Ti’Iwan Couchili, Guiana Francesa, Otsenene, Ma’ekom | Bienal das Amazônias
Ti’Iwan Couchili, Guiana Francesa, Otsenene, Ma’ekom, 2016, fazendo referência aos suicídeos do povo indígena. Fotos: Nailana Thiely/acervo Bienal das Amazônias

Idealizada por Lívia Condurú, em parceria com as curadoras Sandra Benites, Keyna Eleison e Vânia Leal – e com a assistência curatorial dos “múltiplos pensatórios”, de Ana Clara Simões Lopes e Débora Oliveira – a primeira Bienal das Amazônias aconteceu entre o meses de agosto e novembro de 2023, na cidade de Belém, no Pará, às margens do Rio Guamá.

Um verdadeiro encontro de mulheres fortes, com diferentes identidades e saberes, deu à luz um projeto que levou o nome derivado da língua tupi, Sapukai, que em português podemos traduzir como clamor, grito, trabalhar por adição e não por extração, ampliação e abraço.

Um diálogo entre a direção, as curadoras, os artistas e os produtores, operou uma força coletiva e fez associações respeitando a voz de uma enorme quantidade de gestos peculiares vindos de vários lugares, às vezes nunca revelados do Brasil. Basicamente, a mostra desperta a vontade de mergulhar nesse mundo, povoado de ancestrais e árvores milenares. Belém é banhada pelos rios, e o vento, permanente, alivia o calor da região.
Um dos conceitos que sustentou a Bienal é o fato de a Amazônia ser conhecida pelas suas grandes áreas florestais e por suas fauna e flora diversas, mas é a presença da água – vinda das chuvas e de sua extensa rede fluvial – que contorna o imaginário da região. Daí o título da primeira edição, Bubuia: águas como fonte de imaginações e desejos, que celebra a relação ética e cultural entre as águas e os corpos que nela se movem.

A Bubuia é diretamente inspirada no dibubuísmo criado e defendido pelo filósofo e professor João de Jesus Paes Loureiro, nascido em Abaetetuba, cidade paraense [Leia, nesta edição, a íntegra da entrevista exclusiva com Paes Loureiro]. Flutuar sobre as águas, diz o texto curatorial da mostra, simboliza “uma conjugação de movimento e inércia em favor do prazer, da reflexão e da integração com o meio ambiente, e diz muito sobre a perseverança e resistência de quem habita a região. É certa predisposição calculada para o devir e para o deixar vir, que se estabelece como conhecimento de herança constituinte de saberes caboclos ribeirinhos, transmitidos pela oralidade em caráter de resistência, imbuídos por um conhecimento oriundos da relação com a natureza e relacionados entre os seus iguais.”

E prossegue o texto curatorial: […] “Em meio a drástica crise climática planetária e os crescentes antagonismos ideológicos que se espalham pelo Brasil e pelo mundo, anunciar a multiplicidade de desejos como o campo de forças que circunda corpos em território amazônico é, antes de tudo, uma proposta de instauração de espaços relacionais que levam em conta a experiência humana nela acumulada, seu humanismo, seu imaginário social. espaços de auto reconhecimento, de celebração e, principalmente, espaços de luta, resistência e reexistência pelo prazer de ser plural. Dessa forma, o cerne curatorial da Bienal busca instaurar aproximações possíveis não só entre os nove países que delimitam o bioma e o território aquático do Rio Amazonas e os nove estados brasileiros compreendidos como Amazônia Legal, como também ambiciona a inclusão das muitas Amazônias multifacetadas e invisíveis que populam o imaginário contemporâneo, para além de seus limites físicos, sociais e geográficos.”

Alguns dos eixos curatoriais que organizam a mostra foram inspirados em lendas e vocábulos da região, como Fontes Vitais Cambiantes, que partiu da pesquisa sobre o princípio e os princípios do Rio Amazonas e da sua movimentação. Diz o texto curatorial: “Desde a nascente à desembocadura. assim chegou-se em Apurimac, região peruana onde existe uma das nascentes. e, a partir da pesquisa deste lugar, a ampliação de Apurimac; seu conceito e narrativas. O vocábulo designa uma região do Peru onde está localizado sayhuite, um sítio arqueológico considerado um centro de culto religioso para o povo inca, notado por sua particular atenção e dedicação à água. Em quechua, apu refere-se aos deuses, sábios e também às montanhas. Apurimac, por sua vez, designa o “deus falador”, algo que se pode entender como uma espécie de oráculo observado e ouvido pelos povos andinos que habitam a região. Apurímac é ainda o nome de um rio, uma das nascentes do Rio Amazonas. Na cosmovisão andina, este rio que nasce em meio às montanhas corre até a planície amazônica (correrá até o Marajó, no litoral norte brasileiro do Pará. Deságua no Oceano Atlântico entre os estados do Pará e do Amapá) e retorna aos Andes por baixo da terra. Acreditava-se que, à noite, o sol se punha sob a terra, viajando em canais subterrâneos e bebendo o excesso de água para que Apurimac não transbordasse durante sua viagem de retorno.”

Outro eixo relevante é o de Cisão como contrato, que nasce da tomada de consciência da curadoria dos pactos e das estruturas (sociais, econômicas, raciais) que regem nossa existência e como, partindo disso, podem-se encontrar formas de ruptura ou resistência. Ou ainda Clima(x) T(r)emor, que “surge da afirmação e desejo da impossibilidade da totalidade. É um eixo que acata a ideia de que é impossível dar conta de um “todo”, até porque a ideia de todo, quando aplicada à Amazônia, não cabe, devido a incontáveis narrativas de povos diversos que habitam os campos, as estradas vicinais, florestas, águas e outros territórios de um ambiente complexo e dinâmico, que faz parte do território brasileiro.

Novamente, segundo o texto curatorial, “são vidas e realidades que necessitam de constantes reflexões acerca das etnias, fauna, riquezas minerais, entre tantas dinâmicas de saberes e práticas das plantas medicinais da floresta e, significativamente, o equilíbrio ambiental do planeta. Ritmos advindos de influências fronteiriças que se misturam à criatividade de cada lugar, dança, vozes, pajelanças e pensamentos que não nos deixam estar no mesmo lugar. Escutando as variantes intelectuais afroindígenas, caiçaras, ribeirinhos, assentados, indígenas, quilombolas, de escuta e de silêncios. E, nessa dinâmica, reconhecemos que a tentativa de dar conta da totalidade é engessante e violenta, além de totalmente exaustiva e desnecessária.”
Já o eixo Vidas Linguagens reconhece as distintas verdades, vidas e linguagens propostas por diferentes cosmovisões. Por último, há o eixo Encontros de Desejos.
O manifesto da Bienal defende: “Amazônia […] é também uma commodity global no tempo do antropoceno e da crise climática. A Amazônia que já foi paraíso edênico ainda é tida por muitos que acreditam ser o pulmão do mundo. Esse imaginário surge em sua maior parte do cenário externo, muitas das vezes distorcidas e exotizadas, afinal tudo que se refere à Amazônia ganha dimensões mundializadas e ampliadas. Mas algo é real, a Amazônia é sim a chave fundamental para a sobrevivência da humanidade no mundo contemporâneo.”

Conversa com Lívia Condurú
Idealizadora e diretora executiva da Bienal das Amazônias, Lívia Condurú é mestre em Artes, pela Universidade Federal do Pará, onde desenvolveu pesquisa sobre políticas públicas para a cultura no norte do Brasil, e atua há duas décadas como produtora cultural na Amazônia.

arte!✱ – A ideia de se fazer uma Bienal das Amazônias é recente? Sustentada em alguma medida pelo debate nacional e internacional?

A Bienal é um desejo meu de produtora, desde o começo da minha vida profissional, no início dos anos 2000. Com o passar dos anos foi ganhando forma e se voltando mais para a minha área de atuação principal enquanto produtora executiva, nas artes visuais, e em 2011 ganhou o nome e o formato que tem hoje. Desde então ele foi sendo aprimorado até ser colocado na Lei Rouanet ,em 2019.

O objetivo principal sempre foi o de criar uma plataforma de debate, construção e fortalecimento do território amazônico, a partir da nossa produção contemporânea de arte. Uma bienal que se pretende plataforma para que muitas vozes, locais sobretudo, expressem seus pontos de vista sobre o que é ser amazônida. O nome Bienal das Amazônias já surgiu enquanto provocação, pois existe um bioma, mais infinitas culturas e formas de se compreender o território embaixo da alcunha Amazônia.

Para além disso é crucial que não necessitemos ir sempre ao que entendemos por eixo, para sermos validados enquanto artistas, pensadores, criadores. Se faz urgente mudar o movimento da roda. A Amazônia não precisa ser salva por ninguém, ela precisa ter a devida atenção e o investimento para que todos aqueles que a constituem se sintam fortalecidos em suas inventividades e metodologias e possam manter a floresta em pé, a partir da possibilidade de se permitir que seus habitantes vivam dignamente.

arte!✱ – Quando o projeto foi aprovado? O orçamento inicial deu conta dos gastos?

A Bienal das Amazônias, enquanto projeto incentivado, foi aprovada no início de 2020, e suas primeiras captações se deram no final deste mesmo ano fiscal. Em razão da pandemia e de todas as dificuldades impostas pelo então Governo Federal acabamos por desenhar a sua realização para o ano de 2022. Até aquele momento realizaríamos a Bienal em diversos aparelhos culturais do Estado e do município, e construíriamos 20 obras públicas que, para além de debater os usos que fazemos da cidade de Belém, faria a liga entre estes diversos prédios. No entanto, por questões administrativas, acabamos por jogar nossa realização para o ano de 2023 e, com isso, o Governo do Estado do Pará nos informou que não mais teríamos as pautas dos espaços museais que tínhamos acordado. Então, acabamos jogados, por assim dizer, para a necessidade de criar um novo aparelho cultural que desse conta do que estávamos propondo institucionalmente.

Se politicamente nosso cerne institucional se pauta no fortalecimento do território a partir das gentes que o compõem, por que se distanciar das pessoas? Para além disso, somos instituição porque eis o modus operandis de existir/resitir no (e ao) mercado, mas até que ponto precisamos de mais uma instituição de arte? Com o problema de não ter mais os espaços delimitados anteriormente, e com todos estes questionamentos, comecei a buscar um lugar não institucional que veio a abrigar a 1ª edição da Bienal das Amazônias.
O prédio escolhido finalmente, de quase oito mil metros quadrados, já foi a casa da mais antiga loja de departamentos da cidade de Belém, a Y.Yamada, há muito tempo fechado, no centro comercial da cidade, e veio coroar nossas crenças enquanto Bienal das Amazônias. Mas nem toda coroação é simples. O prédio precisou de diversas reformas, tivemos de refazer sua estrutura elétrica, hidráulica, criar sistema de incêndio, construir salas, banheiros, sistema de acessibilidade, sistema de refrigeração, tudo isso somada a montagem do projeto expográfico, em exatos 43 dias. Isso tudo com o orçamento desenhado em 2019, captado nos anos subsequentes e sem qualquer ajuda financeira dos entes municipais e estaduais que tanto ganharam com a Bienal. Então claro que tivemos problemas financeiros e somente agora vamos conseguir sanear todos os custos.

É muito importante para a Bienal das Amazônias, para mim enquanto sua idealizadora, e para todos os profissionais que abraçaram esse projeto, que ele se realize num lugar popular. Arte é sobretuto um ato político. Precisamos instrumentalizar a nossa população, e que meio mais forte se não a arte para fazê-lo? Precisamos requalificar o nosso centro comercial, mas para isso é urgente que não o gentrifiquemos, que todos que fazem dele realidade hoje, permaneçam nele. Muitas questões.

arte!✱ – A Bienal foi um sucesso de público

Em razão do hercúleo trabalho possível graças ao coletivo, a Bienal foi um sucesso e com isso conseguiremos manter o prédio como a sede da instituição, logo a próxima edição da Bienal das Amazônias em 2025 acontecerá nele, também, bem como diversas programações no ano de 2024.

Em 2024, para além das atividades que realizaremos no nosso prédio sede, vamos itinerar com recortes desta primeira edição para as cidades de Manaus (AM), Macapá (AP), São Luis (MA), Canaã dos Carajás (PA) e Marabá (PA). Assim como faremos itinerância por meio de um barco-obra por até 30 cidades que não possuem aparelhos culturais e que estão às margens de rios amazônicos. A itinerância começa a circular no mês de abril, e o barco-obra será inaugurado em maio e começa a navegar em junho.

Ti’Iwan Couchili, Guiana Francesa, Otsenene, Ma’ekom, 2016
Ti’Iwan Couchili, Guiana Francesa, Otsenene, Ma’ekom, 2016, fazendo referência aos suicídeos do povo indígena

arte!✱ – Como você montou essa equipe guerreira? Já conhecia seus integrantes ou surgiram após pesquisas?

A Bienal das Amazônias é um projeto de mulheres, sobretudo. Eu e Yasmina Reggad começamos esse desenho lá em 2011, muita gente da minha equipe de produtores da época ajudaram nesse desenho. O tempo foi passando e fui reencontrando profissionais, parceiros. As únicas pessoas que pesquisamos, avaliamos, foram as curadoras. Eu e Yasmina passamos muito tempo pensando que queríamos que fosse coletivo, que fossem mulheres e que cada uma carregasse em si um mundo, e conseguimos. No percurso pessoas foram chegando, acreditando e só consegui realizar a Bienal das Amazônias porque estas pessoas que hoje são a Bienal, acreditaram no meu sonho e passaram a sonhar os seus próprios sonhos a partir do meu sonho. A Bienal das Amazônias é um desejo de construção de uma nova possibilidade de coletividade, ou pelo menos um resgate de ser coletivo, de ser aldeia. Por sorte, e eu tive muita, apesar de todos os pesares, dos entraves, das diversas descrenças em nós, o afeto fez a liga para que resistíssemos e fizéssemos acontecer. Sobrevivemos, foi lindo, mas igualmente difícil.

arte!✱ – Foi um sucesso, mas não tiveram claramente apoio de mídia regional e nacional … por quê?

Assumo que não sei dizer se claramente não tivemos apoio da mídia. Fomos poucos, sem orçamento e o que conseguimos acredito que tenha sido o suficiente. O Brasil tende a não dar atenção para o que não está posto, para os que não fazem parte do mainstream, para além do que o Brasil do eixo, não nos leva muito a sério, então acho que o que aconteceu é o que acontece normalmente com todos os que produzem nas margens, nas bordas que, diga-se de passagem, é a grande maioria do território brasileiro. ✱

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