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Anna Bella Geiger — Sesc Avenida Paulista/MASP

Organizada pelo MASP em parceria com o Sesc Avenida Paulista, a mostra individual “Brasil nativo / Brasil alienígena”, de Anna Bella Geiger, é parte das exposições que fazem parte do eixo “Histórias das mulheres, Histórias feministas”, que ocupou o museu em 2019.

A exposição traz 190 obras da artista desde os anos 50 até os dias atuais, propondo um passeio por sua trajetória em duas das maiores instituições culturais do país até 1 de março.

Confira entrevistas com Adriana Souza, coordenadora de programação do Sesc Avenida Paulista, e Tomás Toledo, curador-chefe do MASP e curador da exposição.


Anna Bella Geiger: Brasil nativo / Brasil alienígena
até 1 de março
No MASP e no Sesc Avenida Paulista

Exposição em Nova Iorque aborda tempos autoritários no Brasil

Capa edição 43 - Sem Título - Moisés Patrício
Obra Sem Título da série "Aceita?", de Moisés Patrício. A obra foi capa da nossa edição 43.

A exposição Against, Again: Art Under Attack in Brazil aborda a presente onda transnacional de autoritarismo, apresentando diversas práticas artísticas que respondem à opressão no Brasil. Desde a ascensão de um movimento político conservador nos últimos anos, que resultou na eleição de um presidente de extrema direita em 2018, até as posteriores ameaças e ataques contra políticos, ativistas, intelectuais e artistas.

A exposição desenvolve um breve diagnóstico desses tempos e também analisa as condições históricas do autoritarismo no Brasil, mostrando como os artistas prosperaram e criaram novos imaginários para lidar com a opressão.

A mostra tem curadoria de Tatiane Schilaro e Nathalia Lavigne e foi organizada pela AnnexB, se estendendo entre 14 de fevereiro até 3 de abril de 2020 na Anya and Andrew Shiva Gallery, que fica dentro do John Jay College of Criminal Justice. Estão presentes na exposição obras dos artistas Sonia Andrade, Maria Thereza Alves, Marcelo Amorim, Giselle Beiguelman, Rafael BQueer, Nino Cais, #CóleraAlegria, Jonathas de Andrade, Anna Bella Geiger, Hudinilson Jr., Clara Ianni, Eduardo Kac, Randolpho Lamonier, Jaime Lauriano, Antonio Manuel, Arjan Martins, Virginia de Medeiros, Cildo Meireles, Ismael Monticelli, Rafael Pagatini, Anna Parisi, Regina Parra, Moisés Patrício, Dalton Paula, Aretha Sadick e João Simões, Berna Reale, Sallisa Rosa, Aleta Valente, Regina Vater, Igor Vidor.

De Geiger a Sidney Amaral: o colapso do autorretrato continua

Felipe Cama, "Notícias de lugar nenhum (made in China)".

Por que uma pessoa se retrata hoje em dia? Não falo do selfie, essa praga a que todos nós estamos sujeitos a olhar (e a produzir, muitas vezes), mas ao autorretrato supostamente artístico e presumivelmente fruto de uma necessidade de se mostrar ao mundo como um sujeito autônomo.

Será possível que esse tipo de autorretrato ainda seja viável, após as produções de Anna Bella Geiger, comentadas no último artigo aqui publicado[1]? Afinal, ainda nos anos 1970, ela usou a própria imagem para discutir a posição da mulher (branca, latino-americana e artista) em plena ditadura civil-militar brasileira. Por outro lado, Cindy Sherman, artista norte-americana, naquela mesma década também apresentou a si mesma desdobrada em inúmeros estereótipos femininos criados pelo cinema norte-americano.

Anna Bella, no Brasil e Cindy Sherman, nos Estados Unidos, no entanto, não estavam sós nesse processo de ressignificação do autorretrato. Concomitante às duas, outras e outras profissionais desenvolveram trabalhos usando a própria imagem não mais explorando os paradigmas revelhos do autorretrato convencional (quando o artista se desnuda para o mundo, de forma literal ou metafórica), enquanto subjetividade única e autossuficiente.

Na cena brasileira, durante aquela mesma década, mais artistas também se dedicaram a produções em que a própria imagem não era usada para explorar uma subjetividade incontaminada (como se isso fosse possível), mas como um alerta sobre a certeza de que o eu se constitui em luta contra fatores externos, contra as normas preestabelecidas pela família, pela sociedade, pela tradição, pela indústria cultural, etc. Os trabalhos de Lenora de Barros, por exemplo, emergem mais ou menos durante aquele período e, até hoje, a artista lança mão da própria imagem para a produção de trabalhos em que seu corpo aparece sempre como instrumento de luta contra a precessão dos clichês que nos envolvem a todos.

Para não deixar a impressão de que o uso da própria imagem como ferramenta crítica tenha sido uma estratégia usada exclusivamente por mulheres, vale relembrar trabalhos de alguns homens que também usaram a imagem do próprio corpo para a produção de trabalhos de endereçamento claro: Para um jovem de brilhante futuro (1973/74), de Carlos Zilio (acervo MAC-USP) – uma valise com pregos e fotos em formato de postais com o artista retratado como um jovem executivo de “brilhante futuro” –; o álbum Trama, de 1975, em que Gabriel Borba incluiu uma foto em que aparece como se estivesse sendo torturado (acervo MAC-USP). Em meados da mesma década, Gastão de Magalhães, por sua vez, fundiu a própria imagem a fotos icônicas de Brasília, estabelecendo uma relação pouco usual entre o “eu”, o estado e a religião (acervo MAM-SP).  No final daquela década e início da seguinte, impossível não registrar os trabalhos de Mario Ishikawa, em xerox, em que pedaços de seu corpo eram representados como símbolos da impotência frente o estado repressivo de então.

Os anos 1990 também estão repletos de obras concebidas para discutirem a subjetividade como efeito, não de uma singularidade sem conflito, mas como luta/construção social e política. Em 1994, na mostra Fotografia contaminada, com minha curadoria (Centro Cultural São Paulo), reuni obras que tratavam desta questão, desde aquelas dos “pioneiros”, Militão Azevedo e Valério Vieira, até os então novos artistas Rubens Mano, Nazareth Pacheco e Rosana Paulino, passando por Geraldo de Barros (com autorretratos produzidos a partir de clichês imagéticos hollywoodianos), Anna Bella Geiger (desde sempre!), Iole de Freitas, entre outras e outros.

Os closes fotográficos em suportes circulares, de tão próximos do rosto de Rubens Mano, eram incapazes de descrever suas características físicas, enfatizando o clima de estranhamento da instalação do artista naquela mostra. Já no arquivo apresentado por Nazareth Pacheco em pequenas colagens emolduradas (1993/94, acervo MAM-SP) –, por sua vez, ficava registrada a tentativa de adequação do corpo da artista – desde bebê até a fase adulta – aos paradigmas “ideais” do corpo da mulher, socialmente construídos. Rosana Paulino, por outro lado, ali apresentava Parede da memória (1994, acervo Pinacoteca de São Paulo), um autorretrato especial, já que sua identidade como mulher negra não se constituía a partir de índices de seu corpo material, mas daqueles de sua ancestralidade e parentes próximos. Um autorretrato que fala de si, sem mostrar-se de fato.

O trabalho de Rochelle Costi que também figurou em “A Fotografia contaminada”, igualmente refletia sobre a complexidade do assunto. Em 50 horas: Autorretrato roubado (1992/93, acervo MAM-SP), a artista se apropriava de fotografias de pinturas produzidas por diversos estudantes de arte, tendo a si mesma como modelo. Ao contrapor essas fotos às que a mostravam posando, Rochelle desorganizava qualquer possibilidade de manter o conceito tradicional de autorretrato como baliza para a análise de 50 horas. Ainda sobre a exposição, caberia relembrar as cópias de polaroids ampliadas, apresentadas por Márcia Xavier. Nelas, a artista transformava o ato de fotografar-se em uma ação mecânica, registrando partes anônimas de seu próprio corpo (pernas, pescoço etc.). Marcia dispunha esses “retalhos de si ou de qualquer outra” em uma estrutura em grade, remetendo o visitante a uma ordem de fundo construtivo que solapava qualquer possibilidade de fruir aquelas imagens como portadoras apenas de uma expressão do “eu” da artista.

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Gustavo Rezende produziu dois trabalhos que problematizavam o “eu” do artista, quando construído a partir de clichês diversos. O primeiro, Retrato do artista quando jovem (1999), um pequeno backlight que, aceso, mostrava seu retrato usando um gorro azul. Além da referência ao livro de James Joyce no título, a peça ajustava a autoimagem de Gustavo à tipologia de retratos e autorretratos, típica do renascimento. Ele, assim, adequava-se aos estereótipos criados pela história das imagens, atentando para o fato de que ser artista era também moldar-se às imagens socialmente aceitas para descrevê-lo. Dois anos depois, com Hero, Gustavo voltará à auto representação (que, depois tomará outros rumos no decorrer do seu percurso), moldando-se não mais como jovem artista resoluto do primeiro renascimento, mas associando a figura do artista àquela do atleta – um dos principais tipos de celebridades dos dias de hoje.

Albano Afonso é outro artista que relacionou a própria imagem àquelas dos autorretratos sancionados pela história da arte. Ele produziu vários trabalhos dentro deste viés, dentre eles, Autorretrato com modernos latino-americanos e europeus (2005/2010 MAC-USP). A obra é formada por dois conjuntos: uma série de autorretratos de artistas consagrados, justapostas a autorretratos de Albano. Esses últimos, por sua vez, são “cegados” pela luz do flash, impedindo sua identificação plena. Montada também em forma de grade, Autorretrato com modernos demonstra duas impossibilidades: aquela de, hoje em dia, o autorretrato poder constituir-se alheio aos clichês da história das imagens e, como corolário, a dificuldade do artista, hoje, poder identificar-se com essa mesma série de clichês.

Sofia Borges, no início de seu percurso, também usou a própria imagem para pensar, não a si mesma ou à sua intimidade, mas a própria fotografia em suas relações com a pintura e o cinema. Em algumas daquelas fotos, seu corpo parece servir apenas como modulador preferencial para a exploração da cor, da luz, e para as sutis gradações de claro-escuro, elementos que, na sequência, seriam esquadrinhados por ela já sem a instrumentalização da própria imagem.

Por sua vez, nas fotografias em que usa o próprio corpo, Nino Cais indaga sobre a imagem, sem enfatizar qualquer necessidade de reivindicar o substrato de um eu incontaminado. Pelo contrário, nas fotos, seu corpo se converte em mais um dispositivo entre outros para auxiliar na principal preocupação do artista, que é discutir os limites e possibilidades da representação do mundo hoje em dia.

Felipe Cama, por sua vez, com Notícias de lugar nenhum (Made in China), 2010 (acervo MAC-USP), também deve ser elencado como um profissional que trouxe outras questões para o autorretrato contemporâneo. Durante determinado período Cama printou do computador selfies produzidos por turistas das mais variadas partes do mundo, na Praça da Paz Celestial, em Pequim. Na sequência, ele viajou para aquela cidade e se retratou no mesmo lugar. Já no Brasil, de posse de todos aqueles selfies (inclusive o seu), Felipe enviou as fotos a uma manufatura chinesa para que as imagens fossem reproduzidas em pinturas hiper-realistas. Quando essas chegaram, o artista as justapôs formando uma grade de selfies, dentre os quais, o público pode encontrar aquele feito por ele próprio. Onde está Felipe; onde está Wally? Onde estamos nós, nesses dias de tantos selfies, em que a individualidade parece para sempre perdida frente à repetição incessante de um mesmo procedimento, de um mesmo esquema de representação?

Sidney Amaral, por sua vez, em sua curta trajetória, inoculou uma dimensão trágica ao esfacelamento do conceito tradicional de autorretrato no país ao retratar-se numa espécie de performance foto/pictórica (Imolação e Estudos para Imolação I, II, III e IV, acervo Pinacoteca de São Paulo). Na série, em que o artista aparece prestes a se suicidar, a imagem do seu corpo opera como índice e símbolo de uma questão que o ultrapassa: no conjunto, Sidney não trata de si, mas de todos os homens de sua etnia que se revoltam contra a situação de seus iguais em uma sociedade tão injusta quanto a brasileira[2].

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O arrolamento acima poderia ser ampliado de maneira substancial, acrescentando obras de outros artistas brasileiros que, dos anos 1970 até o presente solapam o conceito tradicional do autorretrato[3]. Muito poderia e deveria ser escrito sobre cada uma das produções desses artistas que se utilizam da imagem do próprio corpo (ou não) para falar de um eu totalmente fundido em questões que extrapolam a mera exploração da subjetividade burguesa. São artistas que, para lá do “selfie artístico”, buscam outros encaminhamentos para a prática da arte nos dias de hoje.

[1] – Tadeu Chiarelli, “A obra de Anna Bella Geiger e o colapso do autorretrato tradicional”. Conversa de Bar(r). ARTE!Brasileiros, 29 de janeiro de 2020.

[2] – Sobre o artista, consultar, entre outros: Tadeu Chiarelli, “Sidney Amaral: entre a afirmação e a imolação”, publicado em ARTE!Brasileiros, dia8 de outubro de 2018.

[3] – Para citar apenas mais alguns, como não lembrar dos trabalhos de Gretta Sarfaty, Alex Flemming, Hudinilson Jr., Amilcar Packer, Lia Chaia e, mais recentemente, Junior Sucy, Moisés Patrício e Renata Felinto?

Memória latino-americana na obra de Ximena Garrido-Lecca

Ximena Garrido-Lecca, "Insurgências Botânicas: Phascolus lunatus".

Insurgências Botânicas: Phascolus lunatus, da artista peruana Ximena Garrido-Lecca, é obra que está na primeira exposição do projeto Faz escuro mas eu canto que abre o ciclo de apresentações da 34ª Bienal de São Paulo, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo do Parque do Ibirapuera.

A obra de Garrido-Lecca busca nos grafismos naturais de sementes do feijão “phascolus lunatus” a atribuição de uma lógica de ideogramas com o objetivo de traduzir um capítulo do livro Extirpación de la idolatria del Piru, de 1621, no qual o padre Pablo José Arriaga aborda cultos da tradição peruana a serem eliminados no processo de colonização. Segundo Garrido-Lecca, para o site da Bienal, “o gesto de cultivar as favas representa uma espécie de re-ativação simbólica do suposto sistema de comunicação da cultura Moche” que “valia-se das manchas presentes nessas favas como signos para uma escrita ideogramática.

Seu trabalho funciona como um recuperador de memória tendo em vista que uma das variedades peruanas dessa planta foi utilizada pela civilização pré-incaica moche em seu sistema de comunicação escrita (algo registrado nas cerâmicas deste povo). Essa mesma civilização desenvolveu entre os anos 100 e 850 um avançado sistema de irrigação, ao qual a obra também se relaciona com elaboração de um sistema de cultivo hidropônico que permite que as plantas cresçam ao longo do ano, oferecendo ao público a oportunidade de acompanhar os diferentes momentos da transformação da instalação e conferindo longevidade ao trabalho lembrando que a Bienal em si poderá ser vista em completude apenas em setembro de 2020.


Ximena Garrido-Lecca na 34ª Bienal de São Paulo
De 8 de fevereiro até 15 de março
Pavilhão da Bienal: Avenida Pedro Álvares Cabral, s/ nº, portão 3, Parque Ibirapuera
Mais informações: (11) 5576-7600

Exposição itinerante leva arte contemporânea brasileira para cidades nos EUA

Vanderlei Lopes, "O passado é um belo presente!", 2018

O The55Project abriu, no último dia 30 de janeiro, a exposição coletiva What I really want to tell you… no Mana Contemporary Chicago. A mostra havia ficado durante três meses na na Fundação Pablo Atchugarry em Miami no ano passado e tem curadoria de Jennifer Inacio, curadora assistente no Pérez Art Museum Miami (PAMM).

What I really want to tell you… reúne obras de treze artista contemporâneos brasileiros que evocam histórias culturais, sociais e políticas do Brasil. São eles Almandrade, Liene Bosquê, Paulo Bruscky, Anna Bella Geiger, Rubens Gerchman, Ivan Grilo, Randolpho Lamonier, Vanderlei Lopes, Gabriela Mutti, Paulo Nazareth, Regina Parra, Rosana Paulino e Mano Penalva.

A itinerância é fruto do objetivo do The55Project, criado para promover a arte brasileira contemporânea ao redor dos Estados Unidos, tendo realizado outras exposições em Nova Iorque, Miami e agora desembarcando em Chicago. Além de exposições, o projeto faz projetos públicos de arte, programas públicos e conversas para criar diálogo com as comunidades locais.

Fábrica de Arte Marcos Amaro abre edital no setor educativo

O Edital Meios e Processos realizado pelo Educativo da Fábrica de Arte Marcos Amaro representa o desejo da FAMA de estruturar um ambiente propício para a orientação, a partilha e a pesquisa em criação artística bem como promover o reconhecimento, projeção e inserção de artistas do interior paulista no circuito da arte. Pretende-se possibilitar o aprofundamento na experimentação em arte dentro de um contexto de produção e reflexão alinhados com a arte contemporânea. O foco no artista e em seus processos de criação coincide com o desejo do Educativo FAMA de gerar espaços de compartilhamento de saberes tendo em vista a aproximação com metodologias e práticas poéticas de criação.

Em 2020 o edital envolverá a orientação em processos artísticos com a artista Kátia Salvany e com o acompanhamento curatorial de Andrés I. M. Hernández. O grupo de 30 (trinta) artistas será formado através de um processo de seleção e envolverá 12 (doze) encontros realizados na FAMA na cidade de Itu/SP. O grupo se reunirá quinzenalmente, aos sábados das 10h às 12h e das 14h às 16h nos períodos de abril a junho e de agosto a outubro de 2020. O grupo acompanhará a programação da FAMA e participará dos encontros e palestras com os artistas do acervo da fundação.

Os resultados que se pretendem com essa atividade envolvem a possibilidade de ampliação do repertório visual e conceitual dos artistas participantes, a expansão de suas manifestações artísticas com a utilização de  suportes e meios variados e a contribuição para o fortalecimento da formação de artistas.

As inscrições podem ser feitas até 10 de março.

Clique aqui e saiba mais informações.

 


*Texto: Site do FAMA Museu

Lixo, luxo e a roga pelos proibidos

A foto mostra a escultura
Abre-alas "Cristo Mendigo" no desfile Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia. Foto: Sebastião Marinho (Agência O Globo)

“Xepa de lá pra cá xepei. Sou na vida um mendigo, da folia eu sou rei”, canta a legião que desfilava pela escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, há alguns carnavais, mais especificamente no amanhecer do dia 7 de fevereiro de 1989. O coro entoava a composição de Joãozinho Trinta chamada de Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia, que empresta seu nome ao conjunto de obras expostas na Galeria Tarsila do Amaral, no Centro Cultural São Paulo (CCSP). Mais do que inspiração ou referência, no entanto, o samba enredo é trazido como uma das obras componentes da exposição. Nada mais justo, retomando que o próprio Joãozinho Trinta se referia ao desfile das escolas de samba como uma “Ópera de Rua” – sendo uma forma de arte que reúne música, enredo, um pensamento plástico dos cenários: uma obra de arte que abrange diversas linguagens.

Duas transmissões do desfile compõem a abertura da exposição, embora o público seja recebido por uma reinterpretação do Cristo Mendigo, o elemento de um dos carros alegóricos que tornou o desfile tão emblemático. Na ocasião, durante a retomada democrática, o abre-alas da Beija-Flor seria o Cristo Redentor vestido como mendigo, porém a Arquidiocese do Rio conseguiu proibir a ação levando Joãozinho Trinta a cobrí-lo com um saco preto incluindo a mensagem: “Mesmo proibido olhai por nós”. Segundo Thais Rivitti, uma das curadoras da exposição junto com Carlos Eduardo Riccioppo, o episódio “ganhou página de jornal, as revistas semanais, criou um grande debate estético, político e trouxe questões que ainda hoje encontramos no cenário da arte contemporânea”. Ela comenta ainda que a imagem do Cristo Mendigo “repercute muito, principalmente com os episódios recentes de censura; ela volta à tona e ganha uma ‘nova atualidade’”.

A releitura do abre-alas, para a exposição, foi realizada por Raphael Escobar e o coletivo Os Cupins das Artes, cujos membros são conhecidos pelo público através dos retratos de João Leoci, ao lado da escultura. Vale destacar também as três duplas fotográficas trazidas do projeto Swinguerra, de Barbara Wagner e Benjamin de Burca, cujo trabalho em vídeo representou o Brasil na 58ª Bienal de Arte de Veneza. As imagens de Wagner e Burca são potencialmente as que dialogam mais diretamente com o aspecto de identidade e pertencimento tão presentes nos desfiles das escolas de samba. Em especial no Rio de Janeiro, onde elas – as escolas – “são nações mesmo, muita gente trabalha voluntariamente porque eles estão levando o desfile para a avenida para serem reconhecidos”, como comenta a idealizadora da exposição, Alayde Alves. 

Além das obras comissionadas houve um trabalho curatorial em cima do projeto de criação do desfile, resgatando a memória dos passos para a construção de Ratos e Urubus com os registros fotográficos de Valtemir Miranda e os esboços dos carros alegóricos desenhados por Cláudio Urbano. Essas peças alargam nossa percepção do desfile passando a sensação de quem o estava fazendo e fornecendo um contraponto às transmissões da Globo e TV Manchete.

Por fim, uma pintura não entitulada de Nuno Ramos e um poema visual de Augusto de Campos questionam a tênue dualidade entre “luxo” e “lixo”. Enquanto isso, a exposição é finalizada com duas instalações – Desenhando com terços e Pancake – da artista performatica brasileira Márcia X com provocações acerca do desejo e as restrições religiosas – bem pontual em uma época que vemos mais constantemente adultos em um estado quase infantil de gozo não medicado. 

Museu Afro apresenta grande mostra sobre arte e cultura indígenas

"O Guerreiro" (Série Mehrere Mex – Gente que estende sua beleza). Foto: Guta Galli

Uma grande mostra sobre cultura e arte indígenas completa a trilogia do Museu Afro Brasil sobre os povos responsáveis pela formação do país – Africa Africans (2015) e Portugal, Portugueses (2016). Intitulada Heranças de um Brasil profundo, a mostra ocupa uma grande área do museu paulistano, localizado no Parque Ibirapuera, com objetos diversos, obras de arte e fotografias de diferentes períodos e regiões do país.

Com curadoria de Emanoel Araujo, a exposição reúne cerca de 500 peças entre arte plumária, adornos, cestaria, máscaras, esculturas, utensílios e arte contemporânea de várias etnias indígenas. Entre eles os Karajá, Marubo, Kayapó, Mehinako, Yanomami, Rikbaktsa, Tapirapé, Waurá, Tapayuna, Baniwa, Ashaninka, Parakanã, Panará e Juruna. Um dos desta destaques da mostra é a Casa dos Homens, construída por um grupo de quatro indígenas do povo Mehinako.

Segundo texto do curador, “essa exposição celebra a vida desses povos das florestas que através de séculos vivem e sobrevivem sendo achacados pelos homens brancos, sedentos em mostrar para o mundo, dito civilizado, as muitas culturas das etnias dos povos da floresta”. Deste modo, além da produção dos povos originários, a mostra expõe também a visão que o homem branco apresentou ao longo dos séculos sobre os nativos, seja em pinturas, documentos ou fotografias.

apresenta um premiado grupo de fotógrafos e fotógrafas que se dedicaram (ou ainda se dedicam) a documentação de populações indígenas brasileiras, como Claudia Andujar, Rosa Gauditano, Maureen Bisiliat, Nair Benedicto, Manuel Rodrigues Ferreira, Rodrigo Pretella, Jamie Stewart-Granger, entre outros. Entre os artistas indígenas contemporâneos presentes na exposição está o jovem Denilson Baniwa, vencedor do prêmio PIPA Online 2019. Completam a mostra artistas como Gilberto Salvador, Claudio Tozzi, Rubens Ianelli, João Camara Filho e João Pedro Vale, entre outros.

“Essa exposição tem muitas vertentes, como não poderia deixar de ser diante de tanta complexidade da vida e da arte desse nosso povo que ainda resiste aos ataques e à inoperância nacional (…) Aqui também reside um brado, um alerta – um grito mesmo – em defesa desse nosso povo, que aqui estava e que continua estando em terras onde sempre foi o dono, para sempre!”

Heranças de um Brasil profundo
Até 26 de julho
Museu Afro Brasil – Parque Ibirapuera
Entrada gratuita

 

*Leia em nossa próxima edição reportagem completa sobre a mostra

 

Fotojornalista dá um rosto às mulheres trans no Peru

"Tamara é uma mulher trans de 27 anos do Peru. Depois de enfrentar depressão e solidão desde cedo, ela começou a se prostituir aos 18 anos. Embora muitas vezes procure por outro trabalho, ela diz que constantemente é rejeitada por pessoas que pensam que ela tem doenças e é vulgar. 'Às vezes eu penso em deixar a prostituição para trás. Mas, porque estou sozinha, é muito caro', diz Tamara, que muda de apartamento de forma constante." - Danielle Villasana

*Publicado em 30 de janeiro de 2020

O projeto de longa duração da fotojornalista Danielle Villasana, A Light Inside, começa com uma coordenada de situação importante, o Peru é um país caracterizado por alto machismo, conservadorismo cultural e religioso: segundo estudo da Universidade Cayetano Heredia, a Igreja Católica e a Guarda Municipal, ou “Serenazgos”, são as instituições mais homofóbicas da nação. O estigma colocado sobre a população trans leva à desistências nas escolas, a abandonos familiares e à falta de oportunidades de emprego; um combo que – não raro – obriga as transexuais a trabalharem como profissionais do sexo, deixando-as mais expostas a violências físicas, sexuais, ao abuso de drogas e a contrair ISTs.  

Hoje, ela trabalha como fotógrafa independente e está sediada em Istambul, na Turquia. À época do início de seu projeto A Light Inside, estava prestes a graduar-se em fotografia pela Universidade do Texas. O cenário de desequilíbrio de poder tão explícito no Peru foi caldo de cultivo para seu projeto, ao invés de fazê-la cair em uma representação vitimizada que a levaria à desesperança e à inércia. O componente político de A Light Inside não falha em fazer as denúncias que precisam ser feitas, mostrando o sofrimento que fala “isso ocorre” ao mesmo tempo que suscita “isso precisa parar de acontecer”. Ela não equipa sua lente com um filtro rosa, mas seu projeto vem de um lugar de “empatia e amor”, como pregado por Nan Goldin. Com sinceridade, Villasana retrata cada uma das suas personagens, como também, seus amantes, seus quartos, suas amigas, às vezes suas mães, como num álbum de família. Goldin, quem podemos destacar como uma referencia para sua obra,  principalmente com seu magnum opus A Balada da Dependência Sexual, empresta à fotógrafa um pouco da estética do “snapshot  (“quando eu faço um ‘snapshot’ eu penso em um álbum de família”), aqui, no entanto, envolto num forte cunho documental e uma atenção estética incomum ao formato do “snapshot”. Villasana também herda a estética de contraste e cores vibrantes da fotógrafa japonesa Momo Okabe, nada estranha à representação das transexuais em seus livros Dildo e Bíblia.

Em agosto de 2015, Light foi escolhido como vencedor do prêmio Inge Morath – realizado pela Inge Morath Foundation em colaboração com a Fundação Magnum -, que premia jovens fotógrafas mulheres de até 30 anos para apoiar a conclusão de seus projetos de longo-prazo. A ideia da fotógrafa era utilizar parte dos fundos recebidos com o prêmio para imprimir suas fotos em larga escala e montar uma exposição de outdoors, trazendo seu projeto para um público de uma realidade mais alargada que o usualmente atingido pelo fotojornalismo ou pela fotografia de arte; nas palavras de Villasana, “uma exposição a céu aberto não discrimina economicamente e atrai as pessoas para olhar fotografias com um tema ao qual elas podem achar pouco familiar”. Além disso, esses outdoors seriam “medidas extraordinárias” para fazer com que o público pare e contemple as imagens. Em 2018, junto com a FotoEvidence, Villasana lançou um projeto de arrecadação coletiva na plataforma Kickstarter para transformar a coletânea em um livro impresso em duas línguas, a sua nativa e a das suas fotografadas, inglês e espanhol.

A palavra como troca e a partilha do sensível

Ana Teixeira, “Bandeira”, 2019.

Entre a falação de estudantes do Mackenzie que passam seu tempo livre sentados no vão em frente ao Centro Cultural Maria Antônia, na Vila Buarque, ouve-se um alto-falante proferir palavras no imperativo: “Impressione, seja, garanta…”, ecoa uma voz masculina facilmente associada a vozes de vendedores que passam com carros pelas ruas de bairros. A intervenção sonora é uma obra da exposição É tarde, mas ainda temos tempo, uma individual da artista Ana Teixeira com curadoria de Galciani Neves que se encerra no dia 2 de fevereiro.

Crescida em uma família onde a literatura e o cinema eram essenciais, a construção de uma relação forte com o objeto ‘palavra’ foi, para Ana, inevitável e progressiva. “O que é pra ser são as palavras”. A frase anterior, que a artista atribui a Guimarães Rosa, é para ela muito significativa. “Jogar com as palavras é uma coisa que me atrai. Eu acho que as palavras geram desdobramentos que me interessam muito, porque elas geram provocações”, conta.

Em todas as obras que a artista apresenta nesta exposição, e em outras tantas ao longo de sua carreira, a palavra tem funcionado como uma espécie de troca, sejam trocas de experiências, de sentimentos/emoções ou de momentos, dentre outras. A obra Em Contato, por exemplo, que é constituída por boias com um advérbio escrito em cada uma delas, foi criada para ocupar piscinas e fazer com que as pessoas que as utilizem se aproximem para formar frases. A aproximação pelo “jogo” com as palavras faz com que essas pessoas troquem um momento entre si.

No Maria Antônia, as boias se encontram no chão, mas prontas para serem vestidas pelo público que desejar explorar suas possibilidades de criação. “São inúmeras possibilidades de frases que podem ser formadas com apenas 14 advérbios”, Ana explica, mostrando o advérbio “ainda” tatuado em seu pulso. Ela conta que foi a partir dali, em meados de 2010, que começou a sua relação com essa classe de palavras: “Me interessou essa ideia de que podemos formar frases sem o verbo”.

Contornando as escadas que levam à sala de exposição e parte das paredes que a circundam está Linha de sonhos, que resulta de alguns depoimentos da performance Troco Sonhos, obra que também ilustra muito bem a questão do câmbio como ponto no trabalho da artista. Se engana quem pensa que a palavra é apenas uma forma de entrar em contato com algo ou alguém. O contato é, afinal, um meio para que uma troca ocorra.

Troco Sonhos, por sua vez, é intervenção que a artista monta na rua, onde distribui sonhos (o doce) solicitando em contrapartida que as pessoas que se aproximem confidenciem para ela algum sonho (os que estão à mente). Ao mesmo tempo que isso ocorre, outra troca acontece: em troca do interesse de quem se aproxima, Ana apresenta a percepção de que o dinheiro não é a única moeda.

 

Entramos nesse universo também na inédita Cala a boca já morreu. Uma outra versão desta obra foi apresentada na coletiva referente ao 7º Prêmio Indústria Nacional Marcantonio Vilaça — do qual a artista foi uma das 30 finalistas –, sediada no MAB-FAAP entre setembro e outubro do ano passado. Para a sua individual, ela passou dez dias desenhando mais de 40 mulheres em uma das paredes do espaço expositivo, mulheres essas que seguravam cartazes com falas como “Chega de padrões”, “Eu não sou louca, eu tenho opinião”e “Sua opinião sobre meu corpo é sua”.

As voluntárias que escolheram suas frases e posaram para a artistas ganharam, em troca, sua representação em desenho. Nesta obra, porém, o “escambo” também passa pela sororidade, o princípio feminista da união entre as mulheres que exige uma relação de identificação e retorno entre duas ou mais. Uma evidente partilha do sensível.

Os trabalhos Outra Identidade, que troca impressões digitais por um carteira de identidade fictícia com uma frase com qual a pessoa se identifica, e Empresto meus olhos aos seus, que troca uma lembrança por um registro visual do local onde ela ocorreu, — e mesmo Escuto histórias de amor, que troca um depoimento por um ombro amigo — também se desdobram por essa trilha.

Esse conjunto remete a uma percepção levantada por Lévi-Strauss (em cima da “dádiva” de Mauss) de que a palavra seria um caminho para compreender a sociedade, quando usada numa troca. É visível que nessa busca de Ana por uma forma de se comunicar e se relacionar através delas está presente o desejo de entender o outro.

“Não sou eu o foco, o foco é o outro. Me interessa o outro, a minha matéria prima é o outro”, ela diz. É desta forma, portanto, que é possível observar que o entendimento que ela busca não passa exatamente por um cultivo de erudição mesquinha, mas por um movimento fluido de empatia em relação ao outro, até quando o outro está dentro de si mesma.


Slam Cala a Boca Já Morreu e encerramento da exposição
2 de fevereiro, das 15h às 17h
Centro Universitário Maria Antonia – USP: R. Maria Antônia, 258/294 – Vila Buarque, São Paulo – SP
Mais infos: 11 3123-5202

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