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18ª SP-Arte consolida inclusão de NFTs no mercado brasileiro

Thiago Martins de Melo, "Anunciação (Amazonia Mega Drive)", 2022. Foto: Cortesia Tropix

Foi impossível passar pelo estande da inovadora Tropix na SP-Arte e não parar por um momento para se inteirar da novidade ou simplesmente exclamar consigo mesmo “ah, então isso é o tal da NFT!”. Quem visitou a feira de 6 a 10 de abril viu o estande da plataforma cheio o tempo todo, com várias pessoas curiosas, seja pelo básico de como funciona o NFT ou pelos lançamentos de obras que foram trazidos. Outros espaços, como o da Galeria Kogan Amaro e o da Blombô+Aura, também tiveram os olhares voltados de maneira especial para a tecnologia.

Gustavo Von Ha, “Automatic Writing”, 2022. Foto: Cortesia Tropix

A Tropix é destaque neste “novo mercado”, já que surgiu há menos de um ano essencialmente como um marketplace de arte digital com certificação em NFT, mas acabou se tornando uma plataforma além disso. Ela tem sido porta-voz da nova tecnologia no Brasil e conectado os players do mundo da arte entre si: o artista, o galerista, o colecionador, a feira e até mesmo as instituições. Afinal, a plataforma foi a responsável pela doação da obra Von Britney, de Gustavo von Ha, no mês passado, para o MAC-USP, que se tornou o primeiro museu brasileiro a ter uma obra em NFT em seu acervo.

A iniciativa, que partiu de uma equipe liderada pelo empresário Daniel Peres Chor, ganhou um reforço em fevereiro deste ano, com a entrada de Fabio Szwarcwald (que foi diretor do MAM Rio e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage). Ele conta à arte!brasileiros que vêm acompanhando esse mercado desde 2021, curioso por esse novo momento, que veio as criptomoedas e depois com os contratos de NFT. As criptomoedas, aliás, já eram realidade no mercado da arte há bastante tempo, muitas galerias e artistas já aceitavam pagamentos em criptomoedas para obras físicas antes mesmo da criptoarte surgir.

“A produção de arte computacional acontece já há mais de 30 anos. Essa coisa do artista produzir obras de arte usando o computador como pincel já existe há muito tempo. Temos como exemplo Bill Viola e Janet Cardiff”, comenta Szwarcwald. O problema antes, ele explica, é que a tecnologia de armazenagem para esse tipo de produção ficava obsoleta muito rápido, o que poderia tornar as obras efêmeras. O contrato digital inteligente gravado na blockchain, que é o NFT, faz com que isso não seja mais um problema, já que a obra estará para sempre na carteira digital do colecionador.

Na SP-Arte, a Tropix trabalhou com 12 galerias, 20 artistas e 35 obras, em um estande que teve curadoria de Marcio Harum. “Foi muito bacana e muito sério o trabalho feito pelo nosso curador, no qual ele traz artistas mais renomados junto a artistas que estão trabalhando há menos tempo com essa tecnologia. Tínhamos nomes como a Gretta Sarfaty, que teve seu trabalho considerado como um dos melhores da feira, e outros mais jovens, como o PV Dias”, Fabio pontua. Um dos grandes eventos do estande foi o lançamento da obra Anunciação (Amazônia Mega Drive), de Thiago Martins de Melo, exibida em 3D como um holograma, mostrando que as obras digitais não são apenas para ficarem nas televisões.

Diferente de outras plataformas, a Tropix tem como foco trabalhar com grandes galerias do Brasil e também do exterior. Dentre as parceiras estão nomes como Jaqueline Martins, Verve, Leme, Millan e Zipper. “Entendemos que as galerias já têm um trabalho curatorial para selecionar os artistas e os ajudam muito nessa estratégia de entrar nesse mercado de arte computacional. Mas também entendemos que existem vários profissionais que não têm galeria e que fazem um trabalho muito interessante”, explica Szwarcwald. O artista envia o seu projeto para a Tropix, que passa por uma avaliação do time curatorial da plataforma. Fabio adiciona que essa inclusão de artistas independentes também vem pelo fato de que quem produz arte digital/computacional não era um artista que as galerias se interessavam tanto anteriormente, mas que com a tecnologia do NFT, que torna tudo mais seguro e transparente, esse interesse foi surgindo.

Algumas galerias renomadas, inclusive, fizeram a sua própria galeria de arte digital. É o caso da Leme, com a Leme NFT, e a Kogan Amaro, com a Kogan Amaro Digital Gallery. A primeira utiliza como marketplace a plataforma da Tropix. Já a segunda, utiliza a plataforma Foundation para promover suas vendas. O diretor da Kogan Amaro, Ricardo Rinaldi, conta que a equipe vem acompanhando com entusiasmo esse novo mercado e que o projeto da galeria de arte digital vinha sendo estruturado desde o ano passado.

O primeiro lançamento de obra em NFT feito pela Kogan Amaro foi em parceria com a Tropix, com uma uma animação em stop motion feita por Mundano. A obra é uma parte da exposição que o artista realizou na galeria no início deste ano, intitulada Semana de Arte Mundana. Agora, utilizando outra plataforma para vendas, a galeria teve um espaço dedicado às obras em NFTs na SP-Arte.

Em um estande híbrido, com obras físicas e digitais, a galeria montou um grande painel vertical de LED para exibir os trabalhos em NFTs. A Kogan Amaro trabalha com artistas que já faziam apenas obras digitais, mas também tem incentivado seus artistas representados a produzirem obras em NFTs, como Daniel Mullen, Fernanda Figueiredo, a dupla Tangerina Bruno e o próprio Mundano. Rinaldi conta também que eles têm auxiliado os colecionadores a entrarem nesse novo mercado, ajudando-os a construir a sua própria carteira digital, por exemplo. A galeria também criou um sistema para aceitar pagamento em dinheiro por essas obras, não só em criptomoedas.

Mais novidades por aí

Szwarcwald anunciou que a Tropix está trabalhando em um sistema – que será consolidado em um aplicativo – para certificar obras físicas também em NFT, chamado OffPix: “A ideia é oferecermos isso para os galeristas como uma forma de conseguirmos criar toda essa certificação via blockchain, com contrato de NFT, trazendo uma segurança muito maior para o mercado no geral”. Além de obras de arte em todos os suportes, poderão ser certificadas outras coisas que possuem assinaturas e certificados, como móveis. Essa certificação garantirá uma segurança maior na negociação das obras, além de maior transparência.

Outros setores que utilizam os NFTs, como o de jogos, têm investido muito na ideia de metaverso, levando até mesmo lojas e shows para dentro de seus “mundos” virtuais que simulam a realidade a partir de ferramentas como a de realidade virtual. A Tropix tem planejado também abrir uma galeria no metaverso, na intenção de expandir o leque de colecionadores, podendo atrair inclusive potenciais colecionadores mais jovens, de uma geração que já está digitalmente conectado em seu dia a dia: “Vemos o metaverso como uma oportunidade que está se abrindo, muito importante para as pessoas começarem a ter uma nova relação com a tecnologia e também com outras pessoas”. Fabio assinala que até mesmo a realização de performances é possível nesse outro ambiente.

Fome e violência são temas das novas obras da coleção da Usina de Arte, em Pernambuco

Vista aérea de "Campo da fome", de Matheus Rocha Pitta.
Vista aérea de "Um Campo da fome", de Matheus Rocha Pitta.

Parafraseando o escritor italiano Ítalo Calvino, volto sobre meus passos à Usina de Arte, em Pernambuco. O retorno imaginário é a experiência do ver depois, do ver outra coisa, do viver ainda.

As seguidas mutações desse espaço cultural a céu aberto, funcionando em plena Zona da Mata, reforça a ideia de transformar territórios rurais em centros artísticos, múltiplos, vivos e agregadores de comunidades esquecidas. Com a inauguração das obras Paisagem, de Regina Silveira e Um Campo da Fome, de Matheus Rocha Pitta as discussões sobre violência e fome se materializam em dois projetos políticos que adensam o acervo de arte da Usina. Ambas espelham a preocupação desses dois artistas, de gerações e tendências diferentes, com a situação social do País.

"Paisagem", de Regina Silveira, obra comissionada para a Bienal. Foto: © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
“Paisagem”, de Regina Silveira, obra comissionada para a Bienal. Foto: © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

O labirinto transparente de Regina foi montado na 34ª Bienal de São Paulo e adquirido pelo empresário Ricardo Pessoa de Queiróz, segundo a artista, depois de uma intermediação das galeristas paulistanas Luciana Brito e Marga Pasquali. As paredes transparentes, “perfuradas” graficamente por tiros, exibem uma cena enigmática. Os alvos apontam para o ponto cego da indagação sobre quem atira e o que é alvejado. A artista se aproxima de formas geométricas que dão essência a esse trabalho provocador, envolto em uma tensão curiosa. Como diz Walter Benjamim, o convencional frui-se sem crítica e o diferente está sujeito a ela. Paisagem pode simbolizar os enfrentamentos vividos no Estado de Pernambuco, notável por suas lutas históricas contra os portugueses, franceses, holandeses ou durante a escravidão nos campos de cana de açúcar. De qualquer ângulo que se olhe esse labirinto, as paredes translúcidas colocam a topografia circundante como pano de fundo. Assim, a instalação envolve e é envolvida pelo entorno. O visitante pode experimentar uma caminhada pelos cem metros quadrados, cujas paredes de 2,50 m  de altura exibem, a um pouco mais de um metro, imagens impressas de tiros.

Vista do alto, Paisagem torna-se um mapa com traçado total, um microcosmo constituído de fragmentos perfeitos. A experiência espacial coletiva ou individual é primordial para constituir um labirinto. Conceitualmente os trabalhos de Regina são recorrentes. Paisagem reforça a série de labirintos gráficos, realizados na década 1970, em torno do mesmo eixo, com marcas gráficas de disparos. Também a série Crash está no alinhavo deste pensamento no qual louças de porcelanas são quebradas.

"Paisagem", Regina Silveira
Vista aérea de “Paisagem”, Regina Silveira.

A artista realiza a instalação com liberdade formal e situação espacial fluídas. Na sociedade contemporânea tudo acontece rápido e simultaneamente tornando só percebido o que sobressai. Sensação é o que arranca a percepção do seu ritmo costumeiro e Regina aplica isso muito bem, seja em suas obras intimistas, seja nos trabalhos públicos superdimensionados. O labirinto translúcido, formalmente limpo e angular da artista, dialoga em contraponto ao labirinto orgânico e aberto, Eremitério Tropical de Márcio Almeida construído com tijolos e lentamente mimetizado pela paisagem. A instalação tangencia a morfologia “radicante”, que se refere às plantas que produzem raízes no processo de deslocamento. A ideia se encaixa no conceito do paisagista Gilles Clément que propõe criar “jardins em movimento”, utilizando exatamente essa característica móvel, ou desterritorializante, do mato e das plantas trepantes.

Com outras gramáticas, mas igualmente político, Matheus Rocha Pitta inaugura hoje sua obra maior, Campo da fome, uma imensa intervenção na paisagem. A instalação abrange o repertório de manifestações visuais que envolve a ecologia, focalizando a destruição do meio ambiente e a fome. O artista ocupa uma área de 700 metros quadrados com uma horta focada em vegetais típicos do Nordeste como o caju, pinha, abacaxi, milho, mandioca confeccionados com barro. A instalação ainda agrega azulejos e pedaços de concretos que ele chama de materiais ordinários. Como explica o artista, “devido à sua recém-implantação a obra pode dar a impressão de incompletude e instabilidade por causa do terreno que ainda não está sedimentado”. Sua arte transgressora é tingida pela cor ocre da terra e pelo discurso da fome. A instalação está dividida em espaços rigorosamente iguais com repetição serialista e que se apoia no manifesto A estética da fome, de Glauber Rocha, a cartilha do Cinema Novo, na qual o diretor defende uma linguagem emancipadora a partir da falta de comida e avisa. “Enquanto não erguer as armas, o colonizado é um escravo”. Rocha Pitta também traz para a discussão a descrição de um campo da fome localizado ao leste da Acrópole, na Grécia Antiga. Segundo a lenda ninguém poderia adentrar naquele terreno onde a fome estava presa, para que ela não chegasse a outros territórios.  “Minha ideia foi desenvolver um trabalho como contenção da fome, um lugar quase sagrado, para deixar que a falta de comida permanecesse ali congelada”. A horta é composta por 30 canteiros onde estão dispostos legumes, frutas ou raízes da região. “Ao todo, a instalação reúne cerca de nove mil peças produzidas por Domingos, artesão de Tracunhaém, cidade conhecida pelo trabalho em cerâmica”. Cobertos pela cor intensa do barro os alimentos são melhor percebidos a partir de uma aproximação visual.

As transformações da Usina de Arte acompanham a tomada de consciência sócio artístico ambiental e são pilotadas por seus proprietários e atores principais, a arquiteta Bruna e o empresário Ricardo Pessoa de Queiroz, bisneto do fundador da Usina Santa Terezinha que era sobrinho do presidente Epitácio Pessoa, que governou o Brasil de 1919 a 1922. A usina foi a maior produtora de álcool e açúcar do Brasil nos anos 1950. Ricardo é o responsável pela transformação desse patrimônio desativado. Ele acredita que o projeto só tem sentido se impulsionar a transformação da comunidade vizinha, composta em parte por ex-funcionários da usina. “Esse é um dos objetivos com os quais trabalhamos na difusão da arte”. 

Colecionar também pode ser fruto da necessidade de estar perto das coisas que nos dão prazer. Todo colecionador é um intermediário que se transforma em autor no processo de procurar, armazenar, classificar e zelar pelo objeto artístico. Bruna e Ricardo trabalham neste sentido desde o início da Usina de Arte quando optaram por criar um acervo a céu aberto. Ela enfatiza que eles não têm a intenção de criar pavilhões, como em Inhotim, e Ricardo reforça a ideia de que obras de arte podem estar em diálogo direto com a natureza.

Chiaroscuro (Claro-escuro): metal, acrílico e lâmpadas LED sobre o comentário do pensador Antonio Gramsci. Foto: Sesc Pompeia.
Chiaroscuro (Claro-escuro): metal, acrílico e lâmpadas LED sobre o comentário do pensador Antonio Gramsci. Foto: Sesc Pompeia.

O acervo de arte conta com mais 40 obras que foram curadas, inicialmente, pelo artista paraibano José Rufino, com a participação de Ricardo e Bruna. Há três meses o crítico francês Marc Pottier assumiu o posto e uma de suas propostas foi a de colocar o neon Chiaroscuro (Claro Escuro) do artista chileno Alfredo Jaar na fachada do deteriorado prédio onde funcionou a usina. O trabalho de 18 metros é composto pela frase O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros, do filósofo Antonio Gramsci escrita na década de 1930, em plena ascensão do fascismo na Itália e que dialoga com o tumultuado momento que o Brasil vive. O curador ainda cita outro projeto a ser implementado, os bancos para descanso criados por Claudia Jaguaribe que serão espalhados por todo o espaço.

O acervo de arte reúne artistas como Carlos Vergara, Iole de Freitas, Frida Baranek, Artur Lescher, Júlio Villani, Geórgia Kyriakakis, Saint Clair Cemin, José Spaniol, Juliana Notari, Denise Milan, José Rufino, Marcio Almeida, Flávio Cerqueira, Bené Fonteles, Hugo França, Paulo Bruscky, Marcelo Silveira, Liliane Dardot e Vanderley Lopes. Com exceção da obra de Rufino, instalada dentro do antigo hangar, as demais estão espalhadas pelo imenso jardim que circunda os três lagos artificiais, projetado pelo paisagista Eduardo Gomes Gonçalves. Em meio ao reflorestamento com cerca de 10 mil plantas de aproximadamente 600 espécies, o Jardim Botânico plantado em 33 hectares constitui-se em mola propulsora de outras ações para gerar desenvolvimento e renda à comunidade de seis mil pessoas que vivem próximas ao projeto.

Um dos destaques do complexo cultural é o Festival Arte na Usina, nascido em 2015, que reúne artistas e intelectuais em torno de shows, residências, oficinas literárias e de arte, abertas aos moradores da comunidade. Também tem relevância a escola de música, equipada com diversos instrumentos, oferecendo aulas diárias aos moradores. “Conseguimos uma parceria com o Conservatório Pernambucano de Música, nossos alunos vão até o Recife e os professores vêm à Usina alternadamente”, ressalta Bruna. Ainda chama a atenção a biblioteca climatizada com mais de cinco mil exemplares catalogados, além de uma FabLab com terminais de computadores conectados à internet, impressoras em 3D e cortadora a laser para projetos da comunidade, além de parceria com as unidades escolares. Desde a sua criação a Usina de Arte transcende as experiências artísticas e tenta exercer a alteridade na transformação socio/cultural da comunidade.

Daido Moriyama: uma retrospectiva

Tóquio, c. 1971. ©Daido Moriyama/Daido Moriyama Photo Foundation.
Tóquio, c. 1971. ©Daido Moriyama/Daido Moriyama Photo Foundation.

A partir de 9 de abril, o IMS Paulista apresenta a primeira grande retrospectiva de Daido Moriyama na América Latina. A mostra reúne mais de 250 trabalhos, além de uma centena de publicações e escritos do fotógrafo japonês, um dos principais nomes da fotografia contemporânea mundial. Através de dois andares do instituto preenchidos com o trabalho do artista é possível vislumbrar diferentes momentos de sua carreira, desde o interesse pelo teatro experimental dos anos 1960, passando pelos trabalhos contestadores dos anos 1970, até a documentação das cidades e a reinvenção do seu próprio arquivo nos últimos anos. A curadoria da exposição é de Thyago Nogueira, coordenador da área de Fotografia Contemporânea do IMS, sendo o resultado de três anos de pesquisa, visitas ao arquivo de Moriyama em Tóquio, e consulta com os pesquisadores japoneses Yutaka Kambayashi, Satoshi Machiguchi e Kazuya Kimura.

Nascido em 1938, em Ikeda-cho, Osaka, Moriyama passou a infância em diversas cidades. Após se formar em design, mudou-se para Tóquio em 1961, onde começou a fotografar para jornais e revistas de grande circulação, em um período de crescimento econômico e fortalecimento da cultura de massas. Logo, tornou-se conhecido por suas fotografias em preto e branco, granuladas e de alto contraste. Moriyama desafiou as ideias convencionais de fotografia documental e de realidade fotográfica em sua abundante produção, na qual livros e publicações independentes têm participação fundamental; a produção do fotógrafo está muito associada à indústria editorial, mais do que ao circuito da arte.

Ator interpreta mulher em peça teatral, Tóquio, 1966. Da série Japão, um teatro de fotos. ©Daido Moriyama/Daido Moriyama Photo Foundation.
Ator interpreta mulher em peça teatral, Tóquio, 1966. Da série Japão, um teatro de fotos. ©Daido Moriyama/Daido Moriyama Photo Foundation.

O primeiro andar da exposição destaca as décadas de 1960 e 1970, momento inicial de Moriyama influenciado por mestres do pós-Guerra, como Eikoh Hosoe e Shōmei Tōmatsu, e artistas americanos, como William Klein e Andy Warhol. Durante tal período, o fotógrafo documentou a efervescente cultura japonesa, marcada pela destruição da guerra, a ocupação das tropas americanas, o desaparecimento dos modos de vida tradicionais e a ocidentalização do país. Em 1969, Moriyama integrou a equipe da contestadora revista Provoke, formada por artistas e intelectuais que questionavam a submissão das imagens às palavras e o realismo engajado. A publicação consagrava o estilo are, bure, boke (granulado, tremido, desfocado), que marcaria a fotografia japonesa do período. Alguns anos depois, Moriyama produziu o livro Adeus, fotografia! (1972), uma coletânea de imagens feitas de negativos rasurados, riscados e inutilizados, quase indiscerníveis. Segundo o curador, a publicação, que completa 50 anos em 2022, revela “a revolta de um artista contra sua submissão ao código fotográfico, a expressão máxima da descrença no poder de transformação das imagens”. Sobre esse período, o próprio artista afirma: “Tentei desmontar a fotografia, mas acabei desmontando a mim mesmo”.

No segundo andar, a retrospectiva apresenta o retorno de Moriyama ao fazer artístico, nos anos 1980, após um momento de depressão e crise criativa. Entre as obras, estão as famosas séries Luz e sombra e Memórias de um cão, publicadas entre 1982 e 1983. A mostra também traz o arquivo completo da revista Record, seu diário pessoal iniciado em 1972, que chega à 50ª edição em 2022. No centro do andar, uma grande mesa-biblioteca exibe diversos livros do artista, muitos deles disponíveis para leitura do público.

Serviço
Onde: Avenida Paulista, 2424 – São Paulo (SP)
Quando: A partir de 9 de abril até 14 de agosto de 2022.
Funcionamento: Terça a domingo e feriados (exceto segunda) das 10h às 20h.
Ingresso: A entrada é gratuita, liberada mediante apresentação do comprovante de vacinação contra Covid-19 (para todos acima de 5 anos). Uso de máscaras é recomendado.

 

EAV Parque Lage tem chamada aberta para Programa de Residências na Floresta

EAV Parque Lage
Foto aérea do Parque Lage. Foto: Felipe Azevedo

O Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, é ponto de partida para nova residência no Rio de Janeiro. Em 1924, o poeta modernista nos convocava a aprender o que a floresta e a escola tem a ensinar. Em 2022, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage selecionará duas duplas – formadas por um crítico de arte e um artista – para realizarem um período colaborativo de vivências na Floresta Nacional da Tijuca. Cada equipe a conquistar a bolsa receberá o equivalente a R$ 20 mil (vinte mil reais) para custeio de suas diárias de investigação, produção de textos, fotos e vídeos e total manutenção do projeto.

A sinalização de Oswald, aliada à localização da EAV – o Parque Lage, porção que integra a Floresta Nacional da Tijuca, maior floresta urbana do mundo – leva a instituição a realizar duas edições do Programa Residências na Floresta neste ano, uma em cada semestre. Assim, “integrando as reflexões acerca da Modernidade na arte brasileira, com forte atenção para um borrar fronteiras de natureza e cultura”, destaca o edital.

Cada dupla residente deverá desenvolver um projeto com desdobramentos práticos e teóricos tendo a floresta em suas dimensões estéticas, éticas, poéticas e ancestrais como ponto de investigação. Mensalmente, os selecionados deverão apresentar um relato crítico, em texto e imagens – estáticas ou em vídeo –, que serão disponibilizados nos canais digitais da EAV Parque Lage. Posteriormente, haverá apresentação pública, em seminário, das elaborações desenvolvidas no projeto. Buscando sobretudo promover um processo alargado de pesquisa, o edital não exige a realização de uma obra ao fim do período de residência.

Floresta da Tijuca, onde serão realizadas as Residências na Floresta da EAV Parque Lage. Foto: Alice Loureiro
Floresta da Tijuca, onde serão realizadas as Residências na Floresta da EAV Parque Lage. Foto: Alice Loureiro

Para se inscrever, cada equipe deve contar com um crítico e um artista, ambos naturalizados brasileiros ou nascidos no país, e ter disponibilidade para um período de residência artística de três meses. Serão considerados na seleção projetos inéditos e relevantes para a compreensão expandida e integrada da natureza e da cultura.

“Desejamos, com radicalidade, acolher propostas inovadores, inventivas e provocativas que possam fazer a comunidade escolar, seus artistas, alunos, professores, visitantes e demais profissionais de áreas interdisciplinares compreenderem a ecologia como uma disciplina a ser expandida e esgarçada – sobretudo aliando um entrecruzamento de referenciais, disciplinas e indisciplinas que possam contribuir para que possamos ‘adiar o fim do mundo'”, destaca o edital, resgatando as ideias de Ailton Krenak.

As inscrições ficam abertas até dia 20 de abril e devem ser feitas no site da EAV, incluindo currículos atualizados, portfólios, projeto único de autoria partilhada e defesa do projeto. Confira maiores detalhes acessando o edital (clique aqui). A divulgação dos selecionados está prevista para o dia 28 de abril.

SP-Arte 2022, confira o que vem aí

Pavilhão da Bienal ocupado pela SP-Arte. Divulgação.
Pavilhão da Bienal ocupado pela SP-Arte. Divulgação.

A feira acontece de 6 a 10 de abril no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, onde reunirá 132 galerias, das quais 92 galerias de arte nacionais, oito galerias internacionais e 32 galerias de design. Entre as principais galerias brasileiras estão: Galeria Luisa Strina, Fortes D’Aloia & Gabriel, A Gentil Carioca, Nara Roesler e Galeria Jaqueline Martins. Também participam com força no mercado secundário Gomide & Co, Almeida & Dale Galeria de Arte, Dan Galeria, Paulo Kuczynski, Pinakotheke e Galeria Ipanema.

A SP-Arte apresenta ainda trinta escritórios e galerias especializadas em mobiliário e design autoral brasileiro. Participam: Etel, Ovo, Loja Teo, Jacqueline Terpins, Atelier Hugo França e Passado Composto Séc. XX (todos de São Paulo), além de diversos estreantes estrelados como Wentz e Diletante 42, também da capital paulista, e o coletivo de designers Cultivado em Casa, de Minas Gerais.

Novidade: Radar SP-Arte

Inédito a essa edição, o Radar SP–Arte busca aproximar o mercado e o público de agentes autônomos (artistas, espaços autogeridos) que constituem o sistema de arte. O Radar SP–Arte será formado por uma curadoria de Felipe Molitor de artistas que não possuem representação comercial, intitulada Hora grande, e pela participação presencial de cinco coletivos e espaços autônomos de arte, que apresentarão seus projetos em pequenas exposições comerciais. São eles: 01.01 Art Platform, Casa Chama, GDA, MT Projetos de Arte e Nacional TROVOA. 

Mapa SP-Arte

Com a nova expografia desenvolvida para a 18ª edição, o térreo será ocupado pelos setores de design, editorial e Radar SP–Arte, além da exposição Arte Natureza: ressignificar para viver. No primeiro piso, estarão galerias ligadas ao mercado secundário e, no segundo, serão reunidas as galerias do mercado primário de arte, tanto as mais consagradas quanto as emergentes, e as participações institucionais.

Talks SP-Arte

O tradicional programa de Talks será promovido no lounge Arena Iguatemi no segundo andar do Pavilhão. Dessa vez, Jacopo Crivelli Visconti, que esteve à frente da curadoria da 34º Bienal de São Paulo, e Ana Roman, curadora assistente na última Bienal, organizam e conduzem conversas com artistas e curadores renomados na quinta, sexta e sábado, dias 7, 8 e 9 respectivamente.

Saiba mais aqui.

“Yorùbáiano”, individual de Ayrson Heráclito, chega à Pinacoteca de São Paulo

Obra OGUM, da série Oferenda à cabeça, de Ayrson Heráclito, exposta em YORÙBÁIANO
Ayrson Heráclito. "Ogum (série "Oferenda à cabeça"), Ayrson Heráclito, 2008-2011. Foto: Divulgação

Articulando culturas diversas que aportaram no Brasil a partir da diáspora africana, um amálgama único de saberes ancestrais, ensinamentos, ritos e visões de mundo preenche o quarto andar da Pinacoteca Estação a partir deste sábado, 2 de abril. Trata-se de Yorùbáiano, que apresenta uma seleção de 63 obras de Ayrson Heráclito. Com curadoria de Amanda Bonan, Ana Maria Maia e Marcelo Campos, a exposição que agora chega a São Paulo foi inicialmente concebida e exibida no Museu de Arte do Rio (MAR), em 2021.

Tratando do trauma da escravidão, a performance Segredos Internos – a ser encenada na ocasião da abertura – dá o tom da mostra. Através de fotografias, vídeos, performances, instalações e registros, Yorùbáiano refaz a memória para secar feridas históricas ligadas à exploração dos corpos e ao silenciamento das culturas afro-diaspóricas. A retomada do passado ganha um sentido de expurgo, de despacho, e os trabalhos buscam representar uma reinvenção poética e política de um Brasil iorubano.

Açúcar, dendê e carne de charque. São esses materiais orgânicos que compõem histórica e simbolicamente o “corpo cultural diaspórico” – conforme afirma Heráclito – que nos guiam pela mostra. “O mundo é como um corpo, um ser vivente. E em meu trabalho toda a utilização dos materiais orgânicos, que são associados às práticas de alimentar as divindades e a natureza, tem a ver com o fato de que a natureza é quem nos dá de comer, é esse sujeito maior que nos guia, nos orienta, nos propicia a vida. E são os elementos da natureza que nos deixam potentes para, por exemplo, transmutar essa ideia de cicatriz, de dor, desse passado colonial que reduziu todo esse conhecimento à ideia de feitiçaria e de macumba”, explicou o artista em entrevista à arte!brasileiros em 2020 (leia aqui).

Na primeira sala expositiva de Yorùbáiano, um conjunto de obras traz o açúcar como forma de rememorar a ganância da monocultura canavieira escravocrata, ao mesmo tempo que evoca Exú, orixá a quem é ritualmente oferecida a cachaça. Ainda no mesmo ambiente, nos deparamos com a polissemia do azeite de dendê, seja na instalação Regresso à pintura baiana – na qual uma maquete da Igreja do Rosário dos Pretos e uma parede do museu são tingidas com o alimento -, na série fotográfica Sangue vegetal, ou em outras instalações e fotografias que compõem essa sessão e que, por vezes, trazem o azeite como símbolo de fluidos vitais do corpo humano.

Já a carne de charque, presente nas obras da sala seguinte, remete a Ogum, ao mesmo tempo que alude às violências sofridas pelo povo negro escravizado. São exemplos de trabalhos com essa temática os registros das performances Transmutação da carneSacudimento. Sobre esta última, o artista explica (em entrevista de 2020): “No meu trabalho, o sacudimento é também uma tática de retornar ao passado afim de sacudir a história, promovendo uma ‘movência’ dos nossos traumas. É uma forma de gerar uma visibilidade para questões que tradicionalmente foram ocultadas, como o processo de desumanização da população africana escravizada”. O registro exposto na mostra atual é da apresentação de Sacudimentos ocorrida nos arredores do edifício da própria Pina Estação, onde funcionou o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão responsável pela detenção de dissidentes políticos nos anos 1960 e 1970.

Na última sala da mostra, entramos em contato com a instalação fotográfica Borí, que traz doze grandes fotografias do ritual de fazer a cabeça, representando cada um dos 12 orixás do xirê. No dia 11 de agosto será possível acompanhar o ritual sagrado que inspira a obra, no espaço Octógono, no edifício Pina Luz, com a presença de músicos e 12 iniciados do candomblé.

SERVIÇO

Ayrson Heráclito: Yorùbáiano
ONDE: Pina Estação, Largo General Osório, 66 – Luz, São Paulo (SP)
QUANDO: 2 de abril a 22 de agosto de 2022
FUNCIONAMENTO: segunda a sábado, da 10h às 18h

 

Mostra de Adriana Varejão na Pinacoteca reúne obras produzidas dos anos 1980 até hoje

adriana varejão
"Mapa de Lopo Homen II", de Adriana Varejão. Foto: Jaime Acioli

Apresentando um amplo panorama da carreira de Adriana Varejão, uma das mais destacadas artistas brasileiras das últimas décadas, a mostra Suturas, fissuras, ruínas ocupa vasto espaço da Pinacoteca do Estado de São Paulo até o início de agosto. Com curadoria de Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca, a exposição constrói uma narrativa que explicita o olhar reiterado de Varejão para a história da produção visual brasileira, seus diálogos com as tradições iconográficas europeias e com as convenções e códigos materiais do fazer artístico ocidental.

“Sempre acreditei que não há uma versão da história, mas versões, múltiplas e variadas. Ocorre que muitas delas foram perpetuadas. A minha história se baseia em versões às vezes imaginadas, às vezes silenciadas”, explicou a artista em entrevista à Vogue. O olhar de Varejão para esta história, portanto, pode ser visto em mais de 60 obras produzidas de 1985 até os dias de hoje – várias delas mostradas raras vezes no Brasil, já que foram vendidas para o exterior logo após a sua realização. É o caso de Azulejos (1988), primeiro trabalho em que a artista usa como referência um painel de azulejaria portuguesa, encontrado no claustro do Convento de São Francisco, em Salvador.

Seja em esculturas e peças com azulejos ou em pinturas produzidas pela artista ao longo da carreira, as fissuras e suturas – como diz o título – se apresentam em vários trabalhos das mostra. “Desde suas primeiras pinturas barrocas, a superfície da tela nunca é mero suporte; ao contrário, é um elemento essencial da mensagem da pintura. O corte, a rachadura, o talho e a fissura são elementos recorrentes nos trabalhos da artista desde 1992”, diz o texto de apresentação da exposição.

As recorrentes “vísceras” e “carnes” que saltam de uma série de trabalhos de Varejão remetem à violência da história colonial brasileira – e acabam por mostrar um diálogo estreito da artista com alguns dos temas mais atuais tratados na arte contemporânea nacional. “Ela tem essa ideia do que é a arte brasileira e esse olhar cuidadoso para uma história visual que é dominada por um olhar, influência e academicismo europeus, e a partir disso faz a estratégia da paródia”, diz ele. “Está ali inclusive a ideia de antropofagia, da carne, dessa fascinação da ideia de quebrar inclusive alguns tabus. Tudo aparece na obra dela”, diz Volz em entrevista à Folha de S.Paulo.

Para o Octógono, espaço central da Pinacoteca, serão apresentados cinco trabalhos da recente série Ruínas de charque, composta por pinturas tridimensionais de grande escala. Entre elas está Ruína Brasilis (2021), doada pela artista para a coleção da Pinacoteca de São Paulo e que esteve em sua última exposição em Nova York. Nas palavras do curador, “a obra é uma tentativa de resgate das cores da nossa bandeira, que nos últimos tempos se tornou símbolo do que há de mais reacionário e retrógrado no país. (…) A ruína não está ali edificando um projeto glorioso. Ao contrário, é um monumento trágico, que nos revela uma verdade brutal”.

Para saber mais sobre o trabalho da artista, leia aqui matéria de Leonor Amarante sobre a mostra Adriana Varejão – por uma retórica canibal, apresentada em 2019.

SERVIÇO: Adriana Varejão: Suturas, fissuras, ruínas
QUANDO: de 26 de março a 1 de agosto de 2022. De quarta a segunda, das 10h às 18h.
ONDE: Edifício Pinacoteca Luz Praça da Luz 2, São Paulo, SP, 1º andar e Octógono

O cangaço ontem e hoje

Imagem do livro Memórias Sangradas, vida e morte nos tempos do cangaço
Ulysses de Souza Ferraz mostra fotografia da volante de Nazareth, composta por seus parentes e comendada por seu pai. Foto: Ricardo Beliel

Com o tempo perdemos a transmissão da história pela oralidade; pior, perdemos o poder da escuta. Do silêncio, do tempo que transcorre tranquilo sem a necessidade de apressá-lo. Com o tempo perdemos nossa capacidade de olhar para nossos rostos para ver as nossas marcas, para entendermos o nosso ser e estar no mundo.

Mas é esse tempo perdido, essa voz que adoça os ouvidos, que reencontramos no livro do repórter e fotógrafo Ricardo Beliel, Memórias Sangradas: vida e morte nos tempos do cangaço, Editora Olhares e apoio do Rumos Cultural.

A publicação reconta uma história que há muito perpassa o imaginário brasileiro, tendo sido contada em livros, fotos e filmes: a do cangaço. O movimento que dominou o sertão nordestino de 1920 até ser definitivamente aniquilado em 1938 pelas tropas do então governo do Getúlio Vargas, na famosa batalha de Angico em Sergipe. A saga de Virgolino Ferreira, conhecido Lampião (1898-1938), Maria Bonita (1911-1938) e seu bando, composto entre outros por Corisco, Dadá, Pancada, Labareda, Volta Seca e Jararaca é talvez uma das mais importantes e conhecidas da história brasileira.

E foi atrás desta história que o jornalista Ricardo Beliel e sua esposa, a artista plástica e cineasta Luciana Nabuco, embarcaram. “Tudo começou em 2007, quando fiz uma reportagem para uma revista europeia chamada Geo. Junto com um repórter espanhol subimos o Rio São Francisco”, nos conta o autor. Foi lá que Beliel relembrou sua infância, quando sua mãe professora de história e geografia gostava de contar para a família as narrativas da cultura brasileira, e escutou histórias dos que ali ainda viviam. Foi ali também que soube que havia remanescentes do movimento do cangaço. O então menino, que ouvia encantado sua mãe falar sobre o interior nordestino, sobre o sertão, por meio dos livros de Graciliano Ramos e de Rachel de Queiróz, entres tantas outras histórias, ampliou seu imaginário.

Naquele mesmo ano, na verdade, na mesma semana, Ricardo Beliel, como freelancer, retornou ao sertão nordestino para produzir algumas matérias sobre o assunto do cangaço. Conseguiu publicar algumas matérias em revistas, mas foi só em 2014 que ele convidou Luciana Nabuco para percorrerem juntos o sertão nordestino, procurar os lugares por onde o bando de Lampião andou e tentar falar com as pessoas que habitavam aquelas paragens, ouvir suas histórias, fotografar suas memórias. De 2007 a 2019 foram nove viagens, 11 mil quilômetros percorridos de carro, sete estados visitados e muitos, muitos, depoimentos gravados e rostos e lugares fotografados: “Queríamos ouvir a história destas pessoas. Sabemos que muito já foi dito e escrito, mas queríamos contar essa história por nós mesmos como uma grande reportagem, uma memória social daquele tempo”. O apoio de Luciana Nabuco foi fundamental. Nascida no Acre, ela, assim como Beliel, cresceu ouvindo seu pai contar histórias de seu longo caminhar, da cultura familiar. Como afirmava a pesquisadora e psicóloga social Ecléa Bosi: “A memória oral é um instrumento precioso se desejamos constituir a crônica do cotidiano”.

Imagem do livro Memórias Sangradas, vida e morte nos tempos do cangaço
Ana Cleto e Pedra, parentes dos cangaceiros Zé Gato e Sabina. Foto: Ricardo Beliel

A cada retorno, ao ouvir as histórias que haviam gravado, resolveram então que a semântica da fala dos personagens deveria ser preservada. Os entrevistados, em sua grande maioria pessoas quase centenárias, são descendentes da época do cangaço, personagens de um ciclo da história do Brasil que nem sempre foi bem lembrada.
Desta forma, Ricardo Beliel começou a escrever o livro entrelaçando sua visão como jornalista – que é e sempre foi – com os depoimentos dos 43 personagens que selecionou para fazer parte de Memórias Sangradas. Aos escritos juntou suas fotos, mas também foi atrás das fotos que os próprios personagens guardavam em suas casas. Fala-se muito do libanês Benjamin Abrahão (1890-1938), que fotografou e filmou o bando na década de 1930, mas muitos outros fotografaram o movimento sem o devido reconhecimento, visto que na época falar em crédito na fotografia era quase inexistente. Muitas vezes o que aparecia era o nome do proprietário do jornal. Beliel encontrou estas imagens na casa dos próprios entrevistados e as reproduziu mesmo sem retoques, sem trazer um ar novo para a fotografia, mas resguardando as marcas do tempo que já haviam se incorporado às imagens: “Foram fotografias feitas nos anos 1920 e 1930, adquiriram marcas do tempo da história que quisemos preservar”, comenta Beliel.

O resultado, embora em tom jornalístico, relembra um pouco os grandes livros épicos onde histórias de morte, de amor, de luta, de vinganças, de encontros e desencontros nos são recontadas. Daí a ideia do título. Um livro construído pela escuta – aliás, papel este do jornalista, seja ele de texto ou da fotografia: “Este livro é o renascimento do repórter que nunca deixei de ser”, conta Beliel. Mas é Luciana Nabuco que em forma de poesia no prefácio e posfácio do livro nos lembra que ”estamos perdendo a história porque estamos deixando de escutar nossos velhos. Eles são as nossas fontes primárias”.

Colaboradores da edição #58


Christian Dunker é professor titular em Psicanálise e Psicopatologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em patologias da linguagem. É autor de uma série de livros, entre eles “Lacan e a democracia”, lançado este ano pela Boitempo.


Márcio Seligmann-Silva é doutor pela Universidade Livre de Berlim, pós-doutor por Yale, professor titular de Teoria Literária na UNICAMP e pesquisador do CNPq. É autor de livros premiados como “Ler o Livro do Mundo” e “O Local da Diferença”, entre outros.


Renato Araújo da Silva é pesquisador e curador. Graduado em Filosofia pela USP, pertence ao grupo de crítica de arte contemporânea do CCSP. É autor de livros como África, Mãe de Todos Nós.

Dereck Marouço é pesquisador, crítico de arte, curador e tradutor, mestrando em Culturas Curatoriais na Faculdade de Belas Artes de Leipzig, na Alemanha. Vive e trabalha em São Paulo e Berlim.



Simonetta Persichetti é jornalista e crítica de fotografia. Mestre em Comunicação e Artes (Mackenzie), doutora em Psicologia Social (PUC-SP) e pós-doutora pela ECA-USP, é membro do Conselho Editorial da arte!brasileiros. Publicou diversos livros e ganhou o prêmio Jabuti de Reportagem.

Fotos: arquivo pessoal

Arte sem luta de classes é apenas decoração?

À frente, "Museu do Homem do Nordeste", de Jonathas de Andrade, ao fundo obras de Candido Portinari, Almeida Junior e Paulo Nazareth. Foto: Levi Fanan/Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo
À frente, "Museu do Homem do Nordeste", de Jonathas de Andrade, ao fundo obras de Candido Portinari, Almeida Junior e Paulo Nazareth. Foto: Levi Fanan/Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo

Como é possível retratar e envolver pessoas e comunidades de forma ética? Essa é uma questão chave para artistas com obras que possuem teor social, especialmente nos últimos cinco anos. Afinal, o sistema da arte contemporânea, trabalhando no campo simbólico, deve apontar para estratégias que se diferenciem de segmentos como a publicidade ou o jornalismo, que muitas vezes abordam questões sociais sem qualquer tipo de compromisso com elas.

Sebastião Salgado é um exemplo de transição neste caso. Fotojornalista que transita no mundo da arte com desenvoltura, sua mostra Amazônia, em cartaz no Sesc Pompeia, retrata povos indígenas ameaçados, entre eles os Yanomami. Ao contrário do costume no fotojornalismo, que é não pagar para fazer imagens, Salgado contribuiu financeiramente com a Hutukara, que é a associação da Terra Indígena Yanomami, presidida por Davi Kopenawa.

Contrapartida financeira nem sempre é uma das estratégias, quando se fala de arte contemporânea. Em Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste, obra que está em cartaz na mostra de longa duração da Pinacoteca do Estado, Jonathas de Andrade entregou fotografias aos homens retratados no trabalho. Ele escolheu seus modelos na rua e, em troca da participação no projeto, deu a eles um retrato realizado. O Museu do Homem do Nordeste comporta-se como uma coleção paralela e homônima ao museu antropológico criado, em 1979, por Gilberto Freyre, ainda existente na cidade do Recife.

A questão que esta estratégia traz é: até que ponto essas pessoas retratadas por Jonathas não estão sendo tão exploradas quanto qualquer trabalhador que agrega valor a um objeto, mas não participa de fato de seu lucro, além de não terem controle de sua própria imagem. É importante ressaltar que a obra tem quase 10 anos, portanto não estava inserida no atual contexto de debates.

Artistas etnógrafos

Em um texto já clássico de 1995, O artista como etnógrafo, Hal Foster constatava nas práticas artísticas o surgimento de uma estratégia de associação a um novo sujeito: “O outro cultural e/ou étnico, em nome de quem o artista engajado luta”.

No fim do século 20, Foster ainda não tinha dado conta de que lutar em nome de alguém representava um posicionamento por um lado paternalista, já que é como se o artista pudesse se colocar no lugar da causa que defende, e, por outro, oportunista, afinal ele se legitimava com um discurso de esquerda, mesmo que no final seus trabalhos acabem rendendo apenas a ele de fato.

Esse tipo de estratégia já foi criticado por artistas como o argentino León Ferrari (1920-2013). Ao abordar o artista “engajado”, ele afirmou que “o triunfo de suas obras significou o fracasso de suas intenções”, no texto A arte dos significados, de 1968.

Algo semelhante defendeu o crítico Hrarg Vartanian recentemente, em sua conta no Instagram: “Um mundo da arte que se beneficia das desigualdades econômicas não é um mundo da arte pelo qual valha a pena lutar. Chico Mendes disse que ‘ambientalismo sem luta de classe é apenas jardinagem’. Talvez arte sem luta de classes seja apenas decoração.”

Still de “Swinguerra”, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, 2019.

Nesse sentido, uma significativa mudança de atitude pode ser o posicionamento do artista: ao invés de lutar “em nome de alguém” que ele lute “com alguém”, como fizeram Bárbara Wagner e Benjamin de Burca no pavilhão brasileiro da Bienal de Veneza, em 2019, com o filme Swinguerra.

Baseada em um fenômeno cultural periférico, a swingueira pernambucana, a obra envolveu uma parceria com três companhias de dança, Cia. Extremo, La Máfia e O Passinho dos Maloka. Parceria aqui é palavra essencial, ela aponta para um trabalho conjunto, tanto que durante a apresentação para a imprensa, na abertura da Bienal, em Veneza, a protagonista do filme, a artista trans Eduarda Lemos, participou da divulgação do trabalho junto com Bárbara e Benjamim. Fica a questão de como foi tratada a divisão dos lucros do filme.
De qualquer forma é no mínimo esse tipo de parceria que precisa ser cada vez mais proposto e implementado. Assim, não se trata mais de falar sobre, em uma postura etnográfica, método questionado agora pela própria Antropologia, mas de falar com.

Debate decolonial

Tal debate também faz parte dos estudos decoloniais, uma reflexão importante, que surgiu especialmente nas universidades, mas que cada vez mais ocupa o mundo da arte. Trata-se de colocar em xeque o caráter colonialista de polos político-econômicos como Europa e Estados Unidos, além de questionar o caráter patriarcal e heteronormativo dessas culturas, assim como suas formas de exploração social. Isso tudo, no final, aponta para a necessidade de novas constituições de poderes, o que envolve também o poder do artista, especialmente aqueles que tratam de questões sociais.

Não por acaso, recentemente algumas vozes começaram a questionar até as imagens do povo Yanomami, realizadas por Claudia Andujar, já que por ser de origem europeia e branca, ela estaria falando em nome dos indígenas, em um posicionamento superior a eles. Repare que na mostra Amazônia, Sebastião Salgado dá voz às lideranças indígenas em vídeos como forma de escapar dessa questão.

Aí é que o debate precisa evitar cancelamentos precipitados. Claudia tem uma vida dedicada aos Yanomami, tendo trabalhado com eles desde os anos 1970, sem sequer produzir para o circuito da arte. Suas imagens foram realizadas como registros para denúncias no Brasil e no exterior, tanto sobre as invasões como sobre a necessidade da demarcação da terra Yanomami, o que foi uma conquista em 1990 na qual ela esteve profundamente engajada.

Claudia, aliás, usou o museu como espaço de denúncia, muito antes dessas instituições iniciarem seus próprios processos de decolonialismo. Genocídio do Yanomami: Morte no Brasil, por exemplo, foi uma instalação apresentada por ela junto com a CCPY (Comissão pela Criação Yanomami), no Museu de Arte de São Paulo, em 1989, quando garimpeiros invadiam suas terras, como segue ocorrendo hoje.

Foi apenas no início do século 21, de fato, que a obra de Claudia acabou sendo incorporada ao circuito de arte contemporânea, e ela estabeleceu um princípio bastante particular: divide o resultado das vendas de forma paritária com a galeria que a representa e os Yanomami, através da Hutukara, cada um ficando com um terço do valor.

Registro do projeto Vídeo nas Aldeias. Foto: Divulgação

Por tudo isso, é preciso muita atenção para não ficar na superfície do debate. A questão indígena, aliás, tem outro exemplo notável de inclusão que é o trabalho desenvolvido pelo antropólogo Vincent Carelli com o Vídeo nas Aldeias (VNA), fundado já em 1986, que desde então fornece equipamento e treinamento em oficinas a povos indígenas para que eles próprios criem suas representações sem a mediação cultural de outras pessoas.

Com isso, o VNA já formou dezenas de especialistas em audiovisual, o que possibilitou a criação de um importante acervo de imagens sobre os povos indígenas no Brasil, com uma coleção de mais de 70 filmes, a maioria deles premiados nacional e internacionalmente – transformando-se em uma referência nesta área. Tendo participado da Bienal de São Paulo Incerteza Viva, em 2016, esse é um dos grandes exemplos de estímulo para que povos marginalizados sejam autores das imagens de suas lutas.

Finalmente, é importante lembrar ainda de um outro exemplo de posicionamento radical feito pela artista Mônica Nador, em 2004, quando ela implantou o Jamac (Jardim Miriam Arte Clube), uma associação na periferia da zona sul da cidade, e desde então vive lá. Trata-se praticamente de um centro cultural, onde ocorrem debates, encontros, ciclos de filmes sobre arte e cidadania, mas a particularidade é como Mônica compartilha com a comunidade um saber: em como usar a pintura como forma de ativação social. No princípio, ela ensinou os moradores da região a utilizar técnicas como o estêncil – máscaras de papel que permitem pintura seriada -, tendo como motivos temas simples, de objetos de cozinha a animais ou plantas. Hoje, várias pessoas da comunidade usam essas técnicas, não só em paredes, mas em tecidos também.

Com isso, Nador alia a tradição da pintura a um exercício colaborativo e conceitual, que coloca em prática a máxima pregada pelo alemão Joseph Beuys: “Todo mundo é um artista”. Com isso, uma nova ética se realiza de fato.