Kombi de JA.CA
A Kombi utilizada para o projeto Dispositivo Móvel para Ações Compartilhadas (2015). Foto: Divulgação

Procurar uma definição única que explique o que é o JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia é uma tarefa ingrata. Espaço independente de arte; coletivo artístico; organização sem fins lucrativos; espaço de residências; centro de educação e pesquisa; associação voltada à gestão cultural; e várias outras definições poderiam ser usadas. E nenhuma estaria errada. Oficialmente, é possível afirmar que o JA.CA – com nome derivado de Jardim Canadá, bairro de Nova Lima (MG) onde nasceu – surgiu como uma proposta de projeto de pós-graduação sobre práticas coletivas e é hoje uma Organização da Sociedade Civil. Mas isso diz muito pouco sobre a sua atuação, que será expandida com a inauguração de um espaço em Belo Horizonte, o Arrudas, em parceria com a galeria Periscópio.

“As pessoas ficaram muito tempo para entender  o que era o JA.CA. A gente queria que fosse um laboratório, lugar de pesquisa, mas no começo acabava funcionando mais como galeria. Demoramos para nos colocar exatamente como queríamos”

Francisca Caporali

“De modo amplo, entendemos o JA.CA como um espaço de formação. Mas a beleza de participar de um projeto como esse é que podemos ter poucas certezas e trabalhar com mais duvidas. Ou seja, hoje nos entendemos e praticamos um modo que pode ser drasticamente alterado em outro momento”, afirma Caporali. De fato, o JA.CA já mudou de endereço, diminuiu ou cresceu seu tamanho diversas vezes e desenvolveu variadas estratégias de sobrevivência ao longo dos anos, por vezes de modo mais experimental, por outras em diálogo mais próximo a um universo de prestação de serviços.    

Para entender tamanha pluralidade e elasticidade, é preciso percorrer brevemente a história do espaço. Concebido por Francisca Caporali quando cursava o mestrado em Nova York, o JA.CA foi inaugurado em 2010, quando a artista voltou à Belo Horizonte e se juntou aos amigos Pedro Mendes e Xandro Gontijo. Com verbas captadas pela Lei Rouanet, o trio abriu o espaço no Jardim Canadá, bairro de história bastante peculiar na cidade de Nova Lima, parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, e iniciou suas atividades que incluíam principalmente residências e exposições. “As pessoas ficaram muito tempo para entender o que era o JA.CA. A gente queria que fosse um laboratório, um lugar de pesquisa, mas no começo acabava funcionando mais como uma galeria. Até porque os artistas quando entram em um espaço assim logo pensam em montar uma exposição. E demoramos para nos colocar exatamente do modo que queríamos”, explica Caporali.

A equipe do JA.CA em sua sede no Jardim Canadá, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
A equipe do JA.CA em sua sede no Jardim Canadá, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Foto: Divulgação

A escolha do Jardim Canadá se deu por conta das relações de origem familiar que os três fundadores possuíam com o local. A história do bairro remonta aos anos 1950, quando foi lançado o loteamento, mas por falta de infraestrutura a região só passou a ter uma ocupação intensa nos anos 1980. Mais próximo da zona sul de Belo Horizonte do que do centro de Nova Lima, o Jardim Canadá encontra-se incrustrado entre as margens de um parque natural, uma área de mineração, condomínios de luxo e uma rodovia federal. A ocupação inicial, com moradias de empregados dos condomínios, galpões industriais e serviços ligados à rodovia se diversificou com o tempo. “É um lugar estranho, que viveu um processo de especulação intenso, mas que nunca acontece totalmente. Hoje é muito mais urbanizado do que há dez anos, sendo um bairro que encontrou também uma vocação da cerveja artesanal e da gastronomia. Mas é um local com muita desigualdade interna e cheio de paradoxos”, conta Caporali.

Novos caminhos

A partir de uma compreensão melhor do entorno, o JA.CA percebeu que a enorme quantidade de resíduos gerados pelas empresas, mineradoras e condomínios poderiam se tornar material de trabalho, tanto para os artistas residentes quanto para os projetos próprios do espaço. Nesse cenário, a criação da marcenaria, em 2012, e a entrada de Mateus Mesquita – Pedro e Xandro acabaram se afastando, o primeiro para tocar a galeria Mendes Wood –, além de parcerias com estudantes de arquitetura da UFMG, abriram novos caminhos de experimentação para o JA.CA. São dessa época projetos como o Ponto de Ônibus Expandido, realizado com madeira descartada no bairro, e o DESEJA.CA, que utilizou materiais para projetos de marcenaria, tecelagem, estamparia e design.

A mudança do JA.CA para a sede atual, após aumento exorbitante no aluguel do antigo espaço com o asfaltamento da rua na qual se localizava, ocorreu em 2014, a partir da construção em novo terreno do mesmo bairro de um espaço dividido em seis containers. Pensada de maneira transportável ou desmontável, a sede se torna menos vulnerável à especulação imobiliária que já fez o JA.CA mudar de lugar duas vezes. Marcenaria, biblioteca, área de convivência, cozinha e todos os espaços poderão ser transportados com relativa facilidade caso haja necessidade.

Kombi de JA.CA
A Kombi utilizada para o projeto Dispositivo Móvel para Ações Compartilhadas (2015). Foto: Divulgação

A aproximação de Caporali com Samantha Moreira – fundadora do Ateliê Aberto (1997) em Campinas, um dos mais longevos espaços autônomos do país – se deu mais intensamente a partir do Indie. Gestão, criado em conjunto pelos dois espaços e realizado em 2014. O projeto, financiado através de uma premiação da Funarte, se propôs a mapear espaços de gestão independente – em uma época em que existiam muitos deles, antes da crise e do desmonte cultural no país – em diferentes cidades e colocá-los em diálogo em uma “residência artística”. Ou seja, ao invés de fazer uma residência de artistas, foi organizada uma residência com representantes destes “espaços intencionais”, como foram chamados à época.

“Uma coisa muito forte nos espaços independentes são as festas, a cozinha, esse lugar afetivo que toda casa tem. É nesse fazer junto, no cozinhar, nas conversas informais, que acontecem muitas aproximações, muitas parcerias”, explica Moreira. Desse modo, toda a residência foi pensada a partir da comida, “da digestão e da indigestão”, para, na verdade, discutir a gestão de espaços independentes – suas potências, estrutura, formação de equipes, projetos, sustentabilidade etc. “E como ter um espaço destes é ter que fazer de tudo, se desdobrar, o subtítulo do projeto era ‘como assobiar e chupar cana ao mesmo tempo’.”

Peças de marcenaria produzidas para o projeto DESEJA.CA, em 2011.
Peças de marcenaria produzidas para o projeto DESEJA.CA, em 2011. Foto: Divulgação

Outros projetos marcantes do JA.CA ao longo dos anos seguintes foram o Dispositivo Móvel para Ações Compartilhadas (2015) e o Praça Viva (2016). No primeiro, a partir da compra de uma Kombi e da aprovação no edital Rumos Itaú Cultural, seis artistas (ligados também à gastronomia, arquitetura e outras áreas) foram selecionados para uma residência de 60 dias para desenvolver ações itinerantes com a Kombi. “Fizemos projeções de filmes, performances, uma escola portátil, cozinha. Isso permitia sair da sede e amplificar as ações: não a comunidade indo até o JA.CA, mas nós e os artistas indo até a comunidade”, diz Moreira.

Já em Praça Viva (2016), o JA.CA se associou a professores e alunos da Escola Municipal Benvinda Pinto Rocha para ocupar uma área pública que deveria ser uma praça – segundo o planejamento urbano do bairro – mas que era utilizada como estacionamento de caminhões. Após negociar com empresas, o JA.CA se utilizou de materiais descartados no bairro para, ao lado das crianças,  finalmente transformar o espaço em uma praça pública.

Grandes passos

Ao longo dos anos, além dos projetos no bairro, o JA.CA expandiu suas atividades para fora do Jardim Canadá, seja em Belo Horizonte ou em parcerias com instituições de outras cidades. Houve, por exemplo, a criação de um espaço para ateliês de artistas no centro da capital mineira, além da organização de debates, palestras ou mostras de audiovisual em diferentes locais. Todo o processo e o aprendizado de anos culminou, no final de 2017, na aprovação de um projeto do JA.CA para realizar o projeto educativo dos quatro espaços do CCBB, em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. “Passamos de menos de 10 pessoas para cerca de 100”, conta Caporali, reafirmando mais uma vez a necessidade do JA.CA de se adaptar a novas circunstancias.

“Nós duas temos essa formação artística e já tivemos nossos trabalhos autorais. Nesse momento queremos estar mais em projetos coletivos do que individuais, mas não deixamos de pensar isso tudo como nossos trabalhos de arte”

Samantha Moreira

Para o trabalho com o CCBB, o JA.CA aprofundou sua atuação na área pedagógica e, por mais que vinculado a uma grande instituição com regras e diretrizes próprias, não deixou de carregar sua bagagem como um espaço independente e experimental de arte – inclusive levando artistas e curadores para os processos no CCBB. “Temos que entender como atuar em cada lugar, mas sempre mantendo uma coerência e uma autonomia de trabalho. E acreditamos muito nesse lugar do encontro, da convivência, que rege todos os nosso projetos”, diz Moreira.

Ainda em 2018, outra novidade foi a escolha do JA.CA, a partir de um edital da prefeitura de Belo Horizonte, para coordenar a 7a edição da Bolsa Pampulha, vinculado ao Museu de Arte da Pampulha. Com a seleção de dez artistas participantes, o JA.CA coordenou os seis meses de atuação dos artistas ao lado dos curadoras Julia Rebouças, Beatriz Lemos e Monica Hoff.

Visita de crianças com o Educativo do CCBB
Visita de crianças com o Educativo do CCBB. Foto: Divulgação

Em todos esses projetos, seja em um trabalho com a comunidade, em uma residência no Jardim Canadá, no CCBB ou na Bolsa Pampulha, Moreira e Caporali ressaltam o desejo de acompanhar de perto e participar de modo criativo de todos os processo. “Pois entendemos tudo isso também como nossos trabalhos artísticos. Nós duas temos essa formação artística e já tivemos nossos trabalhos autorais. Nesse momento queremos estar mais em projetos coletivos do que individuais, mas não deixamos de pensar isso tudo como nossos trabalhos de arte. São nossas experimentações, necessidades, desejos”, diz Moreira.

Caporali afirma, também, que apesar deste foco atual em trabalhos de administração e gestão, o JA.CA nunca teve um funcionamento tão forte no sentido de ser uma espécie de coletivo artístico. Ela e Moreira ressaltam, neste ponto, a necessidade de citar nesta matéria o nome dos outros integrantes do grupo, para além delas duas e de Mateus: Marcio Gabrich, Artur Souza, Sarah Matos, Daniel Toledo, além dos diversos parceiros que se juntaram ao longo dos anos. “Por vivermos nesses tempos de gangorra política e econômica, entendemos que é esse lugar afetivo que nos segura nesses momentos de esvaziamento de grana, por exemplo”, diz Caporali. “E se existe hoje um momento sombrio, é hora de reforçar os encontros, pensar nos projetos possíveis. Fica claro que nesse contexto passa a ser ainda mais importante resistir.” E é neste sentido que o JA.CA inaugura o Arrudas, seu novo espaço para ateliês, debates, exposições e encontros no centro de Belo Horizonte. 

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