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Museu Judaico de São Paulo busca se entrelaçar com a cidade e com outras culturas

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O Templo Beth El, que abriga o Museu Judaico de São Paulo, no centro da cidade. Foto: Fernando Siqueira/ Divulgação

Por cerca de 80 anos, o Templo Beth-El, no centro de São Paulo, serviu à comunidade judaica da cidade. Projetado em estilo bizantino pelo arquiteto russo Samuel Roder, abrigou de 1932 a 2010 a sinagoga da Congregação Beth El – hoje sediada nos Jardins -, fundada por imigrantes vindos do Leste Europeu no período entreguerras. Agora, após uma década fechado para reformas, o edifício se abriu de um outro modo para a capital paulista, direcionado a um público bastante mais amplo: “Desde o início esse projeto foi pensado para não ser um museu voltado para a comunidade judaica, mas um museu para a cidade, para o país, aberto a todos”, conta Felipe Arruda, 41 anos, diretor executivo do Museu Judaico de São Paulo (MUJ).

De algum modo, o edifício passa a fazer jus de modo mais evidente à frase que está grafada em sua fachada, em letras hebraicas: “Que esta seja a casa de oração para todos os povos”. Segundo Arruda, o escrito que lá está desde 1932 continua muito necessário em um mundo que lida com crescente preconceito, intolerância e uma série de violências contra minorias. Só no Brasil, conta o diretor, existem hoje cerca de 530 células nazistas em atividade.

Arruda, que foi Diretor de Cultura e Participação do Instituto Tomie Ohtake por seis anos, faz questão de ressaltar, neste ponto, que o foco do MUJ é a luta contra todos os tipos de preconceito, não só contra judeus: “O Brasil é um país que viveu quase 400 anos de escravidão, um genocídio indígena, algumas décadas de ditadura, e tem uma democracia muito recente e frágil, ainda em formação. Isso exige um fortalecimento das instituições democráticas e uma reparação a todos esses povos que foram oprimidos, subordinados, e que são vítimas de violências sistemáticas”.

Um dos caminhos para o combate aos preconceitos, para ele, é não reduzir as pessoas a uma só identidade, superficial, que cria simplificações e estereótipos. “Não existe ‘o judeu’, mas sim uma espantosa multiplicidade de judeidades. E os depoimentos que mostramos – de idosos, jovens, crianças, pessoas trans, pessoas de origem afrodescendente, de origem asiática, rabinos ortodoxos etc. – mostram como é diversa a expressão dessa judeidade”. E ele completa: “Você não vai sair do MUJ e falar: Ah, então isso é o judaísmo!”.

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O diretor do Museu Judaico de São Paulo, Felipe Arruda. Foto: Beatriz Costa/ Divulgação

O visitante não vai deixar de se aprofundar, no entanto, em uma infinidade de aspectos da história e cultura de judeus no Brasil e no mundo. O museu, com cerca de 40 funcionários, inaugurou com duas mostras de longa duração – A Vida Judaica e Judeus no Brasil: histórias trançadas – e duas temporárias – Inquisição e cristãos novos no Brasil, até 31 de maio, e Da letra à palavra, até 10 de abril. Esta última, com a participação de 32 artistas contemporâneos, mostra a vontade do MUJ de trabalhar com os mais diversos tipos de linguagens e suportes – nas exposições estão expostos objetos, documentos, vídeos e depoimentos sonoros, entre outros.

Entre as próximas exposições programadas estão uma da artista e pesquisadora Giselle Beiguelman e uma de fotógrafas mulheres de origem judaica que chegaram ao Brasil na primeira metade do século passado – como Madalena Scwhartz, Hildegard Rosenthal, Alice Brill, Stefania Brill, Lily Sverner, Gertrudes Altschul e Claudia Andujar. Intitulada Modernas! – São Paulo vista por elas, a mostra é uma parceria com o Instituto Moreira Salles.

Em longa conversa com a arte!brasileiros, Arruda falou ainda da importância do setor educativo e do Centro de Memória do MUJ – que acolhe desde 2015 o valioso acervo do arquivo histórico da USP; da busca para desenvolver diálogos com outros espaços da região (da Ocupação 9 de Julho ao Parque Augusta); das dificuldades de captação financeira sob um governo federal que ataca a área cultural; e dos flertes do governo Bolsonaro com um “Israel imaginário” – “que é essa idealização de um povo branco, de um país armamentista e religioso”. Leia a íntegra abaixo:

ARTE! – Podemos começar falando sobre como surge o Museu Judaico de São Paulo, um projeto de quase duas décadas que finalmente abre suas portas em dezembro de 2021…

Felipe Arruda – O museu é fruto de uma iniciativa da sociedade civil. Isso é importante de ser destacado, porque ele não surge nem de uma família com recursos, nem de uma empresa e também não é um museu público. É um museu privado e parte de uma associação de amigos que projeta esse sonho de ter um museu para representar a cultura judaica aqui no Brasil – um país que tem uma comunidade de mais de 120 mil judeus, sendo 80% deles aqui em São Paulo. Voluntariamente, esse grupo constrói um projeto que leva quase duas décadas para ser gestado, com uma mobilização de muitas pessoas. Esse período inclui primeiro a cessão do templo Beth-El, que é antiga sinagoga, para o museu; depois a captação de recursos para fazer o restauro do edifício, que é um patrimônio tombado pela prefeitura em 2013; e a construção do anexo, que está acoplado à sinagoga. Esse processo inclui também o acolhimento do acervo do arquivo histórico da Universidade de São Paulo (USP), que é o maior arquivo judaico no Brasil. Ele é o que chamamos hoje de Centro de Memória (CDM) do museu e virá fisicamente para cá este ano. Depois veio toda a etapa de museologia, expografia etc. E em maio do ano passado, após um processo de seleção, me fizeram o convite para vir para cá, quando, na verdade, ainda não havia nem uma equipe inteiramente formada. Aí começamos todo o processo de finalizar a implantação, as exposições, um plano de inauguração, um planejamento estratégico do museu, uma renovação do Conselho, fazer o site e a comunicação visual e assim por diante. Toda essa parte estrutural para poder inaugurar.

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Área interna do museu onde ficava a antiga sinagoga. Foto: Divulgação

ARTE! – O valor investido nesse processo todo foi de cerca de R$ 60 milhões de reais. Como se deu o processo de captação para um projeto desse porte?

Basicamente empresas, via Lei Rouanet ou doação direta, e doações de pessoas físicas (que representa um percentual menor). O interessante é que grande parte das doações vieram de pessoas de fora da comunidade judaica. Isso é importante de se dizer porque desde o inicio esse projeto foi pensado para não ser um museu voltado para a comunidade judaica, mas um museu para a cidade, para o país, aberto a todos. Na fachada do templo está escrito: “Que esta seja a casa de oração para todos os povos”, uma frase escrita em hebraico em 1932 e que continua muito necessária. Até mesmo a minha escolha como diretor executivo mostra essa abertura, sendo alguém que não é judeu na diretoria. Obviamente poderia ter sido uma pessoa judia, esse não é ponto essencial, mas me parece que o projeto já nasce com esse espírito, essa disposição para a conexão.

ARTE! – Entrando então neste aspecto do pensamento que move o museu, é notável nas exposições a busca por um diálogo com o passado, mas também com o contemporâneo, com um judaísmo que não é estático, que se transforma junto com a sociedade, e que também tem peculiaridades no contexto brasileiro. Faz sentido?

O MUJ é um museu secular, não um museu religioso, e ele busca apresentar as múltiplas expressões da cultura judaica. Ele tem essa missão de cultivar as expressões da cultura judaica e mantê-las vivas – não como algo que está no passado e que pode ser entendido como algo fixo, monolítico. Pensamos a memória como algo que pertence ao presente, que está em movimento. E nós fazemos isso em diálogo com o contexto brasileiro, em diálogo com o debate contemporâneo e com as aspirações dos diferentes públicos, através da ideia de que um museu se constrói com as pessoas, com a participação de seus públicos. Isso é fundamental para qualquer instituição cultural hoje.

Então aqui, na mostra de longa duração, buscamos apresentar aspectos basilares da cultura judaica, que tem a ver com tradições, festas, valores… Mas é interessante que antes disso, logo na entrada, o visitante se depara com vídeos em que pessoas respondem sobre o que é ser judeu. E essa é uma pergunta fundamental para o MUJ, porque não existe “o judeu”, mas sim uma espantosa multiplicidade de judeidades. E os depoimentos – de idosos, jovens, crianças, pessoas trans, pessoas de origem afrodescendente, de origem asiática, rabinos ortodoxos etc. – mostram como é diversa a expressão dessa judeidade, ela não pode ser reduzida a uma só coisa. O próprio [Emmanuel] Levinas fala que o judeu é sempre um ser inacabado, que tem a ver com o devir, com o vir a ser judeu, com a impossibilidade de ser sempre o mesmo, com uma constante busca. E é fundamental destacar que o judaísmo não é apenas uma religião. Ele é também um religião, mas é antes um povo, uma cultura e uma gama de expressões – algo milenar, mas em transformação. Então esse não é um museu que busca afirmar uma identidade, mas sim cultivar uma cultura.

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Na fachada original do templo, a frase “Que esta seja a casa de oração para todos os povos”. Foto: Divulgação

ARTE! – Esse aspecto da multiplicidade e da alteridade está muito presente nas mostras…

No depoimento que colhemos da Deborah Colker, ela diz: “Quanto mais eu me misturo, mais judia eu sou”. Ou seja, que quanto mais se aproxima da cultura afrobrasileira, da cultura árabe, da cultura japonesa, mas judia ela se sente. Porque segundo vários teóricos a identidade judaica é fundada na ideia da alteridade. E nós acreditamos que essa pode ser uma contribuição do MUJ para o debate identitário hoje: que é menos uma propensão à afirmação isolada de uma determinada identidade – de um povo que é historicamente alvo de perseguições e opressões -, mas mais uma perspectiva de alteridade de alguém que está interessado em fazer relações, diálogos, que seja porosa e interessada no outro. Um museu que se insere no mundo com seus desafios e temas importantes a serem debatidos – e acreditamos que existem valores e experiências dentro da cultura judaica que podem contribuir para o debate contemporâneo.

Então, falando sobre nossos eixos, há essa dimensão mais ligada às festas e tradições; a dimensão mais histórica, sobre a presença judaica no Brasil nestes mais de 500 anos; e nas exposições temporárias temos mostras de caráter mais documental, que vão beber muito no Centro de Memória, e também um espaço voltado à produções contemporâneas. Este último é um espaço que vai movimentar bastante o MUJ, porque traz debates atuais em produções principalmente de arte, mas não só. Temos a ideia, por exemplo, de fazer uma mostra ligada à psicanálise. Existe uma autora, Betty Fuks, que defende que o nascimento da psicanálise está intrinsecamente ligado à judeidade do Freud – porque se a judeidade é essa relação com a alteridade, a busca por tornar-se alguém a partir da relação com o outro, a psicanálise também nasce dessa procura, de se precisar do outro para se reconhecer.     

ARTE! – Você falou anteriormente que um museu se constrói com a participação de seus públicos. Eu queria que você falasse um pouco mais desse aspecto e de como entram aí o trabalho educativo, o acervo e o espaço para pesquisa.

O Centro de Memória do Museu é um arquivo riquíssimo de pesquisa: tem 1 milhão de páginas de documentos, 100 mil fotografias, 20 mil livros – sendo 8 mil em ídiche -, discos, objetos e depoimentos de história oral de famílias que migraram para o Brasil. O arquivo do rabino Henry Sobel também está com a gente e o da professora Anita Novinsky – uma das maiores especialistas em Inquisição no mundo – está vindo para o MUJ. Temos esse tesouro que já é hoje acessível, mas o MUJ vai abrir um edital para pesquisadores do Brasil inteiro poderem realizar suas pesquisas no arquivo com apoio e bolsas. E não só pesquisas de interesse judaico, porque você pode, por exemplo, pesquisar a história da indústria têxtil no Brasil ou em São Paulo a partir de uma série de documentos que tratam dessas indústrias, lojas etc. Existem muitos caminhos possíveis para esse arquivo, com o qual inclusive já fizemos exposições itinerantes em bibliotecas e escolas.

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Mostra de longa duração do museu, com material de acervo do Centro de Memória. Foto: Divulgação

E na parte educativa já temos uma equipe formada que atende diariamente os visitantes e os grupos de escolas e instituições. Temos visitas mediadas, visitas em libras, visitas teatralizadas, contação de histórias e mediação de leitura para crianças pequenas. E para essas visitas todas a nossa ideia de mediação não é de uma explicação, ela é sempre crítica, reflexiva, inclui o visitante, seu repertório, e mantém um campo de diálogo aberto. E o próximo passo do museu é fortalecer essa dimensão participativa, estabelecendo mais vínculos com o território: com a Ocupação 9 de Julho, com o Parque Augusta, com os coletivos de artistas da região e assim por diante. Então estamos começando essas costuras, porque na nossa visão é fundamental um museu inserido e com vínculos bem estabelecidos com o seu território, que esteja a serviço dele e onde o público tenha a possibilidade de criar, de produzir, de se expressar.

Temos que criar instâncias de participação e sair de uma posição hierarquizante que um museu pode ter, como se fosse uma autoridade máxima. O museu tem que praticar muito a escuta, aprender também com as pessoas de fora. Existiu um debate grande nas últimas décadas sobre a democratização do acesso aos equipamentos culturais, para que mais pessoas os frequentem. Isso é importante, ainda mais em um país como o Brasil – onde existe grande carência na área cultural -, mas é insuficiente. A ideia da participação está ligada a uma outra perspectiva, que é chamada de democracia cultural, que é quando as pessoas não só têm a possibilidade de ter acesso aos equipamentos, mas também à própria produção e à circulação de suas expressões. E é isso que queremos desenvolver melhor este ano, já que o MUJ ainda é muito novo. Então já estão nos planos de 2022, entre outras coisas, a realização de um festival literário, de debates, a exibição de filmes, o lançamento de livros; e já temos uma parceria iniciada com a São Paulo Companhia de Dança para fazer workshops de Gaga [técnica de dança criada pelo israelense Ohad Naharin].       

ARTE! – Pensando neste aspecto do diálogo com o território, com o entorno, muitos dos espaços ligados à comunidade judaica em São Paulo (e em outras cidades) têm uma dificuldade de se abrir para cidade, em geral por preocupações com a segurança. No MUJ percebe-se que as portas estão abertas para a rua, mas há também paredes de vidro blindado no entorno do museu e detector de metais na entrada para as exposições. Esses tipos de mecanismos criam um distanciamento do museu com a cidade e o espaço público?

Acho que a palavra aí é “equilíbrio”. Nós somos reconhecidamente uma instituição judaica, dentro de uma antiga sinagoga, e com o crescimento do antissemitismo no Brasil e no mundo é responsabilidade nossa garantir a segurança dos visitantes e dos colaboradores. Isso é premissa. E embora no Brasil não haja um histórico de atentados a instituições judaicas, não estamos imunes à isso, já ocorreu na Argentina, por exemplo. Hoje existem, mapeadas pela pesquisadora Adriana Dias, da USP, cerca de 530 células nazistas em atividade no Brasil, e claro que isso é motivo de preocupação. Por outro lado, somos um museu, que deve ser um espaço amigável, de acolhimento, o mais aberto possível. Então a gente busca equilibrar essas duas questões. As portas do museu estão sempre abertas e temos uma recepção acolhedora; o aparato de segurança, que é o detector de metal e o raio-x, é hoje bastante comum em várias instituições culturais da cidade, e está ali da forma menos intimidadora possível; e passando por ela temos um espaço como qualquer outro, inclusive com uma grande lateral de vidro que favorece a transparência com a cidade. E posso dizer que a conversa com a equipe de segurança vai nesse sentido, de que aqui é um lugar humanizador, onde as relações têm que ser cordiais e acolhedoras.

Bispo do Rosário
Ao centro, obra de Bispo do Rosário na mostra temporária “Da letra à palavra”. Foto: Divulgação

ARTE! – Já tratamos aqui de educação, pesquisa e diversidade cultural, ou seja, ideias que vão em direção oposta ao que propõe o atual governo federal. Temos, entre outras coisas, ataques claros a instituições culturais, uma paralisação e controle inéditos da Lei Rouanet. Como enxerga o contexto e como se dá o financiamento do MUJ a partir de agora, dado esse quadro tão complexo?

Complexo, para dizer o mínimo. Porque estamos vivendo a sobreposição de várias crises no país: uma crise econômica, uma crise sanitária, uma crise institucional e vivemos também um momento emocionalmente desafiador, com um luto da pandemia e muitas vidas perdidas, principalmente de pessoas mais vulneráveis. E vemos o desemprego, pessoas na rua, um momento socialmente dramático. E no nosso setor a crise também é aguda, com a área cultural sendo muito fragilizada nas suas políticas públicas. Para o MUJ, uma instituição que nem é pública nem pertencente a empresas, é fundamental essa resiliência da sociedade civil, uma vez que não temos políticas públicas que possam sustentar ou apoiar a vida da instituição. Fazemos um esforço enorme para apresentar o projeto para pessoas e empresas que possam apoiar via Lei de Incentivo ou verba direta, mas nesse momento está especialmente desafiador, até por essa instabilidade no funcionamento da Lei de Incentivo.

ARTE! – Um dos temas tratados na nova edição da arte!brasileiros (número 58) é o conceito de reparação, no sentido de que só é possível haver uma democracia verdadeira se houver algum tipo de reparação histórica em relação às violências perpetuadas contra os povos historicamente oprimidos. No Brasil isso se refere especialmente aos indígenas e afrodescendentes, mas a reparação é um tema que perpassa muito a história dos judeus. O caso judaico pode servir como algum tipo de exemplo, trazer ensinamentos nesse debate?

O Brasil é um país que viveu quase 400 anos de escravidão, um genocídio indígena, algumas décadas de ditadura, e tem uma democracia muito recente e frágil, ainda em formação. Isso exige um fortalecimento das instituições democráticas e uma reparação a todos esses povos que foram oprimidos, subordinados, e são vítimas de violências sistemáticas. Então esse é um compromisso nosso como sociedade, seja de museus, cidadãos, instituições, empresas ou governo. Precisamos criar um novo paradigma de país que entenda o tamanho da sua dívida e crie políticas de reparação. Nesse sentido, existe um conceito judaico que chama Tikun Olam, que é a “reparação do mundo”, uma melhoria, um aprimoramento. Porque as coisas não estão bem, não estão confortáveis, tem muito a ser feito. Então, do ponto de vista do MUJ, defendemos não só a reparação e a salvaguarda dos direitos do povo judeu e da cultura judaica, mas de todos os povos. Uma perspectiva de uma sociedade mais igualitária, mais solidária, menos violenta.

Entrada para a seção dedicada ao Holocausto. Foto: Divulgação

ARTE! – Em uma das paredes da exposição, próxima à parte sobre o Holocausto, está grafado em letras grandes: “lembrar e não esquecer”… 

Sim, e a gente fez questão ali neste ponto da exposição de lembrar de outras violências também, perpetuadas contra pessoas indígenas, negras, transsexuais… Porque isso é uma realidade, nós vivemos em um país muito violento, muito desigual, e não se trata aqui de excepcionalizar a questão judaica. Pelo contrário, entendemos muito mais numa perspectiva de aliança, de unir forças para que todo mundo possa existir com seus plenos direitos. Então antes de entrar na seção do Holocausto há esse destaque, para ressaltar que assim como aconteceu com o povo judeu, isso acontece com muitas outras identidades. Mas vale ressaltar que não se trata aqui de hierarquizar as dores, não se pode entrar num sistema de medida sobre isso.   

ARTE! – Tivemos recentemente o caso em que o então apresentador do Flow Podcast, Monark, falou que deveria ser permitida a existência de um partido nazista no Brasil. Em entrevista recente você afirmou que o nazismo não é um problema só dos judeus e que estamos vendo um crescimento do preconceito, de violências e opressões no mundo. Poderia falar um pouco sobre isso?

Eu acho que existe uma tendência da nossa sociedade a reduzir o outro a uma versão muito simplificada. As pessoas não podem ser reduzidas a uma só identidade, todos nós temos muitas camadas identitárias e elas estão sempre em movimento, são por vezes até contraditórias. E quando se reduz a pessoa a uma só faceta, anula-se várias de suas dimensões humanas, e isso é inclusive motivo de violência. O MUJ quer mostrar isso, que as identidades são complexas e multifacetadas. Espaços de educação e de cultura são fundamentais para se formar uma consciência de uma sociedade mais tolerante, que valorize a diversidade. E nós discutimos no museu que se alguma coisa pode ser tirada deste episódio tão lamentável do Monark é a oportunidade pedagógica. Foi importante que as instituições tenham se manifestado, que essa pessoa tenha sido criticada e que isso crie uma consciência de que a comunicação pública exige responsabilidade – não se pode permitir esse tipo de discurso, que acaba chegando a milhares de pessoas e que influencia a formação de uma cultura violenta. E, claro, onde houver crime é preciso que os encaminhamentos corretos sejam dados, mas não acreditamos apenas na punição, mas na necessidade de educação.

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A exposição “Da Letra à Palavra”. Foto: Divulgação

ARTE! – Neste sentido, temos um governo que de um lado se utiliza de símbolos do judaísmo – através de uma relação que passa pela comunidade evangélica e por uma suposta irmandade com Israel -, mas que por outro lado flerta com pensamentos fascistas, até nazistas. Tivemos o caso do Roberto Alvim, a visita de representantes neonazistas alemães e assim por diante. Como vê a situação e que papel o MUJ pode ter neste contexto?

É um assunto amplo e complexo. O que nós entendemos é que existe uma série de imaginários equivocados a respeito do que seria o judeu e também sobre o que seria a relação entre os judeus que vivem aqui no Brasil e o governo de Israel. Existem judeus em várias partes do mundo, uma grande parte em Israel, mas as políticas de um governo em Israel é uma outra coisa. O nosso governo buscou uma aproximação com o governo de Israel também motivado por um entendimento de um “Israel imaginário” e um “judeu imaginário” – como diz o professor Michel Gherman -, que é essa idealização de um povo branco, de um país armamentista e religioso. E isso é uma apropriação indevida de imaginários que não correspondem necessariamente à realidade e que servem para cooptar símbolos para um projeto político. E esse é um processo que vem acontecendo e que deixa tudo muito turvo… porque é um governo que não apoia minorias e ao mesmo tempo tem essa relação de admiração ou flerte com Israel. Pode parecer tudo muito confuso.

No caso do MUJ, trabalhamos muito mais com uma perspectiva cultural. Acho que existem outras instituições do país muito bem preparadas e que estão discutindo mais profundamente essa questão de ordem política, que passa também por Israel. E na nossa mediação e no educativo nós procuramos colocar as coisas nos seus lugares, porque é mesmo bastante complexo. Por fim, sobre os flertes que você falou do atual governo com o fascismo ou nazismo, isso é simplesmente inadmissível. Ainda mais, como no caso do Alvim, de um setor que se ocupa da cultura. Então é nosso papel fazer frente a esse tipo de manifestação.     

37ª edição do Panorama da Arte Brasileira anuncia curadores e título da edição: “Sob as Cinzas, Brasa”

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Da esquerda para a direita, acima, Claudinei Roberto da Silva e Vanessa Davidson, abaixo, Cristiana Tejo e Cauê Alves. Foto: Divulgação
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Fachada do Mam-SP, no Parque Ibirapuera. Foto: Karina Bacci/ Divulgação

“Sob as Cinzas, Brasa”: o título escolhido para a 37ª edição do Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, que abre as portas no dia 23 de julho, já dá pistas claras do partido adotado pela equipe curatorial do evento. Além de evidenciar o interesse em iluminar as intensas contradições, ausências e paradoxos que marcam a cultura brasileira, a frase remete simultaneamente às pulsões conservadoras e às potências criativas, que convivem e marcam a cena artística nacional. Impossível não remeter às tragédias do Museu Nacional, Cinemateca Brasileira e também a outros incêndios mais metafóricos como o desmonte das estruturas culturais do país, nem tampouco ignorar que sob mantos de invisibilidades e interpretações mais sedimentadas e oficiais reside uma força incandescente que deve ser resgatada.

Há também nessa frase condutora uma referência evidente à centralidade da questão nacional para qualquer reflexão sobre os rumos das artes e para o debate em torno de temas como formação, desenvolvimento e cultura nacional. Afinal, advém do termo brasa (derivada da árvore pau brasil, primeiro produto explorado na região pelos colonizadores) o próprio nome do país. “As formas não estão separadas da política, da ideologia”, afirma Cauê Alves, atual curador-chefe do MAM-SP e que juntamente com Cristiana Tejo, Vanessa Davidson e Claudinei Roberto da Silva concebeu o projeto da exposição.

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Da esquerda para a direita, acima, Claudinei Roberto da Silva e Vanessa Davidson, abaixo, Cristiana Tejo e Cauê Alves. Foto: Divulgação

A seleção de artistas concebida ao longo do último ano, em encontros semanais e intenso diálogo entre os participantes, ainda é segredo. Os nomes dos convidados a participar da exposição só serão divulgados em abril, porém já é evidente a busca pela diversidade e a proposição de um olhar ao mesmo tempo histórico e prospectivo. A força simbólica das celebrações do bicentenário da Independência e do centenário da Semana de 22 cria uma oportunidade incontornável de rever mitos assentados e propor novas leituras sobre o nosso passado. “É um ano paradigmático, um momento interessante para repensar nossos ciclos históricos”, afirma Cristiana. “É importante saber de que tradição estamos falando e nosso desejo é dialogar com tradições silenciadas, negligenciadas”, complementa Claudinei Roberto. “A proposta incorpora também a ideia de renascimento, algo que renasce como fênix das cinzas”, acrescenta Vanessa.

Segundo a curadora norte-americana, que há anos pesquisa a arte da América do Sul, a mostra será estruturada em torno de diferentes núcleos temáticos, que compõem um percurso muito interessante e diverso, abordando diferentes aspectos da produção passada e recente, como a questão das simbologias políticas das cores; a forte relação da produção artística nacional com a terra, o solo, o barro e a busca por artistas que têm saberes de um Brasil profundo; ou ainda a reflexão a partir dos símbolos de poder e opressão, como o Borba Gato. Há também no projeto do Panorama uma intenção clara de recuperar o caráter panorâmico da evento, que desde 1969 se esforça em mapear a produção artística contemporânea e dar espaço para reflexões curatoriais bastante diversas. “Buscamos resgatar uma visada ampla e generosa para o entorno, para a paisagem humana e cultural do país”, sintetiza Cauê.

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O MAM-SP durante o 36o Panorama da Arte Brasileira. Foto: Karina Bacci/ Divulgação

Evidentemente, a prospecção de novas poéticas foi dificultada pela pandemia (que também forçou o adiamento por um ano da mostra bienal), mas segundo os curadores foi possível criar outras possibilidades de circulação e diálogo e o fato de atuarem em conjunto, de forma horizontalizada, contribuiu para isso, ampliando as referências, já que cada um deles parte de um ponto de vista particular. “Nesse caso dois mais dois é mais do que quatro”, brinca Cauê.

Claudinei Roberto, por exemplo, traz para o grupo uma experiência potente de investigação, como artista e curador da arte negra, periférica, que coloca em questão os cânones estabelecidos. “Precisamos ir para a periferia para aprender e não para colonizar”, afirma ele, lembrando as gritantes diferenças encontradas nesse leque amplo de poéticas. Como atesta o terrível fato de que um dos artistas negros selecionados tenha precisado trabalhar durante as madrugadas envasando álcool gel e de dia como motoboy, enquanto muitos se resguardavam em quarentena.

Cauê Alves e Cristiana Tejo, curadora independente pernambucana e que atualmente reside em Lisboa já fizeram conjuntamente a curadoria do 32º Panorama, em 2011, que tinha por tema a ideia de deslocamento, de viagem, algo ironicamente impossível nos dias atuais. Uma certa desaceleração impôs-se, com reflexos inclusive sobre o calendário da mostra, que terá uma duração estendida, de seis meses, para ampliar o público, permitir um trabalho mais aprofundado com o educativo e de disseminação virtual do evento.

Será que existe um olhar apolítico?

Capa da revista Internazionale, com foto de Gleb Garanich.
Capa da revista Internazionale, com foto de Gleb Garanich.

Nenhuma guerra é ética. Mas todas as imagens da guerra são estéticas. Dois lados de uma mesma moeda. Para o filósofo francês Jacques Rancière, arte e política tem uma origem em comum, ou seja, ambas estão fundadas sobre um mundo sensível. Há tempos venho acompanhado imagens de guerra. Desde a primeira, por coincidência na Crimeia fotografada pelo fotógrafo inglês Roger Fenton entre 1854 e 1855, até a atual guerra entre Rússia e Ucrânia. Sigo estas imagens porque alguns historiadores da fotografia afirmam que é nas imagens de conflito que se encontra a raiz do surgimento do fotojornalismo. Com o tempo fui acompanhando como foi se desenvolvendo uma estética da fotografia de guerra e como ela foi se repetindo. Claro, guerras são diferentes, armas são diferentes, contextos sócio-históricos são diferentes. Mas é na estética que reside a construção de um significado e não no seu conteúdo. No final dos anos 1980 começou-se a se discutir na academia, na crítica e nos museus a estetização da miséria e da dor, a se questionar o valor das fotografias de conflito. E desde então esta tem sido uma discussão que preocupa muitos pensadores da imagem. Mas sempre me pareceu uma discussão mais acadêmica do que da vida real, ou seja dos fotojornalistas que estão lá olhando direto para o conflito.

Podemos começar com Susan Sontag, que decidiu criar regras entre ética e estética. Achar que havia uma divisão entre político e estético, como se isso fosse possível. E na esteira de seus colegas pós-modernos e pós-estruturalista nos incitou a desconfiar da imagem. Ela afirmava que a fotografia nos apresentava cenários de catástrofes, sem explicar as causas ou efeitos, por isso não acreditava na sua eficácia política ou ética.

Conceitos estes que foram discutidos anos depois por Susie Linfield em sua fundamental obra  The Cruel Radiance (sem tradução em português): “Estou escrevendo contra as ideias pós-modernas e pós-estruturalistas e seus herdeiros e pelo seu arrogante e azedo desdém pela tradição, a prática e as ideias da fotografia documental”. Tempos mais tarde outra autora surge e se declara contra esta dicotomia criada por Susan Sontag. A pesquisadora israelense Ariella Azoulay, que em seu livro Civil Imagination (também ainda sem tradução no Brasil) afirma: “Pensar desta forma é uma armadilha. Toda foto é estética e toda foto é política. A criação ou a imaginação não são o oposto de político. E propõe: “Vamos falar de imaginação política”. E aqui retornamos ao Rancière, que em seu livro Tempos Modernos: arte, tempo e política escreve: “A ficção é necessária onde quer que certo senso de realidade precise ser produzido. É por isso que a política, as ciências sociais e o jornalismo se utilizam de ficções tanto quanto romancistas ou cineastas”.

Como se uma obra estética fosse livre e uma obra política seguisse regras de um manual. O que acontece é que as imagens nos incomodam. O que devemos ver em determinadas imagens? É preciso olhá-las?

Este mesmo tema também vai intrigar o filósofo e historiador de arte Jean Galard, que no livro Beleza Exorbitante afirma: “O que é feito da ética dessa atenção quando, através da imprensa, da televisão, das mídias eletrônicas, ela incide, de modo acidental ou deliberado, sobre as imagens da realidade sangrenta, terrificante, bárbara, da qual nós somos o público cotidiano?”. Em sua reflexão, Galard afirma que “numerosos espectadores expressam o mal estar que suscitam, que deveriam suscitar tais imagens em que a beleza, diz-se, combina demais com a dor”.

Capa do livro "War is Beautiful", de David Shields.
Capa do livro “War is Beautiful”, de David Shields.

Continuando nesta linha, em 2015 o autor best-seller David Shields analisou mais de uma década de fotos de guerra de primeira página do The New York Times e lançou o livro War Is Beautiful (também sem tradução em português) e chegou a uma conclusão chocante: “O processo de edição de fotos do ‘jornal oficial’ por meio de uma estética bonita, heróica, nos força a enfrentar não só a cumplicidade da mídia em duvidosas e catastróficas campanhas militares, mas também a nossa. Este poderoso porta-voz da mídia, o Times, longe de ser um freio ao poder governamental, é na realidade um grande amplificador de suas forças sombrias em virtude da maneira como estetiza a guerra”. Ele divide o livro em temas: Natureza, Playground, Pai, Deus, Pietá, Pintura, Cinema, Beleza, Amor e Morte. Temáticas que o autor acredita que se repetem constantemente como uma estética de guerra.

Sempre me perguntei o porquê das fotografias de guerra remeterem iconograficamente  a outras guerras, não só como memória, mas como uma estética de convencimento. Os refugiados sírios foram tratados de forma diferente nas imagens da maior parte dos jornais tradicionais – não em todos, ainda bem – dos refugiados da Ucrânia, especialmente pela imprensa norte-americana e europeia. Tantos sírios como os ucranianos estão fugindo de uma guerra. Pelas imagens os primeiros deveriam ser repelidos, os segundos acolhidos.

Acredito que devemos pensar na fotografia como uma signo carregado de ideologia e representações. Como diz o pesquisador Boris Kossoy em seu livro Os tempos da fotografia: “Ficções documentais: conteúdos imagéticos transferidos de contextos. Situação típica do processo criação/construção de realidades”.

Para esta coluna escolhi duas capas de revista: a Time, norte-americana, e a revista de jornalismo independente Internazionale, italiana. A primeira retrata uma fugitiva albanesa e ganhou o World Press Photo de 2013; a segunda uma refugiada ucraniana.

Para terminar esta coluna trago uma última declaração, desta vez da pesquisadora Martine Joly:

“A percepção das formas e dos objetos é cultural e como o que chamamos semelhança ou analogia corresponde a uma analogia perceptiva e não a uma semelhança entre a representação e o objeto: quando uma imagem nos parece semelhante é porque é construída de uma maneira que nos leva a decifrá-la como deciframos o próprio mundo.”

Talvez devamos refletir mais sobre as imagens que recebemos!

ArtSampa realiza sua primeira edição com cerca de 50 expositores na capital paulista

SELVA, de Julio Cesar Aristizabal, obra exposta na ArtSampa
"Selva", de Julio Cesar Aristizabal, representado pela Galeria Radiante. Foto: Divulgação

Nesta semana, uma nova feira de arte chega à OCA e aos jardins de Burle Marx do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Realizada pelos organizadores da carioca ArtRio, a ArtSampa estreia em formato híbrido reunindo cerca de 50 expositores, entre galerias e instituições. No dia 16 de março acontece o preview da feira, e entre os dias 17 e 20 ela fica aberta à visitação do público geral mediante compra prévia dos ingressos.

A primeira edição da ArtSampa acontecerá na Oca do Parque Ibirapuera. Foto: Creative Commons

Nesta primeira edição, os expositores foram orientados a conceber curadorias inéditas especialmente para o evento. “É uma feira focada em projetos especiais e que tem espaços menores – com estandes de até 60m². Vamos apresentar muitos solos e conversas entre dois e três artistas”, explica a presidente da ArtSampa e da ArtRio, Brenda Valansi. Um comitê curatorial formado por Juliana Cintra (da galeria Silvia Cintra + Box 4), Filipe e Eduardo Masini (Galeria Athena) e Antonia Bergamin (antes diretora da Galeria Bergamin & Gomide) foi responsável pela seleção dos projetos participantes.

Para além da particularidade dos estandes, a expografia do evento – instigada pela imponente arquitetura de Oscar Niemeyer – também é pensada de uma forma diferente da feira-irmã ArtRio. “Não tem como menosprezar o local [a OCA], não dá pra considerar apenas como um centro de convenção. Então o desenho arquitetônico da feira é um desenho diferente, que acompanha esse espaço”, explica Valansi. O MIRA, programa dedicado à videoarte, também segue nesta direção ao optar por uma apresentação reformatada, levando suas projeções diárias para o topo da cúpula branca da OCA. Com curadoria de Victor Gorgulho – à frente do MIRA na ArtRio desde 2019 -, o programa selecionou nomes consagrados e talentos emergentes que buscam investigar as múltiplas possibilidades do vídeo enquanto meio de invenção e criação artística.

Uma conversa Rio-São Paulo

“Chegar a São Paulo no ano do centenário do movimento modernista é muito emblemático. Temos como compromissos a valorização da arte brasileira, o estímulo a novos artistas e o reconhecimento da arte como forma de expressão da sociedade e sua cultura”, indica Valansi. O evento é resultado da expansão da ArtRio, feira que acontece na capital carioca há 11 anos. A estratégia reitera uma noção já apresentada pelo mercado de arte nacional, de que apesar da pandemia de Covid-19 e das maiores restrições para a área, o interesse nas feiras seguiu elevado e os resultados de 2020 e 2021 foram positivos (saiba mais).

A nova empreitada parece dar sequência a esse cenário, ao que a feira apresenta um perfil diferente de expositores: “Ela acabou se desenhando com um perfil de galerias mais jovens, e com isso também a nossa base de dados aumentou em 30% com novos colecionadores e compradores que essas galerias estão trazendo”.

Entre estandes

Para além dos estandes das galerias e instituições, a ArtSampa traz uma ampla programação presencial e online, contando com palestras, performances, lançamentos de livros e atividades culturais.

Abordando temas contemporâneos sobre as artes, o programa Conversas ArtSampa é realizado no auditório da OCA do Ibirapuera com transmissão simultânea ao vivo no telão do jardim e online no artsampa.com.br. Entre os papos em parceria com galerias e projetos, destacamos a ocupação BATEKOO!, que põe a presença negra em foco na sexta-feira (18) em mesas mediadas pela plataforma; e a programação de conversas do sábado (19), que recebe o título Nas dobras: presenças, racialidades & gêneros nas artes visuais, com três encontros da historiadora e curadora Raquel Barreto com artistas e pesquisadoras que investigam poéticas e estéticas em diálogo com suas coletividades, de forma a refletir sobre procedimentos artísticos, epistemologias e práticas indígenas e negras. Confira:

17/03 às 14h | Vazando Territórios: Uma conversa sobre arte e pertencimento com Elaine Mineiro, Gabriella Marinho, Oskar Metsavaht e mediação de Raquel Barreto. Conversa em parceria com a OM.art.

17/03 às 16h | Conversa sobre o papel do colecionador e galeristas na formação de uma coleção privada de arte contemporânea. Os galeristas Filipe Masini e Paulo Kassab Jr. convidam o colecionador Álvaro Piquet para um diálogo sobre motivações, tendências, conservação e o mercado de arte brasileira. Conversa em parceria com a ABACT.

17/03 às 18h | Arte como processo de memória/amnésia. Diran Castro (Artista), Vicenta Perrotta (Ateliê Transmoras) e Digg Franco (ONG Casa Chama) discutem como a população transvesti vêm construindo, através da arte, processos de resgate de suas memórias e de combate à estrutura hegemônica. Conversa em parceria com a Casa Chama.

18/03 às 14h | Arte e Jogo. Apresentação da pesquisa de Gui Teixeira. Artista representado pela Sé Galeria.

18/03 às 16h | “Quando o anteparo artístico é o som de gente negra”. Este debate tem o objetivo de proporcionar o diálogo sobre anteparos e disparadores desde a experiência com a música negra, na composição artística. Parte da Ocupação BATEKOO!

18/03 às 18h | “Arte e pensamentos Negras/es/os”. O diálogo que se propõe é mediado pelas conjuras interventivas e conjunturas sociais articuladas na plural produção de conhecimento que intervêm na profusão artística. Parte da Ocupação BATEKOO!

19/03 às 16h | “Como se o corpo fosse o documento”: mulheres negras e performance. Com: Camilla Rocha Campos, Lucimélia Romão e Priscila Rezende.

19/03 às 18h | “O avesso do mesmo lugar” – outras formas de pensar a arte contemporânea no Brasil”. Com: Brisa Flow, Carolina Cerqueira e Juliana dos Santos.

Para além do espaço (físico e virtual) da feira, também acontecerá a ArtSampa Educação,  projeto em parceria com a Aliansce Sonae que promove uma exposição interativa e gratuita em cinco shoppings do estado, com objetivo de trabalhar na democratização do conhecimento e do acesso à arte. Com curadoria da museóloga e professora de arte Libia Schenker, a mostra se desdobra em dez totens sobre alguns importantes períodos da história da arte, do Renascimento ao Expressionismo Abstrato, reunindo nomes como Monet, Cézanne, Picasso, Matisse e Miró.

ARTSAMPA

Local: Parque Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 3 – Vila Mariana, São Paulo, SP
Data: 16 de março – Preview das 13h às 21h | 17 a 19 de março, das 13h às 21h | 20 de março, das 12h às 20h
Ingressos: R$ 50 / R$ 25 (artsampa.com.br/tickets)
Feira online: artsampa.com.br

Ucrânia: instituições e patrimônio histórico em risco pela invasão russa

Soldados caminham por monumento coberto por sacos de areia em Odessa, na Ucrânia, em meio à invasão da Rússia. Foto: Alexandros Avramidis/Reuters
Soldados caminham por monumento coberto por sacos de areia em Odessa, na Ucrânia, em meio à invasão da Rússia. Foto: Alexandros Avramidis/Reuters

“Claramente, o povo da Ucrânia é a prioridade; protegê-los tanto quanto possível é o mais crítico. Mas esta é uma nação com um passado recente que viu figuras culturais e obras de arte destruídas por administrações soviéticas anteriores. O medo é que os russos queiram repetir isso”, afirmou Olesia Ostrovska-Liuta, diretora do Mystetskyi Arsenal, em Kiev, capital da Ucrânia. Em editorial publicado pelo portal artnet, Ostrovska-Liuta conta estar preocupada com os colegas passando a noite nas estações de trem subterrâneas e com as baixas civis que já estão ocorrendo. Mas preservar as pinturas que fazem parte do patrimônio de seu país também pesa em sua mente. “Obras de Kazimir Malevich, Vasyl Yermylov, Alexander Bogomazov e Anatol Petrytsky e Viktor Zaretsky, para citar apenas alguns”, escreveu ela.

Já para Oleksandra Kovalchuk, diretora do Odesa Fine Art Museum, há medo de falar publicamente sobre o que está acontecendo, para evitar invasores ou saqueadores russos: “Em quase todos os museus, os trabalhadores estão dormindo in situ para poder tomar algumas decisões de última hora [se for preciso]. Infelizmente, não posso dizer mais”.

Obra de Maria Prymachenko, de 1978.
Obra de Maria Prymachenko, de 1978.

Para o setor cultural a preocupação escala com relatos que em Ivankiv, a noroeste de Kiev, um museu local e suas obras de arte teriam sido incendiadas pelas forças russas. Foi relatado que dentro do museu havia 25 pinturas da artista folclórica Maria Prymachenko, estimada por Picasso e Chagall. Algumas das obras, no entanto, teriam sido salvas por um residente local que correu para o prédio em chamas para resgatar o máximo que pôde. Acredita-se que ele resgatou cerca de 10 grandes obras de arte das chamas, embora ainda não esteja claro quais.

A Ucrânia é o lar de sete patrimônios mundiais da UNESCO, incluindo a Catedral de Santa Sofia, em Kiev, com suas cúpulas douradas e impressionantes afrescos bizantinos da Virgem Maria. Outro é o centro histórico de Lviv que, junto com o Museu Nacional Andrey Sheptytsky, abriga a coleção mais completa do país de arte sacra medieval e raros manuscritos religiosos. A urgência em salvar seus livros, pinturas e outros artefatos (entre eles uma bíblia de mil anos decorada com fios de ouro) deixou pouco tempo para esperar por materiais de embalagem especializados. Em vez disso, os voluntários se contentam com caixas de qualquer madeira disponível, às vezes até caixas de papelão originalmente destinadas ao transporte de bananas para supermercados.

Catedral de Santa Sofia, em Kyiv, na Ucrânia. Foto: Wikimedia Commons.
Catedral de Santa Sofia, em Kyiv, na Ucrânia. Foto: Wikimedia Commons.

O canal de notícias CNN reportou que a Catedral Armênia de Lviv removeu uma escultura de madeira medieval, representando a crucificação de Jesus Cristo, para armazenamento seguro. Tendo sobrevivido à Segunda Guerra Mundial, os vitrais gigantes da Catedral Latina de Lviv foram agora tapados com placas de aço e muitas das estátuas de referência da cidade estão agora envoltas em plástico bolha.

Embora as obras de arte postas em risco devam ser evacuadas, é provavelmente tarde demais para que a maioria delas seja transferida agora para partes mais seguras do país ou para o exterior. Com isso, os ucranianos estão enfrentando um conjunto de questões logísticas difíceis – já muito familiares aos diretores de instituições culturais em lugares como Iraque, Síria e Afeganistão.

 

Para ler, ver, ouvir e visitar no mês das mulheres

"Timocleia matando o capitão Trácio", de Elisabeta Sirani. Foto: Reprodução "Breve História das Artistas Mulheres", de Susie Hodge

No dia 8 de março celebramos as conquistas femininas em torno dos direitos políticos, civis e por igualdade. A data festiva (e de luta) é resultado de uma mobilização histórica, que começou há muito e não deve acabar tão cedo. O mundo das artes não é exceção nesse aspecto. Seja nas visuais, no cinema, ou nas cênicas, as mulheres foram suprimidas durante grande parte da história – não só nas narrativas, mas da oportunidade de existirem como artistas nos diferentes períodos, como aponta Linda Nochlin no seu famoso ensaio Por que não houve grandes mulheres artistas? (disponível aqui). Selecionamos conteúdos e eventos para repensarmos juntos a presença feminina nas artes e os caminhos a seguir daqui em diante.

Para ler

As mulheres produzem arte desde a Antiguidade até os dias de hoje, mas durante grande parte desse período foram ignoradas. É com essa constatação que Susie Hodge dá início a Breve História das Artistas Mulheres. O livro funciona como um guia da trajetória feminina, mostrando seus expoentes, suas particularidades, os avanços na luta pela igualdade de gênero e as importantes contribuições feitas para movimentos artísticos dominados até então por homens. Para isso, a historiadora da arte e artista britânica divide a publicação em quatro partes: movimentos, obras, inovações e temas. Cada uma traz verbetes sobre seu assunto, destacando pontos centrais, fatos relevantes e figuras centrais. O livro é um bom começo para quem quer saber mais sobre o assunto, mas demanda uma continuação nesse mergulho feminino (e feminista), buscando perspectivas mais afastadas da Europa e dos Estados Unidos.  

Se aproximando da realidade de nosso país, a professora do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) Ana Paula Simioni lança em breve Mulheres Modernistas: Estratégias de Consagração na Arte Brasileira, que se debruça sobre as trajetórias de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Regina Graz. Enquanto o livro não é publicado, é possível dar início às reflexões sobre as questões de gênero no modernismo e a herança colonial brasileira a partir da entrevista concedida à organização de jornalismo cultural Nonada nesta semana (clique aqui).

Com um olhar mais contemporâneo, a artista visual, muralista e ilustradora Pri Barbosa organiza a publicação 8M22 – Às que cavaram rios com as mãos, que reúne conteúdos de pesquisadoras, escritoras e artistas. Entre ensaios, poemas, pinturas e desenhos, podemos folhear (digitalmente) discussões que nos ajudam a repensar a história da arte, o direito à cidade, o etarismo e as questões raciais, sempre sobre um prisma feminista. Fazem parte da coletânea conteúdos de Ana Harff, Bruna Alcantara, Chermie, Debora Diniz, Fabiola Oliveira, Francela Carrera, Larissa Souza, Luiza Romão, Mari Waechter, Pri Barbosa, Roy Von Der Osten, Tamara dos Santos e Vanessa Oliveira. A publicação está disponível para download gratuito clicando aqui.

Para assistir

Neste dia 8 de março, o Sesc Digital exibe a mostra Pioneiras Do Cinema, que aborda o protagonismo feminino diante das câmeras e nos bastidores. “As mulheres sempre estiveram presentes na frente e atrás das câmeras de cinema, como atrizes, diretoras, roteiristas, fotógrafas, montadoras, cenaristas, figurinistas, iluminadoras. Mas seus nomes e contribuições raramente receberam menção na história do cinema”, compartilha a instituição. De forma gratuita e virtual, são apresentadas 10 obras audiovisuais – entre curtas e longa-metragens – realizadas ou escritas por algumas destas mulheres no início do século 20, entre 1906 e 1946. Compõem a programação: 

  • Os Resultados do Feminismo – Dirigido por Alice Guy-Blaché (1906)
  • O Piano Irresistível – Dirigido por Alice Guy-Blaché (1907)
  • O Engano de Mabel – Dirigido por Mabel Normand (1914)
  • A Luz do Amor – Dirigido por Frances Marion (1921)
  • As Aventuras do Príncipe Achmed – Dirigido por Lotte Reiniger (1946)
  • Caminhos Ocultos – Roteiro de Ida May Park (1926)
  • A Luz Azul – Dirigido por Leni Riefenstahl e Béla Balázs (1932)
  • Night On Bald Mountain – Dirigido por Claire Parker e Alexander Alexeieff (1933)
  • Tramas do Entardecer – Dirigido por Maya Deren e Alexander Hammid (1943)
  • O Ébrio – Dirigido por Gilda de Abreu (1946)

Confira a mostra de filmes clicando aqui.

Para cursar

Nesta semana, a Brava – espaço de conexão dedicado à discussão e compartilhamento de trabalhos feitos por mulheres cis e pessoas trans – anunciou sua programação de cursos. Uma série deles nos lembra que pensar as questões de gênero nas artes (e um caminho menos machista, misógino e cisnormativo para a área) precisa ir muito além do dia 8 de março. Destacamos aqui Feminismos decoloniais e a criação artística contemporânea (7 a 9 de março), Arte e feminismos entre Américas Latinas (14 de abril), Arte e feminismos entre Ásias (19 e 26 de maio) e Arte e feminismo entre Áfricas (23 e 30 de junho). Os cursos acontecem online e ao vivo e todas as aulas são gravadas e disponibilizadas para quem estiver inscrito. Quanto aos valores, a Brava propõe três possibilidades de contribuição consciente, permitindo que você pague o quanto pode no momento – e se não dispõe dos recursos financeiros agora, pode enviar um e-mail para oi@bravasp.com.br falando sobre você e explicando como esse conteúdo pode ser importante. As inscrições são feitas através do Sympla

Fachada do Museu da Língua Portuguesa. Foto: Ciete Silverio
Para visitar

Neste final de semana, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, organiza programação especial. No sábado, dia 12, promove uma visita temática pela exposição principal, destacando a existência das mulheres trans. “A ação é um convite à reflexão sobre as pluralidades das identidades femininas a partir da palavra ‘travesti’. Vale lembrar que o Museu da Língua Portuguesa está localizado entre os bairros da Luz e do Bom Retiro, onde vários grupos de mulheres trans residem e também trabalham”, explica o release. No mesmo dia, entre as 13h e 15h, em parceria com o Coletivo Mulheres da Luz, oferecem a aula de dança Mulheres da Luz (re)existem: dança pela visibilidade e direitos – uma ação que visa acolhimento, aproximação patrimonial e empoderamento dos corpos que ocupam a região. Já no domingo, dia 13, em dois horários (10h e 13h), visitas temáticas evidenciam o protagonismo feminino (cis e trans) na exposição. Não é necessário agendamento prévio para nenhuma das ações. 

Já a cidade de Fortaleza, no Ceará, recebe as exposições Olhares Sobre o Sensível e Mulheres Plurais no Fórum Clóvis Beviláqua, entre 8 de março e 8 de abril. As exposições contam com obras do acervo do Museu de Fotografia de Fortaleza. Olhares sobre o Sensível reúne obras de artistas de grande importância para a fotografia nacional e internacional, como Elza Lima, Claudia Andujar, Simone Monte e Lia de Paula. Já Mulheres Plurais busca evidenciar a pluralidade feminina, a partir de imagens de mulheres fotografadas em diferentes décadas pelo olhar de fotógrafos como Evandro Teixeira e Juca Martins. As exposições são gratuitas e ficam abertas à visitação de segunda à sexta, das 11h às 17h no Fórum Clóvis Beviláqua (Rua Des. Floriano Benevides Magalhães, 220, Edson Queiroz).

Casa Roberto Marinho abre exposições sobre Maria Martins e modernismo

"O touro" (1925), Tarsila. Divulgação.
"O touro" (1925), Tarsila. Divulgação.

Em parceria com o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), a Casa Roberto Marinho apresenta a retrospectiva Maria Martins: desejo imaginante. Com curadoria de Isabella Rjeille e curadoria-adjunta de Fernanda Lopes, a mostra reúne cerca de 40 obras (esculturas, gravuras, desenhos e pinturas) produzidas entre as décadas de 1940 e 1950, além de documentos, publicações e fotografias que contextualizam a trajetória da artista mineira.

"L'Impossible" (1940), Maria Martins. Divulgação / Foto Vicente de Mello.
“L’Impossible” (1940), Maria Martins. Divulgação / Foto Vicente de Mello.

“É a maior exposição dedicada à obra de Maria no Rio de Janeiro, desde sua retrospectiva no Museu de Arte Moderna em 1956”, revela Fernanda Lopes. “É muito interessante mostrar seu trabalho em 2022, ano em que se comemora o centenário da Semana de Arte Moderna. Ela, como Goeldi e Flavio de Carvalho, representa outra ideia dos trópicos, um moderno mais sombrio que subverte o que é dócil e agradável aos olhos do espectador. Não há em sua obra o suposto verniz cordial de um Brasil solar.”

Desejo imaginante divide-se em seis núcleos que abordam como a artista articulou, ao longo de sua produção, os diversos imaginários acerca do Brasil e dos trópicos. A exposição inclui legendas expandidas das obras, oferecendo informações acerca da trajetória da artista e apresentando novas leituras de seu trabalho. Encerra a mostra uma completa cronologia ampliada até os dias de hoje.

Já a exposição Fluxos do Moderno, em decorrência ao centenário da Semana de 22, tem curadoria de Lauro Cavalcanti, diretor do instituto, e reúne 43 obras do acervo, produzidas entre os anos de 1910 e 1940. São, ao todo, 12 nomes apresentados na mostra: Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), Anita Malfatti (1889-1964), Candido Portinari (1903-1962), Di Cavalcanti (1897-1976), Ismael Nery (1900-1934), José Pancetti (1902-1958), Lasar Segall (1889-1957), Milton Dacosta (1915-1988), Roberto Rodrigues (1906-1929), Tarsila do Amaral (1886-1973), Victor Brecheret (1894-1955) e Vittorio Gobbis (1894-1968).

A exposição abre com expressões que remontam aos primórdios do movimento, como caricaturas e ilustrações que se apresentam como um caminho propício à instalação do moderno. Em seguida, o visitante encontra Candido Portinari, Di Cavalcanti e Guignard. As reflexões metafísicas de Ismael Nery, um dos artistas mais presentes na Coleção da Casa Roberto Marinho, também integram a coletiva.

Pinturas de Anita Malfatti, Milton Dacosta e Di Cavalcanti serão exibidas pela primeira vez na Casa – desde a inauguração como instituto cultural em abril de 2018. A exposição reúne outras obras pouco vistas pelo público, como as seis pinturas do artista pernambucano Roberto Rodrigues, irmão do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Três esculturas de Brecheret, a célebre tela O touro (Paisagem com touro), c. 1925, de Tarsila do Amaral, e pinturas de Pancetti e Vittorio Gobbis compõem a seleção.

Museu de Arte do Rio Grande do Sul expõe 250 obras da Coleção Sartori

"Ponto-Zero", Rodrigo Braga, 2019. Foto: Divulgação

Em meio ao centro histórico de Porto Alegre, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) apresenta um olhar contemporâneo sobre o estado gaúcho, o Brasil e a arte. Com curadoria de Paulo Herkenhoff, a nova exposição em cartaz na instituição apresenta ao público pela primeira vez (ao menos formalmente) a Coleção Sartori. Sediada em Antônio Prado, cidade da Serra Gaúcha tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a coleção particular de Paulo Sartori e Nádia Ravanello Pasa é hoje considerada uma das mais relevantes da região.

Até maio de 2022, cerca de 250 obras ocupam as salas do primeiro andar do MARGS (Pinacotecas, Salas Negras, Sala Aldo Locatelli e Foyer), reunindo mais de 100 artistas de diferentes gerações e estilos. Entre os nomes expostos estão Adriana Varejão, Arjan Martins, Berna Reale, Cildo Meireles, Claudia Andujar, Élle de Bernardini, Glauco Rodrigues, Hudinilson Jr., Jaime Lauriano, Leda Catunda, Lenora de Barros, Túlio Pinto e Tunga.

“Trazer isso a público, propiciar isso para a cidade, também é um papel do museu, sobretudo um museu público”, compartilha Francisco Dalcol, diretor-curador do MARGS. E completa: “Uma coleção como essas vem suprir o que nós não temos em nossos acervos, nos complementa, preenche essas lacunas – em particular as mais contemporâneas”. 

A exposição Coleção Sartori: arte contemporânea habita Antônio Prado cobre um arco histórico de 1903 a 2021, dedicando especial foco às últimas décadas (1980 em diante). Porém, a organização das salas não segue uma lógica cronológica. A divisão também não se dá por linguagens artísticas ou suportes, apesar da variedade que se encontra nos ambientes do museu ao caminhar entre esculturas, pinturas, objetos, fotografias, vídeos e livros. Em entrevista à arte!brasileiros, Herkenhoff conta que optou por exibir esse recorte da coleção a partir daquilo que nomeia “núcleos significativos” – uma articulação dos trabalhos em termos simbólicos, criando sentidos e vínculos, pensados sob os mais diversos pontos de vista. Assim, “a mostra propõe leituras transversais da coleção com o pop gaúcho, afro-brasileiros, indígenas, arte e história da arte, cartografia e formação social do Brasil”, explica o curador no texto do catálogo.

Leituras transversais

Na sala principal do museu, uma parede verde se destaca. Escrito em grande escala, lê-se: “Área Indígena”. A obra de Xadalu Tupã Jekupé nos introduz a um primeiro núcleo e nos lembra que esse espaço – que hoje é o maior museu público do estado – já foi (e é) território indígena. A pintura dá continuidade a um trabalho do artista guarani, em que essa mesma frase é espalhada pelas cidades brasileiras. “No Rio Grande do Sul sempre causou muita comoção. Algumas pessoas ficavam muito preocupadas, porque aquilo estava ‘sujando’ a cidade com a presença indígena. Então, é uma forma de afirmar que o museu também é parte desse território, [e lembrar que] o MARGS foi construído sobre uma área indígena”, conta o curador. 

Acompanha a obra um núcleo composto por outros trabalhos de Xadalu: uma pintura de Maspã, parteira do povo Huni Kuin no Acre; uma criação conjunta de Dua Busen, pajé da aldeia Coração da Floresta, com jovens de sua comunidade; o livro Nhemmombaraete Reko Rã’i, de José Verá, contador de histórias da Aldeia Yvity Porã; e uma série de esculturas em madeira de animais valorizados pelos guaranis – etnia indígena muito presente no estado.  

As obras se avizinham a outros dois núcleos centrais na exposição: Afro Brasil e Arte sacra afro-brasileira e a cartografia da violência. Neles, nos deparamos com a exaltação de culturas e figuras silenciadas – como na obra de Elian Almeida -, com os retratos das religiões de matriz africana – como nos trabalhos de Ayrson Heráclito e Moisés Patrício – e com denúncias do racismo estrutural brasileiro – como em De quem é o corpo que pode ser torturado?, de Leandro Machado, e Não respeitamos símbolos racistas, de Jaime Lauriano. 

Herkenhoff conta que optou por dar destaque a essa parcela da coleção “porque são grupos sociais e étnicos muito importantes na formação social do Brasil e cuja arte explode nas últimas décadas”. Porém, as presenças indígena e afro-brasileira não se mantém segregadas e limitadas a um espaço determinado no museu. Ao visitar a mostra, notamos a diversidade brasileira (e gaúcha) permear as demais sessões – sejam as ligadas a história do país ou à arte conceitual. Assim, os trabalhos são conectados a partir de divisões outras – que não apenas as étnicas ou raciais.  

A arte sul-rio-grandense dos séculos 20 e 21 também ganha destaque na mostra pelo grande número de obras. “Sempre insisti com Sartori que tem muita importância uma boa coleção de arte gaúcha no Rio Grande do Sul”, destaca Herkenhoff, que passou a auxiliar o casal de colecionadores antes que a exposição no MARGS fosse sequer uma ideia e aprofundou a relação nos últimos dois anos, no processo de pesquisa, seleção e novas aquisições que desembocaram no mostra hoje apresentada no museu.

Na exposição, essa presença sul-rio-grandense toma diferentes formas. Em alguns momentos, os artistas aparecem de forma isolada – como na ala da pop art gaúcha e na sala dedicada a André Severo -, já em outras áreas do museu não há divisão explícita e somos colocados em contato com as confluências entre história e arte do país e do estado – pensando ambos para além da branquitude e da cultura hegemônica. “A coleção não é arquitetada para abafar ninguém. Ela é pensada para a comunidade de Antônio Prado, para o Rio Grande do Sul. Ela pensa em como articular a arte do Rio Grande do Sul à arte brasileira”, pontua Paulo Herkenhoff.

Entre público e privado

Iniciada em 2013, a Coleção Sartori tem a mostra no MARGS como um marco de sua primeira abertura formal ao público. A postura vai de encontro a outros projetos do colecionador, que já abriu sua seleção de obras para visitas escolares em Antônio Prado e mantém uma parceria com a Universidade de Caxias do Sul, na qual patrocina a vinda de artistas à instituição de ensino. Rosangela Rennó, Berna Reale, Paulo Pasta, Daniel Senise, Leda Catunda e Vik Muniz são alguns dos nomes que já foram levados (presencial ou virtualmente) à universidade através do projeto.

Sartori conta que ainda não há previsão para a mostra circular por outras cidades ou estados, mas conta que já recebeu convites do Rio de Janeiro e São Paulo e que tem pensado na possibilidade de levar a coleção – talvez em recortes menores – a outras instituições. 

Curso “Estudos da Imagem”, com Simonetta Persichetti

Banner Estudos da Imagem
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Camille Paglia, professora de Humanidades e Estudos Midiáticos, afirma em seu livro Imagens Cintilantes que “A vida moderna é um mar de imagens. Nossos olhos são inundados por figuras reluzentes e blocos de texto sobre nós por todos os lados”. Esta frase vai ser o ponto de partida do nosso curso, que contará com 12 aulas de 1h30 cada. Estudos da Imagem será ministrado pela mestre em comunicação e artes, professora e crítica de fotografia Simonetta Persichetti*

Como sobreviver a esta vertigem imagética? Será que devemos aprender a gerenciar nossa maneira de ver?

Durante as aulas o aluno terá a possibilidade de perceber o valor do entendimento e da decodificação da linguagem visual. Compreenderá a importância de estudar a imagem como protagonista de um discurso e não mero coadjuvante, além de conhecer os diferentes estágios que a imagem trilhou dentro das ciências humanas.

Vamos mergulhar, com a ajuda de autores como Jonathan Crary, Georges Didi-Huberman, Jacques Rancière, para nos aprofundarmos nos usos e funções da imagem. Teremos como diretrizes a filosofia da imagem – da natureza do realismo às ficções narrativas -; o espaço do visual na contemporaneidade; a representação imagética no tempo e no espaço – fotografia, cinema e documentário -; o visual como espetacularização midiática; e a estética como formadora de discurso.

Ao longo do curso Estudos da Imagem, por meio de imagens feitas por artistas contemporâneos e com a ajuda também das ciências cognitivas sobre o prazer estético e o lado ético das imagens, faremos conexões entre pensamento e linguagem. Assim, pensando também como nossa percepção foi se modificando, a quebra da promessa da modernidade e o olhar contemporâneo.

Quando? De 23 de março a 08 de junho. Às quartas-feiras, das 19h00 às 20h30.

Investimento: R$ 680,00 ou 2x de R$ 340,00

Se inscreva no link: bit.ly/3HfbSXt

Professores e estudantes têm desconto de 50%. Não cumulativo com o desconto de 10% da pré-venda até o dia 12/03. Para obter o desconto é só inserir o cupom PREVENDA10 ou ESTUDOS50 (para estudantes e professores) na hora da compra.


* Simonetta Persichetti é Mestre em Comunicação e Artes pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; Doutora em Psicologia (Psicologia Social) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; e Pós-Doutora pela Escola de Comunicação e Artes, USP. Sua obra “Imagens da Fotografia Brasileira” lhe rendeu o Prêmio Jabuti na categoria reportagem. Como crítica fotográfica, colabora com o jornal O Estado de S. Paulo e com esta revista. Durante 12 anos, ela lecionou na Faculdade Cásper Líbero.

Santídio Pereira expõe na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre

Imagem horizontal, colorida. Vista da exposição SANTÍDIO PEREIRA INCISÕES RECORTES ENCAIXES, na Fundação Iberê Camargo. Sala com paredes brancas e chão de madeira. À esquerda, dois quadros grandes, lado a lado; à direita um quadro de mais de 2 metros de altura; ao centro um quadro grande, de cerca de 1 metro, ao lado de uma sequência de 6 pequenos quadros. Todos os trabalhos são xilogravuras de bromélias.
Vista da exposição. Foto: Giulia Garcia

Nas paredes brancas da Fundação Iberê Camargo, 22 obras saltam aos olhos por suas cores e dimensões. Xilogravuras com dois metros de altura e pinturas com mais de um metro e meio de comprimento chamam atenção em Santídio Pereira – incisões, recortes e encaixes, em cartaz até 1º de maio. A mostra é a primeira individual do jovem artista em um museu e ocorre após sua passagem por importantes coletivas na Fondation Cartier pour l’Art Contemporain, em Paris, na Power Station of Art de Xangai e no Museu de Arte Moderna de São Paulo. 

Entre pássaros e plantas, as obras nos conduzem pelas memórias de Santídio em Curral Comprido, povoado do Piauí onde o artista nasceu. “É uma tentativa de resgatar e preservar essa memória que foi tão feliz, mas que não é só minha, de certa forma é uma memória coletiva das pessoas que nasceram ali no Nordeste”, compartilhou o artista em bate-papo promovido pela Fundação Iberê Camargo em parceria com o Instituto Ling (assista aqui).

A série Pássaros, à qual somos apresentados em quatro grandes quadros na exposição, talvez seja a que mais claramente reverbera esse conceito, ao retratar 22 pássaros da Caatinga brasileira através da xilogravura. “O processo de seleção dessas espécies é um pouco afetivo. Eu tinha memórias da infância, de quando vivia no Piauí, desses pássaros que eu conhecia pelos nomes.” Alguns dos quadros aprofundam ainda mais o conceito, ao criarem uma sobreposição de memórias pelas diferentes camadas de gravura que os compõem. Em uma primeira etapa, Santídio imprime no papel as plantas e paisagens que o remetem a vivências de sua infância – criando o fundo da obra – em seguida, as sobrepõe com as representações dos pássaros que permeiam suas recordações. 

Em outra sala, somos levados às lembranças de Santídio já na cidade de São Paulo – onde vive desde os seis anos de idade. Trata-se da série Morros, que combina xilogravuras e pinturas monocromáticas com representações de paisagens. O trabalho teve início em uma viagem do artista a Santo Antônio do Pinhal, no interior paulista. Aquela que a princípio pretendia ser uma imersão artística de estudo das bromélias (para outra série de obras), trouxe um encantamento inesperado ao piauiense: os morros da região. Ao revisitar o caderno de esboços que levara na viagem, percebeu que os estudos das paisagens daquele lugar tomavam grande parte das páginas. Assim, deu início à série, que passaria a refletir também outras localidades, como a Serra da Bocaina e a Serra da Cantareira, que fizeram parte da infância do artista. 

Monumentalizando a natureza

Outro aspecto que chama grande atenção nas obras são as suas dimensões. Para chegar a quadros de mais de dois metros de altura ou comprimento, Santídio Pereira afasta-se da técnica clássica da xilogravura – as impressões a partir de imagens criadas em matriz de madeira utilizando uma goiva – e “acrescenta seu conhecimento de marcenaria para recortar peças que depois serão encaixadas como em um quebra-cabeça”, explica o curador de arte Ricardo Sardenberg no texto do catálogo da exposição. “Com uma goiva, um formão [ferramentas clássicas da xilo], você tem o alcance do seu braço; com uma serra tico-tico você caminha em volta [da madeira]. É uma experiência física”, explica Santídio. Assim, temos as incisões, os recortes e os encaixes que dão título à mostra: as incisões na madeira, seguidas dos recortes feitos com o recurso da marcenaria e os encaixes das diferentes matrizes.

A escolha pelos grandes formatos também veio do interesse de Santídio pelo uso de cores. “Uma vez um amigo me falou que um centímetro de amarelo causa uma sensação e dois metros desse mesmo amarelo causam outra sensação completamente distinta”, conta. Assim, busca experimentar os impactos que as cores de suas obras podem propiciar ao público: “Tem um desejo meu de transmitir memórias coletivas alegres, elogiando as belezas e as nossas maiores riquezas [no Brasil], que para mim são a cultura e a natureza – no sentido expandido das duas palavras”, compartilhou durante o bate-papo promovido pela Fundação Iberê Camargo e pelo Instituto Ling. Ao que Ricardo Sardenberg complementou: “Acho que é aí que entra o lado político do trabalho, porque ele monumentaliza a natureza; de uma forma a colocar na sua frente algo que a gente às vezes perde a dimensão: o tamanho da destruição da natureza hoje é monumental, porque a natureza é monumental”.

SERVIÇO

Santídio Pereira – incisões, recortes e encaixes
Fundação Iberê Camargo – Av. Padre Cacique, 2000 – Porto Alegre, RS
5 fev – 1 maio | quinta, das 14h às 18h (gratuito); sexta a domingo, das 14h às 18h (ingressos em iberecamargo.org.br/)