedades e no deslocamento de indivíduos”, como afirma o curador do instituto, Douglas de Freitas.

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Obra da série “Mediterranean”, de Aleksandra Mir. Foto: Leo Fontes/ Divulgação

Assim como as obras de Lucia e Rommulo, a exposição de Mir se insere no programa intitulado Território Especifico, eixo de pesquisa que norteia a programação de Inhotim no biênio 2021/2022. Após o rompimento da barragem, as transformações em Brumadinho e a crise gerada por uma pandemia global, soa coerente a busca do museu mineiro por intensificar suas relações com a cidade e, ao mesmo tempo, refletir sobre os conflitos sociais e territoriais que avançam em diferentes regiões do mundo.


*O jornalista viajou a convite do Instituto Inhotim

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