Início Site Página 52

Casa Roberto Marinho abre exposições sobre Maria Martins e modernismo

"O touro" (1925), Tarsila. Divulgação.
"O touro" (1925), Tarsila. Divulgação.

Em parceria com o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), a Casa Roberto Marinho apresenta a retrospectiva Maria Martins: desejo imaginante. Com curadoria de Isabella Rjeille e curadoria-adjunta de Fernanda Lopes, a mostra reúne cerca de 40 obras (esculturas, gravuras, desenhos e pinturas) produzidas entre as décadas de 1940 e 1950, além de documentos, publicações e fotografias que contextualizam a trajetória da artista mineira.

"L'Impossible" (1940), Maria Martins. Divulgação / Foto Vicente de Mello.
“L’Impossible” (1940), Maria Martins. Divulgação / Foto Vicente de Mello.

“É a maior exposição dedicada à obra de Maria no Rio de Janeiro, desde sua retrospectiva no Museu de Arte Moderna em 1956”, revela Fernanda Lopes. “É muito interessante mostrar seu trabalho em 2022, ano em que se comemora o centenário da Semana de Arte Moderna. Ela, como Goeldi e Flavio de Carvalho, representa outra ideia dos trópicos, um moderno mais sombrio que subverte o que é dócil e agradável aos olhos do espectador. Não há em sua obra o suposto verniz cordial de um Brasil solar.”

Desejo imaginante divide-se em seis núcleos que abordam como a artista articulou, ao longo de sua produção, os diversos imaginários acerca do Brasil e dos trópicos. A exposição inclui legendas expandidas das obras, oferecendo informações acerca da trajetória da artista e apresentando novas leituras de seu trabalho. Encerra a mostra uma completa cronologia ampliada até os dias de hoje.

Já a exposição Fluxos do Moderno, em decorrência ao centenário da Semana de 22, tem curadoria de Lauro Cavalcanti, diretor do instituto, e reúne 43 obras do acervo, produzidas entre os anos de 1910 e 1940. São, ao todo, 12 nomes apresentados na mostra: Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), Anita Malfatti (1889-1964), Candido Portinari (1903-1962), Di Cavalcanti (1897-1976), Ismael Nery (1900-1934), José Pancetti (1902-1958), Lasar Segall (1889-1957), Milton Dacosta (1915-1988), Roberto Rodrigues (1906-1929), Tarsila do Amaral (1886-1973), Victor Brecheret (1894-1955) e Vittorio Gobbis (1894-1968).

A exposição abre com expressões que remontam aos primórdios do movimento, como caricaturas e ilustrações que se apresentam como um caminho propício à instalação do moderno. Em seguida, o visitante encontra Candido Portinari, Di Cavalcanti e Guignard. As reflexões metafísicas de Ismael Nery, um dos artistas mais presentes na Coleção da Casa Roberto Marinho, também integram a coletiva.

Pinturas de Anita Malfatti, Milton Dacosta e Di Cavalcanti serão exibidas pela primeira vez na Casa – desde a inauguração como instituto cultural em abril de 2018. A exposição reúne outras obras pouco vistas pelo público, como as seis pinturas do artista pernambucano Roberto Rodrigues, irmão do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Três esculturas de Brecheret, a célebre tela O touro (Paisagem com touro), c. 1925, de Tarsila do Amaral, e pinturas de Pancetti e Vittorio Gobbis compõem a seleção.

Museu de Arte do Rio Grande do Sul expõe 250 obras da Coleção Sartori

"Ponto-Zero", Rodrigo Braga, 2019. Foto: Divulgação

Em meio ao centro histórico de Porto Alegre, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) apresenta um olhar contemporâneo sobre o estado gaúcho, o Brasil e a arte. Com curadoria de Paulo Herkenhoff, a nova exposição em cartaz na instituição apresenta ao público pela primeira vez (ao menos formalmente) a Coleção Sartori. Sediada em Antônio Prado, cidade da Serra Gaúcha tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a coleção particular de Paulo Sartori e Nádia Ravanello Pasa é hoje considerada uma das mais relevantes da região.

Até maio de 2022, cerca de 250 obras ocupam as salas do primeiro andar do MARGS (Pinacotecas, Salas Negras, Sala Aldo Locatelli e Foyer), reunindo mais de 100 artistas de diferentes gerações e estilos. Entre os nomes expostos estão Adriana Varejão, Arjan Martins, Berna Reale, Cildo Meireles, Claudia Andujar, Élle de Bernardini, Glauco Rodrigues, Hudinilson Jr., Jaime Lauriano, Leda Catunda, Lenora de Barros, Túlio Pinto e Tunga.

“Trazer isso a público, propiciar isso para a cidade, também é um papel do museu, sobretudo um museu público”, compartilha Francisco Dalcol, diretor-curador do MARGS. E completa: “Uma coleção como essas vem suprir o que nós não temos em nossos acervos, nos complementa, preenche essas lacunas – em particular as mais contemporâneas”. 

A exposição Coleção Sartori: arte contemporânea habita Antônio Prado cobre um arco histórico de 1903 a 2021, dedicando especial foco às últimas décadas (1980 em diante). Porém, a organização das salas não segue uma lógica cronológica. A divisão também não se dá por linguagens artísticas ou suportes, apesar da variedade que se encontra nos ambientes do museu ao caminhar entre esculturas, pinturas, objetos, fotografias, vídeos e livros. Em entrevista à arte!brasileiros, Herkenhoff conta que optou por exibir esse recorte da coleção a partir daquilo que nomeia “núcleos significativos” – uma articulação dos trabalhos em termos simbólicos, criando sentidos e vínculos, pensados sob os mais diversos pontos de vista. Assim, “a mostra propõe leituras transversais da coleção com o pop gaúcho, afro-brasileiros, indígenas, arte e história da arte, cartografia e formação social do Brasil”, explica o curador no texto do catálogo.

Leituras transversais

Na sala principal do museu, uma parede verde se destaca. Escrito em grande escala, lê-se: “Área Indígena”. A obra de Xadalu Tupã Jekupé nos introduz a um primeiro núcleo e nos lembra que esse espaço – que hoje é o maior museu público do estado – já foi (e é) território indígena. A pintura dá continuidade a um trabalho do artista guarani, em que essa mesma frase é espalhada pelas cidades brasileiras. “No Rio Grande do Sul sempre causou muita comoção. Algumas pessoas ficavam muito preocupadas, porque aquilo estava ‘sujando’ a cidade com a presença indígena. Então, é uma forma de afirmar que o museu também é parte desse território, [e lembrar que] o MARGS foi construído sobre uma área indígena”, conta o curador. 

Acompanha a obra um núcleo composto por outros trabalhos de Xadalu: uma pintura de Maspã, parteira do povo Huni Kuin no Acre; uma criação conjunta de Dua Busen, pajé da aldeia Coração da Floresta, com jovens de sua comunidade; o livro Nhemmombaraete Reko Rã’i, de José Verá, contador de histórias da Aldeia Yvity Porã; e uma série de esculturas em madeira de animais valorizados pelos guaranis – etnia indígena muito presente no estado.  

As obras se avizinham a outros dois núcleos centrais na exposição: Afro Brasil e Arte sacra afro-brasileira e a cartografia da violência. Neles, nos deparamos com a exaltação de culturas e figuras silenciadas – como na obra de Elian Almeida -, com os retratos das religiões de matriz africana – como nos trabalhos de Ayrson Heráclito e Moisés Patrício – e com denúncias do racismo estrutural brasileiro – como em De quem é o corpo que pode ser torturado?, de Leandro Machado, e Não respeitamos símbolos racistas, de Jaime Lauriano. 

Herkenhoff conta que optou por dar destaque a essa parcela da coleção “porque são grupos sociais e étnicos muito importantes na formação social do Brasil e cuja arte explode nas últimas décadas”. Porém, as presenças indígena e afro-brasileira não se mantém segregadas e limitadas a um espaço determinado no museu. Ao visitar a mostra, notamos a diversidade brasileira (e gaúcha) permear as demais sessões – sejam as ligadas a história do país ou à arte conceitual. Assim, os trabalhos são conectados a partir de divisões outras – que não apenas as étnicas ou raciais.  

A arte sul-rio-grandense dos séculos 20 e 21 também ganha destaque na mostra pelo grande número de obras. “Sempre insisti com Sartori que tem muita importância uma boa coleção de arte gaúcha no Rio Grande do Sul”, destaca Herkenhoff, que passou a auxiliar o casal de colecionadores antes que a exposição no MARGS fosse sequer uma ideia e aprofundou a relação nos últimos dois anos, no processo de pesquisa, seleção e novas aquisições que desembocaram no mostra hoje apresentada no museu.

Na exposição, essa presença sul-rio-grandense toma diferentes formas. Em alguns momentos, os artistas aparecem de forma isolada – como na ala da pop art gaúcha e na sala dedicada a André Severo -, já em outras áreas do museu não há divisão explícita e somos colocados em contato com as confluências entre história e arte do país e do estado – pensando ambos para além da branquitude e da cultura hegemônica. “A coleção não é arquitetada para abafar ninguém. Ela é pensada para a comunidade de Antônio Prado, para o Rio Grande do Sul. Ela pensa em como articular a arte do Rio Grande do Sul à arte brasileira”, pontua Paulo Herkenhoff.

Entre público e privado

Iniciada em 2013, a Coleção Sartori tem a mostra no MARGS como um marco de sua primeira abertura formal ao público. A postura vai de encontro a outros projetos do colecionador, que já abriu sua seleção de obras para visitas escolares em Antônio Prado e mantém uma parceria com a Universidade de Caxias do Sul, na qual patrocina a vinda de artistas à instituição de ensino. Rosangela Rennó, Berna Reale, Paulo Pasta, Daniel Senise, Leda Catunda e Vik Muniz são alguns dos nomes que já foram levados (presencial ou virtualmente) à universidade através do projeto.

Sartori conta que ainda não há previsão para a mostra circular por outras cidades ou estados, mas conta que já recebeu convites do Rio de Janeiro e São Paulo e que tem pensado na possibilidade de levar a coleção – talvez em recortes menores – a outras instituições. 

Curso “Estudos da Imagem”, com Simonetta Persichetti

Banner Estudos da Imagem
Banner Estudos da Imagem

Camille Paglia, professora de Humanidades e Estudos Midiáticos, afirma em seu livro Imagens Cintilantes que “A vida moderna é um mar de imagens. Nossos olhos são inundados por figuras reluzentes e blocos de texto sobre nós por todos os lados”. Esta frase vai ser o ponto de partida do nosso curso, que contará com 12 aulas de 1h30 cada. Estudos da Imagem será ministrado pela mestre em comunicação e artes, professora e crítica de fotografia Simonetta Persichetti*

Como sobreviver a esta vertigem imagética? Será que devemos aprender a gerenciar nossa maneira de ver?

Durante as aulas o aluno terá a possibilidade de perceber o valor do entendimento e da decodificação da linguagem visual. Compreenderá a importância de estudar a imagem como protagonista de um discurso e não mero coadjuvante, além de conhecer os diferentes estágios que a imagem trilhou dentro das ciências humanas.

Vamos mergulhar, com a ajuda de autores como Jonathan Crary, Georges Didi-Huberman, Jacques Rancière, para nos aprofundarmos nos usos e funções da imagem. Teremos como diretrizes a filosofia da imagem – da natureza do realismo às ficções narrativas -; o espaço do visual na contemporaneidade; a representação imagética no tempo e no espaço – fotografia, cinema e documentário -; o visual como espetacularização midiática; e a estética como formadora de discurso.

Ao longo do curso Estudos da Imagem, por meio de imagens feitas por artistas contemporâneos e com a ajuda também das ciências cognitivas sobre o prazer estético e o lado ético das imagens, faremos conexões entre pensamento e linguagem. Assim, pensando também como nossa percepção foi se modificando, a quebra da promessa da modernidade e o olhar contemporâneo.

Quando? De 23 de março a 08 de junho. Às quartas-feiras, das 19h00 às 20h30.

Investimento: R$ 680,00 ou 2x de R$ 340,00

Se inscreva no link: bit.ly/3HfbSXt

Professores e estudantes têm desconto de 50%. Não cumulativo com o desconto de 10% da pré-venda até o dia 12/03. Para obter o desconto é só inserir o cupom PREVENDA10 ou ESTUDOS50 (para estudantes e professores) na hora da compra.


* Simonetta Persichetti é Mestre em Comunicação e Artes pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; Doutora em Psicologia (Psicologia Social) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; e Pós-Doutora pela Escola de Comunicação e Artes, USP. Sua obra “Imagens da Fotografia Brasileira” lhe rendeu o Prêmio Jabuti na categoria reportagem. Como crítica fotográfica, colabora com o jornal O Estado de S. Paulo e com esta revista. Durante 12 anos, ela lecionou na Faculdade Cásper Líbero.

Santídio Pereira expõe na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre

Imagem horizontal, colorida. Vista da exposição SANTÍDIO PEREIRA INCISÕES RECORTES ENCAIXES, na Fundação Iberê Camargo. Sala com paredes brancas e chão de madeira. À esquerda, dois quadros grandes, lado a lado; à direita um quadro de mais de 2 metros de altura; ao centro um quadro grande, de cerca de 1 metro, ao lado de uma sequência de 6 pequenos quadros. Todos os trabalhos são xilogravuras de bromélias.
Vista da exposição. Foto: Giulia Garcia

Nas paredes brancas da Fundação Iberê Camargo, 22 obras saltam aos olhos por suas cores e dimensões. Xilogravuras com dois metros de altura e pinturas com mais de um metro e meio de comprimento chamam atenção em Santídio Pereira – incisões, recortes e encaixes, em cartaz até 1º de maio. A mostra é a primeira individual do jovem artista em um museu e ocorre após sua passagem por importantes coletivas na Fondation Cartier pour l’Art Contemporain, em Paris, na Power Station of Art de Xangai e no Museu de Arte Moderna de São Paulo. 

Entre pássaros e plantas, as obras nos conduzem pelas memórias de Santídio em Curral Comprido, povoado do Piauí onde o artista nasceu. “É uma tentativa de resgatar e preservar essa memória que foi tão feliz, mas que não é só minha, de certa forma é uma memória coletiva das pessoas que nasceram ali no Nordeste”, compartilhou o artista em bate-papo promovido pela Fundação Iberê Camargo em parceria com o Instituto Ling (assista aqui).

A série Pássaros, à qual somos apresentados em quatro grandes quadros na exposição, talvez seja a que mais claramente reverbera esse conceito, ao retratar 22 pássaros da Caatinga brasileira através da xilogravura. “O processo de seleção dessas espécies é um pouco afetivo. Eu tinha memórias da infância, de quando vivia no Piauí, desses pássaros que eu conhecia pelos nomes.” Alguns dos quadros aprofundam ainda mais o conceito, ao criarem uma sobreposição de memórias pelas diferentes camadas de gravura que os compõem. Em uma primeira etapa, Santídio imprime no papel as plantas e paisagens que o remetem a vivências de sua infância – criando o fundo da obra – em seguida, as sobrepõe com as representações dos pássaros que permeiam suas recordações. 

Em outra sala, somos levados às lembranças de Santídio já na cidade de São Paulo – onde vive desde os seis anos de idade. Trata-se da série Morros, que combina xilogravuras e pinturas monocromáticas com representações de paisagens. O trabalho teve início em uma viagem do artista a Santo Antônio do Pinhal, no interior paulista. Aquela que a princípio pretendia ser uma imersão artística de estudo das bromélias (para outra série de obras), trouxe um encantamento inesperado ao piauiense: os morros da região. Ao revisitar o caderno de esboços que levara na viagem, percebeu que os estudos das paisagens daquele lugar tomavam grande parte das páginas. Assim, deu início à série, que passaria a refletir também outras localidades, como a Serra da Bocaina e a Serra da Cantareira, que fizeram parte da infância do artista. 

Monumentalizando a natureza

Outro aspecto que chama grande atenção nas obras são as suas dimensões. Para chegar a quadros de mais de dois metros de altura ou comprimento, Santídio Pereira afasta-se da técnica clássica da xilogravura – as impressões a partir de imagens criadas em matriz de madeira utilizando uma goiva – e “acrescenta seu conhecimento de marcenaria para recortar peças que depois serão encaixadas como em um quebra-cabeça”, explica o curador de arte Ricardo Sardenberg no texto do catálogo da exposição. “Com uma goiva, um formão [ferramentas clássicas da xilo], você tem o alcance do seu braço; com uma serra tico-tico você caminha em volta [da madeira]. É uma experiência física”, explica Santídio. Assim, temos as incisões, os recortes e os encaixes que dão título à mostra: as incisões na madeira, seguidas dos recortes feitos com o recurso da marcenaria e os encaixes das diferentes matrizes.

A escolha pelos grandes formatos também veio do interesse de Santídio pelo uso de cores. “Uma vez um amigo me falou que um centímetro de amarelo causa uma sensação e dois metros desse mesmo amarelo causam outra sensação completamente distinta”, conta. Assim, busca experimentar os impactos que as cores de suas obras podem propiciar ao público: “Tem um desejo meu de transmitir memórias coletivas alegres, elogiando as belezas e as nossas maiores riquezas [no Brasil], que para mim são a cultura e a natureza – no sentido expandido das duas palavras”, compartilhou durante o bate-papo promovido pela Fundação Iberê Camargo e pelo Instituto Ling. Ao que Ricardo Sardenberg complementou: “Acho que é aí que entra o lado político do trabalho, porque ele monumentaliza a natureza; de uma forma a colocar na sua frente algo que a gente às vezes perde a dimensão: o tamanho da destruição da natureza hoje é monumental, porque a natureza é monumental”.

SERVIÇO

Santídio Pereira – incisões, recortes e encaixes
Fundação Iberê Camargo – Av. Padre Cacique, 2000 – Porto Alegre, RS
5 fev – 1 maio | quinta, das 14h às 18h (gratuito); sexta a domingo, das 14h às 18h (ingressos em iberecamargo.org.br/)

Mostra “Francisco Brennand: Um primitivo entre os modernos” chega ao Rio

brennand
Vista geral da exposição. Foto: Divulgação.

Após passar pela galeria Gomide&Co, em São Paulo, entre o fim de 2021 e o início deste ano, a mostra Francisco Brennand: Um primitivo entre os modernos ganha nova versão no Rio de Janeiro na Carpintaria (braço carioca da galeria Fortes D’Aloia & Gabriel). Com curadoria de Julieta González, atual diretora artística de Inhotim, a exposição fica em cartaz na casa carioca entre 19 de fevereiro e 9 de abril de 2022.

Segundo o texto de divulgação, a exposição é guiada pela afirmação de Brennand (1927-2019) de possuir uma consciência moderna, ao mesmo tempo em que reivindica sua ancestralidade, um coração antigo: “Minha arte é moderna. […] E ela se refere sempre a uma ancestralidade, a uns arcaísmos e, sobretudo, a arquétipos. Então, neste momento, eu permaneço moderno e propositadamente antigo. Sobretudo quando trabalho com cerâmica”.

brennand
“Frutas de verão”, 1958-1959, de Francisco Brennand. Foto: Divulgação

Nas palavras de Julieta González, “Brennand optou por trabalhar contra a corrente de abstração geométrica e mais perto da infexão primitivista que informava suas explorações de formas primitivas e arcaicas. Durante toda sua vida, ele desenvolveu uma linguagem pessoal independente das narrativas artísticas dominantes que informavam a arte de seus contemporâneos no Rio e em São Paulo. […] A abordagem de Brennand parece orientada para um reencantamento que implicaria em um retorno à natureza, às tradições arcaicas e a uma visão alquímica que reside na transmutação de elementos e abre espaço para outras formas de vida, incluindo a de objetos aparentemente inanimados.”

Estariam neste universo híbridos entre o mundo humano, vegetal e animal, ovos parindo serpentes, fontes de vida que emergem da fusão de pedaços do corpo e órgãos sexuais e uma inflexão animista preponderante que correm por toda sua obra, particularmente pelas suas esculturas em cerâmica. A mostra não deixa de apresentar também algumas pinturas.

brennand
“Esferas atacadas por um prego”, 1976, de Francisco Brennand. Foto: Divulgação

A exposição coincide com o cinquentenário da Oficina Brennand, recentemente transformada em instituto (para saber mais, leia aqui matéria de Miguel Groisman publicada na edição #57 da arte!brasileiros). É na Oficina Brennand que a poética do artista encontra sua totalidade, segundo o texto de González. “Júlia Rebouças, curadora residente da Oficina, pontua que ‘ao invocar ancestralidades e evocar cosmovisões, a Oficina existe como arte em seu estado imemorial. Ela se inscreve no tempo mineral da pedra, ainda que pertença à efemeridade da terra’.”

SERVIÇO: “Francisco Brennand: Um primitivo entre os modernos”
Até 9 de abril; de ter à sex 10h – 19h | sáb 10h – 18h
Carpintaria: Rua Jardim Botânico, 971 — Rio de Janeiro

MASP abre três novas exposições em fevereiro

Abdias Nascimento, "Okê Oxóssi" (1970). Divulgação MASP.
Abdias Nascimento, "Okê Oxóssi" (1970). Divulgação MASP.
Abdias Nascimento, "Okê Oxóssi" (1970). Divulgação MASP.
Abdias Nascimento, “Okê Oxóssi” (1970). Divulgação MASP.

Abdias Nascimento: um artista panamefricano reúne 62 pinturas – desde o início de sua produção em 1968 até o ano de 1998 – do multiartista Abdias Nascimento, que foi dramaturgo, ator, escritor e diretor, além de ativista político e intelectual. Com curadoria de Amanda Carneiro, curadora assistente, e Tomás Toledo, curador-chefe do MASP, a exposição está inserida no biênio dedicado às Histórias Brasileiras no museu. A mostra enfatiza o repertório de ideias, cores e formas do movimento pan-africanista, com noções, fontes e imaginário latino-amefricano – termo cunhado por Lélia Gonzalez (1935-1994), amiga e interlocutora política e intelectual do artista e formuladora do conceito de amefricanidade para se referir à experiência negra na América Latina.

 

Volpi, sem título (Santa Rita de Cássia, 1960). Divulgação MASP.
Volpi, sem título (Santa Rita de Cássia, 1960). Divulgação MASP.

Já Volpi popular traz cerca de 100 trabalhos de Alfredo Volpi que oferecem ao público um olhar panorâmico acerca da complexa e diversa prática do artista. Organizada no 1º andar da instituição, a mostra se divide em oito núcleos que acompanham as diferentes temáticas de produção de Volpi: Cenas urbanas e rurais; Santas e santos; Retratos; Marinhas e temas náuticos; Fachadas; Bandeirinhas, mastros e faixas; e Temas lúdicos. Com curadoria de Tomás Toledo, esta é a terceira mostra de uma série de individuais que o museu vem organizando em torno de artistas modernistas brasileiros canônicos do século 20, cujos trabalhos denotam o emprego de referências populares. A primeira mostra dessa série, Portinari popular, foi apresentada em 2016 e a segunda, Tarsila popular, em 2019, que se tornou a exposição mais visitada da história do museu.

Letícia Parente, "Marca Registrada" (1975).
Letícia Parente, “Marca Registrada” (1975). Divulgação MASP.

Por fim, a exposição Sala de vídeo: Letícia Parente, apresenta cinco trabalhos fundamentais para o entendimento da carreira de Parente, artista, pesquisadora e pioneira da videoarte no Brasil. São eles: Eu armário de mim (1975), In (1975), Marca registrada (1975), Preparação I (1975) e Preparação II (1976). Através dessas obras é possível perceber como – utilizando-se de elementos do cotidiano, como o armário, a linha, a agulha e a fotografia – Parente elaborou campos de experimentações que aproximam a vida íntima às questões da sociedade. A mostra tem curadoria de María Inés Rodríguez, curadora-adjunta de arte moderna e contemporânea do MASP, e se insere na programação já tradicional da Sala de vídeo do MASP, em que se propõe o aprofundamento em produções audiovisuais no âmbito da produção artística.

Doutora em química, Letícia Parente desenvolveu seu interesse pela arte em paralelo ao trabalho científico e começou a se dedicar à prática artística desde a década de 1970, ao migrar de Salvador para o Rio de Janeiro. Em contato com artistas como Anna Bella Geiger, Ana Vitória Mussi e Sonia Andrade, encontrou na arte uma via para a liberdade de expressão em meio ao contexto repressivo da ditadura civil-militar.

Todas as exposições precisam de agendamento online obrigatório através deste link.

“Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil” no Sesc 24 de Maio; assista ao vídeo

Raio-que-o-parta:
Vista geral da exposição. Foto: Coil Lopes

Em cartaz no Sesc 24 de Maio até 7 de agosto, a exposição Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil reflete sobre a noção de “arte moderna” no Brasil para além da década de 1920 e do protagonismo muitas vezes atribuído pela história da arte a São Paulo. Para tal, são reunidas obras de um arco temporal que vai do final do século 19 a meados do século 20, além da essencial presença de artistas que desenvolveram suas pesquisas em diversos estados brasileiros.

Com curadoria dos pesquisadores Aldrin Figueiredo, Clarissa Diniz, Divino Sobral, Marcelo Campos, Paula Ramos e Raphael Fonseca e consultoria de Fernanda Pitta, a mostra reúne mais de 600 obras de cerca de 200 artistas. A exposição integra a ação em rede do Sesc-SP intitulada “Diversos 22 – Projetos, Memórias, Conexões”, em razão das efemérides do centenário da Semana de Arte Moderna e do Bicentenário da Independência do Brasil.

A arte!brasileiros esteve no Sesc 24 de Maio para filmar Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil e entrevistar o curador Raphael Fonseca. Assista ao vídeo abaixo:

SERVIÇO: Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil
ONDE:
Sesc 24 de Maio (Rua 24 de Maio, 109, centro, São Paulo)
QUANDO: até 7 de agosto, de terça a sábado, das 10h às 20h, domingo e feriados, das 10h às 18h.
Entrada gratuita

 

 

Individual na Galeria Luisa Strina apresenta diversidade na obra de Jorge Macchi

Imagem horizontal, colorida. Obra DRIFT BOTTLE 7 (TESTIGO DE DERIVA), de Jorge Macchi, uma garrafa plástica de água mineral que contém em seu interior a reprodução em escala reduzida de um veleiro
"Drift bottle 7 (Testigo de deriva)", Jorge Macchi. Foto: Edouard Fraipont / Cortesia Galeria Luisa Strina
Fotografia horizontal, colorida. Vista da exposição A ESTATURA DA LIBERDADE, de Jorge Macchi. Sala com paredes brancas e chão em cinza claro. 3 obras se apresentam, da esquerda para a direita temos: DEBAJO DE LA MESA, na qual 6 mesas de madeira de igual tamanho e forma se conectam pelas extremidades de suas pernas deixando um espaço central vazio que forma uma espécie de cubo invisível; A ESTRATÉGIA DA AMEBA, uma pequena mala de viagem automatizada que vaga sozinha pela galeria - e CONFÉSION, caixas de papelão de smart TVs de 50 polegadas cuja superfície apresenta um padrão em cruz vazado que remete ao metal perfurado dos confessionários.
Vista da exposição, com as obras “Debajo de la mesa”, “A estratégia da ameba” e “Confésion”. Foto: Edouard Fraipont / Cortesia Galeria Luisa Strina

Sem direção definida e objetivo claro, uma pequena mala sobre rodas percorre sozinha a galeria. Colidindo com obras, paredes e visitantes, altera seu rumo a cada obstáculo – como um protozoário, que diante de um estímulo reage de forma primária, afastando-se ou aproximando-se. Trata-se de La estrategia de la ameba (A estratégia da ameba, em tradução livre), de Jorge Macchi. Para o artista argentino, a instalação permite, de forma grotesca e bem-humorada, que a aparente diversidade das peças expostas seja “ridiculamente homogeneizada” na mostra A estatura da liberdade, que entrou em cartaz no último dia 9 de fevereiro na Galeria Luisa Strina em São Paulo.

Os trabalhos, feitos em diferentes materiais e com características distintas, parecem reunidos como em um livro de contos, em que cada obra é independente. A maleta automatizada se apresenta como um “objeto voraz e obstinado, que circula criando relações sempre novas entre as peças”, aponta Macchi. Assim, ela corrobora com a intenção primeira do artista: “Que se perceba um rio subterrâneo que perpassa todos os objetos”, conectando-os de alguma forma.

Porém, talvez não seja possível dar nome a esse rio, colocar essa suposta unidade em palavras. “Geralmente, acham que um artista tem que explicar o seu trabalho, mas estamos falando em outra linguagem: a visual. Não é possível traduzir”, explica o argentino. Tal qual La estrategia de la ameba, percorremos a exposição, criando possíveis relações entre as obras e tentando compreendê-las a partir de sua linguagem primeira, ao invés de defini-las numa tentativa de tradução. “Os statements [essas descrições explicativas], tortura a que somos submetidos diariamente em todo o mundo, são tentativas inúteis de simplificar ao extremo a criação artística para torná-la mais acessível. Acho que são pílulas anti-ansiedade que acalmam o espectador, mas roubam a complexidade do evento artístico”, desabafa Macchi; e complementa: “Diante disso, digo que não há como determinar e delimitar a poética. Pode-se sentir que há algo, mesmo que não se possa colocar em palavras. Meu desejo é que o conjunto de obras que compõem esta exposição nos permita perceber aquele fio ou aquele rio que aparentemente não está ali”.

A estatu(r)a da liberdade

Caminhando pela galeria, nos deparamos com diversos objetos que podem aludir à realidade, mas que de alguma forma a alteram. A série Confésion (Confissão, em tradução livre) traz duas caixas de papelão, que antes armazenavam smart TVs e agora estão vazias, cujas superfícies apresentam padrões de cruz que remetem aos confessionários religiosos. Em Debajo de la mesa (Debaixo da mesa), seis mesas de madeira são conectadas por seus pés, criando um espaço central vazio – consequentemente, o título passa a se referir a uma posição que não existe, já que não há mais “debaixo da mesa”, mas sim o centro de um objeto escultórico. Todas las palabras del mundo (Todas as palavras do mundo) é uma parede sem tijolos, em que só resta o cimento que os mantinha unidos, e cuja forma remete ao formato de um teclado de computador.

Apesar da preferência de Jorge Macchi por não estabelecer uma relação rígida entre o título e a mostra, há nessas alterações do real uma relação. Como ele próprio destaca em entrevista à arte!brasileiros: “Há algo na criação deste título que me interessa: como a adição de uma única letra transforma um objeto (A Estátua da Liberdade) em um conceito (a estatura da liberdade). As obras partem da premissa de introduzir mudanças muito pequenas na realidade e, assim, perturbar a forma como a percebemos ou entendemos”. O artista também acredita que o título possa ser visto como uma referência distante a O Fantasma da Liberdade, do diretor de cinema Luis Buñuel. “O filme é uma sucessão de situações aparentemente independentes, caprichosamente ligadas por um personagem ou uma situação, e cujo resultado é um violento ataque à lógica cotidiana.”

Seguindo essa proposta, diversas das obras parecem suscitar as ideias de presença e ausência, permanência e efemeridade. Se na série Presente estruturas feitas de haste de aço reproduzem as dobras de um papel que em algum momento embrulhou uma caixa – que está ausente -, Acorde nos remete simultaneamente à permanência e a efemeridade, ao que reproduz um teclado de piano em que uma sequência de teclas pressionadas congelam o momento de execução de um acorde de sol menor, “cujo som já se desvaneceu, ou cujo som permanece e, justamente sua permanência o torna inaudível”, conforme explica o texto de apresentação da galeria. 

No corredor ao fundo da galeria encontramos ainda uma série de aquarelas. Segundo Macchi, elas são o começo da criação artística. “Se uma imagem surge através de uma experiência urbana, ou de um simples desenho, ou de uma memória, a primeira coisa que penso é como ela pode se materializar.” As pinturas são a atitude mais imediata, a ideia diretamente transposta para o papel. Ao que o artista busca uma forma de melhor comunicar essas imagens e extrair suas maiores riquezas, muitas acabam por gerar outra peça, em um suporte diverso. “Se me prendesse a uma técnica ou a um material, deixaria de lado essa premissa”. Isso agrega certa heterogeneidade não só a essa exposição, mas a seu corpo de obras como um todo. “Em geral, não gosto de reconhecer um artista vendo apenas uma obra. Sou contra a ideia de estilo”, conclui Macchi. 

Maiores museus brasileiros estão sendo asfixiados por Bolsonaro

Imagem colorida, horizontal. Fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo, um dos museus afetados pelas medidas do governo Federal
A Pinacoteca do Estado de São Paulo. Foto: Divulgação

O governo Bolsonaro armou uma bomba de efeito retardado que já começou a ser detonada, impactando de forma perniciosa os maiores museus brasileiros e prometendo asfixiá-los de forma irreversível até o final de 2022. Nos últimos meses do ano passado e no início deste, a Secretaria Especial de Cultura do governo arquivou os planos anuais de 2022 de diversas instituições museológicas do país e deixou às suas gestões apenas a opção de estender os planos anuais de 2021 com uma complementação de incentivo (um mecanismo que chamam de “expandido”).

É o caso, por exemplo, da Pinacoteca de São Paulo, museu eleito como o melhor do Brasil e da América Latina em 2016 pela Traveler’s Choice Museum, que teve arquivado seu Plano Anual 2022 apresentado pela Associação Pinacoteca Arte e Cultura, organização que administra o local. Anualmente, a Pinacoteca capta recursos incentivados da ordem de 18 milhões de reais, e terá que funcionar em 2022 com apenas 6 milhões (aprovados em novembro). Por conta disso, a instituição, que atingiu o seu teto agora em fevereiro, já deixou de receber recursos de patrocinadores interessados, uma situação que nunca se presenciou nos 30 anos de funcionamento da Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura).

O Museu de Arte de São Paulo, o Masp, o mais importante da América do Sul e um dos museus vitais do Hemisfério Sul, vive um drama parecido. O setor de Fomento da Secretaria Especial de Cultura aprovou uma complementação de apenas 8 milhões de reais para o Masp em 2022, sendo que o museu utiliza 42 milhões de reais de incentivo fiscal anualmente. Também o Museu do Futebol e o Museu da Língua Portuguesa tiveram seus projetos transformados em planos bianuais, o que os obriga a enfrentar o ano de 2022 não com o valor estimado pelas suas direções, mas com uma “complementação” de arbítrio exclusivo do governo.

No Rio de Janeiro, por exemplo, o Museu do Amanhã recebeu autorização para captar uma complementação do valor do seu Plano Anual 2022 de 20 milhões de reais, quando o valor total anual de seu projeto de funcionamento prevê a captação de 63 milhões de reais no decorrer do ano. Suspeita-se que hajam muitas outras instituições enfrentando problema idêntico, o que coloca em risco a própria continuidade do seu trabalho num futuro próximo, mas os museus evitam comentar o problema, temendo retaliações (o que é razoável, em se tratando do atual governo).

Também parece evidente que a ação da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura do governo Bolsonaro, encabeçada por um servidor de postura agressiva e desrespeitosa, André Porciuncula, reveste-se de um fundo de natureza política. Ao mesmo tempo em que fustiga, pela via econômica, instituições consagradas, tradicionais e de notória e elogiada atividade museológica no setor de artes e pesquisa, o governo se mostra bastante generoso em outras frentes. Por exemplo: aprovou integralmente o pedido de incentivo fiscal o projeto arquitetônico do Museu do Zebu, em Uberaba (MG), de 3,2 milhões de reais, assim como para suas atividades pontuais. Trata-se de uma instituição de ruralistas que documenta o desenvolvimento da criação daquele tipo de gado.

O Museu do Zebu
O Museu do Zebu, em Uberaba. Foto: Reprodução

Em São Paulo, o confronto entre o staff da cultura federal e o estadual é explícito e desagradável. Os gestores federais vivem às turras nas redes sociais com o Secretário de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, a quem é ligada, subordinada ou presta contas a maioria dos museus paulistas. Como se lidassem com um brinquedo privado seu, os secretários Mario Frias e André Porciúncula fazem piadas deselegantes (quando não homofóbicas ou misóginas) contra seu adversários nas redes sociais. Contra Leitão, esse confronto intensificou-se após uma série de modificações na Lei Rouanet (a legislação federal de incentivo à cultura) que o governo Bolsonaro anunciou no último dia 8 de fevereiro. As mudanças, que têm uma abrangência colossal e fundamentalmente negativas, foram editadas por meio de uma Instrução Normativa (IN) e um dos críticos mais exacerbados foi justamente o secretário paulista.

“A nova IN da Lei Rouanet é ilegal”, disse Sá Leitão. “Sua edição leva o terraplanismo a uma nova dimensão. Trata-se de um ataque sórdido do bolsonarismo a um dos principais patrimônios do Brasil, a cultura brasileira. Se ainda há um Estado de Direito no Brasil, a Justiça não deixará que isso prospere”. Frias e Porciuncula limitaram-se a ironizar o secretário e a postar acusações que pesam contra Sá Leitão em tribunais federais.

Mas o fato é que as consequências da Instrução Normativa que mudou a Lei Rouanet são daninhas e de alcance imponderável. Além de fixar um teto esdrúxulo para o pagamento de cachês de artistas (R$ 3 mil reais), a medida impactou decisivamente nos museus, já que traz novas disposições para os Planos Anuais (que possibilitam que a museologia faça o planejamento de suas atividades, que requerem negociações adiantadas com outros museus).

A primeira mudança que cria preocupação é que todas as autorizações para captação serão concentradas no próprio Secretário Especial de Cultura, o que dá um papel subalterno a todos os estudos técnicos prévios. As propostas devem ser apresentadas até o dia 30 de setembro do ano anterior ao Plano Anual, e sua execução deverá ser realizada no prazo de 12 meses coincidente com o ano fiscal. Não será permitida a coexistência do Plano Anual de atividades com outros projetos ou planos anuais do mesmo proponente e se exigirá do museu uma série de ações culturais em determinados produtos (de forma proporcional aos recursos captados). Outra exigência: só serão transferidos os recursos após a prestação de contas do projeto anterior.

Uma das maiores instituições financeiras do País, que utiliza a Lei Rouanet para suas ações, ouvida pela nossa reportagem, informou que ainda não tem um estudo da dimensão das mudanças porque “muitos dos projetos já estão aprovados e em execução e não foram atingidos pela atual Instrução Normativa”. Mas analisa com lupa as implicações do texto.

Diversos produtores estão contando com duas coisas em relação à ação do governo: 1) Há um pedido de inconstitucionalidade em relação à maioria das medidas (que já tinham sido adiantadas em um decreto) em trâmite no Supremo Tribunal Federal; 2) o calendário eleitoral certamente forçará não apenas uma mudança no pacote, como também poderá torná-lo inócuo (o próprio Mario Frias deve se desligar da secretaria de Cultura para tentar uma vaga de deputado federal).

Que pena Oswald não ter nascido no Rio, né?

modernismo
Fachada do Trianon, onde foi inaugurada a 1ª Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Foto: Reprodução site da Bienal de São Paulo

Interessante como, mais uma vez, a tradição beletrista brasileira põe de escanteio as artes visuais e seu circuito, quando se trata de refletir sobre a arte e a cultura no país. O mais recente índice da permanência dessa prática foi o artigo “A vanguarda oficial”, publicada pelo jornalista Ruy Castro na Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, no dia 6 de fevereiro deste ano.

Seu interesse é demonstrar como se inicia o processo de construção da Semana como mito fundador da modernidade/modernismo no país, localizando o início desse fenômeno em plena ditadura civil-militar, mais precisamente em 1972, quando a Semana de 1922 completou 50 anos.

Se houvesse uma votação entre os que estudam a Semana – seus antecedentes e supostos desdobramentos –, para saber se, quando se fala sobre aquele festival, fala-se sobre algo mitificado, minha tendência seria concordar, pelo menos em parte.

Sem cair na cilada de entrar na disputa boboca para decidir se a arte moderna nasceu em São Paulo ou no Rio (podemos notar essa questão já presente em textos de Menotti Del Picchia, publicados em 1924, rebatendo suposta tentativa do Rio tirar de São Paulo a primazia de criação do modernismo – ou seja, um blábláblá quase centenário![1]), meu objetivo aqui será deslocar a questão das comemorações dos 50 anos da Semana e da desqualificação de Oswald de Andrade como intelectual (que pena que ele não nasceu no Rio, né?) e voltar-me para o circuito das artes visuais do país que, no final dos anos 1940, ganhava outra dimensão, com a criação do Museu de Arte de São Paulo, do Museu de Arte Moderna de São Paulo e do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Meu objetivo é chamar a atenção para o fato de que foi ali, no interior daqueles dois museus paulistanos que o processo de mitificação da Semana e dos modernistas ganhou seu primeiro e grande impulso.

O que sempre esteve em foco naquelas duas instituições paulistanas citadas foi projetar a arte como uma das conquistas possíveis da sociedade brasileira e paulista, em particular, após os vários desastres ocorridos, desde o início dos anos 1930 até 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial. Confiantes no devir do Brasil e de São Paulo, tanto o Masp quanto o Mam-SP irão se dedicar à realização de grandes exposições de arte moderna, produzidas no exterior e no país.

O corolário imediato dessa intenção será, já em 1951, com a inauguração da I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo – sim, a Bienal, de início, era uma espécie de departamento do Mam – colocar a arte brasileira num contexto internacional. Não foi à toa que, segundo as palavras de seu diretor artístico, Lourival Gomes Machado, a Bienal objetivava colocar a arte brasileira “em vivo contato” com a arte internacional.[2]

No entanto, para alcançar essa meta, parece que, tanto no Mam-SP quanto no Masp, sempre existiu a consciência de que, para projetar a arte contemporânea brasileira, era necessário buscar uma base histórica para ela, uma plataforma que a sustentasse para tão grande impulso. E, como essa base parecia não existir, pelo menos de forma já sedimentada, era preciso arquitetá-la.

Esta questão está mais detalhada em outro artigo que publiquei faz quase duas décadas[3], mesmo assim, tentarei aqui sinalizar os índices que demonstram que a institucionalização da Semana de Arte Moderna de 1922 e do modernismo paulistano começou pelo menos duas décadas antes daquela data proposta no artigo de Ruy Castro.

***

Ao se estudar a história do Masp e do Mam-SP, nota-se que desde o início ambos estavam decididos a construir uma narrativa que embasasse e, em última instância, justificasse a existência e as atividades das duas instituições. É neste sentido que se percebe a necessidade de recuperar e homenagear os artistas ligados ao modernismo paulistano. Em 1950, o Mam organiza uma retrospectiva de Tarsila do Amaral. No ano seguindo, durante a I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, são premiados dois artistas que efetivamente tinham participado da Semana de 1922 (Emiliano Di Cavalcanti e Victor Brecheret), um que também teria participado do certame – apesar de algumas controvérsias (Oswaldo Goeldi) –, e mais quatro artistas ligados ao posterior “desenvolvimento” do modernismo de 1922: Lívio Abramo, Candido Portinari, Bruno Giorgi e Lasar Segall.

Em 1952, o Mam-SP realizou a mostra Semana de Arte Moderna de 1922. Exposição Comemorativa, uma homenagem ao aniversário de 30 anos da Semana. Menotti Del Picchia – poeta e um dos integrantes da Semana – afirma no texto para o catálogo, que o então presidente da República – Getúlio Vargas –, em documento oficial, responsabilizava positivamente a Semana de ter provocado uma “revolução visceral” no país, atingindo, além da estética, “a economia, a política e a própria estrutura social brasileira” – o que demonstra que o processo de consolidação da Semana como “marco fundador” da modernidade no Brasil, já se constituía num fato para os setores oficial brasileiros, já em 1952.

Foto de 1924, no Hotel Terminus, em almoço em homenagem a Paulo Prado que reuniu escritores e artistas participantes da Semana de 22. Foto: Reprodução

Apesar dessa mostra, nota-se que na edição da Bienal, ocorrida entre 1952 e 1953, aquela narrativa ainda se encontra em construção, ganhando contribuições que pareciam querer problematizar a paulatina hegemonia da Semana (e de São Paulo) como elemento fundador da modernidade no Brasil. Aquela edição contou, entre outras, com duas importantes mostras que procuravam, de alguma forma, deslocar para um passado anterior a 1922, o surgimento da arte moderna entre nós. Refiro-me à retrospectiva de Eliseu Visconti e o panorama dedicado à paisagem brasileira.

Na primeira – organizada por José Simeão Leal -, Visconti era apresentado como o artista que “inicia a arte moderna brasileira, rompendo com um academicismo estéril no seu artificialismo”[4]. Como se percebe, a disputa entre Rio e São Paulo para reivindicar ser o “berço” do modernismo se expressa de novo em plena II Bienal.

Esse recuo em busca das “raízes” do modernismo brasileiro anteriores à Semana não se desenvolveu nas edições seguintes à II Bienal. Pelo contrário, marcadas por salas especiais dedicadas a Segall (que teve quatro salas especiais na Bienal durante os anos 1950), e também a Candido Portinari (que teve três) e Brecheret (que teve uma), essas edições estavam marcadas pela necessidade de construir uma outra narrativa, também importante: qual o artista era o mais moderno, representando melhor o modernismo local: Segall ou Portinari?[5]

A recuperação da Semana como base de lançamento do modernismo no Brasil continua quando, na edição de 1963 – ou seja, quando a Semana já completara 40 anos no ano anterior –, são produzidas salas especiais em homenagem a Di Cavalcanti e Anita Malfatti – “pioneiros” do modernismo paulistano e supostamente brasileiro –, e daqueles que surgiram imediatamente após a Semana, dando continuidade ao seu cunho “revolucionário”: Tarsila do Amaral e Flávio de Carvalho.

Conforme enfatizei no texto de 2003 aqui mencionado, durante os anos 1960 parece que os responsáveis pelas edições das bienais trabalhavam para sedimentar o mito de que a arte contemporânea brasileira era derivada do modernismo da Semana de 1922, ligando o “passado” de 22 ao “presente” dos museus e das bienais de S. Paulo:

Não resta dúvida de que essa foi uma importante estratégia para a construção de uma história da arte brasileira do século 20 onde os cortes, lacunas e hiatos foram todos obliterados a favor de uma ficção triunfalista, que conta a história do modernismo paulistano como uma saga feliz e sem percalços maiores, de Anita ao Museu.[6]

É claro que, ao escrever esse parágrafo, estava na minha mente o importante livro de Paulo Mendes de Almeida que, surgido como uma série de artigos na imprensa paulistana, foi publicada em forma de livro em 1961 – em comemoração aos 40 anos da Semana, que seriam comemorados no ano seguinte[7].

Nesse livro, Almeida naturaliza todas as idas e vindas do ambiente artístico de São Paulo, dando a entender que, na capital do estado, aos poucos a arte moderna foi deixando de ser uma questão individual (de Anita Malfatti) para tornar-se uma necessidade coletiva (o Museu de Arte Moderna de São Paulo).

Durante a década de 1960 foram várias as salas especiais nas Bienais e as retrospectivas organizadas pelos museus de São Paulo em homenagem a todos os modernistas “históricos”, o que aos poucos foi consolidando a narrativa de que, de 1917 a 1948 (de novo, “de Anita ao Museu”) a arte moderna brasileira teria nascido, crescido e florescido. Em São Paulo.

Dentro dessa construção, é importante lembrar das mostras comemorativas dos aniversários “redondos” da Semana: a que marcou os 50 anos do evento, ocorrida em 1972 no Masp – Semana de 22. Antecedentes e Consequências (citada por Ruy Castro) –, e, em 1982, Do Modernismo à Bienal, apresentada no Mam-SP, uma espécie de espacialização do esquema proposto pelo livro citado de Paulo Mendes de Almeida.

***

A divulgação dos artistas da Semana e seus “descendentes”, bastante divulgados pelos museus paulistanos e pelas várias edições da Bienal, aos poucos foram retirando as obras dos ateliês e depósitos dos artistas fazendo-as migrar para as paredes de alguns poucos museus e para aquelas dos novos colecionadores, sobretudo os de São Paulo.

Como corolário desse processo eu destacaria o trabalho da Universidade de São Paulo que, a partir do final dos anos 1960, passa a incentivar a elaboração de uma série de dissertações e tese sobre o modernismo paulista e os artistas que o integraram, entronizando o movimento e seus protagonistas como “o” modernismo brasileiro.

***

Pelas considerações acima, espero ter deixado claro que não discordo de todas as ideias expostas no artigo de Castro para a Ilustríssima. Na verdade, apenas desejei resgatar um fato: a narrativa ideal sobre a Semana de 1922, para ser melhor compreendida, não deve prescindir das questões ligadas ao ambiente das artes visuais. Me parece que o circuito de arte que se firmava em São Paulo a partir dos anos 1940/50 – dos museus à universidade – é determinante para se formar uma visão mais complexa do fenômeno que aqui interessa[8].

Se, depois de um século, o debate permanecer preso apenas à estratégia desabonadora de alguns de seus protagonistas ou a fofocas, na certa demoraremos mais cem anos para dar, de fato, um belo passo à frente.

________________________________________________________________ 

[1] – Para quem tiver interesse, consultar alguns artigos de Menotti Del Picchia publicados no Correio Paulistano, entre meados de junho e julho de 1924.
[2] – Texto de Lourival Gomes Machado, publicado no catálogo da I Bienal: I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Outubro a Dezembro de 1951. 2ª. São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, p. 18.
[3] – CHIARELLI, Tadeu. “Arte em São Paulo e o núcleo modernista da Coleção”. In MILLIET, Maria Alice (coord. Edit.) Coleção Nemirowaky. Rio de Janeiro: MAM, 2003.
[4] – LEAL, José Simeão. “Eliseu Visconti”. In Catálogo Geral da II Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1953, p.2.
[5] – Essa polêmica vinha desde os anos 1930, conforme pode ser estudado na produção da estudiosa Annateresa Fabris, Portinari amico mio. Cartas de Mário de Andrade a Candido Portinari. Campinas: Mercado de Letras, 1995.
[6] – Chiarelli, Tadeu. 2003. Op. cit. Pág 90.
[7] – o livro De Anita ao Museu – fundamental item da bibliografia do modernismo paulistano – teve uma segunda edição em 1976, pela Perspectiva, e uma excelente nova edição, em 2015, pela Editora Terceiro Nome.
[8] – E é claro que também é necessário não se esquecer de que os estudos mais recentes sobre a música e o Modernismo aumentam o coeficiente de complexidade do movimento.