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Alguns destaques da 59ª Bienal de Veneza

Fachada do pavilhão americano na 59ª Bienal de Veneza Foto: Timothy Schenck / Cortesia da artista e Matthew Marks Gallery

Realizada este ano entre os dias 23 de abril e 27 de novembro, a 59ª Bienal de Veneza se apresenta, de saída, como uma edição histórica, tanto por sua realização após longo período de pandemia quanto por ser a primeira em que o número de mulheres participantes supera o de homens. Ao mesmo tempo, para o curador e escritor Gabriel Bogossian, colaborador da arte!brasileiros presente na cidade italiana, o atual evento apresenta uma mostra principal caracterizada por certo escapismo, sem enfrentar os conflitos, ruídos e dissonâncias latentes no mundo atual – o texto completo você pode ler aqui (leia também sobre o pavilhão brasileiro, com obras de Jonathas de Andrade, aqui).

Dentre a grande quantidade de trabalhos apresentados no evento italiano, entre os tradicionais pavilhões Arsenale e Giardini e as representações nacionais, Bogossian escreve agora sobre o que considera alguns dos destaques do evento. Leia abaixo:

Legados britânicos

Feeling her way, obra de Sonia Boyce ganhadora do Leão de Ouro de melhor representação nacional, é parte de seu projeto Devotional Collection, que documenta as contribuições da música negra realizada por mulheres para a cultura. No pavilhão britânico, a instalação de Boyce combina vídeos, objetos, papel de parede e itens de memorabilia relacionados a essa produção musical. Os vídeos foram realizados em colaboração com cinco cantoras negras do Reino Unido e mostram improvisações, vocalises e interações entre as cinco, em gravações límpidas e visualmente minimalistas.

Fora dos Giardini, em diálogo incidental com a instalação de Boyce, o pavilhão da Escócia traz obras de Alberta Whittle, primeira mulher negra a representar seu país na Bienal de Veneza. Partindo de bell hooks, Audre Lorde, Christina Sharpe e outras autoras que abordam a diáspora negra, em especial a produzida pelo Império Britânico nas suas possessões no continente americano, as obras de Whittle abordam de modo mais direto e documental o mundo forjado pelo capitalismo escravagista.

Vale destacar também a videoinstalação de Tourmaline, na saída do Arsenale. A ativista, escritora e artista trans queer norte-americana trouxe à Bienal um curta-metragem ficcional passado em Seneca Village, primeiro bairro afro-americano da ilha de Manhattan, destruído para a construção do Central Park. Sua protagonista é uma mulher trans negra com dons mediúnicos que, no século 19, desafia as autoridades locais para defender sua comunidade enquanto é assombrada por visões do futuro, antevendo uma Nova York repleta de carros e arranha-céus.

Simone Leigh

Distribuída entre o pavilhão dos EUA e o Arsenale (dentro e no seu jardim, na parte externa), a participação de Simone Leigh chama atenção não só pela qualidade, mas pela escala contundente das obras, perfeitamente adequada para um evento do porte da Bienal de Veneza. Nos três espaços, Leigh mostra esculturas inspiradas no corpo ou em figuras femininas, trabalhando com técnicas e materiais tradicionalmente utilizados pela diáspora africana em sua produção de cultura material. A combinação de peças narrativas, como a lavadeira que recebe o público no interior do pavilhão norte-americano, com outras de caráter mais abstrato, ressalta a força política de suas obras e a dimensão ética contida em seu trabalho.

O jogo é uma coisa séria

Ocupando o pavilhão belga com uma série de pinturas em pequeno formato e outra de videoinstalações, Francis Alÿs é um dos grandes destaques desta edição. Artista belga radicado há muitos anos no México, Alÿs mostra, nas duas séries, crianças de diversas partes do mundo e suas variadas formas de brincar. Enquanto as pinturas recebem discretamente o público na entrada do pavilhão, as videoinstalações em grande formato registram de maneira documental e livre a algazarra de meninas e meninos se divertindo. Aqui, a simplicidade analógica da imaginação infantil e suas brincadeiras, com frequência desenvolvidas com materiais simples e baratos, responde de maneira eficaz a uma Bienal repleta de corpos fantásticos e sonhos tecnológicos.

Intimidade e desejo

No pavilhão romeno, a artista e cineasta Adina Pintilie desdobra a investigação em torno das políticas e das poéticas da intimidade com a qual conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2018. A videoinstalação apresentada nesta Bienal, You are another me, toma seu título de empréstimo de um cumprimento maia, que lança a um só tempo uma posição ética de interdependência entre interlocutores e em relação ao contexto em que atuam. Na obra, três indivíduos relatam suas experiências em torno da sexualidade, da constituição da subjetividade e do contato físico a partir de seus corpos dissidentes, expondo espaços de intimidade para a câmera de Pintilie de maneira generosa e delicada. A gramática documental da obra ofusca seu aspecto tecnológico, sem, no entanto, nenhum prejuízo para sua fruição.

Fantasmas industriais

Depois de seguidas edições com presença pouco significativa para o conjunto da Bienal, o pavilhão da Itália nesta edição é ocupado pela primeira vez por um só artista. Gian Maria Tosatti apresenta uma instalação que toma todo o interior do espaço, evocando, na forma de fantasmagorias, os sonhos industriais italianos e sua decadência. As salas são ocupadas por diferentes expressões dessa queda: máquinas enferrujadas e em desordem, cobertas de poeira; espaços assépticos, com tubos de ventilação pendentes; um dormitório que remonta aos anos 1950, década de início do “milagre italiano”; e máquinas de costura paradas, observadas por um crucifixo na parede. Na última sala do pavilhão, uma singela homenagem ao cineasta Pier Paolo Pasolini e seus vaga-lumes, que, depois de tudo, enfim permanecem.

Romani

Tal como ocorreu com o pavilhão Sámi, nesta edição a representação polonesa convidou para seu pavilhão nacional uma artista Romani, povo sem Estado historicamente alvo de ataques onde quer que se estabelecesse. Num hotel abandonado em Zakopane, sul da Polônia, a artista Małgorzata Mirga-Tas produziu uma série de 12 enormes obras em tecido, livremente inspiradas nos painéis do Palazzo Schifanoia, em Ferrara, na Itália. Cobrindo as paredes do pavilhão polonês de cima a baixo, e também parte de sua fachada, as obras de Mirga-Tas mostram as migrações dos Romani pela Europa e momentos de sua história vistos da perspectiva feminina, ressaltando a mútua influência entre as culturas romani, polonesa e as de outros países da Europa.

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*Gabriel Bogossian é curador independente e escritor. Sua prática é baseada em colaborações com artistas, curadores e organizações de direitos humanos para a realização de publicações, exposições e outros projetos culturais, com frequência articulando produções de diferentes campos da cultura visual, como a arte, o cinema, o jornalismo e os movimentos sociais. Foi curador convidado da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades Imaginadas (São Paulo, 2019), da Screen City Biennial 2019 – Ecologies: Lost, Found and Continued (Stavanger, 2019) e do Festival VideoEx (Zurique, 2019) e curador adjunto do Galpão VB (2016-2020). Foi autor da tradução de Americanismo e Fordismo, de Antonio Gramsci (ed. Hedra, 2008), e do capítulo O contato e o contágio, conversa realizada com Ailton Krenak que integra a publicação No tremor do mundo (2020).

 

​​Walter Firmo tem retrospectiva no IMS Paulista

Gaudêncio da Conceição durante Festa de São Benedito, Conceição da Barra, ES, c. 1989. Crédito: Walter Firmo/Acervo IMS.
Gaudêncio da Conceição durante Festa de São Benedito, Conceição da Barra, ES, c. 1989. Crédito: Walter Firmo/Acervo IMS.

A partir de 30 de abril, 266 fotografias do fotógrafo carioca Walter Firmo passam a ser exibidas por dois andares do Instituto Moreira Salles de São Paulo (IMS Paulista). As imagens datam do início da sua carreira, na década de 1950, até os dias de hoje, mostrando diversas regiões do Brasil, com registros de ritos, festas populares e cenas cotidianas. Grande parte das obras em Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito provém do acervo do fotógrafo, que se encontra sob a guarda do IMS desde 2018 em regime de comodato. No dia da abertura (30/4), às 11h, haverá um debate presencial com o fotógrafo e os curadores da exposição no cineteatro do IMS Paulista.

A curadoria da mostra é de Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do IMS, e da curadora adjunta Janaina Damaceno Gomes, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenadora do Grupo de Pesquisas Afrovisualidades: Estéticas e Políticas da Imagem Negra. A retrospectiva também conta com assistência de curadoria da conservadora-restauradora Alessandra Coutinho Campos e pesquisa biográfica e documental de Andrea Wanderley, integrantes da Coordenadoria de Fotografia do IMS.

A exposição apresenta a obra fotográfica de Firmo a partir de sete núcleos temáticos. No primeiro, o público encontra cerca de 20 imagens em cores de grande formato, produzidas pelo fotógrafo ao longo de toda sua carreira. Há fotos feitas em Salvador (BA), como o registro de uma jovem noiva na favela de Alagados, de 2002; em Cachoeira (BA), como o retrato da Mãe Filhinha (1904-2014), que fez parte da Irmandade da Boa Morte durante 70 anos; e em Conceição da Barra (ES), onde o fotógrafo retratou o quilombola Gaudêncio da Conceição (1928-2020), integrante da Comunidade do Angelim e do grupo Ticumbi, dança de raízes africanas; entre outras. A retrospectiva evidencia como, no decorrer de sua carreira, Firmo passou a se distanciar do fotojornalismo documental e direto, tendo como base a ideia da fotografia como encantamento, encenação e teatralidade. Sobre seu processo criativo, o artista comenta: “A fotografia, para mim, reside naqueles instantes mágicos em que eu posso interpretar livremente o imponderável, o mágico, o encantamento. Nos quais o deslumbre possa se fazer através de luzes, backgrounds, infindáveis sutilezas, administrando o teatro e o cinema nesse jogo de sedução, verdadeira tradução simultânea construída num piscar de olhos em que o intelecto e o coração se juntam, materializando atmosferas”.

Maestro Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho), Rio de Janeiro, RJ, 1967. Crédito: Walter Firmo/Acervo IMS.
Maestro Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho), Rio de Janeiro, RJ, 1967. Crédito: Walter Firmo/Acervo IMS.

Como um dos destaques, a exposição apresenta retratos de músicos produzidos por Firmo, principalmente a partir da década de 1970. Nas imagens, que ilustram inúmeras capas de discos, estão nomes como Dona Ivone Lara, Cartola, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Djavan e Chico Buarque. A mostra também traz fotografias realizadas para a matéria 100 dias na Amazônia de ninguém, publicada em 1964 no Jornal do Brasil, pela qual Firmo recebeu o Prêmio Esso de Reportagem. Para a matéria, que contou com textos e imagens de sua autoria, o fotógrafo percorreu cidades e povoações ribeirinhas do Amazonas e do Solimões, documentando as paisagens, disputas políticas da região e a população, que incluía alguns de seus familiares.

Nascido em 1937 no bairro do Irajá, no Rio de Janeiro, e criado no subúrbio carioca, filho único de paraenses – seu pai, de família negra e ribeirinha do baixo Amazonas; sua mãe, de família branca portuguesa, nascida em Belém –, Walter Firmo começou a fotografar cedo, após ganhar uma câmera de seu pai. Em 1955, então com 18 anos, passou a integrar a equipe do jornal Última Hora, após estudar na Associação Brasileira de Arte Fotográfica (Abaf), no Rio. Mais tarde, trabalharia no Jornal do Brasil e, em seguida, na revista Realidade, como um dos primeiros fotógrafos da revista. Em 1967, já trabalhando na revista Manchete, foi correspondente, durante cerca de seis meses, da Editora Bloch em Nova York.

Neste período no exterior, o artista teve contato com o movimento Black is Beautiful e as discussões em torno dos direitos civis, que marcariam todo seu trabalho posterior. De volta ao Brasil, trabalhou em outros veículos da imprensa e começou a fotografar para a indústria fonográfica. Iniciou ainda sua pesquisa sobre as festas populares, sagradas e profanas, em todo o território brasileiro, em direção a uma produção cada vez mais autoral. “Acabei colocando os negros numa atitude de referência no meu trabalho, fotografando os músicos, os operários, as festas folclóricas, enfim, toda a gente. A vertigem é em cima deles. De colocá-los como honrados, como homens que trabalham, que existem. Eles ajudaram a construir esse país para chegar aonde ele chegou”, explica.

Para mais informações sobre a visita à exposição basta clicar aqui.

59ª Bienal de Veneza apresenta mostra principal com poucas dissonâncias e ruídos

"To See the Earth Before the End of the world", Precious Okoyomon. Foto: Roberto Marossi / Cortesia Bienal de Veneza
"To See the Earth Before the End of the world", Precious Okoyomon. Foto: Roberto Marossi / Cortesia Bienal de Veneza
Pavilhão central da Bienal de Veneza (La Biennale di Venezia)
Pavilhão central da Bienal de Veneza. Foto: Francesco Galli / Cortesia Bienal de Veneza

A 59ª Bienal de Veneza, inaugurada para o público no dia 23 de abril, começa histórica. Não só é a primeira depois do adiamento imposto pela pandemia, mas a primeira em que, na exposição organizada pela curadora-chefe desta edição, Cecilia Alemani, a quantidade de mulheres supera a de homens.

Além disso, seus dois principais prêmios foram para mulheres negras: o Leão de Ouro de melhor pavilhão nacional foi para Sonia Boyce, representante da Grã-Bretanha, e o de melhor participação individual para a norte-americana Simone Leigh, por The Brick House, obra que integra a exposição curada por Alemani.

Simone Leigh, "Brick House" na Bienal de Veneza
Simone Leigh, “Brick House”. Foto: Roberto Marossi / Cortesia Bienal de Veneza

The Milk of Dreams, título desta Bienal, faz referência à obra de Leonora Carrington (1917-2011), artista e escritora britânica radicada no México com uma obra marcada pela influência do surrealismo. A exposição de Alemani, dividida entre o pavilhão principal da Bienal, os Giardini e o Arsenale, toma o diálogo com a obra de Carrington como disparador e guia de suas escolhas curatoriais. Nos dois espaços, a influência da vanguarda surrealista é notável, tanto nas poéticas de artistas contemporâneos quanto naquelas históricas, e resulta em uma mostra de grande coerência e de princípios nítidos.

Bem-sucedida no desenvolvimento de seu partido curatorial, Alemani realiza nos dois espaços um amplo inventário de formas oníricas, onde o humano é definido não pela sua diferença em relação à tecnologia e à natureza, mas pela proximidade a esses dois campos de sentido. Assim, convivem lado a lado androides, ciborgues e seres híbridos, com formas fantásticas ou grotescas, bem como animais antropomorfizados e figuras mitológicas e de fábula. Diante das inúmeras perdas e do mal-estar produzido pelos dois anos de pandemia, Alemani desejou oferecer um recuo a espaços de intimidade e de sonho.

Ao contrário de curadores como Moacir dos Anjos, que defende em seus textos a criação de fricções entre as obras no espaço expositivo como forma de expandir seus sentidos possíveis, Alemani optou aqui pela adição, investindo na compilação de poéticas afins como método de trabalho. Em que pese a qualidade de várias das obras trazidas e a consistência da pesquisa desenvolvida, o resultado é uma exposição de poucas dissonâncias, onde o sonho se desenrola em grande parte sem ser perturbado pelos ruídos do mundo.

"To See the Earth Before the End of the world", Precious Okoyomon. Foto: Roberto Marossi / Cortesia Bienal de Veneza
“To See the Earth Before the End of the world”, Precious Okoyomon. Foto: Roberto Marossi / Cortesia Bienal de Veneza

Se confere coerência ao conjunto, a opção pela soma de afinidades produz, por outro lado, um resultado exaustivo e amorfo. Quer se comece a visita pelo Arsenale, quer pelo pavilhão principal, nos Giardini, a quantidade de humanóides, corpos seccionados e seres fantásticos, ao final do trajeto, torna em grande medida indiscernível as particularidades das obras expostas nos dois espaços. Enquanto o recurso a obras históricas tem o mérito de iluminar linhas de continuidade entre poéticas e entre passado e presente – sugerindo, talvez involuntariamente, um futuro sombrio para este nosso tempo –, ele ressalta a repetição de estratégias artísticas e também certo escapismo, perceptível no encantamento de tons futuristas com a tecnologia e na fuga rumo ao sonho como forma de solução ou alívio para os conflitos atuais.

Leite de tigre, leite de zebra

O desequilíbrio entre acolhimento e perturbação da exposição principal se reflete também em vários dos pavilhões nacionais, que desdobram de modo pouco ousado o partido curatorial desta edição. Seres mitológicos e formas dúcteis estão por todos os lados, como se o sono da razão não produzisse mais monstros, mas figuras familiares, com as quais fosse agradável estabelecer contato. As exceções, na exposição da curadoria ou nos pavilhões, oferecem outros leites, explorando o pesadelo e o despertar doloroso em busca de subir um pouco a temperatura desta edição. É o caso do vídeo de P. Staff (Grã-Bretanha, 1987), artista não binárie que retrata com cores ácidas a produção industrial de proteína animal, e as esculturas de Ali Cherri (Líbano, 1976), que remontam a divindades totêmicas de uma humanidade panteísta e agrária (pela sua participação, Cherri recebeu o Leão de Prata desta edição). No mesmo sentido caminham Rosana Paulino (Brasil, 1967), com desenhos de corpos femininos, também ligados à terra, carregados de memórias de grande carga política, e Julia Philips (Alemanha, 1985), cujas esculturas aludem a formas de controle psicológico e institucional exercido sobre nossos corpos humanos.

Entre os pavilhões, merecem destaque os de Áustria e Letônia, que trazem bem-vindas notas de kitsch e ironia para o conjunto desta edição. Com projetos desenvolvidos por duos – Jakob Lena Knebl e Ashley Hans Scheirl (Áustria, 1970 e 1956), pessoas trans, e Skuja Braden (1999), respectivamente – os dois abrem espaço para as dissidências do sonho e da fantasia insistentemente perseguidas por Alemani. De modo igualmente insolente e com título provocador – Peace is a corrosive promise –, o pavilhão do Peru traz um conjunto de obras de Herbert Rodríguez (Peru, 1959) plenas da sujeira do mundo e dos confrontos que esta edição da Bienal de Veneza tenta de algum modo evitar.

Em um evento anacronicamente marcado pelas representações nacionais, é preciso mencionar a participação Sámi, que ocupa o pavilhão dos países nórdicos (Noruega, Finlândia e Suécia), um dos mais bonitos dos Giardini. Povo tradicional transnacional – ocupam também uma península russa, além dos três países mencionados acima –, sua presença na Bienal foi descrita como um ato de “soberania indígena” pelos organizadores noruegueses da representação. Apesar de sua importância e da qualidade das obras apresentadas, o pavilhão falhou em contextualizar os conflitos – territoriais, ambientais, culturais – enfrentados pelos Sámi hoje, contra justamente os Estados que os patrocinam ali. Sua presença, de todo modo, assinala o anacronismo nacionalista da Bienal de Veneza e a urgência de se abrir o evento a povos sem Estado e outras formas de representação.


*Gabriel Bogossian é curador independente e escritor. Sua prática é baseada em colaborações com artistas, curadores e organizações de direitos humanos para a realização de publicações, exposições e outros projetos culturais, com frequência articulando produções de diferentes campos da cultura visual, como a arte, o cinema, o jornalismo e os movimentos sociais. Foi curador convidado da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades Imaginadas (São Paulo, 2019), da Screen City Biennial 2019 – Ecologies: Lost, Found and Continued (Stavanger, 2019) e do Festival VideoEx (Zurique, 2019) e curador adjunto do Galpão VB (2016-2020). Foi autor da tradução de Americanismo e Fordismo, de Antonio Gramsci (ed. Hedra, 2008), e do capítulo O contato e o contágio, conversa realizada com Ailton Krenak que integra a publicação No tremor do mundo (2020).

León Ferrari tem retrospectiva aberta em Paris

O artista argentino León Ferrari. Foto: Divulgação
O artista argentino León Ferrari. Foto: Divulgação

A partir de 20 de abril, o Centro Pompidou, em Paris, apresenta a primeira exposição da obra de León Ferrari (1920-2013) em um museu francês, intitulada La Bondadosa Crueldad. O artista argentino foi autor de uma obra multiforme que combinava inventividade plástica e consciência crítica. Depois de estudar engenharia, começou a aprender desenho em 1946. Mudou-se para a Itália com sua família e fez suas primeiras esculturas em 1952, que foram expostas em Milão em 1955. Ao retornar a Buenos Aires, Ferrari recorreu a novos materiais: madeira e arame que ele usava para fazer construções frágeis e complexas.

Em 1962, passou a explorar a visualidade da linguagem em “quadros escritos”. Consternado com a violência de seu tempo, particularmente a Guerra do Vietnã, que recebeu ampla cobertura da imprensa, Ferrari dedicou seu trabalho ao destaque da barbárie do mundo ocidental.

Com produção marcada pelo tom feroz contra o cristianismo, em 1965, León Ferrari fez a escultura La civilización occidental y cristiana (civilização cristã ocidental), representando Cristo crucificado em um avião militar americano. Exilado no Brasil no final dos anos 1980, ele continuou sua prática de assemblage e fez uma série de colagens iconoclastas combinando representações bíblicas da tradição pictórica ocidental com imagens de violência publicadas na imprensa. Em São Paulo, Ferrari se vinculou às formações experimentais da cidade com artistas como Regina Silveira, Julio Plaza, Carmela Gross, Alex Flemming, Marcelo Nietsche e Hudinilson. 

A exposição é organizada por ocasião do centenário do nascimento de León Ferrari. O Centro Pompidou é a última parada na itinerância de La Bondadosa Crueldad, que percorreu antes o Museu Reina Sofía, em Madrid (Espanha), e o Museu Van Abbe, em Eindhoven (Holanda). La Bondadosa Crueldad propõe um percurso pelas obras, ideias e lutas políticas que atravessaram a vida do artista argentino. Trabalhos que “desmontam as sequências naturalizadas de violência propagadas pela guerra, religião e outros sistemas de poder”, e que “convidam quem os olha a parar, refletir e se posicionar”, segundo a fundação do artista, que participa da organização da mostra e disponibilizou ainda um número significativo de documentos inéditos.

A exposição fica em cartaz até o dia 29 de agosto de 2022.

Leia aqui sobre o centenário do artista.

Em Veneza, Jonathas de Andrade comenta estado de suspensão e aflição em que vivemos

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Vista da exposição "O coração saindo pela boca", de Jonathas de Andrade, no Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza. Foto: Ding Musa/ Fundação Bienal de São Paulo

Reafirmando sua capacidade de resistência, a arte brasileira chega à 59ª edição da Bienal de Veneza com um potente exercício de linguagem, concebido por Jonathas de Andrade especialmente para o pavilhão nacional na mostra centenária. O trabalho do artista alagoano tem como ponto de partida expressões usuais e ao mesmo tempo absurdas, fantasiosas da língua portuguesa, frases e ditos que são reconhecidos pela força do coletivo. São termos que o artista vem colecionando há tempos e que, diz ele, “só funcionam no uso”. Vistos de um ponto de vista literal, remetem a um corpo humano segmentado, despedaçado, mas acabam falando também de um Brasil aflito, à beira do colapso.

Ao chegar ao prédio que abriga as representações da arte brasileira na bienal italiana desde 1964, o visitante se depara com a imagem agigantada de uma orelha. Escultura semelhante foi instalada na porta de saída, numa referência irônica e literal a ideia de “entrar por um ouvido e sair pelo outro”. O projeto idealizado por Jonathas é composto por diferentes intervenções, escultóricas, fílmicas e gráficas (ícones impressos em grandes painéis coloridos e de resolução propositalmente baixa, pixelada), que dialogam entre si, funcionam como alegorias da situação política, social, ambiental do país. Atraem de forma lúdica o espectador para em seguida apresentar camadas mais profundas de crítica e ressignificação da palavra, trazendo uma leitura crua e estarrecedora da realidade. “Bunda Mole”, “Cabeça nas Nuvens” e “Dedo Podre” (esta última na forma de um dedo gigante apertando um botão de votação) são algumas das expressões que compõem o conjunto, perfazendo um caminho tortuoso entre a acidez sarcástica e a sutileza linguística e simbólica, uma das marcas da produção de Andrade. Afinal, como diz ele, “a arte é o lugar da experiência e da radicalidade”. A questão da tradução – já que a grande maioria do público não compreende português – torna-se também uma nova e importante camada de leitura. A decisão de traduzir as frases não pelo seu sentido semântico, mas pelo seu significado literal, agrega uma camada extra de nonsense.

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Vista da exposição “O coração saindo pela boca”, de Jonathas de Andrade, no Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza. Foto: Ding Musa/ Fundação Bienal de São Paulo

Foi exatamente a capacidade de Jonathas de reconhecer forças culturais e trabalhá-las como invenção do mito que levou o curador-geral da última Bienal de São Paulo e responsável pela indicação da representação brasileira em Veneza, Jacopo Crivelli Visconti, a convidá-lo para conceber e apresentar essa leitura desafiante e visceral sobre o país, num momento em que escapismos formais não fariam sentido. “Como comentar o Brasil diante desse clima intenso sem ser naif ou documental? Creio que outras estratégias têm que ser possíveis”, se pergunta Andrade, que tem entre seus projetos o desejo de debruçar-se sobre as alegorias do carnaval, não como festa do delírio e da fuga, mas como imagens ambíguas, ricas em sua contradição.

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Still de “Nó na garganta”, de Jonathas de Andrade, comissionado e produzido prla Fondazione in Between Art Film. Foto: Divulgação

Entre o lúdico e o ácido, dois trabalhos se sobressaem com grande destaque nesse conjunto, um grande balão inflável vermelho que ocupa o centro do Pavilhão, intitulado O Coração saindo pela Boca, e o filme Nó na Garganta, dois comentários alegóricos sobre o estado de suspensão e aflição em que vivemos. Enquanto a escultura, pulsante e sensual, aponta para o caráter orgânico, visceral, da experiência espacial, o filme assume um caráter mais militante, associando cenas dramáticas de desastres ambientais, tomadas de natureza e imagens de treinadores e cobras interagindo de forma magnética em um zoológico particular em Maragogi (AL). A sucessão de imagens contrastantes e ambíguas da obra dialoga com O Peixe, filme entre o documento e a ficção apresentado por Jonathas em 2016 na 32ª Bienal de São Paulo e que se tornou um de seus trabalhos mais conhecidos.

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Vista da exposição “O coração saindo pela boca”, de Jonathas de Andrade, no Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza. Foto: Ding Musa/ Fundação Bienal de São Paulo

Andrade vê nesses trabalhos de caráter colaborativo e que lidam com o aspecto imprevisível da natureza uma certa associação com o realismo fantástico, que busca de estratégias fabulares para falar do local e advoga seu pertencimento à um universo cultural mais expandido, que contempla não apenas o Nordeste (seu ponto de partida) e o Brasil que agora representa, mas de forma mais ampla a América Latina. Outras referências importantes, nem sempre conscientes, se destacam no conjunto. A primeira e mais evidente delas é a aproximação entre o movimento de expansão e contração de O Coração saindo pela Boca e das Bolhas, esculturas infláveis criadas por Marcelo Nitsche no final da década de 1960, ou com a visceralidade fragmentada trabalhada por artistas como Antonio Dias. “Claro que isso tudo está em mim, é uma costura estética que a gente está regurgitando”, diz Andrade.

Vista da exposição “O coração saindo pela boca”, de Jonathas de Andrade, no Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza. Foto: Ding Musa/ Fundação Bienal de São Paulo

Há ainda uma bem-vinda sintonia entre o caráter fantasioso, enigmático, das peças de Jonathas e o tema geral escolhido para a edição – adiada em um ano por conta da pandemia – desta bienal. Intitulada The Milk of Dreams pela curadora italiana Cecilia Alemani, a mostra inspira-se em livro homônimo da escritora e artista surrealista Leonora Carrington e  apresenta-se como um convite à reinvenção pelo prisma da imaginação. Mas também pretende tornar-se um espaço de questionamento e tomada de posição em relação aos enormes desafios que se colocam ao mundo contemporâneo, a crescente desigualdade, a pandemia e os conflitos incessantes pelo mundo. A 59ª Bienal de Veneza será aberta ao público no sábado, dia 23, e conta em sua exposição geral com cinco artistas brasileiros: Rosana Paulino, Jaider Esbell, Lenora de Barros, Luis Roque e Solange Pessoa.

Os vários 22 e a guerra de narrativas no Brasil

Obra da série Desenhos da Liberdade de Ayrson Heraclito. Foto: Rafael Salim

Debret e Gê Viana são colocados lado a lado. As composições de 1948 de Joaquim Tenreiro tensionam com as obras de Moisés Patrício, Tiago Sant’Ana e Ayrson Heráclito que as avizinham. A cada quadro, buscamos nas paredes datas e nomes dos artistas e, por vezes, um sorriso se forma no canto da boca ao perceber a guerra de narrativas que se costura pela expografia. Foi essa reação que buscou Lilia Schwarcz ao traçar a curadoria de Vários 22, em cartaz na galeria Arte132, em São Paulo. Reunindo 80 trabalhos – entre obras do acervo da casa e de outras 10 galerias e artistas independentes -, a exposição convida a refletir sobre ideias enraizadas e a questionar o imaginário hegemônico e eurocêntrico que ainda permeia o Brasil. 

O título, Vários 22, enuncia um ano que não passa despercebido. Como aponta Lilia no catálogo da exposição: “Se misturam três datas que se contradizem entre si: a semana que projeta o futuro; o bicentenário, o passado; o falecimento de Lima, a morte simbólica de uma República que prometia inclusão, mas entregou exclusão social”. A curadora se refere, respectivamente, ao centenário da Semana de Arte Moderna, aos 200 anos da Independência do Brasil e à morte do escritor Lima Barreto – modernista não convidado à semana paulista que hoje comemoramos como símbolo nacional, homem negro que sofria com o racismo que ainda hoje permeia nossas relações. “Há, ainda, outro marco que inaugura 2022: os 10 anos da política de cotas no Brasil, que vem alterando a estrutura de nosso país, a despeito de os resultados serem insatisfatórios em termos de reparação e igualdade”, complementa Lilia.

As efemérides se encontram com as eleições e a Copa do Mundo, que ocorrem neste mesmo ano. Parecem, então, ter seus desdobramentos ainda mais presentes nas reflexões que se traçam entre passado e futuro, conquistas obtidas, ausências históricas e possibilidades no porvir. “É assim que eu entendo 2022, uma guerra de narrativas”, conta a curadora em entrevista à arte!brasileiros. Foi por esse caminho que ela desenhou Vários 22

Estabelendo diálogo

O convite para que Lilia curasse a exposição na Arte132 veio do fundador e diretor Telmo Porto. A ideia inicial era que se partisse do acervo da galeria – resultado da coleção construída pelo próprio Telmo nas últimas décadas -, no qual se encontra um amplo conjunto de esculturas, pinturas e desenhos dos séculos 19 e 20. “Disse ao Telmo que eu teria problemas de fazer uma exposição tão colonial”, conta Lilia. A pesquisadora sentia urgência em lançar um olhar contemporâneo sobre as obras. “Tenho refletido sobre esse ano de 2022, não se trata de derrubar monumentos só; se trata de contrastar, dialogar, fazer pensar o que existia lá, o que faltou, quais são as tensões ainda existentes, quais são as grandes contradições.” Assim, propôs algo diferente: colocar a coleção da Arte132 em diálogo com outros trabalhos e visões de mundo, convidando artistas e galerias a exporem conjuntamente no espaço. “Aí fomos montando esse quebra-cabeças, que era fazer com que obras coloniais ganhassem outro sentido a partir de uma visão mais contemporânea”, conta a curadora, que na escolha de artistas e obras buscou também a intersecção de vários marcadores – como raça, gênero, região, geração etc. 

Hoje, participam dessa conversa artistas sem galeria e obras de coleções particulares, com Daniel Lannes, Denilson Baniwa, Jaider Esbell e Jean-Baptiste Debret; e as galerias Casa Triângulo, Estação, HOA, Janaína Torres, Leme, Millan, Nara Roesler, Portas Vilaseca, Sé e Superfície. Em alguns casos, as obras expostas estão à venda; em outros, são apenas um empréstimo das galerias ou coleções, movidas exclusivamente pelo mote curatorial.

Nação é narrativa 

Talvez um ponto chave deste ano e da mostra seja a disputa narrativa na construção de uma ideia de Brasil. “A gente sabe que o conceito de nação é uma projeção imaginária. Para formar essa comunidade de cidadãos que se emocionam coletivamente existem alguns elementos fortes: a retratística, a paisagem e os emblemas pátrios”. E foi dessas divisões cânones da academia que Lilia partiu para pensar os três núcleos da exposição. “Gosto muito de mostrar como o presente está cheio de passado, sempre partir de temas clássicos da história da arte – história da arte essa que é um braço do imperialismo – e desmontar por dentro, desmontar a lógica dessas classificações, [mostrar] que nenhuma classificação é ingênua.” 

Também não é ingênua essa decisão na expografia. Ao optar por uma divisão em retratística, paisagens e emblemas nacionais, Lilia permite que vejamos lado a lado Aurélio Figueiredo, artista do final do século 19, David Almeida, artista contemporâneo legitimado pelo mercado das artes, e José Antonio da Silva, dito popular. “Por mais que para alguns pareça um desrespeito, uma falta de hierarquia; para mim, é um profundo respeito, porque você mostra os limites, mas também a atualidade dessa obra”, explica.  

E é nessa disposição – mesclando gerações, identidades, linguagens artísticas, e borrando as distinções entre ‘arte letrada’ e ‘arte popular’ – que os tensionamentos se tornam tão perceptíveis ao público. “Eu tenho pouca empatia pela hierarquia. Acho que a gente deve, de alguma maneira, se despir desses critérios evolutivos construídos pela história da arte, porque nós também não pensamos só evolutivamente”, compartilha Lilia. E completa: “Então eu quis promover esse tipo de diálogo. Porque é uma conversa. Se a gente fizesse uma coisa ‘evolutiva’, poderíamos desmerecer e desrespeitar também os artistas mais consagrados, os artistas modernistas. Acho que é ao contrário, damos atualidade a essas obras, não as deixando naquele lugar imaculado”.

Na sala principal, uma cena se trava entre as esculturas. Em cantos opostos da sala Índio com arco e flecha, de Ottone Zorlini, e O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui, de Flávio Cerqueira. Em um extremo, a obra traz a representação de um indígena imaginário e guerreiro, pintado por um homem branco ítalo-brasileiro nascido no final do século 19; no outro, um indígena de sandálias havaianas e estilingue no bolso, feito em 2016, “traz em seu corpo as contradições e os ruídos do processo de urbanização”, explica Lilia no catálogo. A escultura de Zorlini parece ter em sua mira a obra de Andrey Zignatto, Alicerce 1 (2020), que nos mostra uma cerâmica indígena amassada por um bloco de concreto – bloco este que o próprio artista define como uma alegoria da ‘civilização’. Na diagonal da obra, vemos um trabalho da série Bandeirantes de Jaime Lauriano, que nos traz uma miniatura de um desses personagens históricos, fundida em latão e cartucho de munição utilizada pela Polícia Militar e forças armadas brasileiras.

“Esse jogo do objeto escultórico para mim era muito importante, porque a escultura foi o lugar de projeção das elites políticas, econômicas e sociais”, destaca Lilia. É possível pensar algo semelhante em relação ao grande número de retratos de pessoas não brancas – pintados por artistas não brancos – que encontramos pela galeria. “O retrato nasceu para elevar, é uma extensão da historiografia europeia, né?”, então o que acontece quando trocamos os sujeitos retratados?

Porém, é preciso lembrar que essa disputa de narrativas no mundo das artes (e no Brasil como um todo) vai além dos quadros nas paredes e das esculturas em diálogo nas galerias e museus. As ausências históricas nos Brasis já narrados e as presenças nos Brasis possíveis – ambas destacadas em Vários 22– por vezes se percebem também nos públicos das mostras e ecoam após a saída desta e de outras exposições.

SERVIÇO

VÁRIOS 22
ONDE: Arte132 | Av. Juriti, 132, Moema, São Paulo
QUANDO: 19 de março a 21 de maio
VISITAÇÃO: segunda a sexta, das 14h às 19h; sábados, das 11h às 17h. Entrada gratuita 

Sesc-SP faz programação especial para o Dia da Diversidade Indígena

A Última Floresta
Davi Kopenawa em cena do documentário "A Última Floresta". Foto: Divulgação.

Dos dias 19 a 21, o Sesc Pompeia realiza um ciclo de debates sobre a situação dos povos indígenas no Brasil com a participação do fotógrafo Sebastião Salgado, lideranças indígenas, ativistas e especialistas. Como parte da programação da exposição Amazônia, os encontros são abertos ao público, gratuitos, e também serão transmitidos ao vivo pelo canal do YouTube (aqui).

A abertura do ciclo de debates acontece no teatro do Sesc Pompeia, dia 19, às 20h, onde Sebastião Salgado, Davi e Dário Kopenawa conversam sobre a situação dos indígenas diante da invasão do garimpo e devastação da floresta amazônica nestes 30 anos da demarcação da terra Yanomami. Na quarta-feira (20), Biraci Brasil, Francisco Pyiako e Wewito falam sobre a situação indígena no Acre e conflitos gerados com construções de estradas que cortam a região. O encontro acontece na Área de Convivência, às 20h. Para encerrar a programação, Sebastião Salgado, Beto Marubo, Sydney Possuelo e Tiago Moreira conversam sobre a situação de populações indígenas isoladas e do recente contato com outras comunidades, às 18h, da quinta-feira (21), também na Área de Convivência do Sesc Pompeia. Os três eventos são gratuitos e somente o primeiro necessita de retirada antecipada de ingressos, que deve ser feita na bilheteria com uma hora de antecedência.

Sobre os convidados

Biraci Brasil é cacique e líder espiritual do povo Yawanawa.

Beto Marubo é indígena da etnia Marubo e membro da organização Univaja – União dos Povos Indígenas do Vale do Javari.

Davi Kopenawa é escritor, xamã e líder político Yanomami. Atualmente é presidente da Hutukara Associação Yanomami, uma entidade indígena de ajuda mútua e etnodesenvolvimento.

Dário Kopenawa é líder político Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, uma entidade indígena de ajuda mútua e etnodesenvolvimento.

Francisco Pyiako é lider do povo Ashaninka, coordenador da Opirj, ex-assessor da Presidência da Funai e ex-secretário de Estado do Acre.

Marcos Wesley é antropólogo, coordenador do programa Rio Negro no ISA (Instituto Socioambiental). Trabalha há mais de 20 anos junto aos Yanomami.

Sydney Possuelo é indigenista, ativista social e etnógrafo, considerado a maior autoridade com relação aos povos indígenas isolados do Brasil.

Tiago Moreira é antropólogo, analista de desenvolvimento e pesquisa socioambiental. Faz parte da equipe do ISA (Instituto Socioambiental).

Vista da exposição no Sesc Pompeia, em São Paulo. Foto: Everton Ballardin/Cortesia Sesc
Vista da exposição no Sesc Pompeia, em São Paulo. Foto: Everton Ballardin/Cortesia Sesc

Abril Indígena

A atividade faz parte do Abril Indígena no Sesc-SP. Realizado desde 2019, ele foi idealizado com o objetivo de valorizar e difundir a diversidade cultural desses povos no Brasil, especialmente por meio de atividades que suscitam espaços de protagonismo para indígenas – provenientes tanto de aldeias, comunidades e terras indígenas quanto de contextos urbanos. Segundo Tatiana Amaral, assistente da Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc, “essa ação em rede pretende colaborar para a desconstrução da ideia estereotipada do indígena selvagem e isolado, revelando a atualidade e a dimensão local de suas existências, resistências, demandas, saberes e fazeres”, explica.

Já no dia 30 de abril, é inaugurada na plataforma virtual do Sesc a série Amazônia, Arqueologia da Floresta com direção e montagem de Tatiana Toffoli, produção da Elástica Filmes e realização do SescTV. Confira mais sobre cada capítulo da série:

Capítulo 1 – A Terra dos Povos

Monte Castelo é um sambaqui fluvial, uma ilha artificial, que foi construído e ocupado há pelo menos 6 mil anos. Localizado na bacia do rio Guaporé, em Rondônia, esse sítio foi escavado pela primeira vez pelo arqueólogo Eurico Miller na década de 1980. Trinta anos mais tarde, foi relocalizado por uma equipe de arqueólogos e as escavações foram retomadas, dando início a uma nova etapa de descobertas surpreendentes.

Capítulo 2 – Conchas e Ossos. 

Há 4 mil anos o clima da região mudou e novas camadas de conchas e terra foram adicionadas ao sítio. A equipe encontra muitos vestígios de um cemitério datado dessa época. Adornos e uma galhada de veado são encontrados junto aos ossos humanos. Os arqueólogos acompanharam os Tupari até a antiga aldeia do Laranjal, local em que viviam e do qual tiveram que sair por causa da criação da Reserva Biológica do Guaporé, em 1983.

Capítulo 3 – O Tabaco e a Cerveja. 

O sudoeste da Amazônia é uma região de grande diversidade natural e talvez por essa razão foi também um importante centro de domesticação de plantas. Os vestígios desse processo de domesticação e cultivo de plantas são encontrados nos sítios arqueológicos da região. Quando os Tupari abriram a aldeia Palhau, que está localizada sobre um sítio arqueológico, a mandioca dos antigos, usada para fazer chicha, brotou no solo. Muitas espécies aparecem espontaneamente na roça. O milho, por exemplo, cultivado há 6 mil anos, até hoje é plantado pelos Tupari numa demonstração de que o passado e o presente estão profundamente conectados na região.

Capítulo 4 – Cemitério Bacabal.

Neste episódio, novos sepultamentos são encontrados. A composição química das conchas que formam o sambaqui Monte Castelo ajudou a preservação de ossos e sementes. Através desses vestígios é possível saber o que os antigos comiam e bebiam. Os ossos e os dentes humanos, as amostras de solo, as cerâmicas e objetos de pedra nos ajudam a contar a história de ocupação dessa região.

 

MAM-Bahia abre coletiva com curadoria de Ayrson Heráclito e Daniel Rangel

ENCRUZILHADA
"Refino #2", 2017, de Tiago Sant'Ana. Foto: Divulgação

O Museu de Arte Moderna da Bahia – localizado no histórico edifício do Solar do Unhão, em Salvador – inicia uma intensa programação para os próximos meses com a abertura da exposição ENCRUZILHADA. A mostra propõe um diálogo entre o acervo moderno e contemporâneo do MAM-BA e a Coleção de Arte Africana Claudio Masella do Solar do Ferrão (Dimus/IPAC).

Com curadoria do artista Ayrson Heráclito – atualmente com mostra individual na Pinacoteca de São Paulo – e do curador geral da instituição soteropolitana, Daniel Rangel, ENCRUZILHADA apresenta uma dinâmica dialógica entre um vasto acervo de sujeitos criadores. “É uma reunião de artistas de diversos contextos históricos, sociais e raciais que articulam tensões na produção de visualidades, cuja centralidade dos seus interesses criativos é ativada a partir do universo das culturas afrodiaspóricas”, diz Heráclito no texto de divulgação.

ENCRUZILHADA
Sem Título, Carybé. Foto: Divulgação

Segundo Rangel, a proposta de ENCRUZILHADA traz uma conexão material-espiritual espaço-temporal que busca revelar a potência da presença africana na produção artística brasileira, do modernismo ao contemporâneo. “Temos também temas que transitam entre o sagrado e as emergências cotidianas, e ainda, referências estéticas e abordagens de cerca de 18 etnias provindas de diferentes regiões da África”.

Sobre o título da exposição, os curadores afirmam que ENCRUZILHADA reconhece o MAM como um histórico local de encontros, desde o trapiche do século XVII até o museu da atualidade – reformulado por Lina Bo Bardi entre os anos 1950 e 1960. “É um espaço de chancela de fazeres, diálogo entre artistas, obras e público”, diz Rangel. Já nas palavras de Heráclito: “Reunimos nessa exposição um amplo debate público na ‘encruzilhada museu’, considerando museu enquanto um espaço de encruzilhada, desde as abordagens de antropólogos visuais a artistas de diferentes cores, diferentes origens étnicas e lugares de fala, até artistas-sacerdotes e um amplo panorama da chamada arte jovem-preta-afro-brasileira”.

A Coleção Claudio Masella de Arte Africana – que leva o nome do industrial italiano que morou 35 anos na Nigéria e Senegal – é formada por mais de mil objetos que representam etnias de 15 países da África, como máscaras, estatuetas, instrumentos e utensílios, confeccionados em materiais que variam entre terracota, madeira, metal e marfim. Esse acervo é caraterizado pela riqueza e diversidade da produção cultural africana do final do século 19 e do século 20.

Sobre a programação do MAM-BA (Av. Contorno, s/n°, Solar do Unhão) para os próximos meses, o diretor da instituição, Pola Ribeiro, relata que entre abril e agosto, além de ENCRUZILHADA o MAM terá o Acervo da Laje no Programa de Residências Artísticas, dois shows já previstos da ‘JAM no MAM’, três cursos gratuitos nas ‘Oficinas do MAM’, o projeto ‘Museu-Escola’ com a Secretaria de Educação, além de dezenas de atividades e pesquisas com professores e alunos da UFBA – via termo de cooperação assinado com o vice-reitor Paulo Miguez e uma parceria com a UNIJORGE para o segundo semestre.

Últimos dias para conferir as mostras em cartaz no MACA de Uruguai

MACA Uruguai. Foto: Divulgação.
MACA Uruguai. Foto: Divulgação.

Até o dia 30 de abril é possível visitar a exposição Christo e Jeanne-Claude no Uruguai, sediada no MACA – Museo de Arte Contemporáneo Atchugarry. A instituição cultural é novidade em Punta del Este, no Uruguai, tendo sido inaugurada ainda em 2022, no começo de janeiro. Seu espaço faz parte da Fundação Atchugarry, criada em 2007 pelo artista plástico Pablo Atchugarry, cuja ambição era a de criar um museu para sua coleção de pintura e escultura latino-americana. Com projeto arquitetônico de Carlos Ott, o MACA aloja quatro salas de exposições e um auditório/cinema para 72 espectadores.

Sua abertura foi marcada com a mostra em homenagem a Christo e Jeanne-Claude, sendo esta a primeira vez que a obra da emblemática dupla é exibida no Uruguai. Ao todo, o MACA trouxe um conjunto de mais de 50 obras que ocupam o grande salão do primeiro andar; com isso, apresenta-se um panorama da sua produção em diferentes formatos: fotografia, desenhos, colagens e esculturas.

Christo e Jeanne-Claude são lembrados por seu trabalho monumental, por exemplo: Valley Curtain (1972, Colorado, EUA), consistia em 18.600 metros quadrados de tecido de nylon laranja, pendurado sobre um vale entre montanhas. Em Surrounded Island (1983), em Biscayne Bay, perto de Miami, eles cercaram onze ilhotas com um pano rosa flutuante. The Umbrellas in California and in Japan (1991) foi uma instalação de mais de três mil guarda-chuvas, e The Gates (2005) em Nova York consistiu em uma sequência de mais de sete mil portas laranja dispostas nos caminhos do Central Park. Tendo Jeanne-Claude falecido em 2009 e Christo em 2020, o último projeto idealizado pelo casal foi o “empacotamento” do Arco do Triunfo, em Paris.

Eles incluíam, junto com suas esculturas de proporção maciça – muitas vezes invólucros de tecido ao redor de construções históricas -, as documentações relacionadas à burocracia necessária para a realização da obra; os relatórios de impacto ambiental; os desenhos e diagramas feitos nas etapas de planejamento desses trabalhos. Propunham, dessa forma, uma nova forma para a arte pública ser compreendida, onde o trabalho é mais que o próprio objeto final realizado. Parte dessas documentações e desenhos está na mostra no MACA, que também produzirá um catálogo bilíngue espanhol-inglês com uma entrevista íntima com Christo e imagens de todas as obras expostas na exposição.

Já no edifício anexo ao museu, até o dia 18 de abril, está montada a exposição Heliógrafos do artista argentino León Ferrari, quem, ao longo de sua extensa produção, explorou diferentes suportes e meios expressivos; desde seus primórdios com a cerâmica e suas incursões no desenho, até livros de artista, arte-objeto, escultura e litografia. A maior parte de suas realizações está ligada à crítica social e à relação entre arte e política.

As obras que dão título à mostra são uma série de vinte e sete impressões heliográficas de imagens compostas por figuras Letraset, um meio amplamente utilizado por designers gráficos desde meados da década de 1950. Elas variam em orientação e tamanho, embora todas sejam grandes o suficiente para se assemelhar a plantas arquitetônicas. Essas peças foram criadas durante um período de experimentação, enquanto Ferrari estava exilado em São Paulo.

Morre Letizia Battaglia, primeira repórter fotográfica da Itália

A fotógrafa Letizia Battaglia. Crédito: Shobha/Divulgação IMS
A fotógrafa Letizia Battaglia. Crédito: Shobha/Divulgação IMS

Morre aos 87 anos Letizia Battaglia, a primeira repórter fotográfica da Itália a cobrir notícias policiais. Pode-se dizer que a fotógrafa italiana foi um símbolo não só da luta contra a Máfia, mas também, do uso refinado da fotografia como instrumento dessa luta. “Nasci em tempos de paz, mas logo veio a guerra. Meu pai era marinheiro e passei minha infância viajando pela Itália, desviando de bombas, de Civitavecchia, em Trieste, a Nápoles. Voltei para a Sicília quando tinha dez anos”, contou Battaglia. Para escapar da autoridade paterna, ela se casou aos 16, tendo o matrimônio, no entanto, feito pouco pela sua liberdade. Aos 36 anos ela tomou a decisão de abandonar o marido e partiu para Milão, levando consigo duas das três filhas já adolescentes. Da necessidade de fazer o seu e o sustento de suas filhas, ela começou a tirar fotos. Em Milão ainda, foi correspondente do palermitano L’Ora para o qual retornou à capital da região siciliana com o intuito de organizar sua equipe de fotojornalismo.

“Nós éramos o jornal: em uma tarde poderíamos fotografar a coroação de uma rainha da beleza, uma casa desmoronada e um assassinato. Nosso campo de ação era a vida de uma cidade – uma cidade triste, selvagem e também alegre”, disse Battaglia em entrevista a Giovanna Calvenzi, para a Aperture.

O juiz Roberto Scarpinato com seus guarda-costas, no topo do tribunal de Palermo, 1998. Letizia Battaglia/Divulgação IMS.
O juiz Roberto Scarpinato com seus guarda-costas, no topo do tribunal de Palermo, 1998. Letizia Battaglia/Divulgação IMS.

Sua denúncia à Máfia, a parte mais reconhecida de seu trabalho, se intensificou após o assassinato do ativista de esquerda Giuseppe Impastato, em 1979. Battaglia começou a organizar mostras com esses registros e percorreu a Sicília com elas. Em uma ocasião, ela recontou, uma praça inteira esvaziou-se em questão de dois minutos após perceberem que entre as imagens estava a prisão Luciano Liggio, cabeça da Máfia, como capturada pela fotógrafa. “As pessoas estavam apavoradas de que um dia pudessem ser apontadas como cúmplices de nossas fotografias”.

Anos mais tarde, Battaglia foi a recipiente do prêmio W. Eugene Smith de 1985. Com o reconhecimento do seu trabalho veio também a cobrança por mais: “[O prêmio] foi a virada. Entendi que deveria fazer mais. Não bastava apenas fotografar”.

Ela se filiou ao emergente Verdi, concorreu ao cargo e foi votada como membro do conselho da cidade. O prefeito de Palermo na época era o democrata católico Leoluca Orlando, que travou uma feroz batalha contra a corrupção dentro de seu partido. “Durante quatro anos me dediquei à cidade. E dela recebi amor e gratidão. Foram os melhores anos de minha vida”, ela escreveu.

Crianças brincam com armas. Palermo, 1986. Crédito: Letizia Battaglia/Divulgação IMS
Crianças brincam com armas. Palermo, 1986. Crédito: Letizia Battaglia/Divulgação IMS

“Não é fácil de entender – viver em uma cidade dominada pela máfia significa tê-la em sua casa, em cada família. A professora de seus filhos, seu vizinho de baixo, seu irmão. Qualquer um pode estar envolvido – e você não sabe disso. Estamos apenas começando a saber quem são os grandes chefes. E por isso é muito importante estar lá – amar estar lá. Considero-me absolutamente afortunada por poder viver esta experiência de resistência à injustiça.”

Quando, em 1989, o serviço fotográfico do L’Ora mudou de dono, sua nova chefia relutou em contratar uma fotógrafa com papel político tão forte. Dedicada à vida pública e sem vontade de ser fotógrafa apenas em seu tempo livre, Battaglia parou de fotografar por um tempo. Nos anos seguintes, foi deputada da Assembleia Regional da Sicília e se dedicou a publicar as revistas Grandevú (com papel importante para os movimentos sicilianos de contracultura) e Mezzocielo (dedicada a trabalhos de mulheres). Além disso, fundou a editora Edizioni della Battaglia, centrada em poesia, literatura e ensaios ligados à região siciliana.

Em 2016, criou o Centro Internacional de Fotografia de Palermo, para abrigar o arquivo fotográfico da cidade.