Fotos do Freddy Alborta, fotógrafo de La Paz, encontrado e entrevistado pelo artista e pesquisador Leandro Katz, autor da exposição

PROA 21 é um novo espaço dedicado à arte emergente em Buenos Aires. Fica no bairro da Boca, perto do Caminito e da Bombonera, às margens do Riachuelo e a poucos passos da sede da tradicional Fundación PROA.

Construido onde antes funcionava o ateliê de três pintores e um escultor argentinos, Benito Quintela Martín, Miguel Victorica, Fortunato Lacámera e Julio Vergottini, o PROA 21 foi inaugurado em abril com a mostra Proyecto para El dia que me quieras.

A obra, do artista argentino Leandro Katz, reúne pela primeira vez as instalações cumulativas feitas entre 1993 e 2007, que abordam com profundidade, a derrota de Guevara no final dos anos 60, na Bolivia. As nove instalações, agora acompanhadas por dois filmes, tem como foco a importância das imagens, das fotografias, na vida dos personagens da guerrilha. Na sua derrota e nas suas mortes.

Hoje com 80 anos, Leandro Katz iniciou este trabalho em 1987 ao examinar a famosa foto de seu compatriota Ernesto Guevara, morto e exibido a um punhado de jornalistas, em outubro de 1967, na lavanderia do hospital da pequena cidade de Vallegrande, para onde havia sido levado depois de executado em La Higuera, ao final de sua derrotada experiência boliviana.

“Lá, no chão, havia alguma coisa vulnerável, mole; eu podia vê-la através da jaqueta de um fotógrafo e da bota de um soldado, ali no chão: era a parte de baixo de um braço? E de quem era o braço? “, refere-se Leandro Katz a algo longe do foco principal da foto.

Para o curador Cuauhtémoc Medina, Katz é um produtor de imagens visuais e escritas e sua inquietude perante a foto, levou-o a mergulhar em uma investigação que foi muito além da moldura daquela fotografia.

As primeiras pesquisas o fizeram chegar até Freddy Alborta, o autor da foto, até então atribuida ao editor da UPI/Reuter que a distribuira via radiofoto. A entrevista que Leandro Katz fez com Alborta está em El dia que me quieras (1997) um dos dois filmes que fazem parte da exposição.

As fotos, antes creditadas a UPI/Reuters, eram de Freddy Alborta, fotógrafo de La Paz, encontrado e entrevistado por Leandro Katz, o autor da exposição do PROA 21.

No filme, Alborta descreve a viagem de La Paz a Vallegrande  dos cerca de 22 jornalistas  – dois fotógrafos entre eles – e da surpresa que teve, tanto com o corpo de Guevara morto, com os olhos abertos e com o meio sorriso na face, quanto com os dois corpos jogados no chão, dos guerrilheiros Willi e Chino. E era à um deles que pertencia o braço que intrigara Leandro Katz.

No outro filme que faz parte da exposição, Exhumación (2007), está a entrevista com o perito forense argentino Alejandro Incháurregui que foi à Bolivia, 30 anos depois, em 1997, e identificou os restos de Che Guevara. Incháurregui é o mesmo perito que participou dos trabalhos de identificação do nazista Josef Mengele, no Brasil em 1992 e mais tarde, de Santiago Maldonado, na Argentina, no final do ano passado.

Também estão nas paredes do PROA 21, as provas de contato e as ampliações dos negativos produzidos naquele dia10 de outubro de 1967, no Hospital Nuestro Señor de Malta, em Vallegrande, por Alborta. Imagens que serviram de inspiração para o ensaio do crítico e escritor britânico John Berger, que delas fez as analogias com as obras de Mantegna, O Cristo Morto (1480) e Lição de anatomia do Dr. Tulp (1632), de Rembrandt.

as fotos, antes creditadas a UPI/Reuters, eram de Freddy Alborta, fotógrafo de La Paz, encontrado e entrevistado por Leandro Katz, o autor da exposição do PROA 21.
E, a partir das fotos, são do ensaísta britânico John Berger as analogias com A Lição de Anatomia do Dr.Tulp, 1632, de Rembrandt, e o Cristo Morto, 1480, de Mantegna

Em outra das instalações há uma cronologia baseada em pesquisa que confronta mais de dez fontes –  dentre elas o Diário Boliviano, do próprio Guevara e Como capturé al Che, do General Gary Prado Salmón –  e descreve os eventos de 13 de maio de 1963 até 17 de outubro de 1997, ou seja, os antecedentes, os fatos e algumas das consequências da guerra de guerrilhas na Bolivia.

A seguir reproduzimos quatro pequenos trechos:

7 de outubro de 1967 – Se cumplieron los 11 meses de nuestra inauguracion guerrillera sin complicaciones, bucólicamente; hasta las 12.30 hora en que una vieja, pastoreando sus chivas, entró en el cañon en que habiamos acampado y hubo que apresarla. La mujer no ha dado ninguna noticia fidedigna sobre los soldados, contestando a todo que no sabe, que hace tiempo que no va por allí…

El Ejército dio una rara informacion sobre la presencia de 250 hombres en Serrano para impedir el paso de los cercados en número de 37 dando la zona de nuestro refugio entre el rio Acero y el Oro. La noticia parece diversionista – Diario Boliviano, de Ernesto Che Guevara.

8 de outubro de 1967 – Se informa que el enemigo estea en el Churo donde se juntam las Quebradas Racetillo y Jaguey. A las 11:30 hrs. es atacado por las Comps. A y B , caen 3 muertos y 2 heridos entre estos últimos está Che Guevara y 2 soldados muertos y 4 heridos, todos los cuales son llevados a La Higuera-   

No Disparen, Soy El Che,  do General Arnaldo Saucedo Parada.

9 de outubro de 1967 – Comunicado de las Fuerzas Armadas:”…a) Ernesto Che Guevara cayó en poder de nuestras tropas gravemente herido y en pleno uso de sus facultades mentales. – Después de haber cesado el combate, fue trasladado a la población de La Higuera más o menos a las 20:00 horas del dia domingo 8 de octubre, donde falleció a consecuencia de sus heridas.”

Como Capturé Al Che, do General  Gary Prado Salmón.

9 de outubro de 1967 – “A la una de la tarde salí de la escuelita y afuera esperaban el Sgto. Mario Terán y el Tnte. Pérez quienes parecían estar embriagados. Les ordené que no disparen a la cara sino del cuello para abajo. Diez minutos más tarde escuché los tiros.”-

“ Shadow Warrior, The CIA Hero of a Hundred Unknown Battles “ – Félix I. Rodriguez

Duas mulheres aparecem na obra de Katz. Uma delas é Monica Ertl, que faz parte da fase pós-guerrilha e foi quem matou com três tiros Roberto Quintanilla Pereira, em 1971, então consul boliviano em Hamburgo. Ele é o militar que aparece na célebre foto com a mão nos cabelos do cadáver de Guevara.

Ainda nas palavras de Cuauhtémoc, a obra de Katz aborda o modo que a fotografia de meados do século XX permeava o conjunto da experiência social. Guevara foi um produtor de imagens e não só para a confecção de disfarces como o que usou para entrar na Bolivia, via Madri e São Paulo com a cabeça raspada e a identidade do dr. Adolfo Mena González, funcionário da OEA.  Guevara levava consigo sua câmera, como instrumento ideológico. Essa “lente guerrilheira” é o tema da instalação que tem Tania, a outra das duas mulheres como foco.

Haydeé Tamara Bunke Bider – Tania era seu nome na guerrilha – morreu antes de Guevara nos confrontos com o exército boliviano, no dia 31 de agosto de 1967. Assim como Guevara, Haydeé/Tania também fotografava muito. Registravam o dia a dia dos guerrilheiros e pretendiam usar o material para fins de propaganda mais tarde como aconteceu em Sierra Maestra, em Cuba, no final dos anos 50. Na Bolivia produziram rolos e rolos de fotos. Muitos nem foram revelados. Foram encontrados nos acampamentos, na mochila de Guevara, nos pertences de Tania e acabaram funcionando como faca de dois gumes. Mais que tudo, as  fotos serviram para identificar os guerrilheiros e, mais tarde, suprema humilhação, foram usadas para ilustrar os livros publicados pelos militares bolivianos, como o do general Gary Prado, acima citado.

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