Escultura de Marcelo Nitsche no Parque Geminiano Momesso. Foto: Gabriel Teixeira
Escultura de Marcelo Nitsche no Parque Geminiano Momesso. Foto: Gabriel Teixeira

De Norte a Sul, o circuito de arte nacional vem passando por uma benfazeja descentralização: em 2022, a Pinacoteca do Ceará abriu suas portas em Fortaleza e o Espírito Santo inaugurou o Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha. E, no ano passado, eventos como a 1ª Bienal das Amazônias e a exposição itinerante Nordeste Expandido: estratégias de (re) existir mostraram que o olho precisa viajar, como sentenciou a mítica editora de moda Diana Vreeland (1903-1989).

No recém-findo 2023, foi a vez do Paraná dar sua contribuição para esse necessário deslocamento do eixo Rio-São Paulo com o anúncio da inauguração do Parque Geminiano Momesso, um museu a céu aberto, em Ibiporã, a cerca de 25km de Londrina (PR), criado pelo empresário e colecionador Orandi Momesso. A abertura foi marcada pela apresentação da escultura Espaço Arco-Íris, de Yutaka Toyota. O monumento concebido pelo artista nipo-brasileiro é composto de duas partes iguais: uma primeira foi implementada em 1995, na cidade de Yokohama, no Japão. Em tempo: a região onde fica o Parque tem uma das maiores comunidades de origem japonesa do país.

Dos 12 pavilhões previstos, dois já foram revelados: um deles é dedicado ao escultor paulista Angelo Venosa (1954-2022); o outro, vai abrigar urnas funerárias pré-cabralinas, objetos de engenho, arte popular, sacra, de povos originários, mobiliário, carrancas etc. Há também um plano de ser erguer um local para exposições temporárias, que levará o nome do pintor Raphael Galvez, e vai exibir suas obras nos intervalos entre as mostras. A arquitetura dos equipamentos foi projetada pelo escritório paulistano Reinach Mendonça. Quando estiverem prontos, os pavilhões vão receber cerca de 80% da coleção. O Parque Geminiano Momesso está programado para ser aberto ao público em 2025.

A COLEÇÃO
Momesso iniciou sua coleção há cerca de cinco décadas, numa mescla de obras de artistas brasileiros ou de estrangeiros para que vieram para o país e “construíram sua poética dentro com um olhar brasileiro”, diz. “É um conjunto muito eclético, como é a minha cabeça, a minha alma”.

Habitué de instituições como o MAM paulista, a Pinacoteca e o Museu de Arte Contemporânea (MAC), entre outros, Momesso também passou a estudar arte brasileira, fazendo “visitas praticamente diárias a galerias e antiquários”, terminando por ficar amigo de marchands em São Paulo e no Rio. De início, seus olhos se voltavam mais para as pinturas a óleo sobre tela, madeira e papel, assim como os desenhos.

“Um artista que me fascinou desde sempre foi o Oswaldo Goeldi [1895-1961]. Foi dele um dos primeiros trabalhos que eu adquiri. Depois a poética de Volpi [1896-1988] me chamou muito a atenção. Então fui vendo coleções de amigos e me interessando pela arte dos povos originários, como as urnas funerárias, pela arte sacra, pela prataria voltada aos cultos religiosos dos séculos XVII e XVIII”, conta Momesso.

Em uma fase posterior de seu colecionismo, Momesso passou a frequentar ateliês de artistas, como o pintor, escultor e desenhista Raphael Galvez (1907-1998), em São Paulo; o pintor, desenhista e muralista Martinho de Haro (1907-1988), em Santa Catarina, e o pintor Iberê Camargo (1914-1994), no Rio Grande do Sul, de quem o empresário tem 13 trabalhos “da mais alta criatividade”, assevera. “Ele foi um dos maiores artistas do Brasil, mas ainda não reconhecido pelo grande público o suficiente”, afirma.

A partir dos anos 1980, Momesso passou a se interessar pela produção do pintor, desenhista e ilustrador Paulo Pasta, assim como dos integrantes do ateliê Casa 7, a exemplo do pintor, gravador e artista gráfico Rodrigo Andrade, e do pintor, gravador e fotógrafo Fabio Miguez. No Rio, aproximou-se de marchands como Jean Boghici (1928-2015), e ainda Giovanna e Alfredo Bonino. E em São Paulo, de Peter Cohn, da Dan Galeria, onde afirma ter comprado seu primeiro Volpi, além de trabalhos de Chen Kong Fang (1931-2012), “um artista extraordinário”.

O colecionador afirma que museus e curadores sempre requisitaram obras de seu acervo, para exposições como a grandiosa Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, apresentada em 2000 em espaços diversos do Parque Ibirapuera. Ele conta ainda que muitos críticos propõem que ele faça uma mostra com um recorte de sua coleção, mas considera “trabalhoso”. “Agora, com 74 anos, resolvi mostrar grande parte da coleção”.

A GÊNESE DO PARQUE
A fazenda onde o Parque Geminiano Momesso está sendo construído pertence há cerca de 20 anos ao empresário. Na área de 1,355 milhão de metros quadrados, 121 mil metros quadrados são mata virgem, onde corre o Rio Tibagi, um dos mais importantes da região, porém bastante assoreado naquele trecho. Daí o convite, há 14 anos, para o paisagista Rodolfo Geiser conceber o projeto de um novo cenário natural no terreno. Em seguida, Momesso distribuiu pela área esculturas pertencentes a sua coleção. Hoje já chegam a 60.
Para a fundação do parque em si, Momesso criou o Instituto Luciano Momesso, uma organização sem fins lucrativos, que terá a responsabilidade de administrar o futuro museu a céu aberto, e cujo nome presta homenagem a seu sobrinho, Luciano. Era ele quem cuidava da coleção do empresário – em que se destacam obras de Emanoel Araújo, José Resende, Nicolas Vlavianos, Rubem Valentin e Victor Brecheret, entre outras – e da relação com museus, críticos, curadores etc. Luciano morreu precocemente, há cerca de dois anos.
“Ele sempre me perguntava ‘padrinho, o que vai acontecer com esta coleção quando o senhor se for?’. Ocorre que ele partiu primeiro, muito jovem. Eu senti muito, sofri muito, e por isso estou realmente mais afoito para abrir logo o parque ao público, e termos lá uma vida cultural intensa”, diz Momesso, incansável. “Eu estou envolvido 24h com o projeto. Até se estou dormindo, estou sonhando com o parque.”
Os próximos passos de Momesso e sua equipe são a construção, a partir de fevereiro, de uma recepção, um restaurante, uma loja, uma biblioteca e um auditório. E acelerar a finalização de mais três pavilhões, “porque o recheio nós já temos. Só estão faltando as paredes, né?”. Momesso afirma que contratou mais engenheiros após a inauguração da escultura de Toyota porque tem pressa.
“Eu estou neste trem que é a vida, em que uns sobem e outros descem, e quero ficar mais uns 30 anos se a saúde permitir, para que eu possa olhar nos olhos das pessoas que lá irão admirar o parque e as obras com a mesma alegria, eu espero, que eu sentia ao me deparar com elas”, conclui.

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