Bienal do Mercosul
Rosana Paulino, Série Tecelã 4. Foto: Cortesia artista.

No dia 16 de abril foi aberta a 12ª edição da Bienal do Mercosul. Em pleno isolamento por causa da pandemia, a mostra não pôde abrir literalmente as portas para o público, mas resolveu respeitar o calendário previsto e adaptar a exposição para o mundo virtual. Essa iniciativa, ao mesmo tempo corajosa e arriscada, de certa forma virou a exposição ao avesso. O que deveria ser um grande encontro, marcado pela presença física, palpável, de um conjunto amplo de obras – muitas delas construídas in loco, em Porto Alegre –, acabou tornando-se uma conversa mais sutil, conceitual. A noção de coro, que muitas vezes é vital para uma exposição, acabou cedendo lugar para uma série de cantos solo, o que exige mais tempo de escuta, mas não chegou a afetar as linhas gerais que vinham conduzindo a pesquisa.

Rosana Paulino, Série Tecelã 4. Foto: Cortesia artista.

Intitulada Feminino(s): visualidades, ações e afetos, a Bienal 12 – como tem sido chamada – se propõe a mostrar uma visão plural, incorporando investigações poéticas, sensíveis, combativas e com forte componente autobiográfico, sobre o lugar social da mulher no mundo contemporâneo. Com 69 participações provenientes de 24 países diferentes, a seleção é bastante diversa. Pode ser considerada como um desdobramento da mostra Mulheres Radicais, antológica pesquisa sobre a produção artística das mulheres latino-americanas entre as décadas de 1960 e 1980 e que teve como co-curadora a argentina Andrea Giunta, que agora responde pela curadoria da Bienal 12. Além de incluir artistas consagradas já presentes na mostra histórica – que passou pela Pinacoteca do Estado em 2018 – como Carmela Gross, Vera Chaves Barcellos e Liliana Porter, Feminino(s) lança um olhar atento para a produção mais recente, incorporando questões como a necessidade de superar o conceito binário de sexualidade, acolhendo uma série de trabalhos que questionam estereótipos, denunciam qualquer forma de violência e abrem espaço para resgates identitários e de gênero. E, como núcleo de força, traz um conjunto amplo de artistas negras contemporâneas de origens diversas, como África e Caribe, mas sobretudo do Brasil.

Fabiana Lopes, pesquisadora que há mais de seis anos acompanha essa produção e foi convidada para ser uma das curadoras assistentes da 12ª Bienal do Mercosul, realizou uma ampla seleção com mais de 20 artistas afrodescendentes, com idades, questões e poéticas bastante distintas, muitas delas ainda pouco conhecidas no circuito nacional e latino-americano. Mesmo diante da impossibilidade de constatar o que resultaria da articulação desses trabalhos num mesmo espaço (questão que, segundo Fabiana, foi central ao longo do processo de seleção), o exame atento das propostas e das obras descortina uma produção potente e promissora. Há uma força de conjunto, um forte peso de aspectos como memória, ancestralidade, descolonização e crítica ao racismo, bem como poéticas e questões próprias e particulares, como a trama criada por Aline Motta combinando suas experiências na Nigéria e no Vale do Paraíba; o uso da cor como expansão de sentido, proposta por Juliana dos Santos; ou o “Jardim da Abolição”, projeto de Musa Mattiuzzi que reuniria 111 vasos com plantas de poder da cultura afro-brasileira, como forma de reativação de conhecimentos.

Janaína Barros, “Psicanálise do cafuné catinga de mulata”. Foto: Divulgação.

São muitos os trabalhos que partem da ideia de trama, bordado, novelo, aspectos vinculados à feminilidade e também à necessidade de resgate e construção de uma identidade. Helô Sanvoy, um dos poucos homens presentes na seleção, registra sua mãe contando histórias enquanto lhe faz tranças. Em “Bombril”, Priscila Resende usa os próprios cabelos para dar brilho em utensílios de cozinha, numa ironia ácida contra o preconceito racial. E a sul-africana Lungiswa Gqunta recobre de tecidos metros e metros de arame farpado, encapando-os e neutralizando seu poder de ferir, num processo que tem muito de proteção e cura.

Em suma, mesclam-se na Bienal – que exige tempo e paciência para  ser visitada virtualmente – um manancial de questões, que têm servido como fios condutores para o trabalho do setor educativo, sob a coordenação de Igor Simões. Se já tinha uma importância central na Bienal 12, o educativo acabou adquirindo um protagonismo ainda maior pelas circunstâncias de isolamento. Igor faz questão de ressaltar que o trabalho educativo é para o público em geral e não apenas para os professores, numa ação que se irradia pelos mais diferentes públicos e assumindo formas distintas, como propostas de intervenção e reflexão compartilhadas pelo site; organização de lives; o jornal virtual que reúne textos dos artistas e está disponível online. “Apostamos ainda na ideia de encontro”, diz ele.

Carmela Gross, “Rouge”. Foto: Divulgação

“Fizemos um esforço muito grande de criar ferramentas novas”, afirma Andrea Giunta. Segundo ela, essa decisão decorre do fato de que não temos nenhuma certeza do que irá acontecer. Há evidentemente um desejo de viabilizar alguma experiência concreta de exposição, seja com uma abertura tardia, seja por meio de encontros mais pontuais ou de itinerâncias. “Mas acho que o mundo da arte agora tem que ter uma responsabilidade com o presente. A normalidade não vai voltar tão cedo”, conclui. ✱

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