11. Ana Botafogo, bastidores do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1995. Foto: Bruno Veiga.

“A bailarina clássica no país do futebol”. Foi assim que Ana Botafogo se definiu no dia da abertura da Ocupação Itaú Cultural dedicada à sua trajetória. A frase resume bem a dimensão que a bailarina alcançou ao longo de décadas. Ela ultrapassou os limites do palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (TMRJ) e se tornou uma referência nacional.

A 72ª edição do programa Ocupação Itaú Cultural percorre essa trajetória por meio de fotografias, documentos, cartazes, depoimentos e objetos pessoais. Em cartaz até 21 de junho, a mostra apresenta desde a infância da bailarina até sua consolidação como Primeira Bailarina do TMRJ, posto que assumiu em 1981, depois de iniciar a carreira na França.

Se você pedir para qualquer pessoa citar uma bailarina famosa, é muito provável que a resposta seja Ana Botafogo. Ela credita essa popularidade a alguns fatores: “Eu dancei muito pelo Brasil, norte, sul, leste, oeste, e as pessoas foram começando a me conhecer numa época que não tinha internet”, explica.

Depois disso, diz ter saído da “casinha da bailarina clássica”, aproximando-se ainda mais do público ao dançar música popular brasileira e participar de programas de televisão. Com sorriso largo e simpatia, foi presença recorrente nas noites de domingo como jurada do quadro Dança dos Famosos, da TV Globo. Também participou da novela Páginas da Vida (2006), de Manoel Carlos, além de realizar palestras e espetáculos criados especialmente para ela.

Ana Botafogo começou a aprender os primeiros passos de balé aos seis anos de idade. Dessa época, guarda poucas lembranças, embora ainda se recorde das apresentações que fazia. Foi um pouco mais tarde, perto dos onze anos, quando entrou para a Academia de Ballet Leda Iuqui, que a prática passou a ser levada com mais rigor, sendo avaliada em exames. 

A disciplina que adquiriu nesse período, conta ela, atravessou toda a sua vida. Para continuar na dança, precisava ir bem na escola. Então prestava muita atenção nas aulas do colégio para que sobrasse tempo para os ensaios e para a rotina exigida pelo balé. Caso contrário, precisaria abandonar as sapatilhas.

Ana Botafogo na sala de casa brincando de ser bailarina com tutu feito por sua avó e sendo
fotografada pelo pai.
Rio de Janeiro, 1960
Foto: Ernani Fonseca/Acervo Ana Botafogo

Aos 13 anos, começou a considerar a possibilidade de se tornar bailarina profissional. Sonho que parecia distante, devido aos poucos testes para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sua principal referência para seguir carreira na dança clássica.

Como ao terminar o colégio ainda não tinha surgido a oportunidade de fazer um teste, entrou na faculdade de Letras. Depois de um semestre, trancou o curso e foi passar alguns meses com seu tio, que morava em Paris. Uma possibilidade de estudar francês e, claro, balé. Muito rapidamente, cerca de dois meses depois de ter chegado, passou em uma audição do coreógrafo e bailarino francês Rolland Petit no Ballet National de Marseille. Assim, começou sua jornada profissional na dança.  

Não é preciso ter feito aulas de balé para conhecer a fama da rigidez de professores e coreógrafos, algo que está no nosso imaginário muito provavelmente pelo que foi retratado nos cinemas. Para Ana, essa lógica vem mudando. “A gente vê que não tem necessidade de ter sido da maneira que era antigamente. Porque muita gente desistiu da dança por não aguentar a pressão de certos professores.”

Hoje também professora, ela acredita ser possível manter o rigor técnico sem transformar o aprendizado em um ambiente hostil. “É possível ter disciplina e rigor dentro do aprendizado da técnica clássica, mas sendo agradável e estimulando cada vez mais o aluno a progredir.”

Sobre a competição no meio da dança, a bailarina também adota um tom conciliador. “É uma carreira competitiva, sim, mas ela não precisa ser competitiva de uma maneira feia ou de uma maneira em que você exclua o outro. Pode ser competitiva no ponto de que se o outro está fazendo bem, eu quero fazer tão bem quanto ou melhor.”

Ana Botafogo em
cena no espetáculo Três Momentos do
Amor. Theatro
Municipal do Rio
de Janeiro, 2006,
Foto: Alice Bravo/Acervo Ana Botafogo.

Ana entrou para o Theatro Municipal em 1981, onde se tornou primeira bailarina, depois de ter voltado ao Brasil e passado uma temporada em Curitiba, no Balé Guaíra. Ao longo de 45 anos no teatro carioca, Ana acompanhou mudanças no próprio circuito da dança no Brasil. Para ela, a ampliação do público trouxe também novas exigências artísticas. “O público também exige melhores produções e fomos descobrindo novos coreógrafos, porque isso é necessário”, afirma. Segundo a bailarina, o país formava grandes intérpretes, mas ainda precisava investir na formação de criadores capazes de produzir obras que atravessassem gerações.

Ainda hoje, Ana faz “pelo menos uma barra” diariamente. “A barra do balé clássico prepara muito os bailarinos, mas prepara muito uma pessoa que a vida toda viveu de dança e de exercício. Me prepara para o meu dia”, conta. “Normalmente, eu gosto de fazer uma barra mesmo que eu vá dar uma entrevista, porque essa barra me aquece para o dia. Aquece a minha voz, aquece o meu corpo todo.”

Não à toa, a barra é um elemento tão presente na exposição. Ela contorna a sala expositiva e serve de suporte para diversas fotografias da bailarina espalhadas pelo percurso. Em uma das paredes, a clássica sala de balé é recriada, com espelhos do chão ao teto e uma barra atravessando o espaço. Os visitantes podem, inclusive, acompanhar e reproduzir os movimentos de uma aula conduzida por Ana Botafogo, refletida diante deles no espelho.

O processo de construção da mostra organizou a trajetória da bailarina e trouxe memórias que estavam guardadas. Segundo Ana, as pesquisadoras Eliza Oliver e Regina Medeiros passavam até sete horas por dia em sua casa examinando fotografias, documentos e objetos acumulados ao longo de décadas.

“Eu adoro relembrar. Não tenho essa coisa de nostalgia ou tristeza, mas acho que isso fez parte da minha história e eu já estou feliz”, diz. “Essas caixas viveram fechadas por 10, 20 anos. Eu não teria tempo de ver isso agora, mas essa exposição me propiciou conversar e lembrar um pouco da minha história.”


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