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Segall e Picasso; alegoria e instante decisivo; pintura e fotografia

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"Máscaras", 1938, Lasar Segall, óleo sobre tela. Foto: Reprodução

Tendo em vista as discussões sobre o modernismo e a Semana de Arte Moderna de 1922, uma questão que permanece fora do debate diz respeito ao uso que os pintores do modernismo fizeram da imagem fotográfica. Ciosos de uma suposta pureza, tanto do meio fotográfico quando do pictórico, nossos estudiosos e estudiosas, na medida em que não encontram nenhum artista que tenha exercido a função de fotógrafo “mesmo”, deixam de lado justamente o uso que muitos fizeram da imagem fotográfica.

Essa falta de interesse deixa no limbo questões significativas para se entender o consumo da imagem fotográfica pelos modernistas, que não se limitou, obviamente, às fotos tiradas como recordações de viagens e/ou eventos.

Nesta coluna eu já tive a oportunidade de escrever sobre o uso que Tarsila do Amaral fez de imagens fotográficas para a realização de alguns de suas principais pinturas. É claro que mais estudos sobre o assunto seriam bem-vindos, e enquanto eles não surgem, compartilho com vocês algumas considerações sobre o uso que Lasar Segall fez da imagem fotográfica.

Não resta dúvida de que as observações que seguem se agregam a estudos já realizados sobre a relação do pintor com a fotografia, mas estou certo de que, mesmo curtos, os comentários que seguem podem incentivar estudiosos a se deixarem seduzir por assunto tão interessante e que tanta falta faz para, de fato, ampliar o debate sobre a arte do modernismo.

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Máscaras é um óleo e areia sobre tela realizado em 1938 por Lasar Segall, medindo 80 X 90cm. Em sua composição sobressai uma área triangular que vai do vértice superior do triângulo até seu centro. Tanto a finalização do vértice quanto o restante da figura geométrica encontram-se fora da composição. O que estrutura a figura geométrica é a luz que emana de uma lâmpada que joga luz e sombra nos vários objetos que se encontram no primeiro plano da pintura. Existe na imagem um equilíbrio entre tons terrosos, o negro e o branco, uma estabilidade solene e um tom de mistério que perpassa toda a obra.

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“Máscaras”, 1938, Lasar Segall, óleo sobre tela. Foto: Reprodução

Máscaras não deve ser definida como o registro de um espaço e tempo em que Segall estivesse inserido e tivesse decidido eternizar. Ela atua como uma alegoria, um campo da retórica que associa a pintura à tradição da ut pictura poesis (assim como a pintura é a poesia). Mesmo em pleno modernismo, para muitos a pintura continuou uma espécie de poesia muda. Produzir uma alegoria no final dos anos de 1930 ainda poderia ter algum sentido, pelo menos para Segall.

A rigor “alegoria”, na poesia ou na pintura, representar conceitos abstratos se utilizando de formas figuradas: representar b para significar a. Assim, Segall teria produzido Máscaras com a intenção transmitir um conceito ou ideia que estava fora da pintura, sendo que as imagens que ali aparecem, e o tratamento dado pelo artista ao juntá-las, concede a nós, observadores, apenas uma pista do que ele quer comunicar. E isto pelo fato de que não é direta a relação entre as imagens ali representadas e o conceito que ele quer nos transmitir.

Observando Máscaras com vagar, é possível notar semelhanças com Guernica, de Pablo Picasso, pintada em 1937, como um protesto ao bombardeiro da cidadezinha basca de Guernica por aviões alemães, em apoio ao General Franco, durante a Guerra Civil daquele país.

Também nota-se na obra uma forma triangular que parece jogar luz sobre o lado direito da pintura, estruturada em gradações entre o negro e o branco. No entanto, se em Máscaras o que prevalece é a solenidade e o mistério da cena, em Guernica há como que uma estridência nas formas demarcadas e contrastantes – o que aumenta a dramaticidade da composição.

“Guernica”, de Pablo Picasso. Foto: Reprodução

A característica trágica de Guernica parece ter sido lograda por algumas estratégias usadas por Picasso que, embora pertençam ao âmbito da pintura, possuem uma espécie de urgência muito mais próxima da fotografia: o branco e o preto e suas gradações e, sobretudo, o flagrante do bombardeio matando pessoas e animais.

Existe nela o conceito de “momento fecundo”, teorizado no século 18 pelo filósofo alemão Gotthold Ephrain Lessing, em que o autor expressava que, na hora de conceber uma composição baseada em um fato histórico, era preciso que o artista encontrasse nessa narrativa, o “momento fecundo”, ou seja, uma única cena que sintetizasse todo o assunto ali tratado. Isto porque, para Lessing, a pintura era a arte do espaço, e não do tempo, como a poesia.

No século 20, o conceito de “momento fecundo”, ganharia uma sobrevida no contexto da fotografia com a formulação do conceito de “instante decisivo”, cunhado pelo fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson[1].

Guernica está mais próxima do conceito do “instante decisivo, de Cartier-Bresson, do que do “momento fecundo”, de Lessing, tanto pela sensação de “flagrante” que dela emana quanto pelo realce que lhe confere as várias gradações entre o preto e o branco. Máscaras, por sua vez, não parece tributária de nenhuma delas. Pelo contrário: mesmo que possa nos remeter a algum tipo de destruição, ali não está configurado nenhum “momento fecundo”, ou “decisivo”. O que ali está representado é uma espécie de natureza-morta, um momento posterior a qualquer ação, o fim.

De um ponto de vista puramente sensorial, o que percebemos quando observamos uma natureza-morta é o registro do agenciamento de diversos objetos em um determinado lugar. E dependerá do ponto de vista escolhido para o registro (assim como os objetos que a compõem, a iluminação e o tratamento pictórico dado à cena), a capacidade da natureza-morta em transcender à condição de mero registro de uma situação. O potencial simbólico desse gênero de pintura, portanto, mesmo que aprisionado à descrição, tende a transcendê-lo, se o artista conseguir imprimir índices que elevem a cena para além do circunstancial, do efêmero.

Voltando à Guernica, apesar de suas características tão “fotográficas”, ela pode, como Máscaras, ser entendida como uma alegoria. Nela, a luz – reforçada em seus aspectos simbólicos pelos três itens – o clarão que se dirige à direita, o lampião e a lâmpada/olho – atua como a própria história condenando aquele ato de barbárie do homem contra seu semelhante.

Concluindo este rápido cotejamento, penso ser possível afirmar que, tanto Guernica quanto Máscaras, são duas alegorias produzidas no final dos anos 1930. Se Guernica possui um objetivo claro – ser uma alegoria da história condenando a barbárie –, Máscaras, por não se valer das mesmas estratégias, é menos permeável a uma interpretação tão direta. Seus desígnios são misteriosos, seus significantes parecem pulsar mais livremente, remetendo a vários significados possíveis.

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Em 1938, Segall, declara seu desagrado em relação a Guernica. Tendo regressado da Europa[2], o pintor concede uma entrevista ao Diário de São Paulo em que informa sobre suas impressões a respeito daquela obra:

Vi o celebrado quadro de Picasso – Bombardeio de Guernica. Não me impressionou como esperava. Demais, tenho a impressão de que gorou a intenção do artista. Justamente porque teve uma intenção ideológica, por assim dizer. O quadro em apreço pretende ser mensagem contra o bombardeio de uma cidade aberta. Mas é obscuro, a intenção é muito subjetiva, não é clara. Prefiro muito mais sentir o drama nítido de um Van Gogh. Os seus depoimentos emocionais são claros e perceptíveis. Continuo, como sempre, fiel ao conceito que me impus: a arte não deve ter intenções outras que não a arte em si mesma. Ela não deve se colocar a serviço de ideias, nem ser trabalhada pelas convicções várias. Que os antagonismos se aproveitem dela, vá lá… Mas a arte, essa deve ser pura, independente e liberta de qualquer influências estranhas.[3]

Estranha essa afirmação, vinda de um artista que, já em 1938, havia pintado obras com forte apelo denunciatório, como Emigrantes III (1936) e Pogrom (1937) e que, entre 1939 e 1940, pintaria Navio de Emigrantes.

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“Emigrantes III”, Lasar Segall, 1936. Foto: Reprodução

Uma hipótese para compreender esse posicionamento de Segall pode residir no fato de que Picasso, para a realização da obra, tenha optado pelo uso do “instante decisivo”, tão caro à fotografia no século passado – uma opção que diferia das predileções de Segall. O que para Picasso pode ter significado uma estratégia de choque para fazer aflorar a indignação do observador frente ao morticínio soou para Segall como um exemplo negativo de um tipo de pintura a serviço de algo que estava fora dela. Picasso, sob este ponto de vista, não teria conseguido transformar o bombardeio da cidade basca em um assunto pictórico.

Evocar a “pintura pura”, no caso de Segall, não significava ser partidário de uma pintura não figurativa ou apenas voltada para a discussão das questões inerentes à linguagem pictórica, e sim, saber traduzir para o campo pictórico todo tipo de assunto.

Se observarmos Pogrom, por exemplo, veremos que Segall trabalha a composição como se fosse uma natureza-morta, não optando por flagrar nenhuma cena de massacre. Pelo contrário: o artista prefere configurar a cena repleta de cadáveres, vítimas da barbárie, com um tratamento pictórico meticuloso, com um tipo de resolução que envolve as figuras numa espécie de redoma que os protege. Já em Navio de Emigrantes, ele pinta as figuras humanas em estado de repouso e silêncio, contrastando com as violentas traves que cortam a cena e com o mar repleto de ondas.

“Pogrom”, 1937, Lasar Segall. Foto: Reprodução

É neste sentido que considero Máscaras, uma resposta do artista a Guernica.

De volta ao Brasil, Segall parece ter se motivado a mostrar a Picasso como deveria ser uma pintura que buscava refletir sobre a barbárie que então começava a tomar conta da Europa. E Máscaras, apesar de usar de certas estratégias percebidas na obra de Picasso – a lâmpada e o facho de luz – como que “corrige” essas táticas, buscando uma solenidade que apenas tenuamente remete à barbárie, respeitando as bases da linguagem pictórica[4].

Além de tê-la observado in loco[5], o pintor certamente deve ter se valido de reproduções fotográficas de Guernica para processar sua “correção”. Seria importante uma pesquisa junto aos arquivos do artista para tentar encontrar imagens da obra de Guernica que podem ter servido como instrumentos para a elaboração de Máscaras.

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A obra inteira de Segall (e não apenas ela) é a prova de que a alegoria não foi afastada da arte moderna, como desejavam alguns[6]. Durante seu percurso ele se valeu desse recurso retórico para a produção de pinturas com temas de forte apelo emocional sem, no entanto, prescindir do foco nos elementos propriamente pictóricos, para que o ajudassem a traduzir os temas que o preocupavam.

Neste sentido Navio de emigrantes deve ser entendida como mais um exemplo dessa capacidade do artista em transferir para o âmbito da pintura questões caras à toda sociedade humana, mesmo quando premido por fatos circunstanciais e urgentes.

Celso Lafer, estudioso da obra de Segall, a certa altura de seu texto sobre Navio de emigrantes, aponta para a importância das fotografias que se encontram no arquivo do pintor. Lafer afirma o seguinte: “As fotografias são importantes porque os flagrantes nelas captados são pontos de apoio da sua memória, instigadores de soluções estéticas que integram a composição do Navio de emigrantes.[7]

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“Navio de Emigrantes”, 1939, Lasar Segall. Óleo sobre tela. Foto: Museu Lasar Segall-IPHAN/MinC

É notável como essa que é uma das mais importantes pinturas de Segall parece concebida a partir de suportes fotográficos, a começar pela sua configuração geral, calcada em uma composição típica da fotografia e do cinema: a visão em plongée do convés da embarcação: do alto do mastro, como se através de uma câmera fotográfica, o artista registrasse os viajantes lá embaixo.

Vistas do alto, as figuras no convés, apáticas e melancólicas, parecem fora desse mundo, situadas além das circunstâncias, como integrantes de uma monstruosa natureza-morta. E essa impressão parece tanto reforçada por esse ponto de vista “fotográfico” da composição, quanto pela ênfase que Segall concede à oposição entre o horizonte desnivelado e a proa triangular do navio, com a grade formada pelas traves que o percorrem. O triângulo da embarcação, reforçado pelas traves, cria como que uma redoma para os emigrantes, protegendo-os das incertezas do mar, transformando-os em índices silenciosos dos infortúnios da sociedade humana.

Como salientou Lafer, as imagens fotográficas encontradas no arquivo do artista parecem ter servido como “apoio de sua memória” durante a concepção do monumental trabalho. Elas o ajudaram a traçar as linhas de força da composição, assegurando seu equilíbrio e a dimensão solene do todo.

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É de 1929 outra das melhores pinturas de Segall: uma alegoria intitulada Fim e começo Sobre um fundo sóbrio, pintado em tons baixos a partir de áreas retangulares fechadas em si mesmas – uma grade alargada reforçando o caráter bidimensional da pintura –, Segall sobrepôs duas figuras: a cabeça de um velho com barba, de olhos fechados, e um bebê segurando a cabeça de um cavalo de brinquedo. As duas imagens estão justapostas e, embora materialmente sejam pinturas, funcionam como colagens. A cabeça do velho foi pautada em um desenho que o artista produziu em 1927. Já a figura da criança baseou-se em uma fotografia de um de seus filhos, que também ganhou uma versão em desenho, datado de 1926.

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“Fim e começo”, 1929, Lasar Segall. Foto: Reprodução

Interessante como Fim e começo, apesar das formas sintéticas e imbuídas de uma circunspeção modernista “clássica”, faz parte de uma longa tradição dentro da arte ocidental de pinturas que pretendem circunscrever numa única composição as várias etapas da vida do ser humano.

A maioria dessas obras possui o caráter irrevogável da vida rumo à morte e normalmente é composta por pelo menos três figuras, representando a infância, a idade madura e a velhice. No caso de Fim e começo, Segall fecha ainda mais a narrativa, concentrando-se apenas em duas imagens. Por outro lado, nota-se que o título não indica um encadeamento linear. Ao invés de propor a observação da infância em direção à velhice, preferiu o contrário.

Tal opção, pautada nas identidades das figuras ali retratadas (o pai e o filho, ou o avô e o neto) supõe, ao contrário de outras pinturas do tipo, uma visão positiva da vida, enfatizando o recomeço, investindo, não na finitude, mas na perpetuação da humanidade.

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Finalizando essas considerações, chamo a atenção para outra pintura surgida a partir de mais uma tradução de uma imagem fotográfica: Menino com cavalo de pau, óleo sobre tela de 1928, retratando um dos filhos do pintor. Embora não tenha ganho na carreira do artista o mesmo status das outras obras comentadas aqui, ela parece funcionar como um compêndio sobre como Segall trasladava para a pintura um simples instantâneo produzido em condições não ideais e de forma um tanto amadora.

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“Menino com Cavalo-de-pau”, 1928, Lasar Segall. Foto: Reprodução

Não se sabe se a autoria da foto é do próprio Segall, de sua esposa, ou de alguma outra pessoa do convívio do pintor. Mas o que de fato interessa é que a criança está sentada sobre uma espécie de balanço ornamentado pela figura de um cavalo de cuja cabeça aparece somente a região das orelhas e falta o joelho da perna dianteira esquerda. A criança, com a perna esquerda bem dobrada, segura o que seria a rédea do cavalo com os braços flexionados à altura do peito. Ela, com a cabeça baixa pela incidência de sol em seu rosto, o que impede a visualização de sua expressão. No fundo da cena, pedaços de construções indistintas. É de notar-se, igualmente, que a imagem como um todo tende a parecer chapada, devido à forte incidência de luz sobre os objetos fotografados.

A tradução dessa fotografia para a pintura parece ter começado com Segall estruturando o plano com uma grade, tendendo ao ortogonal, juntando figura e fundo. Ele promove uma espécie de zoom nas figuras da criança e do brinquedo no primeiro plano, aproximando-as do observador, o que acaba por trazer não apenas as figuras para mais perto, pois, o fundo também se aproxima do observador, reforçando o caráter bidimensional da pintura.

As figuras da criança e do brinquedo, por sua vez, ganham nova configuração, na medida em que são adaptadas à estrutura que agora as recebe. A criança passa a ter a perna e os braços menos flexionados, numa atitude de repouso, ao mesmo tempo em que sua cabeça é suspensa para que possa ser admirada. É notável como o artista integra a figura da criança com as áreas que indicam o fundo da pintura pela justaposição de áreas brancas, terras, laranjas etc. que, por sua vez, dialogam com os tons suaves de amarelos e laranjas da figura da criança. Já o brinquedo é tratado não em conjunção cromática com as outras figuras, mas por oposição. Com tons de cinza que se opõem à maioria das outras áreas da pintura, ele praticamente perde toda a decoração. O olho esquerdo do cavalo, ausente na fotografia, surge nessa nova configuração, ao mesmo tempo em que perde a indicação das pernas, praticamente ausentes na pintura.

Quanto ao desequilíbrio que a cor do cavalo poderia causar na composição em tons mais quentes, Segall resolve justapondo três áreas acinzentadas no topo da pintura à esquerda da figura da criança, e uma área pequenina à direita, na metade superior da tela, com um tom forte de cinza, quase negro.

Essa obra, pintada no ano anterior a Fim e começo compartilha com ela a mesma tendência à estabilidade, típica dessa fase “clássica” dentro do realismo sintético que caracterizará toda a obra do pintor.

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Ainda está para ser aprofundado o estudo sobre as relações entre a pintura de Segall e a fotografia. Com certeza o artista não utilizou esse “apoio da memória” apenas nos trabalhos aqui discutidos. Outras pinturas devem ter tido como base fotografias produzidas pelo próprio artista ou alguém do seu convívio, ou então conseguidas por meio de publicações as mais diversas.

O mesmo ocorre com outros pintores do modernismo que se utilizaram da fotografia não como meio de expressão, mas como ferramenta para a produção de suas obras. Um uso que, infelizmente, parece não mobilizar os estudiosos da arte daquele período. Creio que somente com pesquisas sobre a presença da imagem fotográfica na pintura brasileira da primeira metade do século passado, chegaremos a ter uma dimensão mais exata sobre o papel que ela exerceu naquele ambiente.


[1] – Assim se posiciona Cartier-Bresson sobre o ato de fotografar: “Na fotografia existe um novo tipo de plasticidade, produto das linhas instantâneas tecidas pelo movimento do objeto. O fotógrafo trabalha em uníssono com o movimento, como se este fosse o desdobramento natural da forma, como a vida se revela.
No entanto, dentro do movimento existe um instante no qual todos os elementos que se movem ficam em equilíbrio. A fotografia deve intervir neste instante, tornando o equilíbrio imóvel”. CARTIER-BRESSON, Henri. The Decisive Moment.  CARTIER-BRESSON, Henri. 1a edição ed. Göttingen: Steidl Dap, 2015. 
[2] – Segall participou em Paris do Congresso Internacional de Artistas Independentes, como representante do Ministério da Educação do Brasil.
[3] – “Regressou de Paris o representante do Brasil no Congresso Internacional de Artistas Independentes”. Diário de São Paulo. São Paulo, 20.4.1938.
[4] – Sobre o assunto, consultar: “Segall realista: algumas considerações sobre a pintura do artista”. Texto produzido para o catálogo da mostra “Segall realista”, em cartaz entre 2008 e 2009 em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Republicado em: CHIARELLI, Tadeu. Um modernismo que veio depois. São Paulo: Alameda, 2012, p.87 e segs.
[5] – É necessário um levantamento para saber onde a obra estava sendo exibida quando Segall esteve em Paris.
[6] – Na introdução de seu importante ensaio, “The allegorical impulse: toward a theory of postmodernism”, o crítico Craig Owens traça comentários pertinentes sobre a visão negativa que muitos artistas e teóricos ligados à modernidade possuíam a respeito da alegoria. In WALLIS, Brian. Art after modernism: rethinking representation. New York: The New Museum of Contemporary Art, 1984. P. 203 e segs.
[7] – LAFER, Celso. “Navio de Emigrantes: “um quadro pensadíssimo. IN D’HORTA, Vera (e outras – curadoras). Lasar Segall. Navio de emigrantes (cat.). São Paulo: Museu Lasar Segall/Imprensa Oficial, 2008, p. 39.

“Linha de Chamada” e as diversas formas de desenho de Edith Derdyk

"Épuras", "Linha de Terra", "Alfabeto da Reta" e "Projectante", de Edith Derdyd. Foto: Instagram da artista

Edith Derdyk é uma artista radical. Não se contenta em ficar na superfície das coisas. Está permanentemente experimentando, dando continuidade a uma pesquisa incansável acerca do desenho – seu tema e sua linguagem por excelência –, tentando entendê-lo não como mero instrumento de representação, mas como forma de estar no mundo. “Desenho não é só coisa de lápis e papel”, repete ela, parafraseando Mário de Andrade na tentativa de explicar seu combate permanente contra uma visão cartesiana, instrumental e reducionista do meio.

Em Linha de Chamada, pesquisa que nasceu da vontade de aproveitar o momento de paralisia da pandemia para repensar modelos e paradigmas, Edith parte de uma base muito específica. Elege como ponto de partida a Geometria Descritiva ou Mongeana, técnica desenvolvida pelo matemático francês Gaspard Monge (1746–1818). Originalmente destinada à engenharia militar, este método-base do desenho técnico, que permite representar esquematicamente máquinas, instrumentos, objetos em representações bidimensionais, é um agente fundamental da revolução industrial, tornando possível a repetição fiel e exata de modelos objetivos. Visualmente, remete à estética de movimentos como o construtivismo russo ou o futurismo italiano, marcados por um forte grafismo e intimamente vinculados à uma ideia otimista de progresso. E, na reconfiguração formal e poética de Edith, torna-se um material ao mesmo tempo físico e simbólico.

O que eram originalmente simples ilustrações de livros didáticos da década de 1950 recolhidos pela artista em sebos, transformam-se em ponto de partida para um processo de improvisação semelhante àquele desenvolvido por um DJ. São recombinados, condensados, desconstruídos, sampleados, gerando trabalhos de diferentes linguagens e intensidades. Alguns deles têm um caráter mais projetivo, são elaborados de forma mais calculada e vagarosa, no silêncio do ateliê, como a série Alfabeto da Reta, nas quais lida com questões como espelhamento e simetria. Ou o conjunto batizado de Épuras (formado por desenhos impressos e trabalhados em diferentes tipos de papel, que configuram uma espécie de arquivo de experimentações e serão reunidos num livro de artista, linguagem tantas vezes e tão bem explorada por ela. Outras obras trazem à tona uma forte pulsão construtiva, uma clara intenção de reconfiguração performática do espaço. É o caso de Projectante, instalação que a artista considera como uma espécie de pólo gerador de toda a exposição.

É interessante notar que, apesar dos diferentes formatos e suportes, os trabalhos reunidos na mostra atual compartilham não apenas o anseio por questionar uma visão reducionista do desenho, como derivam de uma poética extremamente coerente, que vem sendo pouco a pouco construída por Edith, num longo processo iniciado ainda nos anos 1980. Neles estão evidentes as recorrências, que ela chama de “mitologias pessoais” e que constituem o chão no qual trabalha. A linha preta; o desenho que passa do plano para o espaço, numa clara vocação arquitetônica; o movimento inquieto e repetitivo do traço; um certo caráter de improviso são alguns desses elementos que compõem a gramática da artista. 

Seu leque de procedimentos e gestos é enxuto, seco, mas seu leque de interesses é vasto. Edith parte de símbolos concretos como a Bíblia, ou de pequenos gestos da natureza como o vai-e-vem das formigas ou a sensibilidade construtiva das aranhas, para investigar estruturas fundamentais da ação humana. Associa poesia, religião, filosofia e, procura, incansavelmente encontrar o que está na base dos acontecimentos, mobiliza procedimentos artísticos e poéticos que permitem ao mesmo tempo questionar esse modelo unívoco de crescimento através da produção em série e propor uma reflexão acerca dos limites desse modelo vigente que, paradoxalmente, combina razão e insanidade.

Não se trata, de forma alguma, de uma rejeição à ciência ou a herança da modernidade, mas de uma necessidade premente de olhar para as nossas origens, voltar ao germe dessa idéia de desenho cartesiano, que condensaria em si essa idéia de progresso, de evolução pelo consumo e produção incessante, que nos tempos atuais dá claros sinais de esgotamento.

SERVIÇO
ONDE: Galeria ArteFormatto (al. Gabriel Monteiro da Silva, 1364, São Paulo)
QUANDO: de 16 de outubro a 16 de novembro

SP-Arte começa nesta semana em novo endereço

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Fachada da ARCA, na Vila Leopoldina. Foto: Divulgação/ Arca

A 17ª edição da SP-Arte, maior feira de arte do país, acontece este ano entre os dias 20 e 24 de outubro, em São Paulo. Após uma série de edições no pavilhão do Ibirapuera e uma apenas em ambiente virtual, em 2020, a feira reúne 128 expositores na ARCA, no bairro paulistano da Vila Leopoldina. A SP-Arte 2021 não deixa de acontecer também no universo online, adotando este ano formato híbrido.

Entre as galerias de arte, a feira reúne casas brasileiras já estabelecidas como Millan (SP), Luisa Strina (SP), Bergamin & Gomide (SP), Fortes D’Aloia & Gabriel (SP-Rio), Silvia Cintra + Box 4 (RJ) Almeida & Dale (SP), Dan Galeria (SP), Pinakotheke (SP), Mendes Wood DM (São Paulo-NY-Bruxelas), Nara Roesler (São Paulo-NY-Rio de Janeiro), Jaqueline Martins (São Paulo-Bruxelas), Karla Osorio (Brasília) e Paulo Darzé (Salvador). Entre as estreantes, estão jovens galerias como Quadra (RJ), HOA (SP) e Projeto Vênus (SP), com foco em artistas emergentes e práticas artísticas renovadas. 

Estão presentes também nomes internacionais, entre eles Galleria Continua (Brasil, Itália, China, Canadá, Cuba e França), Galeria de las Misiones (Uruguai), Opera Gallery (EUA), Piero Atchugarry Gallery (EUA), Marian Goodman Gallery (EUA, França e Inglaterra), Galeria de Arte Patricia Ready (Chile) e Galería SUR (Uruguai).

No espaço anexo à ARCA, o STATE, estarão presentes com livros de artista e publicações especializadas as editoras Cobogó, Ubu, Familia Editions, Ikrek e Taschen, BEI, ArtNexus, Desapê, Edições SESC, Fotô Editorial e Olhares. O Viewing Room desta edição contempla também sete lojas de design: ETEL, Artemobilia Galeria, Jacqueline Terpins, Mobília Tempo, Passado Composto Século XX, Sandra & Marcio e Hugo França.

Espaço interno ARCA. Foto: Divulgação/ Arca

Por fim, no espaço virtual destinado às instituições culturais estão Pinacoteca do Estado (SP), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), Instituto de Arte Contemporânea (IAC), Instituto Inhotim (MG) e Instituto Tomie Ohtake. Entre os projetos artísticos especiais já confirmados participam 01.01 Art Platform, Casa Chama, Levante Nacional TROVOA, Espaço Delirium e Piscina. 

Programação

Neste ano, as discussões, debates e visitas de ateliês da edição acontecem tanto virtual quanto presencialmente. “Pensou-se em uma programação ampla, que contemplasse desde assuntos atuais relacionados ao mercado da arte até a promoção de debates entre artistas, galeristas e curadores”, comenta Fernanda Feitosa, fundadora da SP-Arte. 

O Viewing Room contará com curadorias exclusivas feitas por Catarina Duncan, Diane Lima, Pollyana Quintella, Ricardo Sardenberg, Tiago Mesquita e a especialista em design Winnie Bastian. Cada um dos seis profissionais selecionou dez obras a partir de um tema livre de acordo com sua pesquisa e elaborou um texto guia sobre o assunto.

Presencialmente, há ampla programação no STATE, espaço vizinho ao ARCA. A exposição Arte e tecnologia: uma revolução em curso, com curadoria de Ana Carolina Ralston, ocupa o galpão com cerca de vinte trabalhos. “Estão reunidas obras de artistas nacionais e internacionais e de diferentes gerações que, em comum, desdobram suas pesquisas utilizando a tecnologia como processo intrínseco de suas criações. A mostra visa discutir o lugar da tecnologia em cada produção, seja ela gerada e nascida na esfera digital ou materializada pelos recursos e reflexões que a própria nos possibilita”, afirma a curadora. Por sua vez, o Talks ocupa a arquibancada do STATE, assumindo um novo formato com conversas informais entre profissionais da arte e o público da feira. Confira abaixo:

  • 20 de outubro, às 14h: A Casa Chama promove uma conversa entre os fundadores da ONG, Digg Franco, Matuzza Sankofa e a artista Cinthia Marcelle, em torno da importância da visibilidade e reconhecimento das produções artísticas de pessoas trans.
  • 20 de outubro, às 16h: Potência Ativa é uma articulação de projetos de arte que debatem as urgências do mundo e geram recursos para organizações que trabalham diariamente no front das lutas sociais. Foram convidadas para falar sobre o projeto, as integrantes Maíra Marques e Gabriela Davies acompanhadas pela artista e pesquisadora Fabiana Faleiros .
  • 20 de outubro, às 18h30: A curadora Ana Carolina Ralston conversa com Eduardo Kac e Giselle Beiguelman, artistas que participam da mostra Arte e tecnologia: uma revolução.
  • 22 de outubro, às 14h: Central Galeria promove um encontro entre a artista Gretta Sarfaty e a pesquisadora da arte Mirtes Marins de Oliveira, âncora do podcast da SP-Arte, sobre o processo de reedição do livro Auto-Photos, um fac-símile de uma edição rara de 1978.
  • 22 de outubro, às 16h: O galerista Thiago Gomide conversa e apresenta a artista Luiza Crosman.
  • 22 de outubro, às 18h: O artista Francisco Hurtz, da Verve Galeria, conversa com o jornalista Mateus Nunes sobre o encontro entre sua produção artística e a do fotógrafo Alair Gomes.
  • 23 de outubro, às 14h: Promovida pela Casa do Povo, a mesa Espaços Autônomos e Dependências Táticas convida Benjamin Seroussi (Casa do Povo), Mauro Restiffe (artista) e Eliana Finkelstein (diretora-sócia da Galeria Vermelho) para uma conversa sobre as colaborações entre os diferentes agentes do sistema da arte.
  • 23 de outubro, às 15h: Lançamento do livro Fernando Zarif – Múltipla Unidade
  • 23 de outubro, às 18h: A 01.01 Art Platform promove o encontro Abdias Nascimento, Mestre Didi e a arte africana contemporânea, com mediação e apresentação da artista Ana Beatriz Almeida.

Organizada pela consultora e especialista no mercado de arte Vivian Gandelsman, a SP-Arte Experiências Digitais complementa o ciclo de palestras. A atividade integra um movimento que busca sustentabilidade no mercado de arte digital e reúne, em uma série de conversas na quinta-feira 21 de outubro, uma rede de profissionais que estão em constante diálogo e enfrentam desafios comuns. Confira:

  • 21 de outubro, às 16h40: O artista Thiago Martins de Melo e o designer Raul Luna conversam sobre o processo criativo e a concepção da exposição digital Animal Crepuscular, realizada ano passado; e Vivian Gandelsman conta do processo de venda do Animal Crepuscular e do mapeamento de compradores.
  • 21 de outubro, às 17h25: O colecionador Bernardo Faria e Vivian Gandelsman falam sobre o mercado da arte digital e, mais especificamente, sobre a criptomoeda NFT.
  • 21 de outubro, às 17h45: A artista Vitória Cribb apresenta relações entre seus processos tecnológicos criativos, formalização e perspectivas pessoais na produção artística digital.
  • 21 de outubro, às 18h20: A artista Ode apresenta Notas sobre Travecaceleração, pensamento sobre a negritude ladeada pela travestilidade enquanto práticas de desmonte capital-colonial cisgênero da artista.
  • 21 de outubro, às 18h40: A artista Dani Pinheiro e o dramaturgo João Turchi, do grupo Mexa, contam sobre as ações do coletivo, que transitam entre arte e política, além de abordar as práticas transdisciplinares e colaborativas de projetos digitais.

Fique atento também ao Instagram da SP-Arte e das diversas galerias. O projeto Cápsulas, por exemplo, uma realização da Galeria Jaqueline Martins, apresenta conversas conduzidas por Lisette Lagnado e Mirtes Marins com convidados como Sandra Benites, Anita Eckman, Denilson Baniwa e Edgar Caleo.

Protocolos na pandemia

Para a feira presencial na ARCA a SP–Arte adota uma série de medidas de segurança: a compra do ingresso (de R$ 25 a R$ 50) acontece apenas online e mediante agendamento, com capacidade de público limitada; para o acesso ao evento será necessário apresentar comprovante de vacinação (impresso ou digital) ou um teste negativo para a Covid-19, realizado em, no máximo, 48 horas anteriores à data de visitação ao evento. Os interessados podem realizar o teste na Drogasil, com custo de mercado, aos visitantes que forem à SP-Arte.

No local, também haverá verificação de temperatura, além da recomendação de distanciamento social de, no mínimo, 1,5 m entre as pessoas. O uso da máscara é obrigatório para a permanência no local.

O Direito das Artes: OAB SP lança livro que traz visão jurídica da cultura

“Discutir a arte e a cultura é missão árdua, ainda que a Constituição Federal brasileira, promulgada em 1988, traga em suas linhas a previsão de que se trata de direito garantido”, afirma a Comissão de Direito das Artes da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo) na introdução do seu novo livro O Direito das Artes, uma visão jurídica da cultura, disponibilizado online de forma gratuita.

Capa do e-book "O Direito das artes: uma visão jurídica da cultura"
Capa do e-book “O Direito das artes: uma visão jurídica da cultura”

Logo no primeiro capítulo do e-book, a presidente da comissão, Cindia Regina Moraca, observa: “O preconceito, o conservadorismo e o desconhecimento da importância da cultura e da arte como agentes de educação são os principais motivos que vêm dizimando a história cultural brasileira e, principalmente, o acesso às políticas públicas de fomento e incentivo à cultura e às artes”. É com o objetivo de combater a desinformação e com a intenção de ampliar o acesso a todo tipo de conhecimento que se origina na cultura e nas artes que surge a proposta deste livro. Antes disso, Cindia conta que a comissão se reúne para debater os temas da atualidade, promover encontros com grupos, órgãos e entidades que atuam nesse setor, no sentido de colaborar com o entendimento do papel da advocacia nas relações permeadas por cultura e artes.

Seguindo a introdução da presidente, a coletânea de artigos retoma cronologicamente à reabertura política e à Constituição Federal de 1988. Sobre ela, Rodrigo Guimarães Buchiniani destaca a inovação ao estabelecer o dever de garantir o pleno exercício por artistas e público dos direitos culturais de acesso às fontes da cultura, incentivo, valorização e difusão das manifestações de diversos grupos participantes do processo civilizatório nacional. “O texto normativo, ao conceituar o patrimônio cultural brasileiro, esclarece que pode ser constituído de bens de natureza material e imaterial desde que tombados por procedimento específico para serem reconhecidos como portadores de referência à identidade, à ação, à memória, às formas de expressão, aos modos de criar, fazer e viver e às criações artísticas”, aponta.

Mais à frente, no capítulo 4 do livro, Iago Camilo Fernandes de Sousa se desdobra justamente sobre o tema do patrimônio cultural, fornecendo uma breve explicação da relação entre a sua proteção e o direito internacional. Iago assinala que no artigo primeiro da Carta das Nações Unidas, entre os problemas internacionais que merecem atenção e cooperação internacional são listados aqueles de caráter cultural, junto aos econômicos, sociais e humanitários. “A cultura enquanto valor ganha tamanha relevância que um dos objetivos da entidade é que os Estados e demais organismos cooperem para lidar com questões culturais”, escreve. “E nesse sentido, um dos caminhos é a proteção do patrimônio como corolário do desenvolvimento, emancipação e preservação da identidade dos povos”, adiciona Iago. No mesmo capítulo, o advogado explica o papel da UNESCO nessa seara e lista alguns acontecimentos de relevância ao longo dos anos que ajudaram a reconhecer a gravidade da preservação cultural. Entre eles a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, adotada na Conferência Geral da UNESCO de 2003.

“A aprovação desta Convenção levou em conta os efeitos do processo de globalização e de transformação social e a consequente necessidade de se criarem condições, através de compromissos assumidos entre os Estados, de salvaguardar o patrimônio imaterial enquanto vontade universal”. Reconhecendo, por exemplo, que comunidades, grupos e indivíduos desempenham um importante papel na produção, salvaguarda, e manutenção desse patrimônio.

O capítulo seguinte complementa e expande a discussão sobre patrimônio imaterial iniciado na seção anterior do livro. Nele, Marjorie Prado Junqueira de Faria frisa que há instrumentos de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial, leis que os resguardam, e questiona: “O que falta para evitar a estética do apagamento no território?”. Ela ressalta a urgência do debate sobre instrumentos processuais jurídicos de prevenção ao desaparecimento de manifestações culturais tradicionais “de modo a evitar atos lesivos a esta geração e às próximas”. Memória é a identidade em ação, como ela aponta.

Partindo para o campo comercial, Tais Capito e Luiz Guilherme Veiga Valente abordam o direito da propriedade intelectual e a aproximação entre o mundo da arte e das marcas comerciais, do qual eles fazem o alerta que é preciso observar determinados cuidados do ponto de vista jurídico. “Legalmente, marcas e obras artísticas (sejam pinturas, esculturas, livros ou filmes) são protegidas por tipos diferentes de Propriedade Intelectual: respectivamente, o Direito Marcário e os Direitos Autorais. Cada regime tem suas próprias regras, escopos e limitações”, afirmam. Desse modo, o artigo visa informar tanto empresas como artistas quanto aos direitos que lhes cabem sobre suas respectivas marcas e obras, bem como os cuidados para se evitarem violações aos direitos de terceiros.

“Considerando-se a possibilidade quase infinita de reprodução de exemplares de uma mesma obra (especialmente no cenário digital), os Direitos Autorais são um mecanismo para atribuir ao autor uma forma de controle, tanto do ponto de vista econômico, como do conteúdo, sobre sua criação”, explicam. E chamam atenção para o artigo 24 da Lei de Direitos Autorais: “Nesse sentido, ela assegura ao criador as prerrogativas de ter a autoria atribuída (ou omitida, se assim quiser) à obra; de opor-se à atribuição de autoria a terceiros que não o criador; de manter a integridade da criação; de modificá-la; de conservar seu ineditismo, de tirá-la de circulação e de ter acesso a exemplar único e raro”.

Ao considerar os direitos culturais dentro do mercado, o e-book não deixa de abordar a relação dos artistas com as galerias, a evicção e os riscos decorrentes da informalidade nessa associação. No capítulo 6, Gustavo do Abiahy Carneiro da Cunha Guerra indica que: “Quando há a iniciativa para a formalização da relação, ela costuma partir do galerista, o que não é de todo uma surpresa, por ser este o agente habituado ao ambiente negocial, e não o artista. Mas pela mesma razão, os galeristas menos organizados costumam manter relacionamentos com grande informalidade e até mesmo de maneira não transparente com alguns de seus artistas. Nesses casos, maior será a informalidade quanto menos famoso for o artista em questão”.

Para Gustavo, a não habituação do artista no ambiente negocial pode vir de uma certa imagem pejorativa do artista preocupado com a comercialização ou com os lucros das suas obras. “Parece haver muito mais valor naquela arte que não tem finalidade lucrativa ou comercial, como se fosse uma arte mais autêntica ou mais pura, talvez pela suposição de que se trate de uma expressão artística livre de influências.” O autor aponta que embora a obra artística não tenha como objetivo ser lucrativa, evitar o diálogo transforma o aspecto comercial das obras em um grande tabu. Para ele é indispensável que a natureza da relação entre artista e galerista seja delimitada: “O galerista se responsabilizará por algum dos custos do artista? Se não dos materiais como tintas e telas, ao menos do transporte das obras? A quem incumbe contratar seguros? Quem as inscreverá em prêmios, concursos, exposições e editais? Caso a obra seja vitoriosa em alguma dessas iniciativas, como se dará a divisão dos resultados?”. Essas questões podem parecer pequenas no início de qualquer relação, mas sua importância se mostra conforme o tempo passa e a parceria se desenvolve, ele afirma.

Ainda, em O Direito das Artes, uma visão jurídica da cultura, se fala sobre os direitos dos autores quando há adaptações da literatura para o audiovisual. Já o artigo que fecha a coletânea da OAB, escrito por Guilherme Genestreti, aborda a regulação dos serviços de streaming, que também leva em consideração a preservação de locais de cultura como os cinemas de rua e a necessidade ou não de uma cota para produções nacionais nas plataformas desses serviços. “Se outros setores da economia brasileira, como o alimentício e o automobilístico, encontram proteção diante da concorrência com o equivalente estrangeiro, por que motivo ficaria de fora o audiovisual, que é uma indústria que estampa na tela a identidade brasileira?”, questiona o autor.

Memórias resistentes, arte feita no calor da luta dos anos 1960

"Ha... Ha... Ha...", 1968-2009, Gilberto Salvador. Fotos: Lucas Evangelista e Paula Campoy/ Galeria Frente

A exposição Memórias Resistentes, em cartaz na galeria Frente a partir de 16 de outubro, é quase um acerto de contas de Gilberto Salvador com as certezas ideológicas/afetivas que pulsavam à flor da pele no ano de 1968. O artista teve duas de suas obras parcialmente destruídas no Salão de Arte Contemporânea de Santos – ambas premiadas no evento pelo júri formado por, entre outros, Aracy Amaral e Fabio Magalhães, que também laurearam Antonio Henrique Amaral. Paralelamente ao episódio, sucessivas ameaças obrigaram Gilberto Salvador a se refugiar no sítio de um amigo por alguns meses. Era o momento pesado da ditadura militar que tomara o poder no Brasil com o golpe de 1964. Meses depois, de volta do exílio compulsório, ciente das novas condições artístico/ideológicas, participa da 9a Bienal de São Paulo com trabalhos diferentes, de estilo mais geométrico e voltados para o gesto. “Mostrei três grandes esculturas que hoje integram o acervo da Pinacoteca de São Paulo.”

A mostra traz as duas obras censuradas: Um, Dois, Três, alusão ao domínio americano no Brasil, e Há… Há… Há…, uma paródia sobre os Estados Unidos e a liberdade sexual dos jovens brasileiros com a descoberta da pílula anticoncepcional. Com a curadoria de Fabio Magalhães, o conjunto evidencia o desequilíbrio sociopolítico cultural da década que respingou no sistema da arte. Era o momento de transições ideológicas e comportamentais que deram voz aos jovens e os colocaram como protagonistas das principais mudanças daquela época.

gilberto salvador
“Bang”, 1969, Gilberto Salvador. Fotos: Lucas Evangelista e Paula Campoy/ Galeria Frente

A exposição abrange de 1966 a 1969 com uma reflexão que avança em dois sentidos: o momento da ditadura e a situação caótica que o Brasil enfrenta hoje. “Espero que eu tenha deixado claro qual foi a tomada de posição naquele momento e consiga fazer entender as diferenças que separam os anos 1960 dos dias de hoje.” Cada um desses trabalhos agrega vários elementos figurativos executados com uma superfície de contaminação colorista intensa. Neste cenário, Gilberto Salvador desenvolve múltiplas narrativas e seu gesto é como uma irrupção no espaço cotidiano, com o mesmo princípio reciclador que aplica na pintura.

Chama atenção a obra BANG, potencializada pela camada vermelha transparente aplicada sobre a foto, em clara alusão à truculência da Guerra do Vietnã. Como observa Fabio Magalhães, “Gilberto Salvador dinamiza a ação visual do tema e transforma a narrativa em um confronto entre a obra e o espectador. Ou seja, constrói uma linguagem que nos impulsiona para o centro da cena”. A assemblagem traz cenas retiradas dos jornais, como a foto realizada pelo jornalista Eddie Adams em 1º de fevereiro de 1968 nas ruas de Saigon. Um militar do Vietnã do Sul aponta para a cabeça de um prisioneiro e Adams clica a cena segundos antes do disparo. Essa fotografia lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de 1969.

Vista geral da exposição. Fotos: Lucas Evangelista e Paula Campoy/ Galeria Frente

Gilberto Salvador começou na arte muito jovem. Em 1965, aos 18 anos, realizou sua primeira individual na galeria do Teatro de Arena, a convite do ator e diretor Gianfrancesco Guarnieri, com texto assinado pelo igualmente jovem compositor Jorge Mautner. Nesse momento ele estava ligado ao expressionismo, mas logo depois se engaja na Nova Figuração. “Minha ligação com uma linguagem internacional, no caso a pop arte, não era tão significativa. Eu tentava passar uma mensagem política com uma direção muito específica.”

Quatro anos depois, com posição política muito definida, ele participa da chamada Bienal do Boicote, quando é realizado um protesto internacional. No entanto, ele e muitos outros artistas brasileiros não aderem. “Me mantive com a posição do partido e com o crítico Mário Schenberg, também de esquerda e que organizou uma sala de jovens brasileiros da qual eu fiz parte. O partido dizia para nunca ter uma atitude derrotista, o importante é estar sempre presente, mesmo que seja na resistência”. Para ele, não participar daquela Bienal, no ápice da ditadura, seria aceitar a ditadura como ela é, assim eles tinham que correr o risco. “Eu estive em uma reunião em Buenos Aires e havia todo um movimento contra a Bienal e ali mesmo eu declarei que iria expor”.  Ele apresentou Ação Dialética Sobre…, que aborda o tema da Guerra do Vietnã, um grito rebelde contra as atrocidades do conflito.

“Zet 4, 5 e 6”, 1967, Gilberto Salvador. Fotos: Lucas Evangelista e Paula Campoy/ Galeria Frente

Qual o sentido de retomar esse período nos dias de hoje? Passado tanto tempo, Gilberto Salvador sente que agora é a hora de mostrar essas obras, não só por causa do tenso momento político brasileiro, mas por razões pessoais. “Estou com 74 anos e com uma síndrome pós-pólio super adiantada. Brinco com os meus filhos que a minha ampulheta virou e não vai girar novamente. Então, eu que tenho uma obrigação para com o meu trabalho e devo mostrar esse momento, que é um momento germinal de toda minha produção.”


SERVIÇO
ONDE: Galeria Frente (R. Dr. Melo Alves, 400, Cerqueira Cesar, São Paulo)
QUANDO: de 16 de outubro a 16 de novembro de 2021

Paço das artes tem inscrições abertas para Temporada de Projetos 2021/2022

Vista da exposição Temporada de Projetos 2020, em cartaz no Paço das Artes até 7 de novembro. Foto: Bia Stein/Paço das Artes

Fomentar a produção, reflexão e memória da arte é o objetivo do Paço das Artes desde sua criação, há 50 anos. Buscando dar enfoque também às produções não legitimadas pelo circuito oficial e oferecer subsídios para artistas, críticos e curadores, a instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo desenvolveu a Temporada de Projetos, que em 2021 chega à seu 25º ano de atuação como um dos mais longevos editais de arte contemporânea do Brasil.

Anualmente é lançada uma convocatória que seleciona trabalhos artísticos e curatoriais. Os projetos selecionados pelo júri especializado compõem uma exposição na sede do Paço das Artes – contando com cachê de participação e verba para a montagem dos projetos – e são publicados em um livro sobre a mostra. Leda Catunda, Marcos Chaves, Adalgisa Campos, Lenora de Barros, Jorge Menna Barreto e Regina Parra são alguns dentre os muitos nomes que já passaram pela iniciativa.

Até o dia 22 de outubro estão abertas as inscrições para a edição 2021/2022, que destinará aos selecionados prêmios de R$ 2.000 (para os artistas) e R$ 4.000 (para o projeto de curadoria). O edital também prevê acompanhamento crítico, verba para produção das obras e montagem das exposições, além de ajuda de custo caso os participantes residam fora da cidade de São Paulo. Os critérios de seleção contemplam múltiplas manifestações artísticas e a instituição afirma que “os concorrentes terão ampla liberdade quanto às linguagens de arte contemporânea desenvolvidas em seus projetos”.

Para participar, é necessário preencher o formulário fornecendo currículo, textos conceituais, memorial descritivo, cronograma de execução e orçamento. O resultado será divulgado em novembro de 2021 no site do Paço das Artes. Em paralelo à convocatória, segue em cartaz até 7 de novembro a exposição da Temporada de Projetos 2019/2020, adiada em decorrência da pandemia de Covid-19. É possível visitá-la gratuitamente na sede da instituição de terça a sábado, das 11h às 19h, e aos domingos e feriados, das 12h às 18h.

“O rio é uma serpente”, exposição final da Frestas – Trienal de Artes no Sesc Sorocaba

terceira Frestas - Trienal de Artes: O RIO É UMA SERPENTE
"Entidades", Jaider Esbell. Foto: Matheus José Maria

*Por Coil Lopes e Giulia Garcia

“O rio é uma serpente porque se esconde e camufla, e entre o imprevisível e o mistério, cria estratégias para o seu próprio movimento.” Assim sintetiza o texto curatorial da terceira Frestas – Trienal de Artes, que partindo de uma cosmovisão decolonial manteve foco nos diálogos de seu processo e agora os leva ao Sesc Sorocaba em uma exposição final, que dá continuidade às reflexões encontradas no percurso. Com curadoria de Beatriz Lemos, Diane Lima e Thiago de Paula Souza e assistência curatorial de Camila Fontenele, a edição recebeu o título O rio é uma serpente e contou com uma ampla programação, incluindo viagem curatorial pelo Norte e Nordeste do país, programa de formação de professores, programas de estudos com artistas, curso de expografia, mentoria e uma publicação educativa (saiba mais sobre os projetos, clicando aqui).

Participam da mostra 53 artistas e coletivos de diferentes nacionalidades. São nomes
do Brasil, África do Sul, Bolívia, Chile, Colômbia, Estados Unidos, França, Holanda, México, Peru, República Dominicana e Suíça que exibem obras nos mais diversos suportes, de pinturas a instalações e performances. “Esse grupo de artistas tem a ver com um interesse nosso de pesquisa, da curadoria, em entender quais são as narrativas possíveis dentro do campo da arte contemporânea que excedem a linearidade de uma história da arte ocidental. Então estamos falando de um grupo de artistas que são majoritariamente negras e negros, dissidentes, indígenas e que [quando brasileiros] habitam outras geografias do país que não as localizadas no eixo Rio-São Paulo”, explica Diane Lima.

A arte!brasileiros visitou a exposição e conversou com a curadora Diane Lima. Assista ao vídeo:

O rio é uma serpente, exposição da terceira Frestas – Trienal de Artes, fica em cartaz até 30 de janeiro de 2022 e pode ser visitada gratuitamente, mediante agendamento prévio. É necessária apresentação de comprovante vacinal, a utilização de máscara durante toda a visita e a medição de temperatura dos visitantes na entrada da unidade.

Leia também a crítica de Fabio Cypriano, clicando aqui.

Arte132 Galeria abre as portas em São Paulo com exposição de Alex Flemming

Vista da exposição ALTURAS, de Alex Flemming, na Arte132 Galeria
Vista da exposição individual de Alex Flemming, "Alturas", em cartaz na Arte132. Foto: Henrique Luz/Divulgação

“Temos particular interesse na produção menos conhecida dos [artistas] mais reconhecidos pelo circuito brasileiro das artes e, também, na produção dos consagrados pela história da arte brasileira, mas que demandam revisão. Contudo, a arte de um país e de um período não é constituída apenas por alguns nomes definidos pelo mercado, mas por todos os artistas que desenvolveram um entendimento do Mundo e do Homem num momento. Pretendemos reincluir nomes no cenário das galerias e instituições”, conta Telmo Porto. Fundador da Arte132, é assim que ele define os rumos da nova galeria, inaugurada em agosto de 2021 em Moema, zona sul da cidade de São Paulo. 

Mais do que uma galeria tradicional, a Arte132 pretende se projetar como espaço múltiplo, promovendo discussões e cursos com especialistas – que interdisciplinarmente envolverão temas como artes visuais, história, literatura, música e humanidades -, bem como recitais de música, tornando-se um lugar de encontro. 

Engenheiro de formação, Telmo Porto lecionou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo por 40 anos, mas sempre teve a arte como um de seus pontos de maior interesse. Conselheiro e patrono de museus em São Paulo, ele agora abre a galeria como um das frentes de sua atuação no cenário artístico brasileiro. “O que se pretende oferecer são obras que reflitam o tempo em que foram criadas, contemporâneo e passado, e que possam ser adquiridas como testemunho. Obras que mantenham seu poder de propor e deslumbrar”, conta sobre o projeto. E complementa: “Queremos mostrar e oferecer arte de qualidade ao maior número de pessoas possível. Entre o grande colecionador, com apoio curatorial, e a jovem família, que quer ter arte relevante em sua parede, mas enfrenta restrições orçamentárias”.

Foi com uma exposição individual inédita de Alex Flemming, com curadoria de Angélica de Morais, que a casa abriu suas portas. Em cartaz até 16 de outubro, Alturas reúne obras da série homônima iniciada em 1988. São 15 pinturas de grande escala nas quais “sobre fundos abstratos, Flemming registrou a altura física de pessoas que admira e que foram ao seus ateliês (no Brasil ou na Alemanha). Não são registros de celebridades, são homenagens”, explica Porto em um dos vídeos sobre a mostra publicado no Instagram da galeria. “Nesta série, retrato concretamente a altura das pessoas do nosso tempo, com toda a carga artística que uma obra requer. A série é abstrata, mas também absolutamente real e concreta”, comenta Alex Flemming.

“Flemming apropriou-se e expandiu em pintura um antigo hábito incorporado ao cotidiano doméstico da sua família: medir o crescimento dos filhos. Quando garoto, habituou-se a ter sua altura conferida em uma régua de traços construída e acumulada em uma parede da casa ao longo dos anos. O procedimento, que ele replicou para todos seus retratados, consiste em tirar os sapatos e, de costas para uma tela in progress, ficar imóvel para também ter sua estatura mensurada”, explica Angélica de Morais no texto curatorial. E destaca: “Coerente com o foco de sua obra, fortemente ancorada na figura humana, ele substitui a imagem do corpo pelo índice da presença: a régua que informa a altura do retratado”.

Paulo Mendes da Rocha, Gilberto Gil, João Moreira Salles, German Lorca, Ayrson Heráclito, Eduardo Galeano, José Mujica são alguns dentre os tantos que tiveram sua estatura registrada. No total da série, “33% dos homenageados nessas telas são artistas plásticos brasileiros, 16% são artistas plásticos estrangeiros, 19% são fotógrafos, 6% cineastas, e há também atores e atrizes, esportistas, escritores, poetas, filósofo, bailarina e bailarino, cantores e cantoras”, explica Porto.

O artista padroniza o tamanho das telas para que constituam uma espécie de “Código de Barras da cultura de nosso tempo”. Para a curadora, o conceito de medir é subvertido nessas obras por outra escala de valores: a relevância cultural, “entendida aqui não só na esfera das artes mas também de outras atividades que, somadas, definem a cara do que é estar no mundo hoje e as muitas contribuições que tivemos para estruturar nossa própria visão de mundo, cada vez mais fragmentária e contingente, caleidoscópio de muitas facetas iluminadas que se completam por oposição ou complemento”.

SERVIÇO

Alturas, individual de Alex Flemming
Arte132: Av. Juriti, 132 – Moema, São Paulo (SP)
Visitação: Em cartaz até 16 de outubro. Segunda à sexta-feira, das 14h às 19h; sábado, das 11h às 17h

steinART se coloca como nova galeria no circuito

Claudio Steiner na steinART. Foto: Divulgação

“Desde muito jovem sempre fui um apreciador de arte. Logo cedo me encantei com Kandinsky, Polock e Miró”, conta Claudio Steiner, um dos donos da steinART, escritório de arte recém transformado em galeria. No início dos anos 2000, Claudio e sua esposa Yael fundaram a steinART ao começar sua, até então, pequena coleção. Tendo Administração como formação, Claudio conta que, à medida que sua coleção crescia, o casal começou a analisar o mercado e vender obras quando sentiam que era o momento certo. Antes de montar seu escritório, ele havia trabalho 25 anos no mercado têxtil. “Após sair da empresa me aprofundei no mercado de arte, unindo minha experiência comercial com o amor à área. Comecei como art dealer, e nasceu a steinART como escritório de arte e agora galeria.”

“Arte abstrata sempre foi a minha preferência, ela me emociona, me encanta, me provoca e me deixa em estado meditativo”, diz ele em referência ao foco da galeria: abstracionismo na arte contemporânea brasileira. No acervo da steinART, o diálogo se dá por uma geração de brasileiros e latino-americanos com trajetórias já construídas e que rompem com o modernismo e experimentam através de cores e texturas. Claudio conta que a motivação inicial para uma aquisição pela galeria é a estética e a qualidade da obra. “Em seguida investigamos a origem e certificação da obra. Recentemente adquirimos obras do Amílcar de Castro, Amélia Toledo, João Carlos Galvão, Almandrade, Yutaka Toyota, Ascânio e Eduardo Sued, entre outros.”

Embora estejam focados no mercado secundário, a steinART já colocou um pé no mercado primário com, por exemplo, a retrospectiva dos 60 anos de carreira do Yutaka Toyota com lançamento de seu livro na SP-Arte 2019. Na edição deste ano, a galeria irá expor 20 obras no viewing room da feira, com a continuidade do formato híbrido das feiras de arte. No entanto, Claudio confessa que a concretização das vendas, mesmo que iniciada pela internet, sempre acontece presencialmente. Ele nota, também, que apesar da preocupação inicial do mercado da arte, as vendas continuaram e com um aumento sensível do interesse das pessoas por obras de arte. “Inicialmente achei que os negócios fossem parar, porém foi o contrário: as vendas cresceram”, conta. Para o futuro, os donos da galeria planejam uma exibição de suas obras e a continuação dos seus trabalhos, também, como marchands e art advisors.

 

Monteiro Lobato crítico de arte. De novo [ou ainda]

monteiro
"A mulher de cabelos verdes", s.d., de Anita Malfatti. Foto: Reprodução/ Fund. A. Queiroz, Fortaleza CE
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“A mulher de cabelos verdes”, s.d., de Anita Malfatti. Foto: Reprodução/ Fundação A. Queiroz, Fortaleza/CE

Às vésperas do centenário da Semana de Arte Moderna, é oportuno refletir sobre a crítica daquele que é visto como o intelectual que levaria o modernismo paulistano a ganhar dimensão pública: Monteiro Lobato. Como repete a historiografia oficial, teria sido a partir de seu texto “contra” Anita Malfatti que os modernistas, ainda em 1917/1918, começaram a se arregimentar[1].

Antes de entrar na crítica lobateana, minha intenção é introduzi-la num quadro mais amplo, deixando os limites do debate artístico de São Paulo na segunda década do século passado para pensar sua atuação na luta entre dois tipos de arte que, desde o final do século 19, estavam em disputa. Uma delas, a mais nova, impunha-se como potência insurgente; a mais antiga resistia às investidas da primeira, convocando forças para uma luta que, no final, se revelaria inglória. Me refiro ao embate entre a arte tradicional, que se estruturava desde o Renascimento, e a arte modernista que, surgida no século 19, buscava efetivar-se como um novo paradigma.

Traçar esse quadro permitirá compreendermos de forma menos circunscrita o papel desempenhado por Lobato como crítico. Na segunda parte examinarei algumas questões da crítica lobateana dentro desse quadro mais alargado.

***

No livro Después del fin del arte – el arte contemporáneo y el linde de la história,[2] o filósofo norte-americano Arthur C. Danto propõe uma “era da arte” iniciada mais ou menos a partir de 1400. Sobre a produção anterior a essa data, o autor, tendo como referência o estudioso alemão Hans Belting, em Likeness and Presence: A history of the Image before the era of art, assim se manifesta:

Isso não significava que essas imagens não fossem arte em seu sentido amplo, e sim que sua condição artística não figurava na elaboração das mesmas, dado que o conceito de arte ainda não havia aparecido realmente na consciência coletiva. Consequentemente essas imagens – na verdade ícones – tiveram um papel bastante diferente na vida das pessoas do que tiveram as obras de arte quando esse conceito apareceu enfim e começou a reger nova relação com elas (…) Nem sequer eram consideradas no sentido elementar de terem sido produzidas por artistas (…), e sim que eram observadas como se sua origem fosse milagrosa (…)[3].

Se houve essa quebra na compreensão do fenômeno da arte, seria possível, então, conceber um fim para a “era da arte”. Essas questões são o início da apresentação da tese de Danto, justificando o objeto do seu livro: a produção artística levada a cabo “após o fim da arte”. Para ele não se tratava de discutir o “fim da arte” – como vários autores decretaram nos últimos tempos –, mas sim, o fato de que uma era havia findado:

Minha opinião não era que não devia haver mais arte (…) e sim que qualquer nova arte não poderia sustentar nenhum tipo de relato que pudesse ser considerado como sua etapa seguinte. O que havia chegado a seu fim era esse relato, mas não o tema do relato”[4].

Dentro desse grande relato proposto por Danto, ainda segundo ele, teria havido um período – o modernismo –, em que os pintores que, antes, se dedicavam “à representação do mundo, pintando pessoas, paisagens e eventos históricos tal como se apresentavam a seus olhos. Com o modernismo, as condições da representação se tornam centrais, e é daqui que a arte, em certo sentido, se torna seu próprio tema”[5].

Danto citará o crítico norte-americano Clement Greenberg como o responsável pelo relato sobre o modernismo, que teria substituído a narrativa baseada na vida dos artistas, criada por Giorgio Vasari, no século 16[6]. Para Greenberg, Manet teria exercido na pintura o papel de Kant na filosofia. Se esse último se questionou sobre como seria possível o conhecimento, as pinturas de Manet “se tornaram as primeiras imagens modernistas, em virtude da franqueza com a qual se manifestavam as superfícies planas em que eram pintadas”.[7] Danto, afirma:

Se Greenberg estiver certo, é importante assinalar que o conceito de modernismo não é meramente o nome de um período estilístico que começa nas últimas décadas do século 19, ao contrário do maneirismo que é um período estilístico que começou nas primeiras décadas do século 16 (…) O modernismo está marcado pela ascensão a um novo nível de consciência, refletido na pintura como um tipo de descontinuidade, como se acentuar a representação mimética tivesse se tornado menos importante que outro tipo de reflexão sobre os sentidos e os métodos de representação (…) A questão é que ‘moderno’ não significa somente ‘o mais recente’. Significa, na filosofia e na arte, uma noção de estratégia, estilo e ação”[8].

“Olympia”, 1863, de Édouard Manet. Foto: Reprodução/ Museu D’Orsay, Paris

Ainda segundo Danto, para se estabelecer, o modernismo precisou impor um novo paradigma, substituindo aquele praticado antes, o da mimesis, que durante séculos serviu aos propósitos da arte[9]. Continuando:

Durante um período histórico, se supôs que para ser uma obra de arte, especialmente uma obra de arte visual, a obra teria que ser mimética: imitar uma realidade externa, atual ou possível (…). Mimesis era a resposta filosófica habitual à pergunta sobre o que era arte, desde Aristóteles até o final do século 19, inclusive o século 20 (…) A mimesis se converteu em um estilo com o aparecimento do modernismo (…)[10].

Na sequência, em meio às suas considerações sobre o modernismo e seu fim (que ele situa a partir de meados dos anos 1960), Danto demonstra como eram percebidas as transformações da arte mimética para a arte moderna. Para tanto, citará o esteta inglês Roger Fry que, em 1912, ao resenhar uma exposição de pós-impressionistas em Londres, afirma:

Quando ocorreu a primeira exposição de pós-impressionistas há dois anos nessas galerias, o público inglês soube majoritariamente pela primeira vez que existia um movimento artístico, um movimento que foi o mais desconcertante por não ser uma variação dos temas aceitos e sim que implicava uma reconsideração dos próprios propósitos e metas, assim como dos métodos da arte pictórica e plástica (…) Foram feitas livremente acusações de torpeza e incapacidade [por um público] que em uma pintura admira principalmente a destreza com que o artista produz a ilusão e que resiste a uma arte em que a destreza está completamente submetida à expressão direta do sentimento”[11].

Nota-se que Fry entende estar frente a uma arte não mimética – principal valor para o público de então. Porém, mesmo não possuindo repertório para julgar a pintura pós-impressionista, nota-se o respeito com que o inglês se acerca da arte não mimética proposta pelos expositores.

Mas sabemos que quase ninguém agiu com a sensibilidade ao falar sobre a arte moderna. A recepção que a arte modernista teve na Europa, desde finais do século 19, até os primeiros anos do século seguinte, foi ditada pela incompreensão e pela tentativa de fazer prevalecer o paradigma da verossimilhança, mesmo em intelectuais que, de início, lutaram a favor dos impressionistas. Aqui a figura do francês Émile Zola é emblemática. Defensor de Manet e dos impressionistas, em 1896 ele se escandaliza frente à arte da época, demonstrando seus limites frente ao próprio impressionismo:

Mas minha surpresa se converte em cólera quando comprovo a demência a que pôde conduzir em trinta anos a teoria dos reflexos. E esta foi uma das vitórias que nós obtivemos, os precursores! Com toda razão, sustentávamos que a iluminação dos objetos e das figuras não é simples, que sob as árvores, por exemplo, as carnes nuas assumem tonalidades verdes, que se produz assim um contínuo intercâmbio de reflexos que é mister ter em conta se se pretende dar a uma obra a vida real da luz. A luz se decompõe sem cessar, se quebra e de esparrama. Se alguém não quiser cair na pintura acadêmica feita à luz fictícia do ateliê, se se aborda a natureza imensa e cambiante, à luz eternamente diversa chega a ser a alma da obra. Mas nada há mais delicado e difícil de captar e representar que esta decomposição e estes reflexos, estes jogos do sol que, sem deformá-las, banham as criaturas e as coisas. Quando se insiste em um aspecto e quando intervém a racionalização se chega rapidamente à caricatura. E são realmente obras desconcertantes essas mulheres multicores, essas paisagens de cor violeta e esses cavalos alaranjados que nos oferecem os artistas, explicando-nos cientificamente que são assim por obra de determinados reflexos ou de determinada decomposição do espectro solar. Oh! Essas senhoras que têm uma bochecha azul à luz da lua e a outra bochecha amarelada sob a luz da cúpula de uma lâmpada! Oh! Esses horizontes em que as árvores são azuis, as águas vermelhas e os céus verdes! É horrível, horrível, horrível![12].

É notável como Zola se exaspera frente aos artistas que superam questões caras aos realistas e primeiros impressionistas, abandonando expedientes para conseguir maior efeito mimético. Agora eles investem no próprio ato de pintar.

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Em 1905, sete anos depois do texto de Fry e 12 antes daquele de Lobato, um casal de colecionadores norte-americanos se posiciona sobre o Salão de Outono de Paris:

Agora chegamos à mais assombrosa galeria neste Salón tão rico em surpresas. Aqui toda descrição, todo informe, o mesmo que qualquer crítica, se tornam igualmente impossíveis dado que o que nos apresentou aqui – com exceção do material empregado – não tem nada em comum com a pintura: alguma confusão informe de cores: azul, vermelho, amarelo, verde: algumas manchas de pigmento cruamente justapostas: o bárbaro ingênuo esporte de uma criança que brinca com a caixa de cores que acaba de receber como presente de Natal (…). Esta seleta galeria de aberração pictórica, de loucura de cor, de indizíveis fantasias produzidas por gente que, se não joga algum jogo, deveria ser enviada de novo para a escola[13].

De novo o preconceito frente aquilo que só parecia se assemelhar à pintura devido ao uso dos mesmos materiais. De resto, uma visualidade que nada tinha a ver com a mimesis, nada a ver com a arte “culta” ou “adulta”. Daí a relação direta com a arte da criança ou de gente que, se não estivessem brincando, deveriam ser enviadas de imediato para a escola para aprenderem o “certo”.

Na sequência, mais uma declaração de pouca empatia frente à arte moderna, também citada por Danto. Trata-se de uma matéria publicada em Munique em 1909, sobre uma exposição que então ocorria na Nova Associação de Artistas:

Há só duas formas possíveis de explicar esta exposição absurda: uma, que alguém assuma que a maioria dos membros e convidados da Associação são dementes incuráveis, ou outra que se trata aqui de desavergonhados enganadores que apenas conhecem muito bem o desejo de sensacionalismo do nosso tempo e tratam de aproveitar-se de seu auge.[14]

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Os trechos acima reafirmam a dificuldade de muitos (e não apenas de Lobato) em encarar que a pintura poderia ir além da criação de duplos do real.

Desde o Renascimento acreditava-se que a arte poderia captar o real de maneira idealizada ou não, e os debates caminhavam sempre dentro deste limite. Até a segunda metade do século 19 jamais havia sido colocado em dúvida que a pintura não tivesse o compromisso de ser um análogo da realidade. Porém, na medida em que alguns artistas levantavam outro paradigma – afirmando que a arte poderia voltar-se para a análise da própria produção, para a exploração de suas “verdades” intrínsecas –, as reações perante essa nova possibilidade tendiam a se manifestar por meio de três posturas:

1 – a arte moderna era uma produção realizada por “analfabetos” artísticos, e daí o melhor era que eles fossem estudar; 2 – a arte moderna era praticada por pessoas insanas, e então eles deveriam voltar para o manicômio; 3 – a arte moderna era uma produção praticada por mistificadores que teriam como objetivo confundir a opinião pública, desbaratando os valores da arte tradicional.

lobato
“Rosita”, 1913, Ignacio Zuloaga

Levantados esses dados, leio agora um trecho do famoso texto que Lobato escreveu sobre a exposição protagonizada pela artista Anita Malfatti, em 1917:

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem as coisas e em consequência fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres.

Quem trilha esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Reynolds na Inglaterra, é Dürer na Alemanha, é Zorn na Suécia, é Rodin na França é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno desses sóis imorredoiros.

A outra espécie é formada dos que veem anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva (…); são frutos de fim de estação, bichados no nascedouro. Estrelas cadentes (…).

Embora se deem como novos, como precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu como a paranoia e a mistificação (…)

(…) Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem da latitude nem do clima (…)

(…) Enquanto a percepção sensorial se fizer no homem normalmente, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá “sentir” senão um gato; e é falsa a “interpretação” que o bichano fizer do toró, um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes (…)[15].

Este texto ecoa de perto os excertos que comentei. Frente à produção que via na mostra protagonizada por Anita Malfatti, para ele existiriam duas opções para enquadrar aquelas obras: ou eram fruto da paranoia ou puras mistificações.

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Reler o texto de Lobato no cenário da batalha travada entre os defensores da “era mimética da arte” e a “era modernista”, faz com que seu provincianismo e reacionarismo encontrem seus pares na cena internacional. Embora exista um pequeno gap entre os textos citados e aquele de Lobato, não restam dúvidas de que, caso fôssemos encetar um levantamento nos arquivos europeus e norte-americanos da segunda década do século passado, encontraríamos outras provas de que Lobato, em 1917, não estava só. Por outro lado, seu texto redimensiona a recepção da arte modernista como um todo: ela não foi belicosa apenas no Brasil. Em outros países os partidários do antigo paradigma e daquele proposto pela arte moderna também entraram em uma luta que ainda não foi devidamente recuperada e estudada em seus mais variados alcances.

Como no caso brasileiro, a adesão às ideias modernistas no exterior também ocorre com algum retardo. No Brasil, seria justamente a partir de 1917, com a exposição protagonizada por Malfatti, que tal fenômeno se iniciaria.

Mas esta adesão – não podemos esquecer – se deu num momento em que as vertentes mais radicais do modernismo europeu se encontravam em fase de refluxo, perdendo a força que tiveram desde o final do século 19. Em 1917, em alguns setores do ambiente europeu, muitos artistas, antes ligados às vanguardas, começavam a repudiar parcial ou irrestritamente as manifestações mais radicais das vanguardas, recolocando o renascimento da mimese a partir do retorno a uma visualidade anterior[16].

Assim, em 1917, quando Lobato fica indignado frente à exposição protagonizada por Malfatti – por ver ali indícios de que haveria um projeto que se opunha ao seu próprio projeto de arte brasileira (sobre o qual retornarei) –, no plano internacional já se esboçava outra situação de complexidade ainda maior: muitos artistas renegavam os ganhos estabelecidos pelo paradigma modernista.

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Sem título, 1887, de Anders Zorn. Foto: Reprodução/ Museu Nacional, Estocolmo

Vale a pena reler o seguinte trecho do texto de Lobato:

Quem trilha esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Reynolds na Inglaterra, é Dürer na Alemanha, é Zorn na Suécia, é Rodin na França é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno desses sóis imorredoiros.

O crítico evoca grandes artistas ligados à tradição europeia, (Praxíteles, Rafael, Reynolds e Dürer), ao lado de contemporâneos: Zorn, Rodin[17] e Zuloaga. Se os primeiros ainda hoje são referências para a arte ocidental, Zorn e Zuloaga foram para o limbo da história por praticarem uma pintura que mesclava estilemas naturalistas a uma estrutura conservadora.

O que, então, teria feito com que Lobato juntasse esses dois conjuntos de artistas, sem se preocupar em definir as diferenças entre eles? É que, “clássicos” ou “modernos”, “bons” ou “medianos”, todos eram adeptos da arte mimética. Frente às vertentes que ameaçavam romper com esse paradigma, as diferenças entre os dois grupos deixavam de existir, pois era necessário convocar a todos contra o inimigo comum.

Lobato, desde seus primeiros textos posicionou-se como filiado à arte naturalista, acreditando ser ela a vertente moderna para a arte do Brasil. Essa filiação servia-lhe de filtro para a apreciação que fazia sobre qualquer artista, inclusive Pedro Américo – a quem não aceita por ser um artista idealista e não naturalista – e Almeida Jr. – para ele o grande pintor do país, por ter retratado, dentro do naturalismo, o homem brasileiro “puro”.

Saudade, 1899, de Almeida Jr. Foto: Reprodução

Porém, após a exposição protagonizada por Malfatti, Lobato demonstra-se chocado com a possibilidade de um outro projeto de arte moderna para o Brasil. Ele então titubeia e, como crítico, dá sinais de que se encontra em questionamento. É neste sentido que se entende seu súbito interesse por Pedro Alexandrino, fiel ao mimetismo idealizado e produtor de naturezas-mortas arrebanhadas com sofreguidão pela burguesia da cidade. É justamente Pedro Alexandrino quem Lobato visitará em 1918 e sobre o qual escreverá, enaltecendo os valores tradicionais da pintura e do agir daquele artista. Ao finalizar, ele deixa o seguinte conselho:

Se nos fosse concedida a liberdade de aconselhar alguém, diríamos a todos os jovens pintores em formação: frequentai Pedro Alexandrino, aprendei com ele a fazer da arte uma religião, tomai como norma de vida moral a sua simplicidade encantada; como norma de vida mental o seu ódio a tudo o que é falso, charlatanesco, burlesco, vila-marianesco, Kyrialesco, idiota, cúbico ou futurístico, e o seu amor à verdade e à sinceridade[18].

Interessante a necessidade de Lobato em procurar um grande divulgador daquilo que entendia como sendo a arte de “amor à verdade e à sinceridade”. Isto, após ter escrito sobre a exposição protagonizada por Malfatti, que trazia para São Paulo uma arte que, para ele, era pura paranoia ou mistificação.

Tal atitude demonstra que, para Lobato, a exposição protagonizada por Anita não significou pouca coisa. Suas convicções se abalaram frente ao novo paradigma que a artista, seu professor e colegas apresentavam[19]. Por isso, talvez, a necessidade de visitar Alexandrino, buscando a “verdade da arte” que parecia querer escapar. Por isso a ideia de aconselhar os jovens artistas em formação a irem ao ateliê do artista mais velho em busca da “verdadeira arte”[20].

“Maçãs e uvas”, s.d., de Pedro Alexandrino. Foto: Reprodução/ Pinacoteca de São Paulo

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Lobato considerava-se um crítico moderno e essa afirmação dá a medida da complexidade do ambiente artístico paulistano dos anos 1910. Ele considerava-se moderno e opositor da arte acadêmica e, assim, associava-se a críticos brasileiros do final do 19, como Angelo Agostini e Felix Ferreira, também naturalistas. Ele também se alinhava a Zola, o crítico que, tendo divulgado da arte “científica” e positivista dos naturalistas e impressionistas franceses, encontrou-se inconformado, no final daquele século, frente à “deturpação” que vinham impingindo ao paradigma da arte como duplo do real.

A diferença de Lobato frente aos três era que, aliado à sua adesão irrestrita ao naturalismo, ele juntava o nacionalismo. Sua crítica propugnava um naturalismo nacionalista e esse, de fato, era o anteparo que ele usava para refletir sobre arte.

Lobato constituiu um projeto de estetização nacionalista da vida brasileira, não ficaram restritas à pintura e à escultura. valendo a pena atentar para seus textos sobre arquitetura, os estrangeirismos na língua portuguesa e suas propostas para uma moda nacional[21].

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O que poderíamos concluir sobre a crítica de Lobato contra investidas do modernismo? Em primeiro lugar, não devemos esquecer a complexidade da situação, lembrando que tal resistência ocorre com maior força a partir de 1917, quando, ao mesmo tempo, vertentes do Retorno à Ordem passam a jogar contra as vanguardas, insistindo no retorno a uma produção ligada à mimesis, tornando ainda mais complexa a implantação do modernismo paulistano. Por outro lado, não se deve pensar Lobato como um crítico “acadêmico”. Sua produção é conservadora, sobretudo se a pensarmos tendo as próprias vertentes modernistas como base. Porém, se atentarmos para o debate artístico durante sua atuação mais aguerrida, será visto que ele representava uma alternativa naquele quadro e isso porque, além de adepto do naturalismo, postulava o nacionalismo na arte. Naturalismo nacionalista: esta era a diferença da crítica de Lobato no debate brasileiro. Foi essa posição que o tornou não apenas mais um crítico, mas O crítico de arte mais respeitado em São Paulo entre 1914 e 1918[22].

No entanto, para dar a exata dimensão da complexidade daquele momento, não é possível deixar de lado que Lobato foi atropelado pelo modernismo que chegava através da exposição protagonizada por Malfatti. Tal fato fez com que ele se visse obrigado a deixar de lado suas diferenças com a arte acadêmica, para nela arregimentar forças contra o inimigo que vinha colocar em risco a crença positiva em uma arte que fosse um análogo do real, idealizado ou não.

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[1] – “Paranoia ou Mistificação”, Monteiro Lobato in LOBATO, Monteiro. Ideias de Jeca Tatu. 7ª. São Paulo: Editora Brasiliense, 1956 pág. 59-65. Em tempo: Lobato não escreveu o famoso artigo contra Malfatti, e sim contra a arte moderna (Daí, a palavra contra ter vindo grafada entre aspas no parágrafo.
[2] – DANTO, Arthur C. Después del fin del Arte. El arte contemporâneo y el linde de la historia. Barcelona: Paidós, S.A., 1999.
[3] – DANTO, Arthur C. op.cit. pág. 25/26.
[4] – Idem. Pág. 27.
[5] – Idem, Pág. 29.
[6] – Giorgio Vasari, pintor, arquiteto e historiador que, em 1550, publicou Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos, pautado no relato das biografias dos artistas. Vasari é considerado por muitos o primeiro historiador da arte.
[7] – Greenberg, C. Apud DANTO, Arthur C. Idem. Pág. 29.
[8] DANTO, Arthur C. op.cit. Pág. 52.
[9] – Idem.
[10] – Idem. Pág. 68.
[11] – Idem. Pág. 74/75.
[12] – ZOLA, Émile. El buen combate. Em defensa del impressionismo. Buenos Aires: Emecé Editores, 1986. Págs. 259/260.
[13] – DANTO, Arthur, op.cit. pág. 77/78.
[14] – Idem, pág. 78.
[15] – “Paranoia ou mistificação”, Monteiro Lobato. Op. Cit. Recentemente o estudioso Daniel Rincon Caires publicou o artigo “Bichado ao nascedouro – cientificismo e degeneracionismo na crítica de arte de Monteiro Lobato”,  (https://www.snh2021.anpuh.org/site/anais),em que avança nos estudos sobre as filiações intelectuais de Monteiro Lobato em relação aos preconceitos contra a arte moderna.
[16] – Refiro-me ao Retorno à Ordem, tendência artística do entre guerras que recuperou vários aspectos da arte mimética. Sobre o assunto, ler, entre outros, CHIARELLI, Tadeu. Arte internacional brasileira. 2ª. São Paulo: Lemos, 2002.
[17] – Rodin falece em 1917.
[18] – “Pedro Alexandrino”, Monteiro Lobato. Revista do Brasil, ano 3, vol.7, n.26, fev 1918. Pág, 118-130. Apud CHIARELLI, Tadeu. Um Jeca nos vernissages. São Paulo: Edusp, 1995. Pág. 210-211.
[19] – Não nos esqueçamos que, pelo fato de Anita Malfatti ter apresentado sua produção ao lado de obras de seu professor norte-americano A. S. Baylinson, e de suas colegas Floyd O’Neale e Sara Friedman, a exposição pode ser considerada não propriamente uma mostra individual, mas uma coletiva protagonizada por Malfatti. Corroborando essa hipótese, o título da mostra: “Exposição de Arte Moderna. Anita Malfatti”.
[20] – Irônico é que, pouco depois, acolhendo direta ou indiretamente o conselho de Lobato, Malfatti vai estudar com Alexandrino, em cujo ateliê conhecerá Tarsila.
[21] – Sobre esses temas, vale a leitura de artigos como “A caricatura no Brasil”, “A criação do estilo ( A propósito do Liceu de Artes e Ofícios)”, “A questão do estilo”, “Ainda o estilo” e “Estética oficial”, entre outros. IN LOBATO, M. Op.Cit.
[22] – Importante não esquecer que o nacionalismo modernista emprestará algumas questões vindas dos postulados lobateano. Sobre o assunto ler: CHIARELLI, Tadeu. Pintura não é só beleza. A crítica de arte de Mário de Andrade. Florianópolis: Letras contemporâneas, 2007.