Imagem: Vanguardas, desmaterialização, tecnologia na arte / ESTUDO INÉDITO SOBRE A OBRA DE WALTER ZANINI, UM DOS CRÍTICOS FUNDAMENTAIS DA ARTE CONTEMPORÂNEA

Há livros que causam curiosidade antes de serem lançados pelo protagonismo do objeto de estudo. Este é o caso de Zanini vanguardas, desmaterialização, tecnologia na arte, textos do crítico, professor, historiador e curador, Walter Zanini, com organização de Eduardo de
Jesus, professor da Universidade Federal de Minas Gerais. O fecho intelectual da pesquisa resulta da estreita relação de Zanini com a vivência cotidiana da arte, revelando enigmas de sua fisionomia artístico intelectual.

O método Zanini de trabalhar inclui troca de experiência com os artistas e uma incansável forma de questionar o papel da arte. Dois momentos exemplificam essa prática: o laboratório de arte criado no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo MAC/USP (dirigido por ele desde a sua inauguração em 1963, onde abre espaço a
jovens artistas, à arte conceitual, arte postal, videoarte, performance e poéticas tecnológicas, até 1978) e, suas curadorias renovadoras na 16a e 17a edições da Bienal de
São Paulo. Foi ele quem instituiu a analogia de linguagem ao eliminar, definitivamente, o conceito de exposição das obras por países, compondo um grupo internacional de
críticos e curadores de museus para ajudá-lo nesta tarefa. O livro é uma investigação teórico-conceitual da presença das tecnologias na produção artística, no Brasil e no
exterior, a partir da passagem dos séculos 19 ao 20. Os textos revelam o olhar sistemático do crítico sobre a função reveladora da arte contemporânea, em um processo em constante mutação. Os textos mostram o avanço da arte, quando os processos artesanais de produção foram postos frente a frente às inovações tecnológicas e seus diversos canais. Há muito o que descobrir nessas camadas sobrepostas que têm como ponto de partida as experiências da Art Nouveau e da Deutsche Werkbund. A pesquisa passa por análises de movimentos das vanguardas históricas, como o futurismo italiano e o russo, dadaísmo
e construtivismo, chegando aos anos de 1980. Essa linha do tempo perpassa pela arte cinética, arte cibernética e eletrônica, crise do objeto, a contestação dos suportes
tradicionais e a evolução da videoarte.

O capítulo inaugural refere-se à arte e uma de suas questões de identidade. Da Arte Artesanal e Mecânica à Arte Eletrônica problematiza as interfaces entre arte e
tecnologia à luz de suas relações com as transformações da arquitetura e do design no século 19. Desse período seorigina o capítulo sequencial Arte cinética, o impulso para
o imaterial, aspectos da contribuição do cinema de artista e experimental. Vários grupos ligados ao movimento são citados como o Zero, de Dusseldorf, 1957, do qual partici-
pou o brasileiro Almir Mavignier; Recherche d ́Art Visuel (GRAV), de Paris, 1960, comandado pelo argentino Júlio Le Parc; MID de Milão,1964; Anonima, de Cleveland,1960,
entre outros. O trabalho de Abraham Palatnik no Brasil é só citado e, depois comentado em outro segmento. O cenário das exposições, a partir desse momento, muda substancialmente, misturando trabalhos tradicionais com realidades imagéticas inéditas que surgiam de novas máquinas, incorporando as múltiplas manifestações do
período caracterizadas pela imaterialidade. Em Impulso para o imaterial há o “incontestável reconhecimento da obra musical de John Cage” e de dois alunos preferidos: Robert Rauschenberg, seu também colaborador, e de Allan Kaprow, criador da arte corporal. A expressão “desmaterialização da arte” surgiu pela primeira vez com a crítica americana Lucy R. Lippard, em artigo assinado com John Chandler, em 1968. Em uma de suas entrevistas diz que “hoje tudo, incluindo a arte, existe dentro de uma situação política”. Esse olhar novo surgiu em Lippard, depois de uma viagem que ela fez à Argentina, em 1968, onde conheceu artistas engajados no movimento arte/ política, dentro dos acontecimentos de maio de 1968. O grupo CoBRA aparece nesse capítulo com destaque para Asger Jorn, e sua ideia de “laboratórios de estudos, como os institutos científicos”. O objetivo do artista dinamarquês era ensinar jovens a alcançarem não só resultados artísticos práticos como também crescerem no campo da teoria da arte. Os temas fragmentados, não longos, tentam demonstrar o pensamento de Zanini, sobretudo,
em dois segmentos aos quais ele se dedicou: a videoarte no Brasil, em que traça um histórico das primeiras experiências eletrônicas que surgem por aqui, entre 1969 e 1973. Enquanto nos Estados Unidos esse movimento já tomava corpo no final de 1960, no Brasil, por falta de recursos, se inicia tardiamente. Zanini comenta a arte e a tecnologia “como manifestações que remontam do período entre 1940 e 1950 com as experiências cibernéticas de Abraham Palatnik, precursor da complexa passagem dos procedimentos artesanais da arte no Brasil”. Não havia ferramenta portátil para os artistas nessa época dos imensos computadores IBM, quando um só deles ocupava uma sala de 50 metros quadrados.

“Waldemar Cordeiro, o pioneiro da arte por computador, associado ao físico Giorgio Moscati, demonstrou em 1969 os primeiros resultados de sua pesquisa, que teve
reconhecimento internacional, mas logo interrompida com sua morte em 1973”. Depois dele, outros artistas foram atraídos pela eletrônica como Wesley Duke Lee, Artur Barrio, Gabriel Borba Filho e Antonio Dias. E, entre os teóricos, Zanini comenta a participação de Vilém Flusser, intelectual checo, fundador da disciplina Teoria da comunicação, na Faap, do qual fui aluna. O discurso multimidiático de Flusser, teórico definido por Zanini como “o filósofo de aderência fenomenológica, identificado sobretudo a Heidegger”, atraiu artistas e teóricos de todo o mundo. Ao falar dos Primeiros tempos da arte/tecnologia no Brasil, Zanini observa que, sobre “sob influxos internacionais, as experiências comportamentais
foram logo seguidas pela rápida propagação do uso de audiovisuais e filmes super-8 e 16 mm, às vezes registros de ações conceituais”.

O intenso envolvimento do crítico com os problemas estruturais da arte contemporânea está refletido ao longo dessa coletânea, como uma espécie de fio condutor. Nos textos reunidos em Aspectos da contribuição do cinema de artista e experimental emerge o grupo de Milão, liderado por Lucio Fontana, argentino/italiano, autor do Manifesto del movimento spaziale per telezivione, 1952, exprimindo a convicção de que “a arte deveria se libertar de sua materialidade”. Entre os trabalhos citados aparece o do Grupo Fluxus, que Zanini trouxe à Bienal de São Paulo, em 1983, e colocou o Brasil em contato com a obra de Vostel. “A iniciativa de um vídeo do coreano Nam June Paik, em 1965, marca o momento inaugural da videoarte”, anota Zanini. Paik influenciou artistas como Vito Acconci, Bruce Nauman, Davidson Gilliotti. Também optaram pela videoarte Dan Graham, Dennis Oppenheim, Richard Serra, Bill Viola, Gary Hill e outros mais.

No conjunto, o livro reforça que Walter Zanini é um dos críticos brasileiros mais expressivos no comprometimento com a arte contemporânea mundial e seu trabalho, obra de consulta permanente.

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