A artista Diana Vaz, uma das agentes responsáveis pela idealização e organização da mostra "ReFundação". Foto: Divulgação
A artista Diana Vaz, uma das agentes responsáveis pela idealização e organização da mostra “ReFundação”. Foto: Divulgação

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om 134 artistas e coletivos até o momento (preveem-se ainda novos alistamentos ao longo de sua duração, até 28 de janeiro de 2024), a mostra ReFundação, que reinaugurou no dia 2 de setembro, a Galeria ReOcupa, na Ocupação 9 de Julho (Rua Álvaro de Carvalho, 427), apresenta uma oportunidade inédita de se presenciar o resultado de uma exposição de artes visuais cujo impulso originador é totalmente democrático, inteiramente coletivista e de visões abertas. Para se ter uma ideia: com apoios privados, governamentais e de leis de incentivo, a 35ª Bienal de São Paulo tem 121 artistas convidados. A exposição da Ocupação 9 de Julho, organizada pela galeria com apoio do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) tem 134 participantes até o momento somente com o esforço coletivo de organização e montagem.

Não é por acaso que a Ocupação 9 de Julho tenha se tornado objeto de um foco extraordinário do sonar da arte nesse momento: a experiência de gastronomia popular da sua cozinha comunitária vem sendo uma das vedetes da recém-aberta 35ª Bienal de São Paulo – Coreografias do impossível, megamostra em curso no Pavilhão da Bienal do Parque do Ibirapuera. Montada também no esforço do voluntariado (a cozinha possui, por exemplo, um forno recolhido pelo artista Ding Musa de uma brasileira que fabricava bolos e, após casar-se com um alemão, foi viver na Europa e doou a peça), a cozinha foi aberta em 2017 e consolidou sua ação durante a pandemia de Covid-19, servindo hoje cerca de mil refeições diárias (metade delas para pessoas em situação de rua) e utilizando produtos orgânicos oriundos da agricultura familiar e de sua própria horta.

Instalada de forma simbiótica no edifício da Ocupação, na galeria do térreo e nos 1º, 2º e 3º andares, entre os apartamentos e a rotina das cerca de 400 pessoas que moram ali, tendo moradores como monitores de visitação, a mostra ReFundação se insere numa perspectiva utópica da mobilidade social da arte que teve início com o desenhista, escultor e professor carioca Nelson Felix há exatos cinco anos. Em 2018, durante a 33ª Bienal de São Paulo, Felix, comissionado pela fundação para fazer uma obra, escolheu realizar seu trabalho fora do Ibirapuera, na Ocupação. Aquela obra, intitulada Esquizofrenia da forma e do êxtase, cuja duração seria de 24 horas e abrangeria o equinócio de primavera (que, em 2018, ocorreu às 22h54 de 22 de setembro), consistia em uma escultura composta de ferro, cabo de aço e dois mandacarus de sete metros cada nas empenas do edifício (continuidade da série de esculturas que Felix montara no 2º andar do Pavilhão da Bienal). Após a instalação das peças, o artista utilizou a parede dos banheiros da galeria da ocupação para esquematizar seu trabalho (e princípios) em desenhos in situ, à maneira dos pintores de natureza morta. Essa intervenção ainda está ali, como se passasse o bastão para a nova exposição em curso.

Na escada interna do prédio que dá acesso aos três andares há um painel em tecido fosco com um desenho inédito de 7 metros de comprimento de Lia Chaia, a Ossilda (2023, com a figura de um esqueleto humano sobreposto à fotografia da fachada do edifício), que acompanha o visitante no percurso. Não há hierarquização de espaços entre artistas consagrados, como Rivane Neuenschwander, Ernesto Neto e Leda Catunda, e os próprios coletivos de artistas locais, como as Bordadeiras Ocupa (o grupo Borda & Ocupa MSTC), formado por 13 pessoas, especialmente mulheres da ocupação.

“A exposição propõe a revisão das marcas e rachaduras políticas existentes em nossa narrativa histórica, ao mesmo tempo que reflete a necessidade de criar outras formas de pensar, relacionar-se e praticar arte no mundo”, disse a artista Preta Ferreira, artista e ativista que ficou mais de 100 dias presa por sua atuação no Movimento Sem Teto do Centro e na Frente de Luta por Moradia da cidade de São Paulo. A definição de Preta Ferreira circunscreve as motivações que propiciaram a aglutinação de artistas presentes na ReFundação: a preocupação social, a militância pelos direitos fundamentais do ser humano, o comprometimento e a proximidade com os movimentos sociais e as temáticas afirmativas.

O artista Guilherme Bretas, por exemplo, foi buscar no passado pioneiro o material para seu acionamento estético entre memória, política, tecnologia e História. Ele montou, em um monitor antigo, uma animação que se utiliza de fotos do século XIX de pessoas negras encontradas no acervo do pioneiro fotógrafo Militão Augusto de Azevedo (1837-1905). Com o uso de Inteligência Artificial, Bretas criou uma animação das fotografias anônimas, exibidas em preto & branco com uma nova “vida”, segundo explicou. “Ao mergulhar no acervo do Militão, eu encontrei fotografias de pessoas negras de todo tipo, como por exemplo engenheiros, arquitetos. Isso foi algo que mexeu comigo, com a visão que nos passaram. A gente sempre tem essa ideia de que os negros estavam limitados ao trabalho escravo no período”, disse.

André Komatsu faz duplo papel na ReFundação: integra um comitê de organização curatorial e expõe ali, ao mesmo tempo, seus trabalhos. Na galeria grande, Komatsu expõe Crónica, um trabalho da série Contrato Social que ele iniciou em 2018, origami de folha de chumbo com a qual ele cobre parte do corpo de um exemplar de um determinado veículo de imprensa (deixando de fora apenas o nome da empresa jornalística). O objeto forma uma espécie de escudo. “Pensando no material, tanto no jornal quanto no chumbo, vejo essa dupla função, tanto de proteção quando de envenenamento”, ponderou o artista. “O chumbo, ele é tóxico; o jornal, a tinta utilizada, também é tóxica. E vendo essa relação de veiculação de informação como uma das bases fundadoras e construtoras da realidade, (constato) que é uma informação que é coordenada, manipulada e direcionada de acordo com interesses privados. Por isso, nessa série, eu proponho várias reformulações geométricas e deixando só o nome do veículo”. Crónica é o nome de um jornal mexicano.

Komatsu, assim como Ding Musa e outros integrantes da mostra, integram o corpo de decisões coletivas que articulou a exposição. Como é uma ação coletiva, a resposta também para as questões de arte!brasileiros sobre o processo de escolhas também foi elaborada coletivamente e enviada após pequeno debate. “A desierarquização de artistas, evidente e intencional na mostra, é manifesta não somente como proposta organizacional, mas sobretudo como apontamento para os modos diversos e legítimos de existir, em sociedade e na arte”, afirmam os organizadores na resposta. “Esse modo não-vertical de operar está presente na mostra e na forma de organizarmos a Galeria ReOcupa. Desde o início, todas as decisões tomadas partiram de uma discussão coletiva e horizontal”.

Dessa forma, o artista já está integrado a uma ideia, a um propósito, contido no tema da ReFundação. “Ao longo de sete meses de organização da mostra, cada membro do coletivo indicava artistas que eram votados pelo grupo. Depois disso, as listas eram analisadas para que houvesse paridade entre os artistas. Houve um processo longo e democrático para a garantia do equilíbrio de presenças. Desse modo, a desierarquização não apareceu espontaneamente no resultado. Ela foi fruto de um trabalho consciente, democrático e criterioso de conversas e ajustes”, explicaram os articuladores da mostra.

A afinidade pode então ser demonstrada pela própria proximidade, como é o caso dos artistas que já vivem ali, caso de André Chiarati, morador do 13º andar, ou pela longa colaboração, caso do coletivo JAMAC (sigla para Jardim Miriam Arte Clube, um espaço cultural da zona sul de São Paulo, criado pela artista Mônica Nador em 2004, com ação e gestão coletiva).

Isso poderia dar margem à conclusão de que predomina o discurso, a abordagem panfletária. Não há uma satanização do panfleto, pelo contrário: do tríptico da consagrada Cinthia Marcelle (desenho no qual uma arara de camisetas e a primeira traz a inscrição “A propriedade privada criou o crime”) às placas do Arquivo Mangue (Camila Mota e Cafira Zoé), com frases como “Tudo que é vivo corrói”, a política permeia as intervenções. Essa política é, entretanto, a admissão de que é preciso atuar continuamente no tecido social para afirmar as vontades comuns, os direitos, as percepções, e isso vai da Cozinha Ocupação 9 de Julho (“Cozinhar é revolucionário”) às fotografias dos Retratistas do Morro – um trabalho de recuperação da experiência de fotógrafos que viveram e trabalharam nas favelas registrando cotidianamente os modos de vida de suas comunidades ao longo dos últimos 50 anos.

Os temas caros à Ocupação, como moradia, alimentação, protagonismo social e emancipação predominam, mas há também obras que evocam embates muito recentes e novos. São os casos, por exemplo, dos trabalhos da Fumaça Antifascista e da obra Processo de Tombamento. Nesta última, Elton Hipólito apresenta o seguinte material de trabalho: “Tinta acrílica sobre tecido e escora de madeira sobre a Constituição Federal de 1988”. É uma reconstituição da invasão golpista às sedes dos Três Poderes brasileiros em 8 de janeiro deste ano, uma pintura dos golpistas com camisetas da seleção de futebol encarapitados na estátua simbólica da Justiça – toda a obra está escorada por um caibro de madeira, comentário do artista sobre a fragilidade da democracia. A ReFundação se realiza no terreno ainda quente da investidas fascistas recentes, mas seu testemunho é o da resistência e da força das estratégias de sobrevivência para adiante das circunstâncias.

“A partilha do espaço expográfico entre artistas já estabelecidos (em instituições e no mercado), de diferentes gerações, em início de carreira, eventualmente desinteressantes aos modelos de mercado, e artistas com menor visibilidade, são apontamentos para o desejo de uma sociedade em que todes possam usufruir de benefícios, de reconhecimento e das oportunidades geradas por suas produções”, afirmam os organizadores, que pretendem dar itinerância à mostra, levando-a por outros espaços culturais do país. Um dos indícios da ideia de se contrapor à lógica do mercado é que, da venda das obras, parte dos recursos será direcionado diretamente para necessidades do MSTC e parte será revertida, de forma equânime, em benefícios para todos os artistas participantes da mostra. A Galeria não visa lucro nem paga remuneração alguma aos membros organizadores, exceto aos dois educadores contratados e aos montadores da mostra.

O comitê de organização da exposição ReFundação teve como integrantes os seguintes artistas (e curadores): Andre Komatsu, Alan Oju, Alexandre Baltazar, Ana Avelar, Carla Cruz, Débora Bolzoni, Diana Vaz, Ding Musa, Georgea Miessa, Lourival Cuquinha, Lucas Bambozzi, Marcelo Zocchio, Marcius Galan e Tomaz Klotzel.

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