"À Procura de Emprego", 1948. Cortesia Utópica.

*Por Simonetta Persichetti

Em quase todos os fotógrafos existe uma alma flâneur, o prazer de vagar pelas cidades, olhar com olhos atentos e fazer descobertas. O flâneur guardava estas imagens em sua memória, o fotógrafo nos devolve suas impressões em uma fotografia. Narrar a vida cotidiana, apontar o que merece ser visto, parar para observar mínimos detalhes, situações para as quais ninguém daria a mínima bola. É desta forma que German Lorca (1922-2021) desfila suas fotografias sob nossos olhos. Um olhar atento, crítico e, muitas vezes, irônico. 

German Lorca fotografado em 2018 pelo filho, José Henrique Lorca. Cortesia do autor.
German Lorca fotografado em 2018 pelo filho, José Henrique Lorca. Cortesia do autor.

Nascido em 1922 – teoricamente o ano em que explode o modernismo no Brasil -, este paulistano da gema do Brás, filho de imigrantes espanhóis, de andar inquieto e sorriso fácil, conheceu o mundo pelas fotografias que via na imprensa, nos jornais, nas revistas. Em 1940 formou-se em contabilidade, uma profissão que parecia apertada para ele. Queria vagar, fotografar, andar por aquela cidade dos anos 1940 que se modernizava, que crescia. Queria seus reflexos, suas luzes, suas narrativas. E foi num desses seus passeios que realizou uma primeira fotografia de impacto, em 1947: um flagrante de um protesto contra o aumento dos bondes em São Paulo. Se encantou com seu registro. Dois anos depois passou a fazer parte do Foto Cine Clube Bandeirante, que ficou conhecido por trazer a modernidade para a fotografia brasileira. Foi no Foto Cine Clube Bandeirante que nomes como Thomaz Farkas, Marcel Giró, Geraldo de Barros e Gaspar Gasparian iniciaram o experimentalismo, a quebrar fronteiras e trazer uma imagem que brincava o tempo todo com as vanguardas europeias, com o surrealismo, com as técnicas fotográficas, além de ser um centro de discussão e difusão da fotografia. Foi neste ambiente que German Lorca decidiu se dedicar totalmente à fotografia. 

Nas suas primeiras imagens, a cidade de São Paulo continuava sendo a principal busca. Tão pouco fotografada em sua imensidade, muito julgada em sua aparência. Quem a define feia não a conhece. Quem a define enigmática se sente por ela atraído e procura de alguma forma compreendê-la. Pode ser via música, verso, literatura, mas sem dúvida nenhuma a imagem lhe rende a melhor homenagem. Muito já foi mostrada, poucas vezes foi compreendida. Muitas vezes definida como cidade de pedra, cidade cinza, da chuva e da garoa. Cidade amada, cidade odiada. Mas foi em seus recantos e esquinas que Lorca a descobre e redescobre. Uma cidade que ele sempre fotografou. 

German Lorca: "São Paulo Crescendo", 1965. Cortesia Galeria Utópica.
“São Paulo Crescendo”, 1965. Cortesia Utópica.

No início dos anos 1950, abre seu estúdio fotográfico, afastando-se do Foto Cine Clube Bandeirante para profissionalizar-se como fotógrafo publicitário. Dois anos depois foi o fotógrafo oficial do IV Centenário da Cidade de São Paulo.

Na publicidade, levou seu olhar aguçado, educado e sempre irreverente. Perceber a força dos objetos banais e tornar esta aparente banalidade em uma imagem que merecia ser vista. E, assim como fazia quando andava pelas ruas, utilizava a imagem publicitária para questionar suas características realistas. Brincava com a imagem. Criava uma dúvida, em uma época em que ninguém falava em pós-produção, mas mesmo assim ele desconcertava o olhar do espectador. Brincadeiras estéticas, jogos de olhares, alusões e citações. Criava e se divertia. Tudo isso aliado a novas possibilidades técnicas e a liberdade com a qual costumava trabalhar. E foi assim também com seus autorretratos e fotografias artísticas.

Mas a cidade continuava a encantá-lo e, incansável, ele continuava a fotografá-la. No final dos anos 1990 deixa seu estúdio sob a responsabilidade dos filhos e retorna ao seu caminhar. Em 2002 realiza um ensaio no Ibirapuera, que ele havia fotografado em 1954 e em 2009 retorna para o centro da cidade.

Incansável, se encanta com a pós-produção, com o poder de transformar suas imagens no computador, recriá-las e revisitar seu arquivo. Descobre o poder da cor para o seu trabalho artístico. Fazer, refazer, rever, sempre foram seus lemas. E foi por isso que em 2016, aos 94 anos, resolveu ir até Nova York, depois do MoMA ter comprado parte de suas imagens juntamente com a de outros fotógrafos modernistas brasileiros, num momento de renascimento dessa estética. Lá resolveu retomar um ensaio realizado nos anos 1960 e 1980, mais especificamente no Central Park, já pensando na pós-produção contemporânea. Sua última exposição aconteceu em 2018 no Itaú Cultural, em São Paulo, com curadoria do Rubens Fernandes Junior e de José Henrique Lorca, seu filho.

"Aeroporto de São Paulo", 1965. Cortesia Galeria Utópica.
“Aeroporto de São Paulo”, 1965. Cortesia Utópica.

German Lorca morreu aos 99 anos, em 8 de maio, dia em que o MoMA de Nova York abriu a mostra Fotoclubismo: Brazilian Modernist Photography and the Foto-Cine Clube Brandeirante, 1946-1964, da qual ele é um dos autores. E nos deixou mais de 70 anos de experiências fotográficas, de possibilidades criativas, de olhares que se renovam. 

 

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