Organizado por Cris Olivieri, advogada com especialização em gestão de processos comunicacionais e culturais e mestre em administração das artes pela Universidade de Boston, e Edson Natale, músico, escritor e jornalista, o livro nasce num momento mais que oportuno no Brasil. É o primeiro livro de uma série que a ser lançada pelo selo Edições Sesc, sob o título de Gestão da Cultura e do Entretenimento.

Em 2017, presenciamos uma enxurrada de casos de intolerância – como se não bastassem as de ordem racial, politica e econômica – especificamente à diversidade cultural.

O encerramento da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, o veto à sua exibição no Rio de Janeiro; a proibição da peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu em Jundiaí; os ataques ao MAM, em São Paulo, pela exibição da performance La Bête, com o artista Wagner Schwartz; assim como ameaças a curadores e artistas, provocaram inúmeras manifestações em defesa da liberdade e integridade de obras e expressões artísticas.

Cientes da importância deste debate os organizadores criaram uma interessante interlocução que, a partir de diferentes autores – advogados, dramaturgos, educadores, produtores culturais, líderes religiosos –  atuantes nas áreas da cultura ou da comunicação, trouxeram contribuições à ideia de liberdade, como garantia da expressão artística – sejam legais, oferecidas pela Constituição ou por conceitos teóricos.

Os depoimentos, editados em subtemas ou perguntas e com parágrafos curtos, permitem acompanhar e percorrer o livro sem transformar o tema num único depoimento narcisista ininteligível.

Aqui a diversidade está garantida pela maneira em que cada um se expressa. O diretor de teatro e dramaturgo Zé Celso diz em Arte Por Quê?:“Nossa vocação é criar com o universo. Se existem deuses e demônios criadores, estão em nós e em toda natureza ou em lugar nenhum. (…) ”Fazemos parte dos Sem Nada – mas com Arte podemos conseguir transmutar os Sem Arte, para q não destruam o Planeta Terra: os que tatuaram em suas cabeças a Cruz Enrolada num Cifrão: $$$$+++…”. Ou em Direitos Individuais e Liberdade de Expressão:“São mais que direitos sociais, são direitos sagrados humanos como são pra personagem Antígona; são próprios da natureza humana. Transcende os Tribunais e os Julgamentos”.

Fernando Baril, “Cruzando Jesus Cristo com o Deus Shiva”, 1996, obra exposta na exposição Queermuseum.

 

 

Já, Benjamin Seroussi, curador e gestor cultural, diretor da Casa do Povo em São Paulo, salienta em O que faz a arte?: “Em época de censura, a própria existência da arte é questionada… Não podemos deixar de nos perguntar como chegamos a essa estranha situação em que precisamos justificar a própria existência da arte. Ela pode ser julgada apressadamente como boa ou ruim, mas não por isso deixa de ser arte…”. “Neste curto texto, convidamos o leitor a passear por algumas situações nas quais a arte está em jogo e onde ela age.”  ‘SITUAÇÃO 1: ARTE PRODUZ CONHECIMENTO”, “SITUAÇÃO 2: ARTE  DESORGANIZA”, e assim por diante, “ARTE CRIA SEUS PRÓPRIOS MUNDOS”, “ARTE FAZ POLÏTICA”, “ARTE COMO FERRAMENTA”, “ARTE GERA CONTROVÉRSIAS”.

A partir de diferentes perspectivas, todos os colaboradores do livro, desde o escritor, cronista e roteirista Antonio Prata até Cleomar Rocha, pós-doutor em poéticas Interdisciplinares e Estudos Culturais da UFRJ; Don Clóvis Rodrigues, Bispo emérito da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, e Juca Kfoury, referência no jornalismo esportivo brasileiro, poderiam concordar, de alguma forma, com a frase do humorista, dramaturgo e escritor Jô Soares: A coisa está no ouvido de quem escuta, e não de quem fala”.

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