Marilá Dardot, performance: Volver, 13ª Bienal de Havana.

O Brasil tem forte ligação com a Bienal de Havana desde sua primeira edição em 1984. Na época, o País não tinha relações diplomáticas com Cuba e as obras dos 38 artistas brasileiros foram enviadas, primeiro a Paris, depois despachadas para Havana. Nunca puderam retornar. De Tomie Ohtake a Arthur Barrio, passando por Waltércio Caldas, Regina Silveira, Cláudio Tozzi, Leda Catunda, nenhum brasileiro saiu laureado, mesmo tendo Aracy Amaral como jurada. Hoje não há mais premiação, mas o caráter enciclopédico do evento permanece. Nesta 13ª Bienal de Havana a justaposição de ideias dos quatro brasileiros convidados mostra viés político comum, um retorno às discussões e à notoriedade de espaços com discursos pouco visíveis. São eles: Sara Ramo, Marilá Dardot, Lais Myrrha e Ruy Cézar Campos.

Entro na sala de Sara Ramo e meu olhar faz uma varredura nos “estandartes” dispostos nas paredes. Ao se movimentar, com um vestido de estampa muito próxima às de suas colagens com tecido, papelão e pinturas, Sara muda o ambiente. Provoca interações de formas e cores, ilude o olho e o cérebro do visitante, problematiza a relação do ser humano com os objetos ao gerar novas possibilidades narrativas, com consequências espaciais e temporais. “Os estandartes são desdobramentos da série Cartas na mesa pensada como um poema, uma marchinha de carnaval ou como um baralho oracular”. A série cubana que ela chama de Abre Alas, Estandarte para a Apoteose, contém um grito de desespero. “Uma reação natural que pode aflorar em festas populares, como no carnaval”. Estandartes são peças milenares usadas pela nobreza, igreja, front de batalhas, agremiações, afinal vivemos em territórios de significados e temporalidades múltiplas. Sara os transforma simbolicamente em relato sobre as sensações de relações coletivas que ocorrem nos espaços expandidos. Como ela define, “esta série aborda a problemática conflitiva da realidade brasileira atual”.

O País também está na pauta de Lais Myrrha com Cronografia dos Desmanches, um trabalho acumulativo, como uma obra in progress que ela desenvolve desde 2012. “O trabalho nasceu no momento em que percebi o boom da especulação imobiliária, quando eu andava pelas ruas e me deparava, por exemplo, com cinco casas demolidas de uma única vez. Isso no pico do mercado imobiliário”. Lais chama a atenção para o desmanche da paisagem ao iniciar pequenas crônicas fotográficas, não como narrative art mas como um resgate poético, quase foto jornalístico. ‘São imagens não só de demolições, mas também de locais abandonados, de bustos, de aeroportos, fotos não identificadas”. Com isso, a artista cria uma tipologia de desmanches, voluntários e involuntários, com fotos feitas em Portugal e Iraque, além de outras encontradas em arquivos, sobre situações específicas que a interessavam. “Entre os trabalhos há um que denomino Desmanche de Direção em que falo sobre a direita e a esquerda, a relação do Norte com o Sul, que fazem parte da minha observação sobre as transformações da paisagem, da arquitetura e do urbanismo em Belo Horizonte”. Para realizar os trabalhos da Bienal, Laís chegou a Havana em dezembro passado. “Foi uma viagem de exploração para ampliar o projeto com outras peças, dezesseis da série anterior e nove novas feitas em Cuba”.

O trabalho de Ruy Cézar Campos, adentra as cidades e se choca com a árida vida urbana e a alta tecnologia. Aborda o entorno por meios de processos simbólicos como exemplifica nos seus vídeos: Circunvizinhas, A Chegada de Monet e Pontos Terminais Emaranhados. Todos integrantes da série A Rede Vem do Mar, resultado de um ano de pesquisa entre Brasil, Angola e Colômbia.  “Tento estabelecer um vínculo fenomenológico entre a infraestrutura dos cabos submarinos e as plataformas de desembarque dos mesmos. Fortaleza é a cidade mais importante na rede do Atlântico Sul entre as cidades com as quais está conectada; Sangano, em Angola e Barranquila, na Colômbia”. O abismo entre a alta tecnologia e a precariedade social desses territórios é marcante. O avanço de grandes empresas de telecomunicações como Angola Cables, tornou Fortaleza polo de concentração de cabos submarinos que ligam a cidade com África, Europa e América do Norte. Operando entre a tecnologia e a estética, o artista se expressa entre performance, documentário e ficção, com viés político – social.A Internet muitas vezes é vista pelo usuário como algo invisível, mas ela tem território e lugar fixo. Com a chegada da alta tecnologia dizem que o futuro chegou a Fortaleza, embora os moradores vizinhos da empresa não tenham acesso à Internet”. Ruy é um artista multimídia que cursa doutorado em Tecnologia da Comunicação e Cultura na UERJ e pretende continuar navegando entre a arte, a ciência e seus impactos sociais.

A Bienal de Havana transcende seu espaço físico e neste ano chega a outras locais como Matanzas, uma das cidades culturais de Cuba. Lá, Marilá Dardot realiza a utopia de diluição da arte na vida cotidiana. “Meu trabalho é um desdobramento de uma residência que fiz no México, em 2015, no momento do episódio dos estudantes desaparecidos. Escolhia manchetes de jornais e diariamente intervinha com textos escritos com água sobre um muro de concreto. À medida em que escrevia, o texto ia se apagando”. Jacques Rancière diz que há uma gênese estética compartilhada entre a arte e a política, ambas são maneiras de recriar as propriedades do espaço e as do tempo. Marilá vê seu trabalho se transformando nos últimos anos, deixando uma visão otimista ligada à literatura, poesia, ficção e natureza, para mergulhar em uma visão mais pessimista diante de fatos e notícias políticas do Brasil. “No ano passado conheci María Magdalena Campos-Pons, que me convidou para participar de seu projeto Rios Intermitentes, que integra a 13ª Bienal de Havana, na cidade de Matanzas e eu aceitei”.

Até hoje, na história da arte, o corpo fez parte do espetáculo, das mudanças e, ao longo do tempo se depara simbolicamente com novas alternativas. Performances são emergências estéticas, transgressões dentro de uma cultura. Marilá optou por uma ação não convencional, a Volver. Repetidamente escreve com água a frase A la esperanza vuelvo em uma  parede na rua, durante um longo período de tempo. A artista diz perceber um atual despertar político de sua geração, mais calcado na realidade dos últimos anos. “Esta performance marca um pouco a passagem de uma visão mais singular, íntima, mais poética do meu trabalho, para uma coisa mais pesada que é o momento que enfrentamos hoje”.

O Brasil ainda está representado, paralelamente à Bienal, no projeto Residência / Expedição, com nove artistas nacionais que trabalharam por uma semana no Taller Experimental de Gráfica, onde desenvolveram pesquisa em gravura. O resultado está exposto na Galería Cárdenas Contemporáneo, com curadoria de Andrès Martín Hernández. Os brasileiros explicitaram convergências e divergências da arte contemporânea atual, aproveitando a interface da visibilidade e do embate que uma bienal proporciona.

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