Retrato coletivo de Rosana Paulino, a curadora Diane Lima e Adriana Varejão, da esquerda para a direita, integrantes do projeto curatorial Comigo Ninguém Pode para o Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia

A 61ª edição da Bienal de Veneza abre ao público em 9 de maio. O Pavilhão do Brasil será ocupado por obras de Rosana Paulino e Adriana Varejão, em um diálogo proposto pela curadora Diane Lima. Intitulado comigo ninguém pode, o projeto parte das características sincréticas e ambíguas da planta homônima, que se tornou um símbolo de proteção e resiliência devido à sua toxicidade. 

A exposição reúne obras inéditas e trabalhos anteriores das artistas, organizados a partir de um diálogo que contempla diferentes temporalidades, escalas e linguagens. Em conversa com a arte!brasileiros, Diane, Rosana e Adriana falam sobre esse processo. A entrevista foi editada para maior clareza e concisão.

arte!brasileiros: Comigo-ninguém-pode é uma planta de cura e proteção, mas também de toxicidade. Vocês falam em olhar não apenas para as feridas, mas para os processos de regeneração e resistência. Como esses contrastes orientaram as escolhas curatoriais?

Diane Lima: Eu acho que essa tensão e essa presença de um passado de violência colonial e um processo de metamorfose, transformação através da espiritualidade e natureza é o centro do projeto comigo ninguém pode. Essa dualidade e essa tensão está presente em muitas obras. De modo que a exposição tem um caráter instalativo. A gente está dizendo que é uma exposição instalativa, porque ela busca se relacionar com o espaço do pavilhão, que é um prédio modernista, composto por dois retângulos, uma viga que corta no meio e, com a nova reforma [O prédio do Pavilhão do Brasil, projetado por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral em 1964,  foi recuperado e reformado pela Fundação Bienal de São Paulo em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores], a gente tem essas duas portas laterais na primeira sala, onde tem o fluxo que permite o acesso ao jardim, que é a vocação original do prédio e a gente tá reativando essa planta original ativando obras no jardim.

A gente tem uma obra da Rosana Paulino de 1996, que é uma obra que desde a década de 1990 nunca mais foi apresentada. A obra tem 30 anos e existe num muro de concreto armado com vigas expostas, onde a Rosana vai tecendo, com essas linhas — algo muito próprio do trabalho dela —, que faz menção não somente a essa tradição da costura, mas também à relação com as aranhas e ao ambiente biológico, aos animais. Então, ela vai tecendo essas figuras, que são parte de uma iconografia colonial, de imagens de pessoas escravizadas e isso vai construindo esse espaço central.

Ao redor desse espaço, a gente tem uma obra muito importante da Adriana Varejão, que é uma obra nova que consiste numa série de uma espécie de ruína, que vai tomando as paredes do pavilhão dessa segunda sala e, nessa ruína, ela vai simulando diferentes estágios da natureza: desde o concreto até a carne, passando pela talha da madeira, o ouro, até chegar no solo e na planta. Então, tem esse processo de metamorfose, que acontece não somente no desenho comigo ninguém pode, o desenho da Rosana que dá o título da exposição, mas também vai refletindo em outras obras, a exemplo dessa obra da Adriana, que é uma obra nova feita especialmente para o Pavilhão.

a!b: As obras que já existiam influenciaram a realização de novas? Como o processo criativo para as novas obras foi influenciado uma pela outra? 

Adriana Varejão: Nós somos artistas da mesma geração, eu e Rosana. A gente já tem uma linguagem muito definida como artista. Temos 40 anos de profissão. Então, os trabalhos eles vão se desenvolvendo em cima daquela linguagem, vão evoluindo em espiral dentro de uma mesma linguagem, mas com elementos novos que a gente vai acrescentando. As obras antigas influenciaram nessas novas obras do pavilhão e também a gente, dentro desse diálogo, procurou a escolha de caminhos que se costuravam. Esse projeto se define como um projeto coletivo das três. É um projeto que realmente houve muito diálogo, houve muita interlocução entre nós e proposições feita pela Diane. É um projeto de constante autoria coletiva também. Uma pessoa pode falar do trabalho da outra. A gente fala sobre o nosso trabalho, mas também pode sugerir coisas em relação ao trabalho da outra. Foi uma troca muito grande entre nós. Eu acho que isso só acontece porque a gente é mulher.

a!b: Diane, você disse que o maior desafio é o de apresentar as duas vozes como uma única voz. Você expandiu a sua compreensão da pesquisa das duas ao fazer essa aproximação?

Diane Lima: A oportunidade de fazer um projeto como esse no Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, nos coloca diante desse dilema e dessa crise da representação. Isso é uma coisa que a gente discutiu muito, o que significa representar o Brasil, que Brasil é esse que a gente está falando. É um país que é o maior laboratório racial do planeta, então a gente tem aí uma responsabilidade de olhar para essa história, de recontá-la numa perspectiva que dê conta do que, de fato, somos. É óbvio que eu tenho uma compreensão, uma pesquisa extensa no trabalho tanto de Rosana, como de Adriana, mas quando você começa a trabalhar com artistas num projeto que é tão importante, você vai entendendo como as escolhas são feitas de fato, para além de uma questão mais discursiva, ou conceitual. A gente está diante de duas grandes artistas, não só por elas serem grandes nomes da mídia ou representantes de algo, mas porque são artistas muito comprometidas com a prática, com a técnica, com a qualidade, eu diria até insuportáveis nesse sentido. 

Desde o início, convidar a Adriana e Rosana para estarem juntas foi uma ideia arriscada, audaciosa justamente por conta dessa necessidade de um diálogo. Sem o diálogo, sem o encontro, sem esse cuidado minucioso com o processo de criação, seria impossível fazer esse projeto acontecer com o sucesso que ele já tem. Eu vou dizer o sucesso que ele já tem e não falando do público ou do que as pessoas vão achar, mas do que eu acredito que a gente internamente considera como sucesso do projeto, no sentido da sua execução e da sua realização.

A gente vai conseguir entregar um pavilhão por essa possibilidade, essa habilidade de criar um diálogo. Esse é o centro do comigo ninguém podeEssa coreografia composicional foi construída no sentido de potencializar a experiência do pavilhão. Oferecer uma exposição e não oferecer duas exposições com duas artistas que têm trabalhos tão marcantes, icônicos, eu diria.

Isso foi um grande exercício de criação e um grande desafio. É muito gostoso quando a gente consegue ter duas artistas muito maduras, que são muito conscientes do seu próprio trabalho, muito seguras da sua própria forma de fazer. Isso também possibilitou com que a gente tivesse essas aproximações a partir de uma pesquisa que foi histórica, mas também que parte aqui de um de um olhar sobre o presente, que vai trazer o resultado que a gente vai ver logo mais, a partir da semana que vem.

Rosana Paulino: Achei que não seria possível colocar duas obras tão potentes juntas sem que uma ou agredisse a outra ou anulasse a outra, porque, na realidade, estão tratando da mesma história. Cada uma a partir do seu ponto de vista, cada uma a partir das suas pesquisas, cada uma mantendo a sua singularidade. Então, acho que o que se procura nesse caso é o diálogo. Como é que você amarra isso junto sem ficar uma coisa desconexa, ou sem favorecimentos, enfim, acho que o grande desafio talvez tenha sido esse. 

a!b: Na última entrevista, conduzida pela Maria Hirszman, vocês disseram que buscavam tensionar a relação com o prédio e com o espaço sede da bienal. Agora com a expografia da Daniela Thomas, como isso está sendo desenvolvido?

Adriana Varejão: A gente foi organicamente ocupando esses espaços com as nossas obras. Não tem uma única parede no edifício. A gente foi propondo obras para os espaços. A Rosana com essa ocupação maciça da segunda sala com com essa estrutura de concreto, que em relação à obra dos anos 1990, ela desenvolveu e cresceu, adquiriu um um caráter mais monumental no pavilhão, e a minha ideia de ocupar a viga. Existia uma fricção que era a escala, porque o meu trabalho sempre teve muita escala e o da Rosana era muito delicado. Colocar um do lado do outro é uma coisa problemática. Então, a Rosana veio e devolveu  esse trabalho, que ela resgatou lá de trás, que é um trabalho de escala, o trabalho em concreto de 1996, e eu peguei 12 pinturas, que estão meio escondidas no teto da viga. Para ver a pintura, a pessoa tem que olhar para cima, mas ela só vê se estiver embaixo da viga. Se ela vai para o lado, as pinturas desaparecem. Então, foram soluções que a gente foi encontrando em relação à ocupação do espaço. 

a!b: Diane você disse que acredita que “o Brasil verá a si mesmo como um reflexo e uma sombra no espelho”. O que você acha que o público internacional vai ver do Brasil?

Diane Lima: Vai ser uma oportunidade para o público internacional, que conhece pouco, que desconhece a história do Brasil, se aproximar do nosso passado. A gente tem trabalhos muito importantes da carreira de ambas as artistas que dão conta de trazer um pouco essa reescrita da história. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade de compreender como a gente se comporta culturalmente.

Há, de fato, uma especificidade nesse ser brasileiro, que às vezes parece que a gente tá falando até de um estereótipo, mas a gente entende como que a cultura se organiza no cotidiano e essa dimensão espiritual, essa dimensão coletiva, essa profunda relação com a natureza, com o sincretismo espiritual e religioso que parece que é algo dado, mas não é. Ou seja, tem uma série de elementos, que vão se apresentar materialmente. A gente tem uma presença forte da cerâmica Maragogipinho, uma cerâmica brasileira, que é o maior polo de cerâmica da América Latina. Você tem uma série de materialidades, de modos de fazer, que se dão muito por conta das condições que a gente vive. Isso tá presente na prática da Adriana, tá presente na prática da Rosana.

Vai ser uma oportunidade de se aprofundar nesse Brasil, num momento em que o Brasil tem trazido uma contribuição importante para pensar uma presença dessa violência colonial não só na América Latina, mas em todo o Globo. O Brasil tem uma responsabilidade nesse sentido e eu acredito muito que a gente tá deixando uma contribuição importante para esse debate.

Espero que as pessoas gostem tanto quanto a gente gostou de fazer esse projeto e que elas consigam sentir um pouco dessa energia que é comigo ninguém pode também.


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