’Naufrágio’ (1953), obra de Paulo Pedro Leal presente na mostra. Rafael Moraes/Pinacoteca de São Paulo

Rio de Janeiro, anos 1950 e 1960. A “cidade maravilhosa” passava por mudanças: tornava-se cada vez mais gentrificada, excluindo as pessoas que a ergueram e convertendo-se em palco de conflitos sociais e ideológicos.

É este o cenário de parte das obras de Paulo Pedro Leal, artista autodidata que, apesar da importância de sua obra ao retratar as contradições da modernização do Rio de Janeiro, viveu às margens do circuito institucional das artes e caiu em relativo esquecimento após sua morte, como muitos artistas de origem negra e humilde da época. 

É para reparar este erro que a Pinacoteca de São Paulo inaugurou “Trágico Subúrbio”, mostra dedicada a revisitar sua obra e apresentá-la a um público mais amplo. Com curadoria de Pollyana Quintella e Renato Menezes, a exposição reúne cerca de 50 pinturas que condensam sua diversidade.

“O PPL [como o artista assinava e passou a ser conhecido] produziu um testemunho das transformações do seu tempo de forma muito original”, afirma a curadora Quintella. “Suas obras contêm um contorno de denúncia e crônica social intensa. Ele capturou a atmosfera dessa modernidade brasileira, da primeira para a segunda metade do século 20, com senso de composição e uso particular da cor e, ao mesmo tempo, uma crítica social elaborada”. 

Em seu trabalho, Leal explicita desigualdades em vez de escondê-las. Em “A casa do capitão” (1950), por exemplo, vemos uma mansão vistosa que contrasta com outras habitações que retratou. Com pilares e abóbadas luxuosas, pode-se observar, à esquerda da construção, uma pessoa negra servindo um casal vestido com pompa.

‘A casa do capitão’ (1950), obra de Paulo Pedro Leal presente na mostra. Rafael Moraes/Pinacoteca de São Paulo

O que interessava PPL era a crise, o confronto, o tumulto, a quebra do pacto social moderno. Naufrágios, batalhas navais, ritos de umbanda, brigas de bar, bordéis e carnavais foram alguns de seus temas preferidos, nos quais se observam as tensões sociais e raciais na capital carioca — grande parte das cenas foi imaginadas por PPL, a partir da leitura de jornais e observação de revistas ilustradas. 

A mostra sintetiza os três grandes assuntos do artista. A primeira sala traz cenas de sociabilidade — conflitos, como no caso das brigas de bar, ou comunhão, como casamentos. Ao lado, um conjunto que reflete como PPL interpretou gêneros clássicos da pintura, como batalhas navais e naufrágios — consequência de uma certa obsessão do artista pela Primeira Guerra Mundial —, além de paisagens e naturezas-mortas. Por fim, a terceira sala traz obras com cenas de coletividade, em que os corpos estão em uma espécie de gozo coletivo, suspendendo a ordem estabelecida: Carnaval, cenas em bordéis, ritos religiosos sincréticos e festas populares. 

‘Cirurgia moderna’ (1953), obra de Paulo Pedro Leal presente na mostra. Rafael Moraes/Pinacoteca de São Paulo.

Quintella destaca a criatividade e a atenção do artista aos detalhes, seja em uma paisagem ou em uma cena com vários personagens. Em “Cirurgia Moderna”, retrata a operação de um transplante de órgãos. Na época, esse procedimento começava a ser realizado. PPL pinta o momento com contornos fantásticos: os enfermeiros parecem fantasmas, com máscaras brancas que cobrem todo o rosto.

A curadora ressalta como PPL colocava pessoas negras e brancas, pobres e ricas, homens e mulheres, poderosos e vulneráveis em confronto. Ela compara com Heitor dos Prazeres, seu contemporâneo — em sua obra, vemos uma diversidade de personagens alegres, em cenas que prometem uma espécie de acordo social. “O PPL mostra o lado B disso — o conflito é o protagonista o tempo todo, seja num naufrágio de guerra, seja numa briga de bar na Lapa. Tudo está fora do controle, escapando da ideia do pacto civilizatório moderno”. 

Um de seus trabalhos mais conhecidos é “Afogamento de mendigos” (1965), única pintura conhecida a  retratar o maior escândalo carioca de violência estatal pré-Ditadura Militar. Carlos Lacerda, então governador do estado, escalou o Serviço de Repressão à Mendicância para sequestrar moradores de rua e jogá-los no rio Guandu, a cerca de 100 quilômetros da capital carioca. PPL pinta pessoas detidas, esperando sua morte; outras, de frente para o rio, ameaçadas com armas; e, em seguida, já arrastadas pelo curso d’água. Ao lado da obra, o espectador pode conferir trechos de jornais que veicularam o caso e que provavelmente inspiraram as composições.

‘Afogamento de mendigos’ (1965), obra de Paulo Pedro Leal presente na mostra. Rafael Moraes/Pinacoteca de São Paulo.

Segundo Quintella, seus trabalhos mais populares eram as “cenas de macumba”: em uma das poucas entrevistas que concedeu, Leal afirmou: “Pinto tudo, sei fazer uma paisagem ou um retrato, mas ninguém os compra. Os motivos afro-brasileiros rendem mais porque despertam a curiosidade dos estrangeiros, em quem encontro sempre fregueses”. Na mesma reportagem, uma rara fotografia do artista estampou o jornal A Manhã: ele recebe um livro de pintura do crítico e adido cultural da embaixada dos Estados Unidos, Marcus Gordon Brow.

Gordon Brow e Paulo Pedro Leal em fotografia publicada no jornal ‘A Manhã’, em 19 de outubro de 1952. Reprodução.

Leal era filho do casal baiano Marcelino Pedro Leal e Afra Maria de Albuquerque e neto de maranhenses. Seus pais provavelmente migraram ao Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades, como muitas outras famílias afrodescendentes na virada do século 19 para 20. Foi criado por um tio, Luiz Joaquim de Araújo, que o introduziu aos ritos jejê-nagô.

Em suas paisagens, com frequência retratou o avanço do subúrbio sobre o campo, reflexo de sua própria trajetória de vida: Leal nasceu em 1900, no Morro da Viúva, entre os bairros de Botafogo e Flamengo. Mas, com a especulação imobiliária da Zona Sul, foi obrigado a se instalar em Coelho da Rocha, bairro de São João do Meriti, onde montou um ateliê e terreiro.

Devido a essa “vida dupla”, entre arte e saberes da umbanda, PPL ficou conhecido como “pintor espiritual”: quando alguém o procurava, poderia ser tanto para comprar um quadro quanto para fazer uma consulta. Fora sua vocação como pai de santo, realizou muitos ofícios durante a vida: foi empregado doméstico, estivador, trabalhou na Central do Brasil, em uma cervejaria, como auxiliar de pedreiro, colaborou com carros alegóricos e pintura corporal na escola de samba de Coelho da Rocha, pintou murais e letreiros e vendeu por muitos anos suas obras e brinquedos, feitos de madeira e papelão, no Passeio Público, no centro do Rio de Janeiro. 

Foi na calçada do Passeio Público que, em 1953, Leal conheceu o marchand e galerista romeno Jean Boghici, que impulsionou sua trajetória. Ele se gabava de ter vendido “Verdun”, retrato da batalha mais sangrenta da Primeira Guerra Mundial para Lygia Clark, que supostamente pendurou a obra em sua sala. Boghici organizou a única mostra individual do artista em vida, na histórica Petite Galerie, e enviou ao Salão Nacional a tela Dragão do Oriente, que recebeu o prêmio de aquisição e consta no acervo do Museu Nacional de Belas Artes.

Quintella afirma que é provável que suas primeiras pinturas de cavalete, realizadas com materiais precários, não tenham sobrevivido; e que os trabalhos dos quais temos conhecimento sejam posteriores à sua “descoberta” por Boghici. 

A curadora rechaça as denominações de artista “primitivo” e “ingênuo”, que PPL carregou por muitas décadas: seus trabalhos evocam uma crítica social pujante; além disso, se interessava pelos gêneros da historiografia da arte e interpretava, a seu modo, obras de grandes mestres. 

“Por muito tempo, atribuímos aos pintores autodidatas ingenuidade ou docilidade por não terem passado pelo sistema de arte. Mas ele lia seu tempo criticamente, produzindo um testemunho não só com gesto autoral, mas também com muita consciência política”, afirma Quintella. “PPL foi um artista com capacidade de não camuflar conflitos, mas sim mantê-los, fazendo disso a força do seu trabalho. Chamá-lo de naif, ingênuo ou dócil é um erro gravíssimo. A contribuição do seu trabalho é justamente ir na direção contrária disso”. 

Mesmo em pinturas em que reproduzia algo longe da sua realidade — como os conflitos da Primeira Guerra Mundial — PPL dialogava com essa tragédia suburbana, afirma a curadora. “Vemos pessoas se jogando no mar, devoradas por monstros marinhos… É um mundo sem redenção, que não há acordo possível. Mas, ao mesmo tempo, não é uma leitura niilista — tem uma dimensão da imaginação, do rito, do mito, da coletividade”.

Paulo Pedro Leal morreu em 1968, em São João do Meriti. Décadas após sua morte, Boghici publicou “Paulo Pedro Leal Pintor Espiritual”, resultado de uma mostra realizada em 1999, dedicada à sua obra. Mais recentemente, participou da mostra “Pop Brasil: vanguarda e nova figuração 1960-1970”, de 2025, na Pinacoteca, também com curadoria de Pollyana Quintella. 

Junto da exposição, a instituição publica um catálogo com ensaios inéditos que situam Leal em seu contexto histórico, bem como uma cronologia revisada da trajetória do artista — montada a partir de um esforço para preencher lacunas de sua biografia. 


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