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A descolonização do pensamento na obra de Grada Kilomba

Performance “Trilogy of Illusions: Geography/ Mathematics/ Biology”, 2016, de Grada Kilomba

Texto publicado originalmente em 2016, quando Grada Kilomba participou da Bienal de São Paulo. A artista vem ao Brasil em 2019 para lançar o livro Memórias da Plantação (Editora Cobogó), sobre a  violência do racismo diário, na FLIP.

*por Suely Rolnik

 

Esta conversa aconteceu por Skype num domingo de final de julho (2016). A imagem do rosto de Grada, seu sorriso, seus gestos, o timbre de sua voz não aparecem no texto escrito. No entanto, são essenciais para acessar o lugar em que esta artista se coloca diante dos problemas que movem seu pensamento. Peço ao leitor que faça um esforço de imaginação para impregnar as palavras de Grada com a atmosfera de sua presença.

Suely Rolnik – Pelo pouco que vi de seu trabalho, e que me deixou encantada, sei que é um trabalho xamânico-psicanalítico. O que você está preparando para a Bienal?

Grada Kilomba – Estou a preparar dois projetos para a Bienal. Um chama-se O Projeto Desejo, que é uma instalação de vídeo, e o outro é Ilusões, que é uma performance, uma lecture-performance. São dois formatos diferentes, e isso eu já gosto. Gosto dessa ideia de estar ocupada com um tema, e não ter uma disciplina concreta, e depois o tema aparece em diferentes formatos e em diferentes disciplinas. É totalmente transdisciplinar. E isso para mim é muito importante: essa liberdade, essa flexibilidade de não estar agarrada a uma disciplina, mas focada em um tema, apaixonada e envolvida por ele, e depois, enquanto nós vamos trabalhando nele, é que aparece o formato, a visualização. Para mim, isso faz parte da descolonização do conhecimento. O Projeto Desejo é uma instalação de vídeo que cria três momentos: o público entra num espaço e vai percorrer uma pequena trajetória para ver três filmes diferentes e três estórias diferentes, mas que tem o mesmo som; e o som é uma bateria ritmada, um tambor que faz lembrar um pouco os ritmos africanos. Com o mesmo som eu recebo informações diferentes e vejo coisas diferentes. E o que eu trabalhei aqui foi que nesses três vídeos não há imagens, é o texto que se torna a própria imagem. Trabalho só com o texto, palavras, ritmos e vozes. São narrativas silenciadas a chegarem à voz, a se fazerem escutar, a contarem a sua estória. Essa é a trajetória: os três momentos exploram essa ideia de alguém que quer chegar à voz. É isso O Projeto Desejo: o que eu quero, o que eu desejo, o que é preciso, como eu quero contar a minha estória.

S.R. – É então um ensaio, no sentido da experimentação, sobre como encarnar o desejo, como não abrir mão do desejo, como não sucumbir ao silenciamento. E que estórias você vai contar?

G.K. – Eu comecei com o projeto que mostrei em São Paulo, quando nós nos conhecemos, que era um pequeno vídeo que se chamava While I Write (Enquanto eu escrevo),  apenas com palavras. Esse foi o início do projeto, e eu o continuei: Enquanto eu Falo, Enquanto eu Caminho. Há três momentos nessa trajetória. Ela fala exatamente sobre as narrativas que foram silenciadas e como nós conseguimos chegar à voz, e como conseguimos dar voz à nossa história, ou recolher a nossa história, que está fragmentada. São três momentos diferentes que falam sobre isso, e em cada momento o público vai se sentar, ver o vídeo, passar para o próximo vídeo, ver de novo, e depois passar para o terceiro vídeo, ver de novo. Para mim, essa é uma trajetória espiritual e refletiva, porque quero trabalhar com o ritmo, as vozes, a música e o texto e é uma coisa que se sente no nível corporal também, no nível emocional.

S.R. – Os próprios tambores marcam territórios sonoros, os ritmos marcam território e, com isso, já somos levados para esse outro lugar que você chama de espiritual.

G.K. –  Exatamente. Trabalhei com a ideia de que as narrativas são silenciadas porque outras vozes falam mais alto; não é que nós não estamos a falar, mas sim que nossa voz não é escutada. Então não é que a gente não tenha estado a produzir conhecimento e narração.  A gente sempre fala, a gente sempre entrega conhecimento, mas não escutam nossa narração, não escutam nossa história. Então, eu fiz uma série de gravações em lugares públicos e uso no início do filme essas vozes de fundo que são mais altas do que nossa própria voz, para brincar com essa dialética de que não é que a gente não fala, é a voz que não é escutada. E eu só posso me tornar sujeito falante se a minha voz também for ouvida. Esse é o jogo no início. Essas vozes depois desaparecem enquanto o ritmo e a bateria aparecem cada vez mais altos. E cruzam-se assim. Mas eu queria trazer toda essa teoria que está por trás de falar e silenciar num só projeto, quase simultâneo, pois falar e silenciar vão juntos: eu só posso falar se a minha voz de fato for escutada, e os que são escutados são aqueles que pertencem. Os que não pertencem são aqueles que ninguém escuta. Eu quis trabalhar esse jogo só através do som, e é dessa maneira que ele aparece nesse Projeto Desejo, através da metáfora da bateria e da música. É essa brincadeira entre o escutar, o falar e o silenciar.

S.R. – Esse plano sonoro é uma bela solução: o plano do vozerio de fundo, o plano da voz junto com a palavra, o plano do ritmo dos tambores. Então se a pessoa não estiver totalmente neurotizada, ou seja, se sua subjetividade não estiver totalmente submetida ao antropo-falo-ego-logocentrismo da cultura moderna ocidental, quando ela se deparar com o trabalho, ela dificilmente ficará só no conteúdo das palavras. Ela vai ser afetada pelo ritmo, pela textura das vozes emergindo do vozerio e se fazendo mais audíveis. Com isso você traz uma dimensão muito importante do modo de presença dos negros em toda as ex-colônias da América Latina que tiveram escravos. É que, embora eles tenham sido e continuem sendo totalmente silenciados, como se não existissem, eles ocuparam o espaço sonoro e o continuam ocupando integralmente. A gente não se dá conta, mas ele está lá.

G.K. – É exatamente esse espaço sonoro de que tu falas. É lindo. Como é que se fala dessa dialética do falar e do silenciar, sem falar, sem explicar, mas através do espaço sonoro? Como se transporta esse conhecimento através do espaço sonoro? Essa é a experiência desse projeto. Então eu pensei: vou trabalhar só com os ritmos, só com a percussão, só com as vozes. E, depois, em vez de termos o visual com imagens, como nós estamos habituados, eu vou trazer a palavra que nós imprimimos no papel e que se torna visual. É uma troca de formatos e de lugar das coisas, é isso O Projeto Desejo. Faz sentido para ti?

S.R. – Faz total sentido; a ideia é linda. Isso me remete ao que você disse antes sobre a necessidade do transdisciplinar em seu trabalho. Isso que você chama de tema, algo já tem uma forma e um significado, eu chamaria de um estado que está em nosso corpo, que é real, mas indizível e invisível; um estado que resuta dos efeitos das forças do mundo, de toda memória do mundo em nosso corpo, desde o atual golpe de estado no Brasil ou o perigo de Donald Trump tornar-se presidente dos Estados Unidos até toda a história da escravidão, passando pela Inquisição na Península Ibérica, indo lá para trás… É essa experiência que nos leva a criar algo que a torne sensível e, para fazê-lo, o desejo nos conectará com distintas coisas até começar a se compor algo que traga à luz aquele estado do mundo que nos habita. No teu caso, este estado resulta dos efeitos da violência colonial no teu corpo, especialmente em tua negritude, que te leva a conectar-se com os tambores, o timbre das vozes, te leva a tirar a imagem e a colocar texto em seu lugar, etc. Atraídos por essa experiência que você quer trazer à existência, todos esses elementos entram na composição de seu trabalho. Então, como esse processo pode encaixar-se numa disciplina ou partir dela, se o ponto de partida é uma experiência que não tem palavra, nem som, nem imagem, nem gesto e inventá-los é precisamente o trabalho a ser feito?

G.K. – É exatamente isso. É o que possibilita depois trabalhar com outros artistas que buscam criar sentido para uma experiência que tem ressonância com a nossa e, por isso, nossos caminhos se cruzam.

S.R. – E como é o outro trabalho que você está preparando para a Bienal?

G.K. – O outro trabalho chama-se Ilusões. Era um sonho que eu tinha; eu queria fazer uma performance, ou uma lecture-performance, não sei como chamá-lo. Eu queria trabalhar com a tradição oral, eu sou muito encantada pelos contos de estórias africanas, aquela tradição de contar, trazer o conhecimento através da oralidade, contar estórias. Pensei que é mesmo o que eu quero fazer, contar estórias, trazer essa tradição africana num espaço contemporâneo e muito minimalista, com texto, narração e projeção de vídeo que traz memórias, às vezes imagens do imaginário; é assim simples, bem simples. O que me fez escrever essas estórias é que às vezes sinto que já não há mais nada para contar. Por exemplo, em relação à história colonial, nós queremos desmontá-la, mas estamos sempre a contar a mesma estória. Vivemos numa quádrupla ignorância em relação a essa história: a gente não sabe, não precisa saber, não deve saber e não quer saber. Então em Ilusões decidi contar uma outra história. São duas estórias ligadas a dois mitos: o mito do Narciso, a estória de amor de Narciso com Eco, que eu recapitulo em um contexto colonial, um Narciso que está virado para si próprio e que só representa sua própria imagem, só vê sua própria imagem refletida no lago.

S.R. – É aquele que fala mais alto e não ouve.

G.K. – Exatamente. E Narciso, que só olhava a si próprio, também foi condenado porque não amava ninguém, e foi condenado com a sentença de que ele iria se apaixonar por alguém que não corresponderia ao seu amor. Ele chega ao lago, olha para a imagem e apaixona-se por ela, não sabendo que é ele próprio refletido na água. Portanto, ele nunca recebe o amor recíproco, e ele continua a pedir por esse amor olhando petrificado aquela imagem do lago, pensando que é uma outra pessoa que não lhe responde. E depois vem Eco, que confirma as palavras dele porque ela também foi condenada a não poder dizer mais palavras do que as últimas que ela ouve, porque ela falava demais. Ela só pode repetir as últimas palavras que lhe são ditas. Enquanto Narciso fala consigo próprio dizendo “eu amo-te, volta para mim”, Eco responde “volta para mim, volta para mim, eu amo-te, amo-te”. Ela só repete as últimas palavras de Narciso. Em Ilusões eu brinco um pouco com essa mitologia, com essas histórias como metáforas da tragédia colonial. É uma repetição infinita e uma representação infinita de si próprio que não representa a realidade, mas só aquela imagem colonial, branca, patriarcal que se repete constantemente e que está apaixonada por si própria e se idealiza a si própria, e condenada porque não vê mais nada a não ser sua própria representação. É uma representação, um tipo de enunciado em que as outras pessoas não existem. E ao mesmo tempo também tem a confirmação e o consenso de Eco, que está tão fixada no Narciso que sempre repete e confirma aquilo que ele diz. Neste narcisismo colonial e patriarcal em que nós vivemos, como vamos recuperar outras narrações e outras histórias? O trabalho é uma performance em que conto estas estórias tradicionais.

S.R. – É um dispositivo incrível para trazer à tona a relação colonial em sua pulsação viva, e não em sua representação ideológica. É a experiência da presença viva do outro no corpo, que na subjetividade branca ocidental está totalmente anestesiada e, com isso, o outro é uma mera representação, ele não existe. Para mim, é isso o que define fundamentalmente o que chamo de inconsciente colonial-capitalístico. É como um feitiço, que atravessa todas as relações em nossas sociedades e não só entre colonizador e colonizado. Quebrar esse feitiço é a questão e penso que é isso o que você busca em seu trabalho.

G.K. – É isso mesmo. E é tão difícil quebrar esse feitiço, sair desses lugares. É engraçado como a psicanálise está presente em nosso trabalho; eu vejo essa conexão em todas as dimensões de que estamos a falar. E neste Ilusões tem uma outra dimensão importante para a qual eu trago o conto de Édipo. É a dimensão da lealdade. A quem nós somos leais? Por que é tão difícil transformar? E isso aliado a outra pergunta: o que é que estamos a defender? A quem é que nós temos que defender? Então eu estou a fazer uma passagem para falar dos temas pós-coloniais através de várias estórias, de vários contos, e tento fazer uma ligação entre um e outro.

S.R. – E como Édipo entra nesse trabalho?

G.K. – Tem uma parte de que eu gosto muito, porque me fez pensar na violência, especialmente contra a população negra. De onde vem essa violência? Por que o corpo negro é o recipiente de tanta agressividade, de tanta violência? E depois eu consegui ligar com a estória do Édipo, a estória da lealdade, do rival, do verdadeiro rival, as fantasias da agressão contra a figura paterna, contra a figura materna. Fantasias que não se pode exercer porque senão se perde o acesso ao poder, e por isso elas vão ser performadas, executadas no corpo que eu construo como outro. Nesse outro corpo eu posso então exercitar toda a violência e toda a agressividade e assim mantenho a família e a estrutura colonial saudáveis, em segurança e em seus lugares, civilizadas. E toda essa agressividade é uma performance que é feita fora de casa, e é para isso  que são criados os outros. É nesse momento que fiz a ligação com o Édipo. De onde vem esta violência? O que nós estamos a defender? Ah, claro, se eu me revoltar, se eu executar essa agressividade dentro do espaço da casa, serei expulsa…

S.R. – E aí que entra a lealdade, mas como submissão e obediência; conservação do status quo.

G.K. – Exatamente. Por que eu não posso ter uma outra narrativa, um outro vocabulário diferente de minha casa paterna? Por que eu não posso falar diferente de meu pai ou de minha mãe? A quem sou leal? Por que essa lealdade? E aí eu acho que faz muito sentido contar as estórias e fazer a ligação com o Édipo. É também uma forma bonita de entrar nessa temática. Achas que faz sentido para ti?

S.R. – Faz total sentido. Quando a subjetividade está reduzida à sua experiência enquanto sujeito e desconectada daquela outra experiência, a dos efeitos das forças do mundo no corpo, como é o caso em nossa cultura, o sujeito interpreta aquela desestabilização que decorre destes efeitos como uma ameaça de fim do mundo, quando, na verdade, é aquele mundo que está chegando ao fim porque um outro mundo está germinando. E para essa subjetividade que ignora o saber-do-corpo, a ameaça da desagregação daquele mundo é também ameaça da desagregação de si mesmo, pois é naquele mundo que Narciso se espelha. Então, para conservar aquele mundo e a si mesmo, a subjetividade tem que projetar a causa de seu mal-estar em um outro, tem que criar um outro como tela para essa projeção e os atores que protagonizam este personagem do outro vão variando ao longo da história. Mas faz tempo demais que o negro está nesse papel…

G.K. – Isso nos leva de volta à ignorância de que nós falávamos. Eu não sei, não preciso saber, não devo saber e não quero saber. E aí estamos sempre no mesmo sítio, não nos desenrolamos dessa história colonial, patriarcal, racista, homofóbica, etc., exatamente por causa desse narcisismo e dessa lealdade. É esse narcisismo e essa lealdade que eu quero explorar nessas Ilusões, mas no formato de contar estórias, de trazer o conhecimento através da tradição oral. Estou a trabalhar com vídeo e imagens e queria recolher também algumas imagens de arquivo. Ainda estou a trabalhar nessas ilusões, nessa performance, mas eu queria fazer uma coisa bem minimalista, bem simples. Eu gosto de focar no contar estórias como no outro projeto, sem muito barulho e muito espetáculo, e acho que isso também é um outro formato, uma outra forma de usar a performance. Eu ainda estou a recolher as imagens.

S.R. – Que imagens você já recolheu?

G.K. – Eu encontrei, por exemplo, uma carta do meu bisavô português, uma carta que ele escreveu quando ele chegou a Angola, para a minha bisavó e para minha avó, que já estava nascida. Ele foi a Luanda como cozinheiro e ele vinha de uma aldeia. Ele descreve na carta a viagem e o que ele vê em Luanda, descreve as pessoas com todo aquele vocabulário colonial, racista. É bem complicado. E eu tenho outra carta, mais recente, de meu pai quando chegou a Angola, e esta tem outra narrativa. E tenho também um documento da minha avó em São Tomé e Príncipe quando seu nome lhe foi retirado. Eu estou a tentar criar uma narrativa, e acho muito bonita essa parte do documento, Suely, porque é do tempo em que a colonização portuguesa usava a assimilação como estratégia: tornar-se o mais similar possível ao colonizador. Por isso, nós temos todos o mesmo nome e uma das formas de assimilação foi a proibição do uso dos nomes africanos. Meu nome Quilomba é o nome da minha avó. Quilomba, como quilombo também, vem do quimbundo, que é uma das línguas mais importantes em Angola.

S.R. – E o que quer dizer quilombo? Porque aqui, como você deve saber, esta palavra tem um sentido político de comunidades de negros que conseguiam fugir da escravidão. E houve centenas de quilombos durante o período colonial, alguns inclusive se juntaram e formaram verdadeiras cidades.

G.K. –Quilombo em quimbundo quer dizer aldeia, ajuntamento, mas depois foi transformado em um termo político, mas guardando o mesmo sentido .

S.R. – E Quilomba era o sobrenome ou o nome dela?

G.K. – Era sobrenome. Nós tínhamos dois nomes, Buzie e Quilomba. Buzie era do meu avô e Quilomba era da minha avó, e Grada era o prenome da minha outra avó. Mas os nomes africanos foram todos anulados durante o tempo colonial. Eu fui ao arquivo em São Tomé e Príncipe procurar os documentos, porque minha avó e minha mãe me contaram como o nome delas foi proibido e desapareceu. E eu encontrei os documentos em que a mãe da minha avó ainda tinha o nome Quilomba e foi retirado, porque ela como muitas outras pessoas foram tiradas do continente à força para São Tomé e Príncipe para trabalhar nas plantações de cacau e de café. Elas vinham de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, e foram levadas para São Tomé e Príncipe, isoladas em plantações diferentes, com línguas diferentes e os nomes foram anulados. É por isso que temos quase todos o mesmo nome, no Brasil, em Portugal, em Angola, Moçambique, Cabo Verde, GuinéBissau, São Tomé e Príncipe, Goa, Timor-Leste. Viramos todos os Fernandes, da Silva, Ferreira, etc., e não se sabe de onde cada um vem.

S.R. – E qual é seu nome de nascimento?

G.K. – Eu tenho uma série de nomes civis. Tentei colocar oficialmente o nome anterior de minha família, Buzie Quilomba, mas a Constituição não está preparada para a história colonial, só é permitido mudar o nome por casamento, divórcio ou adoção. A história colonial não faz parte da Constituição, ela não tem solução para isso, não há sequer um parágrafo sobre como se lida com isso, que, no entanto, diz respeito a uma população inteira. Não se pode recuperar um nome que foi anulado. Então, uns bons anos atrás, eu decidi recuperar meus nomes originais, mas como nomes artísticos, porque, apesar de serem meus nomes, não posso tê-los no passaporte.

S.R. – E qual seu nome no passaporte?

G.K. – Tenho todos os nomes portugueses no passaporte, tenho Ferreira, Pereira… E Grada é o meu prenome que é, como disse, o de uma de minhas avós. Todos os outros nomes eu escolhi. Por exemplo, Quilomba, o nome de minha outra avó. Então eu tenho dois nomes de mulheres no meu nome. Mas o que é bonito nessa história do nome é que, como no Brasil, ela faz parte da nossa história colonial.

S.R. – Você já fez algum trabalho sobre isso?

G.K. – Eu já escrevi uma estória que agora queria incluir no livro que estou preparando, Performing Knowledge (Performando Conhecimento), e essa estória do nome é uma das que aparecem lá.

S.R. – É incrível ter a memória do nome anulada; uma anulação que resulta da violência ao trauma e que continua a se perpetuar na impossibilidade de resgatá-lo.

G.K. – É isso mesmo e não é só o trauma. Tem também a alienação: eu só posso ser eu, ter o meu nome registrado, oficial, civil, sendo o nome do colonizador, ou seja, eu só posso ter uma existência civil oficial através da identidade do colonizador, através de seu nome. Nós não podemos esquecer que durante muito tempo, até os anos 60, eu não consigo me lembrar agora exatamente até quando, a população negra não tinha direito a uma identidade, a uma nacionalidade. Agora eu estou a fazer esse trabalho de arquivo para buscar com que imagens trabalhar para contar essa estória da Ilusões, o que é e o que não é, e quem é que eu posso ser, quem é que eu tenho que ser, para eu me tornar visível. Então tem essa brincadeira com as Ilusões. Como eu recupero essa história?

S.R. – E qual é a origem de seu pai?

G.K. – O meu pai é português e vem de uma zona, Coimbra, em que são todos judeus; havia perseguição em toda aquela região e toda a comunidade judia foi obrigada a mudar de nome. É o caso da família de meu pai. Todos os nomes portugueses que acabam em eira, Macieira, Pereira, Ferreira, são judeus.

S.R. – Então você também tem um pedaço judaico, via seu pai cristão-novo. Assim como tenho um pedaço de negritude, via Brasil. Compartilhamos o trabalho com esses dois traumas.

G.K. – Acho mesmo muito bonito conseguir, em nosso trabalho, fazer essa ponte com o passado, com o corpo e o conhecimento, através do corpo e de sua memória, com essa dimensão espiritual e com tantas outras dimensões.

S.R. – Para mim, a volta ao passado não é a volta às formas de viver, aos sistemas de comportamento e suas representações, aos sistemas morais, a uma certa filosofia. É muito mais a volta a essa conexão com o saber-do-corpo, e, quanto mais se vai para à memória do passado no corpo, mais você se sente autorizada e estimulada a ativar essa conexão. É o que nós fazemos cada uma à sua maneira em nossos trabalhos. É uma espécie de amor pela vida e pelas pessoas, grupos e comunidades que se mantiveram e se mantêm em contato com a vida e a tomaram nas mãos movidas pelo desejo de cuidá-la.

G.K. – É amor mesmo, é por isso talvez que a gente fala de coisas sérias e com uma calma e um sorriso.

S.R. – Esse sorriso vem daí. Mas a gente teve que lutar bastante por esse sorriso. Esse sorriso estava lá desde sempre, mas não parava de levar porrada, de ficar na dúvida, de sumir, até que ele foi se impondo.

G. K Trago esse sorriso na cara porque já chorei demais.

S.R. – Então chega, não é?

G.K. – É mesmo. Já falamos sobre tanta coisa. Foi tão lindo falar contigo, muito obrigada.

S.R. – Eu é que te agradeço, Foi tão bom te escutar.

 

Conversa de Bar(r)

Retrato de Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado e Alfredo Mesquita, por Luis Bueno D'Horta, 1981.

Foi Ana Candida Avelar (hoje professora na Unb, antes minha orientanda na USP) quem me apresentou o artigo de Lourival Gomes Machado, “Conversa de Barr”, publicado no Suplemento Literário do Estadão em 19 de outubro de 1957. O texto fazia menção à polêmica que acompanhou a escolha e premiação dos artistas brasileiros da 4ª. Bienal de São Paulo, ao mesmo tempo em que criticava, de forma elegante, mas contundente, as declarações de Alfred Barr sobre a arte brasileira vista naquela edição da Bienal (Supl. Literário, 28 de setembro de 1957). Não era pouca coisa o artigo: Barr tinha sido o grande formulador do Museu de Arte Moderna de Nova York (esteve presente na instituição de 1929 a 1968) e, mais do que isto, um dos curadores mais influentes do século XX. Bonito ver o crítico brasileiro batendo de frente na prepotência e no desconhecimento do norte-americano sobre a arte brasileira daquela década.

Porém, apesar da excelência e da pertinência do artigo de Machado, confesso que o que mais apreciei no artigo foi, de fato, o título: “Conversa de Barr”. Com essa expressão tão simples, com esse trocadilho aparentemente tão barato, Lourival Gomes Machado sintetizou muito bem o que pensava sobre a polêmica em pauta e sobre o posicionamento de Alfred Barr a respeito da arte local: não passavam de conversas de bar. E para Machado, “conversa de bar” denunciava um estado de espírito muito comum no ambiente artístico de São Paulo: “um estado de espírito, aliciante e jeitoso, camarada e exclusivista, inteligente e concessivo, brilhante e inconsequente…”.

Quando Patricia Rousseaux me convidou para manter uma coluna em ARTE!Brasileiros, sugerindo que eu pensasse em um nome para a mesma, logo me veio o título do texto de Machado: por que não nomear a coluna “Conversa de Barr”? Sem dúvida uma homenagem a Lourival Gomes Machado – que com o título do artigo provou não ser um dos “chato-boys”, como Oswald de Andrade nomeou o grupo ao qual pertencia Machado no início da carreira (o pessoal do grupo da revista Clima).

Por outro lado, apropriar-me do título, além da homenagem, significava também propor uma espécie de conversa de bar aos leitores da ARTE!Brasileiros, e isso porque acredito que – ao contrário do que pensava Machado no artigo – muito do que se conversa numa mesa de bar não morre ali, pressionada pela própria inconsequência. Pelo contrário: a conversa pode ser leve e aparentemente inócua, mas, se possui alguma fundamentação, tende a permanecer na cabeça dos interlocutores que a ruminam até que ela se modifique, ganhe corpo novo, transforme-se em novas ideias, projetos, obras.

Fechada a escolha do título – Conversa de bar –, me perguntei se deveria ou não retirar a referência a Alfred Barr. Por fim, cheguei à conclusão de que manter seu nome no título da coluna significava perpetuar o genial trocadilho de Machado. O que, por sua vez, ampliava a homenagem que queria fazer com aquela escolha. Explico: se Lourival Gomes Machado e sua geração significaram muito para a minha formação, não resta dúvida de que o papel exercido por Alfred Barr junto ao Museu de Arte Moderna de Nova York (além de seus livros e textos) também teve um grande significado para mim. Manter no título da coluna para a ARTE!Brasileiros referências a nomes significativos para minha formação profissional (e para a de tantos outros colegas) seria um lastro importante a se preservar, mesmo que, no caso do intelectual norte-americano, ele apenas seja referido no “r” entre parênteses – uma espécie de chiste que deverá ser levado a sério. Pelo menos por mim.

*Tadeu Chiarelli é curador e crítico de arte. É professor titular no curso de Artes Visuais da USP. Foi diretor da Pinacoteca de São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP). Também já atuou como curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). 

Fábio Baroli e Monica Piloni inauguram individuais na Zipper Galeria

Pintura de Fabio Baroli. FOTO: Divulgação

A Zipper Galeria apresenta simultaneamente, a partir deste sábado, dia 11 de maio, as mostras dos artistas Fábio Baroli e Monica Piloni, na primeira vez em que ambos expõem individualmente na casa paulistana.

Intitulada SELVA-MATA, a exposição de Baroli – nascido em Uberaba e sediado em São Paulo – reúne uma série de pinturas que têm como ponto de partida as paisagens características da Mata Atlântica. A partir delas, o artista propõe uma reflexão sobre a ação do homem no meio ambiente, como ele explica no texto de apresentação: “O intuito é estabelecer a intercomunicação, por meio da arte, entre as complexas e sensíveis relações do ser humano e suas ocupações, em seu amplo sentido de posse, ofício e lugar”.

A curitibana Monica Piloni, por sua vez, apresenta a mostra Ciclo, com uma série de esculturas que distorcem o corpo humano com desmembramentos, omissões ou multiplicação de elementos, “gerando formas não naturais, frequentemente incômodas”, segundo o texto de apresentação.

A partir de moldes produzidos em seu próprio corpo, a artista modifica a anatomia original, chegando a figuras que muitas vezes deixam de ser identificados como corpos e se tornam objetos misteriosos. “O dado do irreconhecível é algo que me move. Investigo se há um prazer por trás do medo. Meu trabalho depende da reação do público. Eu preciso desta resposta, deste espelho”, diz ela.

 

Ciclo (Monica Piloni) e SELVA-MATA (Fábio Baroli)

Zipper Galeria – R. Estados Unidos 1494, Jardim América, São Paulo

De 11 de maio a 8 de junho

Mostra aborda questões indígenas sob referência de livro de xamã

Poraco, obra da série Oamu.

Ailton Krenak, Claudia Andujar, Poraco, Cildo Meireles e Paz Errázuriz são só alguns dos 21 nomes de artistas e pensadores que têm seus trabalhos expostos em A Queda do Céu, aberta à visitação para o público a partir de 8 de maio, na Caixa Cultural de Brasília. A mostra com curadoria de Moacir dos Anjos busca refletir sobre as consequências do contato involuntário dos povos indígenas com o colonizador branco.

A exposição foi apresentada pela primeira vez em 2015 no Paço das Artes, indo para o Sesc Rio Preto no ano seguinte, ambas instituições em São Paulo. Agora em Brasília, o projeto que faz referência ao livro homônimo do xamã yanomami Davi Kopenawa, escrito a quatro mãos com o antropólogo Bruce Albert.

De acordo com o curador, a mostra “quer aproximar e articular trabalhos artísticos que prenunciam, evidenciam e combatem a progressiva despossessão sofrida por populações indígenas” ao longo dos anos. Isso vai de encontro à reflexão sobre o caráter predatório de ações do homem branco ao conhecer esses povos, seja em relação ao território ou à cultura, presente no livro.

A Queda do Céu fica em cartaz até 30 de junho e ocupa três salas da Caixa Cultural de Brasília: as Galerias Principal e Piccolas I e II. Além dos nomes já citados, participam da exposição Anna Bella Geiger, Armando Queiroz, Bené Fonteles, Fabio Tremonte, Fred Jordão, Harun Farocki, Jaime Lauriano, Jimmie Durham, Leonilson, Lourival Cuquinha, Maria Thereza Alves, Matheus Rocha Pitta, Miguel Rio Branco, Paulo Nazareth, Regina José Galindo e Vincent Carelli.

Museu Afro inaugura mostra dedicada à Bahia

Tapeçaria de Genaro de Carvalho. FOTO: Divulgação

Com pinturas, gravuras, tapeçarias, porcelanas, esculturas, fotografias e filmes, uma grande mostra no Museu Afro Brasil, em São Paulo, homenageia a Bahia e os baianos. Com abertura nesta terça-feira, dia 7, A Cidade da Bahia, das Baianas e dos Baianos Também tem curadoria de Emanoel Araújo e reúne trabalhos produzidos em diferentes épocas, desde o barroco até a modernidade.

“Essa exposição fala de alguns fatos e pessoas, sobretudo dos artistas, dos homens e das mulheres. Mulheres que fizeram da Bahia essa mágica, inusitada e preciosa cidade, de todos os santos, de muita sensualidade e de pouco pudor, que se esvai pelas ladeiras e ruas sinuosas”, diz Araújo no texto de apresentação.

O núcleo central da mostra é dedicado ao modernismo baiano, representado por nomes como Carlos Bastos, Genaro Antônio Dantas de Carvalho, José Adário dos Santos e Rubem Valentim. Em outra seção, fotografias, revistas e publicações homenageiam baianas ilustres como Carmen Miranda, Marta Rocha e Helena Ignez. Há ainda fotos e pinturas de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Mãe Menininha do Gantois, além de bustos em gesso dos heróis da Revolta dos Alfaiates, também conhecida como Conjuração Baiana.

A arte barroca baiana ganha espaço com pinturas do século 18 de Joaquim da Rocha, Teófilo de Jesus e Veríssimo de Freitas, além de azulejos e objetos de época. A exposição conta ainda com um conjunto de fotografias de Mário Cravo Neto e aquarelas do século 19 da artista inglesa Maria Graham, retratando o cotidiano das baianas de Salvador. Completam a mostra filmes de Glauber Rocha e Trigueirinho Neto, entre outros.

A Cidade da Bahia, das Baianas e dos Baianos Também

Museu Afro Brasil – Parque Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.

Até 1° de setembro de 2019

Cartas de Cuba #4

Qual é a transcendência da Bienal de Havana depois de 30 de atividade? O maior evento cultural de Cuba  tem passado por diferentes períodos sócio-politico-culturais desde sua criação em 1984. Sobrevive com exposições de qualidade e outras que cumprem o calendário com grande dificuldade, como é o caso da 13ª Bienal. A Bienal reúne sete curadores, todos cubanos: Nelson Herrera Ysla, José Manuel Noceda Fernández, Margarita González Lorente, Nelson Herrera Ysla, Margarita Sánchez Prieto, José Fernández Portal, Ibis Hernández Abascal e Lisset Alonso Compte, além dos convidados internacionais que integram a programação de conferências e exposições. Nelson Herrera Ysla lembra que a Bienal foi criada em 1984 adotando um modelo tradicional para ganhar experiência de curadoria, produção, montagem. “Dois anos depois  abriu  as portas aos países em desenvolvimento e se inscreveu na história da arte como a primeira Bienal global a convidar artistas da África, Ásia e Oriente Médio, para juntar-se aos do Caribe e América Latina. Ele concorda que ainda não fizeram  mudanças substanciais, mas acredita nelas em um futuro próximo. “Hoje a novidade é a inserção de outras cidades cubanas como vias de investigação e busca de novos públicos”. A Bienal de Havana exercita o ativismo do trabalho coletivo e colaborativo, todas as instituições da cidade podem ser acionadas. Nelson diz se sentir hoje mais animado diante de novas ideias, em termos de estrutura e modelo. “Atualmente posso fazer coisas que pareciam impossíveis ou distantes anos atrás”. O  traço fundamental do evento é lançar artistas saídos da Escola Superior de Arte (ISA), com expressiva formação teórico- conceitual.

Nesta última Carta de Cuba coloco foco em quatro artistas, filhos legítimos da Bienal que ganharam o mundo:  Kcho (Alexys Leyva Machado), Carlos Garaiocoa, Los Carpinteros e René Francisco Rodriguez. Todos com carreiras estabelecidas e poéticas identificáveis e, nesta edição da Bienal, reunidos na mostra Museus Interiores, no Museu Nacional de Bellas Artes.

Kcho é a cara de Cuba: criativo, inquieto, alegre e senhor de si. Constrói e codifica visualmente objetos, retirando-os de seu cotidiano e fazendo-os dialogar com o espaço. A nostalgia que interliga terras distantes domina Regata, instalação de 1993 e realizada aos 23 anos, um ano antes de Kcho entrar para o acervo do Museu Reina Sofia, em Madri, e integrar o elenco da galeria Barbara Gladstone, de Nova York, com 24 anos. O predomínio do barco em sua obra, símbolo recorrente no imaginário coletivo dos cubanos, é traduzido tanto em desenhos gestuais como em esculturas ou instalações feitas de aglomerados de objetos que se nutrem de várias poéticas. O mar funciona como o farol de sua imaginação, matriz de uma paixão que Kcho alimenta até hoje, aos 49 anos. Ir de uma margem a outra é muito natural para quem é ilhado duplamente: ele nasceu na Ilha da Juventude, um estado de Cuba. Como diz Foucault: “Em civilizações sem barcos, os sonhos secam” .

Ao analisar os princípios da obra de Kcho chega-se às arquiteturas primárias, arquétipas, que críticam as técnicas formais. Nesta viagem a Havana visitei mais uma vez seu Centro de Arte e Ateliê Romerillo. Internamente o museu particular abriga parte de suas obras em papel e materiais perecíveis e a céu espaço, as esculturas agigantadas e que recentemente foram expostas na Itália. Numa perspectiva poética, a obra de Kcho em 2002 tomou todo o MUBE – Museu Brasileiros da Escultura em São Paulo, em 2002, com a retrospectiva El Huracón (O Furacão), com  minha curadoria. O trabalho de Kcho mantém camadas de inter-relação com o sistema de arte. Com menos de trinta anos entra para o acervo do MoMA de NY, do MoCA de Los Angeles e do Reyna Sofia, de Madri, entre outros. O elemento chave do crescimento de Kcho foi o interesse despertado por críticos como Pierre Restany, Harald Szeeman e Achille Bonito Oliva que o apoiaram fortemente.

Como afirmou o geógrafo Milton Santos, a arte de rua, naturalmente urbana e pública, traz forte carga política por ocupar espaços fora dos campos institucionalizados da arte e por tocar as realidades sociais de perto.

Carlos Garaicoa reconfigura o cotidiano das cidades com recortes de espaço e tempo, do sujeito e do objeto. Partitura (2017) é a síntese desse pensamento, uma sinfonia que toma grande sala do Museu Nacional de Bellas Artes de Cuba. Desenvolvida ao longo de dez anos, a instalação que já foi exposta em São Paulo, tem a participação de mais de 70 músicos de rua, de Madri e Bilbao. O encontro dos intérpretes se materializa na instalação composta por 70 suportes de partituras. Tabletes e fones de ouvido presos a eles exibem desenhos criados por Garaicoa, inspirados nas melodias. Trata-se de uma grande orquestra com 35 vídeos de músicos ambulantes tocando peças diversas. Uma partitura final, elaborada pelo músico cubano Esteban Puela, como fechamento deste conglomerado de sonoridades citadinas, é transmitida para uma grande tela digital que assume a direção da orquestra. Com essa obra Garaioca homenageia as cidades, lugar de vivências, afetos, derrotas, improvisos. Também exalta o músico de rua, símbolo da máxima “arte é vida”.

Los Carpinteros, em uma de suas últimas atuações como dupla, coloca em Alacenas, de 2016, uma visão crítica do resultado das fortes tormentas que invadem o Caribe. Os sons emitidos pelos furacões foram gravados e reproduzidos a partir de desgastados armários de cozinha de onde se escuta o barulho aterrador dos furacões. Eu mesma pude experimentar em Havana essa sensação em 2006, quando estive próxima ao epicentro do Furacão Kate, ranqueado como um dos mais fortes deles. Os armários de cozinha, velhos e vazios, incorporam outras questões como a situação de escassez e precariedade.

Grandes mostras podem ser mediações entre o artista e o mercado. René Francisco Rodríguez também se notabilizou ainda jovem, a partir de suas experimentações na Bienal de Havana. O sentimento que impregna sua instalação Talles de Reparación, um de seus trabalhos mais significativos, está mais forte na versão atualizada. Ele armazena experiência, interação dos objetos e pessoas neste diário pessoal e profissional. Ao longo de sua vida foi incorporando à sua obra uma coleção de testemunhos materiais e simbólicos que vão se acumulando no local de trabalho. Esta instalação acumulativa é uma obra in progress muito próxima a do brasileiro Paulo Brusky.

Os quatro artista formam um núcleo lógico e de consenso, mas vale lembrar que há pelo menos duas dezenas de outros artistas, igualmente resolvidos profissionalmente, que gravitam por exposições internacionais.

No EAV Parque Lage, Tom Burr apresenta exposição na qual estreita laços com Oiticica

Tom Burr posa em frente à obra 'As águas de Março' (the body in bed), 2019. FOTO: Ricardo Kugelmas

O artista estadunidense Tom Burr leva às cavalariças do EAV Parque Lage, no Rio de Janeiro, exposição Helio-Centricidades, primeiramente realizada no auroras, em São Paulo. A abertura acontece no sábado, 3 de novembro, a partir das 10h da manhã, e o período de visitação se estende até 8 de dezembro.

Duas obras inéditas, especialmente feitas para a exposição no Parque Lage, também estarão na mostra, sendo elas uma instalação e um vídeo. Confira matéria publicada em nosso site na ocasião da mostra no espaço paulista. Iniciativa é uma parceria entre a instituição carioca e o auroras:

“Eu estava realmente interessado em fazer essa exposição, conectar esses pontos entre eu e o Brasil”, conta o artista conceitual estadunidense Tom Burr, que apresenta a individual Helio-Centricidades, no auroras, espaço localizado no Morumbi. Esse desejo dele pode ser facilmente explicado pelo seu entusiasmo sobre a arte feita no Brasil, especialmente entre os anos 50 e 70, período em que nossa arte foi muito permeada pelo que era feito na América do Norte. Mas um artista brasileiro em específico sempre chamou a atenção de Tom: Helio Oiticica, com o qual ele criou relações nas obras que estão na exposição e trouxe, inclusive, para o título.

Tom e Ricardo Kugelmas, proprietário do auroras, se conheceram por intermédio de uma amiga em comum, em Nova Iorque, há aproximadamente cinco anos e se tornaram próximos desde então. O contato de Ricardo com a Bortolami Gallery, que representa Burr nos EUA, fez com que começassem a pensar em fazer algo juntos. O artista conta que é a sua primeira vez no Brasil e ficou muito animado com a possibilidade de fazer uma exposição aqui. Em menos de três semanas, o artista produziu, enquanto morava na casa sede do auroras, a série de obras que compõem a individual: “Eu preferi fazer os trabalhos aqui porque eu tendo a trabalhar como resposta aos espaços onde estou e também porque despachar arte é muito caro”, conta Burr.

A série Spatial Constraints, produzida com camisetas previamente usadas pelo artista, páginas de livros e pinos de aço sobre madeira já era algo que tinha sido planejada por ele para a exposição, pois traz traços de ideia já notável em seu trabalho, mas sempre executada de maneira diferente. Nesta leva, Tom variou ao acrescentar as páginas de livros, todas elas dotadas de informações sobre situações envolvendo o sexo. Essa inclinação de Burr a trabalhar com temáticas que contrapõem o conservadorismo é bastante conhecida em sua trajetória.

Outra novidade é que essas peças são maiores do que as que ele costuma produzir: “Eu quis fazer maiores porque eu queria poder colocar outros materiais. Mas eu não sabia o que ainda”. Ele diz que queria encontrar algo que servisse ao trabalho, e a si mesmo, e a seu corpo, e ao corpo de Helio, dentre outos pensamentos que lhe vieram. Tom também imaginou uma forma de se colocar em relação a questões da cultura queer e da sexualidade: “Um paralelo entre o que está acontecendo agora aqui e nos Estados Unidos, são situações muito similares em termos desse tipo de retrocesso, retrocesso conservador”, comenta.

Com esses propósitos, visitou uma série de sebos atrás de livros antigos: “Encontrei esses livros de meados de 1978/79, que não eram escritos sob uma perspectiva de ‘nós’, era sempre sobre o outro. Eram livros criados para falar sobre outras pessoas. Tinham um pouco de ‘soft porn’, então tinham muitas fotos bonitas de jovens casais heterossexuais e sempre tinham um capítulo sobre ‘os desviados’, os gays, as lésbicas, ‘os pederastas’. Eu achei que aquilo era um tipo de humor, mas é como uma jaula”. Quando encontrou o livro que continha páginas amarelas achou ideal porque fazia duas coisas ao mesmo tempo: “Deu à obra mais informações e tinha a língua portuguesa, que era algo que eu queria colocar”. O amarelo foi especial porque o fez lembrar Oiticica: “É o amarelo forte pelo qual ele é conhecido, mas também é o meu amarelo”.

A tela-escultura Hélio-Screen, por outro lado, foi uma ideia concebida quando já estava estabelecido na casa. Ela é inspirada em obras de Helio Oiticica, especialmente os Metaesquemas e em um desenho que Tom achou de 1957 (“é o mesmo ano de construção desta casa!”), mas também está dentro do modus operandi já citado pelo artista, de responder aos espaços. Posicionada em frente a uma porta que leva a um ambiente externo, como uma barreira, a peça também remonta à sensação de seguridade que o artista observou naquele espaço onde passou semanas: “Eu pensei muito sobre a relação da casa com a segurança, com a privacidade, com esse tipo de vizinhança, com o protecionismo. Todas as barras, todos os portões”. Para ele, isso traz uma ideia da Nova Iorque dos anos 70, onde a ideia de sofrer com um potencial crime estava sendo permeando as pessoas. Nela Tom também trabalha com a ideia das venezianas pretas nas janelas do segundo piso da casa, nas quais o atravessar da luz chamaram muito a sua atenção. Ele brinca que as imagens criadas por esse fenômeno o fizeram usar a função stories do Instagram pela primeira vez (“uma parte da exposição que some”).

Nas intituladas As águas de Março (the plan of the house) e As águas de Março (the body in bed), ele explica que foi uma história divertida. Os cobertores escuros, cinzentos, que compõem as peças eram materiais que ele sempre utilizava, mas queria utilizar coisas diferentes. Aconteceu, entretanto, de Ricardo ter dois desses cobertores guardados, que havia trazido de Nova Iorque. A situação singular e o prosseguimento com a ideia de coisas que tinham relação com a casa fez com que Tom optasse por usar esses cobertores.

“Eu me peguei pensando que eu queria fazer algo que se referisse às janelas [dos quartos do imóvel do auroras], fiquei pensando sobre as venezianas. Pensei sobre cortinas, sobre cortinas modernistas. E então fui conhecer a Casa de Vidro da Lina Bo Bardi e me apeguei às cortinas de lá”. O artista foi em busca daquele tipo de tecido, mas achou que não funcionaria muito bem, ali na mesma loja viu tecidos blackout, pelos quais se interessou imediatamente (“significou muita coisa, bloquear a luz, Helio…”, ele ri). A justaposição do blackout com os cobertores que Ricardo tinha trouxe ao artista uma boa sensação: “Eles têm um tipo de percepção estranha, quase perversa, da qual eu gosto. É como se uma pele sensual estivesse friccionando no cobertor”. Neste momento, ficou resolvido que assim seria também por outra questão: isso traria um pouco do Tom nos EUA, com o cobertor, e um pouco do Tom no Brasil, com o blackout.

Personas

Sobre sua relação com a ideia de personalidades que o inspiram, Burr conta que não foi sempre assim. Quando começou, fazia trabalho sobre espaços públicos, parques e espaços físicos, mas nunca teve um assunto específico. Nos anos 2000, ele fez a obra Deep Purple, uma espécie de paredão com madeira, aço e tinta roxa: “Foi uma apropriação de uma peça do Richard Serra, Tilted Arc. Acredito que essa tenha sido a primeira vez que eu assumi uma personagem, que isso se tornou um material. Richard Serra se tornou parte do meu projeto”.

Com o passar do tempo, o artista percebeu que mais e mais pessoas queriam saber sobre sua relação com as pessoas que tomava como personagens, mas sempre havia utilizado aquilo que chama de “white male daddies”. Foi aí que começou a se apropriar de algumas figuras queers, que poderiam ser mais próximas a ele e pelas quais nutria certa curiosidade pro serem “confusas”, sendo o escritor Truman Capote o primeiro dessa lista. “Eu comecei a pensar em personas. E aí em outros momentos Jim Morrison esteve em meu trabalho, Kate Bush esteve em meu trabalho. E essas figuras continuam vindo… É sempre sobre figuras que me interessam, mas nunca é sobre eu exaltando alguém”.

É nesse conjuntura que Helio Oiticica se apresenta para Burr: “Ele é interessante para mim por numerosos motivos. Acho que de alguma forma quando eu era mais novo eu era mais interessado em [Lygia] Clark do que eu Oiticica por uma questão de formalismo. Mas depois me interessei por ele por ser um pouco confuso, como personagem, e também por ser queer“, explica. Não teve dúvidas, portanto, que Helio seria essa persona com quem seu trabalho confluiria nessa sua primeira exposição no Brasil: “E ele foi para Nova Iorque, e eu vim para cá. E então pensei que era uma época oposta a onde estamos agora. Ele estava acreditando em liberdade. E eu acho que estamos em um lugar diferente agora”, comenta Tom, que vincula isso tanto à questão de um excesso de segurança, sobre o qual já falou ao citar sua impressão sobre imóvel e a região que abriga o auroras, e também ao clima político, no qual sente que as coisas estão regredindo em muitos aspectos.

“Mas Helio é também uma figura interessante de se colocar próximo a mim. Eu pensei nele de uma forma romântica, eu queria ser como ele. É como quando você se perde em outra pessoa, quando você tem aquela incrível queda por alguém e você perde parte de si, e quer ser como essa outra pessoa”, Tom desenvolve. Para ele, isso é um tipo de narcisismo. E isso era o que ele realmente queria que acontecesse durante a produção dessas obras de Helio-Centricidades: confundir-se a si mesmo com a persona.

 

 

 

 

Cartas de Cuba #3

Marilá Dardot, performance: Volver, 13ª Bienal de Havana.

O Brasil tem forte ligação com a Bienal de Havana desde sua primeira edição em 1984. Na época, o País não tinha relações diplomáticas com Cuba e as obras dos 38 artistas brasileiros foram enviadas, primeiro a Paris, depois despachadas para Havana. Nunca puderam retornar. De Tomie Ohtake a Arthur Barrio, passando por Waltércio Caldas, Regina Silveira, Cláudio Tozzi, Leda Catunda, nenhum brasileiro saiu laureado, mesmo tendo Aracy Amaral como jurada. Hoje não há mais premiação, mas o caráter enciclopédico do evento permanece. Nesta 13ª Bienal de Havana a justaposição de ideias dos quatro brasileiros convidados mostra viés político comum, um retorno às discussões e à notoriedade de espaços com discursos pouco visíveis. São eles: Sara Ramo, Marilá Dardot, Lais Myrrha e Ruy Cézar Campos.

Entro na sala de Sara Ramo e meu olhar faz uma varredura nos “estandartes” dispostos nas paredes. Ao se movimentar, com um vestido de estampa muito próxima às de suas colagens com tecido, papelão e pinturas, Sara muda o ambiente. Provoca interações de formas e cores, ilude o olho e o cérebro do visitante, problematiza a relação do ser humano com os objetos ao gerar novas possibilidades narrativas, com consequências espaciais e temporais. “Os estandartes são desdobramentos da série Cartas na mesa pensada como um poema, uma marchinha de carnaval ou como um baralho oracular”. A série cubana que ela chama de Abre Alas, Estandarte para a Apoteose, contém um grito de desespero. “Uma reação natural que pode aflorar em festas populares, como no carnaval”. Estandartes são peças milenares usadas pela nobreza, igreja, front de batalhas, agremiações, afinal vivemos em territórios de significados e temporalidades múltiplas. Sara os transforma simbolicamente em relato sobre as sensações de relações coletivas que ocorrem nos espaços expandidos. Como ela define, “esta série aborda a problemática conflitiva da realidade brasileira atual”.

O País também está na pauta de Lais Myrrha com Cronografia dos Desmanches, um trabalho acumulativo, como uma obra in progress que ela desenvolve desde 2012. “O trabalho nasceu no momento em que percebi o boom da especulação imobiliária, quando eu andava pelas ruas e me deparava, por exemplo, com cinco casas demolidas de uma única vez. Isso no pico do mercado imobiliário”. Lais chama a atenção para o desmanche da paisagem ao iniciar pequenas crônicas fotográficas, não como narrative art mas como um resgate poético, quase foto jornalístico. ‘São imagens não só de demolições, mas também de locais abandonados, de bustos, de aeroportos, fotos não identificadas”. Com isso, a artista cria uma tipologia de desmanches, voluntários e involuntários, com fotos feitas em Portugal e Iraque, além de outras encontradas em arquivos, sobre situações específicas que a interessavam. “Entre os trabalhos há um que denomino Desmanche de Direção em que falo sobre a direita e a esquerda, a relação do Norte com o Sul, que fazem parte da minha observação sobre as transformações da paisagem, da arquitetura e do urbanismo em Belo Horizonte”. Para realizar os trabalhos da Bienal, Laís chegou a Havana em dezembro passado. “Foi uma viagem de exploração para ampliar o projeto com outras peças, dezesseis da série anterior e nove novas feitas em Cuba”.

O trabalho de Ruy Cézar Campos, adentra as cidades e se choca com a árida vida urbana e a alta tecnologia. Aborda o entorno por meios de processos simbólicos como exemplifica nos seus vídeos: Circunvizinhas, A Chegada de Monet e Pontos Terminais Emaranhados. Todos integrantes da série A Rede Vem do Mar, resultado de um ano de pesquisa entre Brasil, Angola e Colômbia.  “Tento estabelecer um vínculo fenomenológico entre a infraestrutura dos cabos submarinos e as plataformas de desembarque dos mesmos. Fortaleza é a cidade mais importante na rede do Atlântico Sul entre as cidades com as quais está conectada; Sangano, em Angola e Barranquila, na Colômbia”. O abismo entre a alta tecnologia e a precariedade social desses territórios é marcante. O avanço de grandes empresas de telecomunicações como Angola Cables, tornou Fortaleza polo de concentração de cabos submarinos que ligam a cidade com África, Europa e América do Norte. Operando entre a tecnologia e a estética, o artista se expressa entre performance, documentário e ficção, com viés político – social.A Internet muitas vezes é vista pelo usuário como algo invisível, mas ela tem território e lugar fixo. Com a chegada da alta tecnologia dizem que o futuro chegou a Fortaleza, embora os moradores vizinhos da empresa não tenham acesso à Internet”. Ruy é um artista multimídia que cursa doutorado em Tecnologia da Comunicação e Cultura na UERJ e pretende continuar navegando entre a arte, a ciência e seus impactos sociais.

A Bienal de Havana transcende seu espaço físico e neste ano chega a outras locais como Matanzas, uma das cidades culturais de Cuba. Lá, Marilá Dardot realiza a utopia de diluição da arte na vida cotidiana. “Meu trabalho é um desdobramento de uma residência que fiz no México, em 2015, no momento do episódio dos estudantes desaparecidos. Escolhia manchetes de jornais e diariamente intervinha com textos escritos com água sobre um muro de concreto. À medida em que escrevia, o texto ia se apagando”. Jacques Rancière diz que há uma gênese estética compartilhada entre a arte e a política, ambas são maneiras de recriar as propriedades do espaço e as do tempo. Marilá vê seu trabalho se transformando nos últimos anos, deixando uma visão otimista ligada à literatura, poesia, ficção e natureza, para mergulhar em uma visão mais pessimista diante de fatos e notícias políticas do Brasil. “No ano passado conheci María Magdalena Campos-Pons, que me convidou para participar de seu projeto Rios Intermitentes, que integra a 13ª Bienal de Havana, na cidade de Matanzas e eu aceitei”.

Até hoje, na história da arte, o corpo fez parte do espetáculo, das mudanças e, ao longo do tempo se depara simbolicamente com novas alternativas. Performances são emergências estéticas, transgressões dentro de uma cultura. Marilá optou por uma ação não convencional, a Volver. Repetidamente escreve com água a frase A la esperanza vuelvo em uma  parede na rua, durante um longo período de tempo. A artista diz perceber um atual despertar político de sua geração, mais calcado na realidade dos últimos anos. “Esta performance marca um pouco a passagem de uma visão mais singular, íntima, mais poética do meu trabalho, para uma coisa mais pesada que é o momento que enfrentamos hoje”.

O Brasil ainda está representado, paralelamente à Bienal, no projeto Residência / Expedição, com nove artistas nacionais que trabalharam por uma semana no Taller Experimental de Gráfica, onde desenvolveram pesquisa em gravura. O resultado está exposto na Galería Cárdenas Contemporáneo, com curadoria de Andrès Martín Hernández. Os brasileiros explicitaram convergências e divergências da arte contemporânea atual, aproveitando a interface da visibilidade e do embate que uma bienal proporciona.

Mariana Guarini Berenguer assume presidência do MAM-SP

Fachada do MAM, no Parque Ibirapuera. FOTO: Divulgação

O Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) confirmou nesta semana a eleição da advogada, colecionadora e ex-professora do Insper, Mariana Guarini Berenguer, para a presidência da diretoria do museu no biênio 2019-2021. Ela irá substituir Milú Villela, que foi eleita Presidente de Honra após mandato de 24 anos à frente da instituição.

“A Milú transformou o MAM numa instituição vibrante e bem-sucedida. Agora tenho a missão de dar continuidade a este projeto potente, buscando novos caminhos de expansão para o museu”, afirmou Berenguer em comunicado oficial. “Vamos passar por um período de aprendizado e depois vamos apresentar nossas propostas para esta nova fase da instituição.”

Fundado em 1948 e sediado no Parque Ibirapuera desde 1968, o MAM reúne peças de arte moderna e, principalmente, de arte contemporânea. No acervo de cerca de 5 mil obras estão trabalhos de Candido Portinari, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, Lívio Abramo, Mira Schendel, Lygia Pape, Leonilson, León Ferrari, Thomaz Farkas, German Lorca, Nelson Leirner e muitos outros.

Milú Villela assumiu a presidência do MAM em 1995 e promoveu várias mudanças na instituição, intensificando a aquisição de obras, a área educativa e o programa de patrocinadores e associados. Para Berenguer, “é uma honra e uma responsabilidade muito grande assumir um museu que se tornou referência para o cenário cultural brasileiro. Vamos trabalhar para fortalecer ainda mais o museu neste momento em que a cultura atravessa grandes desafios no país”.

34ª Bienal de São Paulo busca ampliar sua rede institucional na cidade

Retrato dos curadores
Paulo Miyada, curador-adjunto, Carla Zaccagnini, curadora convidada, Jacopo Crivelli Visconti, curador-geral, Ruth Estévez, curadora convidada e Francesco Stocchi, curador convidado. Equipe curatorial da 34a Bienal de São Paulo. 13/03/2019 © Pedro Ivo Trasferetti / Fundação Bienal de São Paulo

A Bienal de São Paulo não começará apenas em setembro do próximo ano. A edição de 2020, com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti, terá mostras antecipatórias no Pavilhão a partir de março e uma programação integrada com instituições ao redor da cidade de São Paulo em setembro, com a intenção de criar diálogos com o diferente, pensando em fomentar relações. Esse projeto, anunciado nesta quinta-feira (2/4), também tem a intenção de colocar a cidade no fluxo da bienal.

À ARTE!Brasileiros, o curador conta que partir dessa proposição curatorial da criação de relações também é uma forma do evento responder às questões que cercam o país hoje, mas de um ponto de vista que fuja à polarização de ideias: “Essa é uma questão fundamental do que estamos vivendo nesses tempos, não só no Brasil, mas no mundo. Eu diria que o Brasil chegou nisso até um pouco mais tarde do que já vinha ocorrendo nos EUA e na Europa”, comenta.

Jacopo pretende trabalhar, junto a Paulo Miyada (curador-adjunto), Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez (curadores convidados), uma ideia que possa conversar de forma coerente com todas as instâncias, “na instância institucional mas também, e principalmente, na artística, curatorial, nos diferentes públicos. Todos esses diferentes níveis do projeto tentam lidar com essa questão da polarização, mostrar como é possível criar diálogos com instituições diferentes, obras de arte diferentes, públicos diferentes, etc. Então é uma Bienal que de uma maneira não literal, mas muito mais poética e simbólica, está claramente pensada a partir do momento que estamos vivendo”, explica.

A pluralidade buscada pelo projeto também será trabalhada no conjunto de obra mostradas, que transitarão entre mídias tradicionais (como pinturas e esculturas) e mídias mais atuais (como performances e instalações). Jacopo conta também que isso será desenvolvido na linha do tempo das obras, que serão tanto históricas quanto contemporâneas.

“O desafio para lidar com todos esses públicos é não ser nem hermético, nem excessivamente simples e, ao mesmo tempo, falar de uma maneira direta e honesta com todos eles” (Jacopo Crivelli Visconti)

Em um movimento de expansão, a Bienal terá uma rede de instituições que irão sediar simultaneamente exposições e apresentações performáticas de artistas que estarão na mostra principal. Isso vai de encontro com o conceito de relação que Jacopo chama de “mote metodológico” que irá definir a arquitetura curatorial do evento.

Essa vontade de estender a Bienal surge também por querer incluir ainda mais o público dentro da experiência: “O desafio para lidar com todos esses públicos é não ser nem hermético, nem excessivamente simples e, ao mesmo tempo, falar de uma maneira direta e honesta com todos eles”. A aproximação do público será dada de forma com que, de acordo com o curador, o evento seja grande, “se expandindo no tempo e no espaço”, mas que consiga ser muito íntimo: “Queremos que na Bienal em si as obras e as relações que se criam entre elas sejam numa escala muito mais reduzida do que a gente está acostumado a ver em bienais. Ou seja, não vai ter nada daquela ‘biennial art’, digamos, ou seja, grandes instalações, lúdicas e divertidas ou interativas. Não é o foco, o foco é mais em criar exposições nas quais as pessoas consigam entender e mostras relações entre obras de uma maneira que seja compreensível para esse público que é tão diversificado”.

Animado com o projeto, o novo presidente da Fundação Bienal de São Paulo, o banqueiro e colecionador José Olympio Pereira, vê esta próxima Bienal como algo que toma uma outra dimensão com a proposta curatorial que não se limita a um espaço só da cidade e que convida as pessoas e as instituições a “se relacionar sem necessariamente ter que compartilhar das mesmas ideias”. Para ele, tudo é muito atual “para um mundo tão dividido, um mundo tão radicalizado em posições”. “A gente tem que ser capaz, embora com ideias diferentes, de se relacionar com o outro para atingir um bem comum”.

As instituições parceiras da Bienal são Associação Cultural Videobrasil, Casa do Povo, Centro Cultural Banco do Brasil, Centro Cultural São Paulo, Centros Culturais da Cidade de São Paulo, Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Instituto Bardi / Casa de Vidro, Instituto Moreira Salles, Instituto Tomie Ohtake, Itaú Cultural, Japan House São Paulo, Museu Afro Brasil, Museu da Cidade de São Paulo, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo), Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), Museu Lasar Segall, Pinacoteca de São Paulo, Pivô e Sesc São Paulo.

A criação desta rede que se estende pela cidade de São Paulo ganhou apoio da Secretaria Municipal de Cultura e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, com conversas com os secretários, respectivamente Alê Youssef e Sérgio Sá Leitão: “É algo coletivo. Todo mundo trabalhando para esse grande evento no ano que vem”, finaliza Olympio.