De Norte a Sul, o circuito de arte nacional vem passando por uma benfazeja descentralização: em 2022, a Pinacoteca do Ceará abriu suas portas em Fortaleza e o Espírito Santo inaugurou o Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha. E, no ano passado, eventos como a 1ª Bienal das Amazônias e a exposição itinerante Nordeste Expandido: estratégias de (re) existir mostraram que o olho precisa viajar, como sentenciou a mítica editora de moda Diana Vreeland (1903-1989).
No recém-findo 2023, foi a vez do Paraná dar sua contribuição para esse necessário deslocamento do eixo Rio-São Paulo com o anúncio da inauguração do Parque Geminiano Momesso, um museu a céu aberto, em Ibiporã, a cerca de 25km de Londrina (PR), criado pelo empresário e colecionador Orandi Momesso. A abertura foi marcada pela apresentação da escultura Espaço Arco-Íris, de Yutaka Toyota. O monumento concebido pelo artista nipo-brasileiro é composto de duas partes iguais: uma primeira foi implementada em 1995, na cidade de Yokohama, no Japão. Em tempo: a região onde fica o Parque tem uma das maiores comunidades de origem japonesa do país.
Dos 12 pavilhões previstos, dois já foram revelados: um deles é dedicado ao escultor paulista Angelo Venosa (1954-2022); o outro, vai abrigar urnas funerárias pré-cabralinas, objetos de engenho, arte popular, sacra, de povos originários, mobiliário, carrancas etc. Há também um plano de ser erguer um local para exposições temporárias, que levará o nome do pintor Raphael Galvez, e vai exibir suas obras nos intervalos entre as mostras. A arquitetura dos equipamentos foi projetada pelo escritório paulistano Reinach Mendonça. Quando estiverem prontos, os pavilhões vão receber cerca de 80% da coleção. O Parque Geminiano Momesso está programado para ser aberto ao público em 2025.
A COLEÇÃO
Habitué de instituições como o MAM paulista, a Pinacoteca e o Museu de Arte Contemporânea (MAC), entre outros, Momesso também passou a estudar arte brasileira, fazendo “visitas praticamente diárias a galerias e antiquários”, terminando por ficar amigo de marchands em São Paulo e no Rio. De início, seus olhos se voltavam mais para as pinturas a óleo sobre tela, madeira e papel, assim como os desenhos.
Em uma fase posterior de seu colecionismo, Momesso passou a frequentar ateliês de artistas, como o pintor, escultor e desenhista Raphael Galvez (1907-1998), em São Paulo; o pintor, desenhista e muralista Martinho de Haro (1907-1988), em Santa Catarina, e o pintor Iberê Camargo (1914-1994), no Rio Grande do Sul, de quem o empresário tem 13 trabalhos “da mais alta criatividade”, assevera. “Ele foi um dos maiores artistas do Brasil, mas ainda não reconhecido pelo grande público o suficiente”, afirma.
A partir dos anos 1980, Momesso passou a se interessar pela produção do pintor, desenhista e ilustrador Paulo Pasta, assim como dos integrantes do ateliê Casa 7, a exemplo do pintor, gravador e artista gráfico Rodrigo Andrade, e do pintor, gravador e fotógrafo Fabio Miguez. No Rio, aproximou-se de marchands como Jean Boghici (1928-2015), e ainda Giovanna e Alfredo Bonino. E em São Paulo, de Peter Cohn, da Dan Galeria, onde afirma ter comprado seu primeiro Volpi, além de trabalhos de Chen Kong Fang (1931-2012), “um artista extraordinário”.
O colecionador afirma que museus e curadores sempre requisitaram obras de seu acervo, para exposições como a grandiosa Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, apresentada em 2000 em espaços diversos do Parque Ibirapuera. Ele conta ainda que muitos críticos propõem que ele faça uma mostra com um recorte de sua coleção, mas considera “trabalhoso”. “Agora, com 74 anos, resolvi mostrar grande parte da coleção”.





