Minerais exportados pelo Brasil integram a obra "A cruz do sul", em que Aline Baiana faz crítica ao extrativismo. Foto: Mathias Voelzke Völzke

Para Lisette Lagnado, uma das quatro curadoras da 11a Bienal de Berlim, o novo coronavírus colocou ainda mais em evidência questões que o próprio evento, cuja abertura oficial aconteceu em 5 de setembro, com três meses de atraso, propusera-se a discutir em 2020. “Falávamos de necropolítica, fanatismo, patriarcado capitalista, extrativismo e devastação ecológica. A pandemia só veio aprofundar o fosso que separa os países do sul global do lugar onde a gente está”, ponderou Lisette em sua fala de abertura no VI Seminário Internacional Virtual ARTE!Brasileiros.

A conversa teve mediação do jornalista Fabio Cypriano, com a participação também do espanhol Agustín Pérez Rubio (da equipe curatorial da bienal berlinense, ao lado de Lisette, da chilena María Berríos e da argentina Renata Cervetto) e de dois dos artistas selecionados para a exposição, a brasileira Aline Baiana e o guatemalteco Edgar Calel.

Ainda na abertura, Lisette manifestou certo incômodo com o subtítulo do seminário, A arte do possível. “Nosso trabalho como produtores e agentes de cultura é sempre lidar com o impossível”, disse. “É muito difícil colocar o conceito de solidariedade quando uma bienal internacional, europeia, anuncia suas datas de realização, a despeito de os artistas ainda estarem em lockdown nos países do sul global. Queria chamar a atenção para a violência intrínseca para a decisão inicial de fazer a bienal acontecer em 2020”.

Para a curadora, o “capítulo mais substancial da bienal” – cujo epílogo, intitulado The crack begins within (a ruptura começa por dentro), será exibido até 1o de novembro na capital alemã – havia sido aberto em setembro de 2019, com oficinas, pequenas exposições e performances, no bairro berlinense Wedding, num espaço que propunha escuta e troca com os moradores do lugar, na maioria imigrantes.

“Havia toda uma dinâmica de estarmos juntos e de repente fomos interrompidos nesta maneira de trabalhar”. Foi necessário, continuou a curadora, criar o que ela chama de protocolo ético: “Dizer que não cederíamos nenhum centímetro em nossa posição e, nesse sentido, a palavra possível é perigosa porque ela pode parecer oportunista. Rosa Luxemburgo dizia que o oportunismo é a arte do possível. E quero insistir que, ao fazer bienal nessas condições, temos que nos preocupar com nossos próprios princípios. E não nos dobrar àqueles ditados por uma situação de exceção.”

Artista ativista

No seminário virtual, Lisette exemplificou o peso político da mostra apresentando, inicialmente, a americana Marwa Arsanios e sua trilogia Quem tem medo da ideologia?. A obra reflete, contou a curadora, um feminismo ecológico q

ue desde 2017 marca o trabalho de Marwa, junto a mulheres que participam de movimentos de luta pela terra, em lugares como o norte da Síria e a Colômbia.

“[É algo que] recontextualiza um feminismo dos anos 1990, que escamoteou a análise ideológica afirmando que a igualdade de gênero já era uma etapa vencida”, disse. “Com esta crítica, Marwa foi buscar um feminismo para além de um tipo de vida liberal da classe média, que ela encontrou na militância ecológica. Neste filme, a área rural é o território onde se dá a luta pela terra e onde estas mulheres são também guardiãs das sementes, das fontes de água e da biodiversidade. Nós vemos aí um exemplo da figura de artista cuidadora e ativista.”

Cena da obra “Quem tem medo de ideologia?”, de Marwa Arsanios. Foto: Reprodução

O ativismo de Marwa acaba encontrando ecos na esfera da arte contemporânea, também regulada pela lógica do extrativismo, assinalou a curadora. “Trago, como ela, a preocupação de evitar a transformação dessas vidas precarizadas em mercadorias cultuadas nas bienais internacionais. Como evitar que a apropriação destes saberes genuínos se transformem em outra coisa a partir da exploração de mazelas alheias”.

A cruz do colonialismo 

Aline Baiana começou sua participação questionando a dificuldade, por parte da ciência, de perceber o conhecimento afrobrasileiro ou indígena como tal, relegando-se à essas perspectivas um caráter fabular, muitas vezes em livros infantis.

“O que tento fazer com meu trabalho é compartilhar estes entendimentos de mundo e tensioná-los com o entendimento ocidental, hegemônico […] uma forma de colaborar para a luta anticolonial”, explica Aline, que apresenta em Berlim a instalação A cruz do sul.

“Este trabalho começou, enquanto ideia, quando aconteceu o crime ambiental em Mariana [o rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019]. Fiquei chocada e perturbada vendo aquelas imagens do rio morto por uma empresa que já levou seu nome [Vale do Rio Doce], que me fizeram pensar neste lugar de exploração infinita que o Brasil e outros países do sul ocupam. E como os riscos da mineração são obliterados do produto final, ficam para as populações.”

A escolha do nome da obra também continha uma crítica: a constelação, símbolo do Mercosul e presente em bandeiras de muitos países do hemisfério, representada como cruz, a partir de uma perspectiva cristã, num ato colonizador.

Aline também explicou porque a ideia de “arte do possível” a incomodou, lembrando-se de duas frases: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, do britânico Mark Fisher, no livro Realismo capitalista. E “Vivemos no capitalismo, seu poder parece inescapável – mas até aí, o direito divino dos reis também parecia. Qualquer poder humano pode ser resistido e mudado por seres humanos. A resistência e a mudança começam frequentemente na arte”, da americana Ursula K. Le Guin. “O que eu penso como artista é o que o papel da arte seja talvez o de provocar reconexões, a imaginar outras possibilidades”, concluiu Aline.

Ancestralidade e resistência

Em sua fala, Edgar Calel ponderou inicialmente que somos produto da natureza e das culturas antigas do mundo, como aquela em que nasceu e cresceu na Guatemala. O artista leu então o trecho de um relato sobre a criação do universo segundo o Popol Vuh, registro documental maia do século 16.

“Sob este panorama de literatura indígena ancestral, me parece interessante como, por meio da arte, as pessoas, conseguem atravessar diferentes espaços físicos e de tempo, e com isso unimos as situações antigas e as contemporâneas, com a necessidade de escutar o passado para projetar o futuro. Parte do meu trabalho é fazer estes percursos físicos e temporais também”, disse Edgar.

O artista Edgar Calel veste pele de onça em ritual ancestral no prédio da Bienal em São Paulo
Acima, a performance decolonizadora de Edgar Calel, que veste pele de onça em ritual ancestral no prédio da Bienal (SP)

O artista levou à mostra berlinense o vídeo Sueño de obsidiana, feito em colaboração com o paulista Fernando Pereira Santos. Nele, Edgar representa um ritual indígena ligado à terra, tendo como cenário um dos ícones da arquitetura modernista brasileira, o prédio da Bienal, em São Paulo. Com a pele de uma onça, seu espírito animal segundo a tradição guatemalteca, ou um suéter azul, que está exposto na daadgalerie, e em que costurou os nomes de idiomas indígenas de seu país, o artista fala de resistência anticolonial por meio da reconexão com a ancestralidade.

“Fazer esta caminhada naquele edifício de concreto, sendo um indígena de ascendência maia, é uma afirmação sobre a destruição dos limites, das fronteiras impostas entre países como Brasil, Paraguai, Bolívia etc. Somos todos um. Isso, para mim, é algo fundamental, que devemos contribuir para este outro mundo possível”, argumentou.

Deus e o diabo

“Esta é uma bienal de capital sensível, de capital de relações”, ressaltou Agustín Pérez Rubio, ao começar sua participação. “E também o que talvez a pandemia tenha nos feito valorizá-la mais, uma ideia de cura, de curador, não somente de se sanar nada, mas acompanhar, cuidar”, disse.

Agustín recorreu à imagem de Edgar vestido com a pele de onça, no prédio da Bienal, para falar de outro recorte da mostra berlinense: o fanatismo e o deus do capitalismo, da internet e, no caso da obra do artista guatemalteco, uma ideia de igreja da arte contemporânea, incorporada pela construção modernista. Segundo ele, é importante abrir frestas em instituições como a bienal e os museus, para estas questões: “Para que artistas como Edgar nos mostre como, num ícone da modernidade brasileira, está implícita a negação de um conhecimento, que foi segregado durante anos”, argumenta Agustín.

O curador em seguida mencionou o trabalho de Antonio Pichillá, também da Guatemala, apresentado na mostra berlinense: o vídeo Ação de um personagem árvore, em exibição no Gropius Bau, que abriga o segmento O museu invertido da bienal, uma tentativa de “contra-narrativa” à perspectiva eurocêntrica sobre a arte. “Para entender como esta visão colonial é perpetuada pelas instituições”, disse Agustín, citando o Humboldt Forum, espaço museológico que será aberto ainda este ano em Berlim.

Agustín também criticou a recepção das obras por parte de jornalistas alemães: “Eles só podem ver a etnografia destes trabalhos e não conseguem considerá-los a partir de uma raiz filosófica, estética e artística como trabalhos contemporâneos. Ou, para eles, são obras com algo de esotérico. É muito interessante ver que todos estes críticos e a cultura alemã deixaram que este racismo e esta maneira de ver a alteridade fossem perpetuados, a partir de sua etnografia eurocêntrica”, afirmou. “E como na Alemanha o esoterismo está muito próximo da extrema direita, preferem quase não falar destes trabalhos”.

Demolição, retribuição

Como evitar, então, o extrativismo de bienais e outros eventos culturais? Como o quarteto curatorial da mostra de Berlim lidou com a questão? “O patriarcado, as mazelas coloniais, estão nos sufocando, e temos que reagir mesmo com violência. Por outro lado, há uma questão do cuidado. Então, como ser violento e, ao mesmo tempo, acolher outras vozes e estas vidas mais vulneráveis? O que sempre me guia é um misto de intuição com ética. E nesse sentido escutar tem sido nossa bússola”. Para Agustín, além da escuta, uma maneira não extrativista seria entender que você toma algo, mas também retribui. “A ideia de  restituição, com os artistas, as comunidades, os museus vulneráveis”, concluiu.

Estratégias do possível

Em videoconferência do Goethe-Institut, o argentino Osías Yanov e a brasileira Castiel Vitorino falaram sobre as obras que exibiram em Berlim

Para complementar o seminário aberto, o Goethe-Institut Rio realizou também uma videoconferência especialmente organizada para um grupo de convidados que não conseguiram viajar na ocasião da abertura da 11a Bienal de Berlim, em setembro. Dentre eles, curadores, artistas e gestores de diferentes museus e das diferentes unidades do Goethe-Institut da América latina. Neste dia participaram, além dos curadores, os artistas Osías Yanov (Argentina) e Castiel Vitorino (Brasil).

Em Berlim, Osías participou do espaço dedicado a experimentações da mostra, o ExRotaprint. Parte de seu projeto foi comprometido pelas restrições sanitárias da pandemia, entre eles seus exercícios grupais, que já fizera na Argentina, numa reflexão sobre a repressão dos corpos, entre outras questões.

Trabalho de Osías Yanov apresentado no seminário. Foto: Divulgação

O artista buscou manter o necessário contato à distância com seu grupo de performers, que faziam desenhos e liam contos. Os resultados foram apresentados na bienal, junto a elementos caros à sua pesquisa artística: colheres – cucharitas – que remetem ao ato de dormir abraçado com alguém, e apareceram em formas escultóricas, e o sal – substância ligada à noção de purificação e cura. Por meio de alto-falantes, o registro sonoro das leituras fazia vibrar mesas de acrílicos no chão, criando desenhos no sal em contato com elas.

Lisette Lagnado ressaltou a importância da escuta no trabalho de Osías e mencionou outra experimentação feita em ExRotaprint com o coletivo feminista FCNN, que discutiu o espaço institucional que a arte deixa para jovens artistas mães, que não têm onde deixar seus filhos. A presença da mulher na bienal, em luta contra o patriarcado, também é um dos temas importantes da exposição. Em Berlim, a curadora teve a oportunidade de ler um livro sobre maternidade, da egípcia Iman Mersal, que trazia a ideia de uma criança destruir os possíveis devires da mãe, com a pressa de alcançar o novo mundo. “Era algo que estávamos sentindo em relação à bienal, diante da pandemia, e tomamos emprestado esta noção de rachadura, fissura, para o título.”

Trabalho de Castiel Vitorino apresentado no seminário. Foto: Divulgação

Já Castiel levou a Berlim uma série de fotografias em que aparece usando máscaras compradas num antiquário de Santos (SP), vendidas como sendo africanas, mas, na verdade, feitas por um amigo do dono da loja. Com a obra, a artista expõe a exotização do discurso colonizador sobre as culturas do continente. “Com a fotografia, tento criar imagens para me fazer lembrar da possibilidade de viver não circunscrita e ordenada pela mitologia racial”, disse.

 

 

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