Nice Avanza
Sem título, Óleo sobre tela, 1998 - Foto: Edson Chagas

Por Giuliano de Miranda

 

Vinte e seis anos após a retrospectiva dedicada à sua obra pelo Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio Del Santo (MAES), Nice Avanza retorna a esse espaço em uma exposição que se propõe a ir além da celebração de sua trajetória. Em cartaz até 2 de agosto, Nice Contemporânea reúne obras da capixaba ao lado de produções inéditas de dez artistas, que dialogam com a obra de Nice, selecionados por edital. A proposta pretende revisitar sua criação artística, mobilizar o acervo institucional e recolocar em circulação debates sobre memória, representação, território, religiosidade e os modos pelos quais determinadas narrativas são construídas dentro da história da arte. A exposição nasce de uma pergunta: como olhar hoje para uma produção que durante décadas foi apresentada ao público por meio de categorias como “naïf”, “primitivista” ou “pintora do cacau”? Essa questão atravessa todo o projeto e ajuda a compreender por que o retorno de Nice ao museu acontece em condições tão diferentes daquelas que marcaram sua retrospectiva em 2000.

Ao longo da segunda metade do século XX, Nice Avanza construiu uma trajetória rara para uma artista oriunda de um estado historicamente distante dos grandes centros de legitimação artística do país. Sua produção circulou nacionalmente e alcançou projeção internacional seu nome é tido como uma das principais referências das artes visuais do Espírito Santo.

Nice Avanza, reprodução da Midiateca Capixaba

As imagens produzidas por Nice ajudaram a construir um imaginário visual ligado ao interior capixaba. Lavouras de cacau, trabalhadores rurais, festas comunitárias, procissões religiosas, mercados populares e cenas do cotidiano tornaram-se marcas recorrentes de sua pintura. Com o passar do tempo, essa associação se tornou tão forte que a artista passou a ser frequentemente identificada como a “pintora do cacau”. Mas a própria força desse reconhecimento produziu um efeito contraditório. Ao mesmo tempo em que aproximava o público de sua obra, reduzia a multiplicidade de questões presentes em sua produção. Suas telas falam sobre trabalho agrícola, mas também sobre pertencimento, religiosidade, relações comunitárias, memória, território e identidade cultural.

Segundo Nicolas Soares, diretor do MAES e curador da exposição, “suas primeiras inquietações relacionadas à obra de Nice surgiram ainda em 2019, durante atuação na Galeria Homero Massena. Chamava atenção a permanência de determinadas formas de leitura sobre a artista e a predominância de análises concentradas em aspectos formais ou biográficos. Ao chegar ao museu e iniciar um processo mais amplo de revisão do acervo, essas questões ganharam novos contornos. A ideia passou a ser compreender não apenas a trajetória de Nice, mas também os modos pelos quais ela foi apresentada ao longo das últimas décadas”.

 

Nicolas Soares diretor do MAES, entrada da exposição de Nice Contemporânea no Museu de Arte do Espírito Santo, 2026. Foto: Fabíola Fraga.

Um dos pontos centrais da exposição é a discussão sobre os termos historicamente associados à artista. Ao revisitar reportagens, documentos e registros audiovisuais, a equipe encontrou repetidamente definições como “naïf”, “primitivista” e “exótico”. Para Nicolas, essas expressões são utilizadas para enquadrar artistas autodidatas, racializados e produções desenvolvidas fora dos principais centros culturais do país. A proposta da exposição é também compreender e ampliar os modos de leitura da obra de Nice.

A retrospectiva realizada pelo MAES em 2000 foi organizada logo após a morte da artista e tinha um caráter de homenagem. Segundo Nicolas, a exposição atual nasce a partir de uma perspectiva diferente, em vez de celebrar uma trajetória consolidada, procura recolocar sua obra em circulação crítica e estimular novas interpretações. Essa diferença ajuda a compreender por que a mostra não foi construída apenas a partir das pinturas de Nice. O projeto procura criar novas interlocuções para sua produção e aproximá-la de debates contemporâneos.

Foi nesse contexto que surgiu o edital Diálogo com o Acervo. Lançado em 2025, o programa tomou a obra de Nice como referência para a produção de novos trabalhos. Os artistas selecionados foram Amanda Chabudé, Dejair Paulo da Silva, Fayra Moreira, Fernando Augusto, Fredone Fone, Ione Reis, Luciano Feijão, Meuri Ribeiro, Paulo Fernandes e Renato Ren. O curador afirma ainda que “o objetivo nunca foi produzir releituras formais da artista. A intenção era compreender para onde sua obra aponta e como questões presentes em suas pinturas continuam mobilizando artistas contemporâneos”. Território, memória, ancestralidade, religiosidade, trabalho agrícola, identidade e pertencimento aparecem como pontos de contato entre as diferentes produções.

A presença da artista Fayra Moreira, mulher negra e trans, representa um aspecto importante da nova coleção criada a partir da exposição.  O curador considera mais importante compreender como a própria obra de Nice passou a provocar novos deslocamentos dentro da instituição do que estabelecer marcos simbólicos. A incorporação das obras produzidas para a mostra amplia a diversidade do acervo e inaugura uma nova etapa na política de aquisições do museu.

O edital criou uma linha específica de financiamento para ações de mediação e formação de público. Conforme observa o gestor do museu, “o educativo não foi pensado como atividade complementar, mas como parte estruturante da proposta. A exposição procura articular pesquisa, formação e acesso público, entendendo que a circulação do conhecimento é parte essencial do trabalho museológico”.

“Nos últimos anos, diferentes pesquisas acadêmicas passaram a incorporar a obra de Nice Avanza em trabalhos de graduação, mestrado e doutorado.  A exposição pode ampliar esse movimento e estimular novas abordagens sobre a artista. A expectativa é que futuras investigações ultrapassem leituras exclusivamente formais e ampliem o debate sobre cultura, território, raça, religiosidade, trabalho e memória presentes em sua produção”. Ao longo da entrevista, Nicolas evita apresentar a exposição como uma resposta definitiva sobre Nice Avanza. “A mostra não procura encerrar discussões nem estabelecer uma interpretação única para a artista. Seu objetivo é criar condições para que novas leituras continuem surgindo”.

 


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