Obras sem título de Mario Cravo jr. Da esquerda para a direita, uma de 1989 e outra de 1983.
“Antonio era serenidade, equilíbrio, tranquilidade. Mario era força movimento e agito”. É assim que Thais Darzé, diretora da Paulo Darzé Galeria, de Salvador, resume suas impressões sobre Antonio Dias e Mario Cravo Jr. Ambos os artistas faleceram no último dia 1 de agosto, também dia que nos deixou Eleonore Koch. A notícia dessas partidas, com poucas horas de intervalo, deixou muita saudade.
Ambos do nordeste, Antonio, nascido em Campina Grande (PB), e Mario Jr., soteropolitano, encontraram na década de 80 mais um amigo em comum. Esse seria especial por poder apresentá-los em solo nordestino, em seu lar. Paulo Darzé tinha acabado de inaugurar a galeria homônima quando conheceu Mario. A amizade, seguida da representação do artista pela galeria, trouxe um respaldo muito grande para a galeria estreante. Ter em seu corpo de artistas o escultor baiano dava muita credibilidade, explica Thais, que também nascia naquele 1983.
Antonio Dias, Sem Título, 2014
A relação com Antonio vem cinco anos mais tarde. O artista também passa a ter exposições feitas pela galeria, quando esta começa a expandir os horizontes, buscando grandes artistas de fora do território baiano. Antonio fazia muito sucesso por onde passava: “Ele amplia todo esse universo, abre os olhos da formação de público aqui, além da própria projeção internacional dele, o que faz com que a gente também busque uma sintonia com tudo o que tá acontecendo no mundo da arte”, explica Thais.
Para Thais, é fácil falar sobre os dois. Ela se lembra de ter convivido com eles desde garotinha: “Eu tive a honra e a sorte de poder conviver, e crescer, com dois monstros da arte, duas pessoas maravilhosas, um com uma energia completamente diferente do outro”. Ela via em Antonio uma personalidade mais doce. Já Mario, de acordo com ela, era dono de uma “personalidade com tamanha força” que desconhece em outras pessoas.
A galeria, inclusive, foi a última a sediar exposições dos artistas ainda em vida: a de Dias em março deste ano, a de Cravo Jr. em outubro de 2017. Paulo Darzé, diretor e fundador da galeria, conta que Mario se emocionou muito nessa exposição, que reuniu uma série de esculturas em madeira e ferro. Já a de Antonio era um desejo de longa data, desde 2016 a galeria havia planejado, mas só foi possível há poucos meses. Segundo Paulo, o artista se empenhou o máximo para que a exposição saísse, inclusive trabalhando firme no catálogo.
Além do lado profissional, a amizade se estendia para a vida social. “Foi um choque muito grande perder os dois no mesmo dia”, afirma o galerista.
Lygia Pape (1927-2004), Língua Apunhalada, 1968, Fotografia / Poema visual
“Estratégias Conceituais”, em cartaz na Galeria Bergamin & Gomide, se debruça sobre a sólida parceria que se estabeleceu entre arte política e conceitualismo na América Latina. Essa sincronia entre uma arte que rompe com os modelos formais e um discurso mais aguerrido, conectado com os acontecimentos associados à repressão política vivenciada no período das décadas de 1970 e 1980, fica evidente nas cerca de 80 obras selecionadas para a mostra pelo curador Ricardo Sardenberg. Sua intenção não é fazer uma revisão histórica, nem tampouco esquematizar essa ampla produção em núcleos temáticos, formais ou geográficos. Pelo contrário, é pela diversidade e pelo adensamento que Sardenberg se aproxima do tema. E de certa maneira o atualiza.
Cildo Meireles (1948), Para ser curvado com os olhos, Madeira e Ferro, Assinada com monograma e datado, 25 X 50 X 50 Cm
“São diversas estratégias de produção e disseminação, por vezes de matizes ideológicos opostos”, explica o curador, ao reafirmar que de certa forma sua estratégia é a de diluir as grandes autorias, inserindo-as num conjunto mais amplo e diverso. Evidente que estão representados os artistas que mais se destacaram ao longo desse processo e que há uma ligeira predominância de autores brasileiros (que correspondem a cerca de 60% da lista). A seleção – que não compreende apenas obras de arte, mas também projetos, textos, documentos – começa com um trabalho mais antigo, realizado em 1962, por Augusto de Campos. E se encerra no final da década de 1980 com uma obra de Jac Leirner. Dentro desse intervalo há espaço para poéticas distintas, de artistas como Cildo Meireles, Victor Grippo, Lygia Pape e León Ferrari. Para reunir esse grupo, foi necessário recorrer a diversas coleções e, apesar de ocupar uma galeria comercial, nem todos os trabalhos estão à venda.
Segundo Sardenberg, a mostra peca propositalmente pelo excesso, como se a curadoria procurasse “redesmaterializar” esses objetos, diminuir a fetichização a que foram submetidos nas décadas subsequentes e reforçar aspectos importantes dessas propostas como sua intenção política, a revolta contra a mercadoria que marca a arte conceitual e a ênfase numa arte de caráter coletivo.
Cildo Meirelles, Espelho Cego, 1970.
Não é uma coincidência que tantas exposições tenham, agora e no passado recente, se debruçado sobre esse período de contestação, no qual a arte se transforma também em linguagem de combate e resistência. É possível citar, por exemplo, as exposições Mulheres Radicais, na Pinacoteca do Estado e AI-5, no Instituto Tomie Ohtake (ver artigos nas pgs. … e …). Olhar para o passado ilumina, sem dúvida, o presente sombrio, mas é preciso ter em mente de que os tempos são outros. “O impulso autoritário é semelhante, mas não é o mesmo”, pondera o curador.
Sala dedicada à artista colombiana Beatriz González na mostra História de dois mundos
A inclusão de narrativas fora do eixo central Estados Unidos e Europa tem sido constante política em importantes instituições de arte como o Museu de Arte Moderna, em Nova York, a Tate Modern, em Londres, o Centro Pompidou, na em Paris, e o Reina Sofia, em Madri.
Há quase duas décadas pelo menos, esses museus vêm incorporando obras latino-americanas, um dos locais não-hegemônicos que mais vem ganhando espaço, e deram visibilidade a produções importantes de artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape e Cildo Meireles, para citar apenas alguns brasileiros, recuperando assim uma lacuna em seus acervos e programas.
A Alemanha demorou a ter tal iniciativa, mas desde 2014 a Fundação Nacional de Cultura (Kulturstiftung des Bundes) criou o programa Global Museum, que vem revisando as perspectivas das coleções de seus museus nacionais.
“História de dois mundos – arte experimental latino-americana em diálogo com a coleção MMK, 1949 – 1989”, inaugurada em julho passado no Museu de Arte Moderna de Buenos Aires (Mamba), representa um dos desdobramentos do projeto Global Museum.
“A mostra foi uma sugestão de Hortência Völckers, da Fundação Nacional de Cultura, para ser realizada tanto no Museu de Arte Moderna de Frankfurt (MMK), na Alemanha, quanto aqui na Argentina”, disse à ARTE!Brasileiros a diretora do Mamba e curadora da exposição Victoria Noorthoorn, que dividiu a tarefa com Javier Villa e Klaus Görner, pelo museu alemão.
Segundo Völckers, que é argentina radicada na Alemanha, além do MMK dois outros museus alemães realizam mostras com estratégias semelhantes, entre eles a Hamburger Bahnhoff, em Berlim.
Inaugurada em Frankfurt, em novembro do ano passado, “História de dois mundos” segue até 14 de outubro na capital argentina e reúne cerca de 500 obras de cem artistas, em sua maioria latino-americanos, não só a partir do acervos das duas exposições que organizam a mostra mas também de várias instituições, inclusive brasileiras, como a Pinacoteca do Estado.
Entrevidas (1981), instalação com ovos de Anna Maria Maiolino e Situação T-T, 1, 1970-2017 de Artur Barrio na exposição que reinaugurou o Mamba, em Buenos Aires
Ampliação
A mostra binacional ainda representa um marco na história do museu: a ocupação completa do edifício sede, no bairro de San Telmo, onde o Mamba funciona desde 1986, mas que utilizava cerca de metade de sua capacidade. Agora, a instituição tem 4 mil metros quadrados de área expositiva, toda ela utilizada para “História de dois mundos”.
Uma das primeiras imagens da mostra é uma foto de Albert Georg Riethausen, onde se vê um grupo de artistas na corda-bamba, em 1949, em meio a uma cidade alemã completamente destruída pela Segunda Guerra Mundial. Na sequencia, são apresentados diversos trabalhos que representam a antítese desse espaço de ruínas, a América Latina como um local de utopias, desde os fotógrafos Thomaz Farkas e Marcel Gautherot , com imagens da construção e inauguração de Brasília, em 1960 e 1961, a projetos do arquiteto argentino Amancio Williams, como um aeroporto a ser construído sobre o Rio da Prata, de 1945.
Essa inversão do que se tornou o estereótipo atual da nova ordem mundial – a Alemanha como principal potencia europeia e a América Latina como terra arrasada do sistema neoliberal – aponta de fato como é possível através da arte se repensar estruturas aparentemente definitivas.
De fato, a mostra reúne artistas com obras potentes que desafiaram as ditaduras que se espalharam pelo sul do continente americano como nas obras de Anna Maria Maiolino e Artur Barrio. “Entrevidas”, 1981, de Maiolino, ocupou uma das salas da mostra – com arquitetura de Daniela Thomas e Felipe Tassara – com dezenas de ovos, apontando a fragilidade e esperança, assim como “Situação T/T, 1”, 197o/2017, de Artur Barrio, a obra histórica, cuja documentação apresenta imagens dos pedaços de carne envoltos em panos despejados em um parque de Belo Horizonte, que lembravam os corpos torturados pela ditadura militar no Brasil. Ambos artistas são bons exemplos dessa nova política das grandes instituições de arte, já que os dois tem sido incluídos em exposições e mostras de acervo.
Esse é o caso da colombian Beatriz González, que participou da documenta 14, em Kassel e Atenas, no ano passado, e tem ganho grande destaque nos últimos meses. Na mostra, ela participa com uma sala que dá conta da poética de sua obra, que mescla objetos do cotidiano, como moveis e cortinas e os sobrepõe com padrões coloridos, bem ao estilo pop, só que com situações críticas a elite de seu país.
Coproduzida afinal por um museu portenho, “História de dois mundos” apresenta em seus 16 módulos uma ampla e merecida seleção de artistas argentinos, caso de Leon Ferrari, contemplado com uma sala de seus trabalhos críticos à igreja católica, e ainda Oscar Bony, Victor Grippo, Liliana Porter, Edgardo Antonio Vigo, Liliana Maresca e Marta Minujin, entre outros.
E esses artistas convivem, ao final, no mesmo nível de consagrados como Francis Bacon, Joseph Beuys, Andy Warhol, Marcel Broodthaers, Marcel Duchamp, Gerhard Richter, Cy Twombly e Charlotte Posenenske para citar alguns dos expostos do acervo museu alemão.
O melhor, contudo, é perceber que a inserção dos latinos vem de um esforço de inclusão de um museu alemão, e que a própria curadoria é feita em uma colaboração que envolve os dois países. Empoderar, afinal, não é apenas ampliar a representação, mas dar voz a quem até agora não teve espaço. E no caso de “Uma história de dois mundos” isso ainda se confirma no impressionante catálogo de quase 500 páginas, com ensaios que ampliam os debates da mostra.
O jornalista Fabio Cypriano viajou a convite do Museu de Arte Moderna de Buenos Aires
Samir Rafi, Homme à la Chaise, 1953, tinta, desenho e aquarela. Cortesia Ahmed Eldabaa Collection
Feiras de arte não se preocupam apenas com venda, mas também com a criação de valor. É nesse sentido que pode ser vista That Feverish Leap into the Fierceness of Life (o salto febril na ferocidade da vida), mostra organizada pela última edição de Art Dubai, com curadoria de Sam Bardaouil e Till Fellrath, a dupla que atualmente dirige a Fundação Cultural Montblanc. Criada a partir de obras modernistas nos países árabes, a exposição, especialmente por não ter trabalhos à venda, ajuda a criar reflexão e bibliografia para um segmento onde o colecionismo cresce e com alto poder de compra.
A mostra reúne cinco grupos de artistas, que se organizaram no decorrer de cinco décadas, em cinco cidades: Cairo (Egito), Bagdá (Iraque), Casablanca (Marrocos), Cartum (Sudão) e Riade (Arábia Saudita). O título foi extraído do manifesto de um desses coletivos, o Grupo de Bagdá para a Arte Moderna, escrito em 1951.
Nesse sentido, aqui se revela uma importante iniciativa da feira, já que dá visibilidade ao circuito internacional uma produção local bastante desconhecida, como é o caso da Escola de Casa Branca. Ela reuniu artistas radicais, em 1966, e apenas três anos depois eles expunham no espaço público como forma de não estarem vinculado a uma elite.
No Marrocos, segundo afirma Toni Maraiani no catálogo da mostra, “longe de se afirmar em uma escola de estilos, a arte moderna se tornou o espaço de questionamento e abertura”. Entre os destaques desse grupo na exposição, estão obras de Mohamed Hamidi, mais próximas da arte pop e com formas altamente eróticas, realizadas nos anos 1970, portanto já em sintonia com a arte contemporânea existente na época. Além dele, Bachir Demnati, Mohammed Melehi e Mohammed Kacini também são vistos em cores e formas pop, mas sem apelo sexual.
Hamidi e seus conterrâneos, contudo, são a exceção na exposição que apresenta em verdade um modernismo tardio, já que todos os grupos se mobilizam após os anos 1950, depois da Segunda Guerra, quando a arte contemporânea já estava, de fato, tendo início. Entre tentativas de inclusão no canon moderno, que museus e historiadores da arte andam empreendendo como forma de construir uma identidade pós-colonial global, os curadores preferem apontar as cinco escolas como “testemunhos da diversidade” contra a noção do mundo árabe como um “fenômeno monolítico”.
Assim, segundo Bardaouil e Fellrath, as cinco escolas são exemplo das “contradições, antagonismos, desafios e realizações de várias expressões do modernismo através de um longo século de negociações rigorosas e criações.
De fato, sem o peso do academismo, portanto sem ter que lutar contra algo, esses grupos aproveitam as liberdades modernistas da representação, em contextos de abertura de seus próprios países ao Ocidente.
Faraj Abo, Sem título 1963
No geral, quando vistos em comparação com o modernismo “padrão”, os trabalhos expostos são um tanto opacos, sem surpresas. Contudo, o mérito da mostra está justamente em dar visibilidade em um contexto internacional uma produção que dialoga intensamente com questões regionais, seja nas formas, nos conteúdos ou mesmo nas técnicas.
É o caso do grupo egípcio, por exemplo, que aliava à entrada na modernidade a discussão sobre arte com caráter nacional, algo semelhante ao modernismo brasileiro. No texto “Em direção a uma arte que é especificamente egípcia”, assinado por vários membros do The Contemporary Art Group, do Cairo, entre eles Abdelhadi El-Gazzar, buscavam refletir o que seria uma “arte nacional”. Para El-Gazzar isso seria: “entender nossos específicos problemas e ter a capacidade de apresenta-los com elementos do ambiente e uma mentalidade moderna”. Em uma de suas pinturas na mostra, “A família”, se vê como o peso da tradição local é imenso, já que os adultos parecem muito maiores que a criança na pintura e eles carregam tantos símbolos da cultura local que sequer conseguem ter individualidade, sem dúvida uma crítica moderna à condição local.
O jornalista Fabio Cypriano viajou a Dubai a convite de Art Dubai
grada-kilomba, ILLUSIONS, vídeoperformance. Poesia, teatro, dança. Em seu trabalho combina Mitos gregos com vídeo, textos e histórias
Logo na entrada do KW Instituto de Arte Contemporânea, em Berlim, uma foto retrata as 14 figuras mais representativas do local, em uma seleção de seus próprios funcionários. Trata-se de “Lendários”, da brasileira Cinthia Marcelle, uma série iniciada em 2008, e que já foi feita no Copan, Centro Cultural São Paulo e Parque Lage, no Rio.
Estranho na imagem é a ausência do fundador do local, Klaus Biesenbach, que acaba de deixar seu posto de curador no MoMA, em Nova York, para tornar-se diretor do MOCA, o museu de arte contemporânea, de Los Angeles.
A imagem é uma espécie de reencenação de uma foto feita por Man Ray, em 1941, e que incluía Peggy Guggenheim, André Breton, Mondrian e Marcel Duchamp, um time estelar da arte moderna. Já a imagem de Marcelle apresenta de certa forma os bastidores de instituições culturais.
O trabalho se encaixa perfeitamente na 10ª. edição da Bienal de Berlim, “We don´t need another hero”, em cartaz até 9 de setembro na capital alemã. Com curadoria da sul-africana Gabi Ngcobo, que participou da equipe de Jochen Volz na Bienal de São Paulo há dois anos, a mostra reuniu artistas que, a exemplo de Marcelle, buscam revelar camadas muitas vezes opacas na sociedade.
Cinthia Marcelle, 1st Meeting of the Legendaries at KW Institute for Contemporary Art/Berlin Biennale for Contemporary Art, 2018. Fotografia, placa de metal, documento. Cortesia da artista.
Pela primeira vez em Berlim – e o que nunca aconteceu na Bienal de São Paulo, é bom lembrar, toda a equipe de Ngcobo é composta de negros, em sua maioria mulheres: Yvette Mutumba, Nomaduma Rosa Masilela, Moses Serubiri, e o brasileiro Thiago de Paula Souza.
Berlim é uma bienal que costuma ser marcada pela ousadia, como em 2012, em sua 7ª. edição, quando a sala principal do KW foi cedida aos movimentos de ocupação que se espalhavam por todo o mundo após o Occupy Wall Street. Em suas últimas edições, contudo, predominaram críticas contundentes por mostras um tanto herméticas e confusas.
A Bienal de Ngcobo é um alívio nesse sentido. Ela possui uma expografia clara, com amplos espaços para cada obra, ocupa poucos locais da cidade _apenas cinco_ e reúne um número bastante reduzido de artistas em se pensando em mostras desse gênero, 46 no total. Com 30 obras comissionados pela equipe curatorial, o resultado é de trabalhos fortes e eloquentes, o que revê um dos pilares dessas grandes exposições, quando é a quantidade que gera qualidade. Nesta bienal de Berlim, menos é mais.
“Again/Noch einmal” (De novo), de Mario Pfeiffer, é um desses trabalhos inesquecíveis, que fala do tempo presente de forma poética e inteligente. Em 2016, na conservadora região da Saxônia, quatro alemães amarraram um refugiado iraquiano com histórico de epilepsia em uma árvore do lado de fora de um supermercado, porque achavam que ele estava ameaçando a caixa da loja. O caso criou controvérsia na Alemanha, pois os quatro foram processados, mas popularmente chegaram a ser aclamados como heróis agindo com “coragem civil”. Na véspera do julgamento, o refugiado foi encontrado morto e o caso acabou cancelado.
A Bienal, contudo, não tem um tom político constante, como esses dois trabalhos podem fazer supor. Há uma mescla bastante delicada entre estratégias poéticas menos militantes, como as pinturas da chilena Johanna Unzueta, dispersas em vários locais da exposição no KW e na Academia de Arte (Akademie der Kunst), baseadas em práticas indígenas e expostas em cavaletes inspirados nos projetos de Lina Bo Bardi. Ou então nas plantas inseridas nas frestas do piso do espaço expositivo da mesma Academia por Sara Haq, sinal tanto de delicadeza como da força da natureza.
MINIA BIABIANY, TOLI TOLI, METÁFORA COM O PASSADO E PRESEAMinia Biabiany, toli toli, Metáfora com o Passado e Presente ColonialNTE COLONIAL
As pinturas da cubano Belkis Ayón (1967 – 1999) são outro ponto alto da Bienal ao expor o trabalho do artista que aborda os rituais de uma sociedade secreta afro-cubana exclusivamente masculina denominada Abakuá.
A Bienal, aliás, é farta em apresentar trabalhos que dialogam com outros campos do conhecimento, o que é o caso da série ILLUSIONS, iniciada em 2016, de Grada Kilomba, que revê mitos gregos a fim de observar o simbolismo e as alegorias carregadas de opressão neles. Em Berlim, ela reencena Édipo Rei, de Sófocles, em duas telas: em uma Kilomba narra a história de forma didática, em outra, a atuação de vários atores se desenrola de forma bastante coreográfica.
Rever práticas autoritárias, de fato, se torna uma constante ao longo da Bienal, mas o que a torna particularmente especial é propor novas narrativas que funcionem como um contraponto possível. Um detalhe que ganha destaque, nesse sentido, é que todos os artistas presentes na Bienal nunca são identificados por sua idade, gênero e origem, nem se estão vivos ou mortos. O que pode dar impressão de falta de informação, no final é a prática da igualdade levada ao extremo. O que interessa são as obras.
A expografia segue também esse padrão ao ceder espaços amplos para que cada obra seja elevada à sua máxima potência. Se uma Bienal que fala sobre o colapso do tempo presente já é relevante, apontar caminhos que representem saídas dessa crise a torna vital. “We don’t need another hero” não poderia ter, tanto no título quanto no conteúdo da exposição, uma mensagem mais clara.
O que há além da arte nas imagens de Ana Maria Maiolino na série Poemação da década de 70, na obra “O que sobra”, onde ela corta sua língua, seu nariz? O que há além de uma imagem perturbadora, instigante? Na fala dela “são imagens, reflexos de emoções que se sustentam na resistência. Uso meu próprio corpo não como uma metáfora, mas como uma verdade, algo que pertence ao domínio do real, dado que, em um momento de repressão e tortura como o da ditadura, todos os corpos tornam-se um na dor”. [A pele de Anna: Anna Maria Maiolino. Ed.Cosac Naify,2016]. Ou nas obras de inúmeras mulheres que se utilizaram da ironia só para denunciar o lugar de invisibilidade em que foram colocadas num mundo de homens.
O que há além da arte nas obras de artistas que construíram seu trabalho baseando-se nas pesquisas de documentos secretos. Colocando luz no não dito, no censurado, no apagado.
O que há além da arte no Século XXI, numa Bienal que se constrói em torno de um novo mapa global. E outra que decide ter maioria negra no seu grupo curatorial. E quando artistas de diversos lugares do mundo, usam das mesmas metáforas visuais, em diferentes suportes para denunciar a xenofobia de seus países para com imigrantes. Países esses, na sua maioria de colonizadores.
A transcendência, um dos arcabouços da arte, hoje está impregnada não só pela força da aura, ou pela poética de que nos encanta e sim, também, pela sua capacidade de trazer a tona silêncios e memórias, num tempo acelerado que não quer saber.
Esta edição que acompanha a realização do nosso V Seminário Internacional, coincide com a abertura de exposições onde a radicalidade aparece das mais variadas formas.
O vídeo que abre a exposição Mulheres Radicais, em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Me gritaron negra!, da artista e poeta afro-peruana, Victoria Eugenia Santa Cruz, é um tapa na cara.
ARTE!Brasileiros entrevistou Francine Sagawa, técnica de programação do Sesc Pinheiros, sobre a exposição que reúne artistas como Abraham Palatnik, Lygia Clark, Andrzej Pawlowski, Carlos Cruz-Díez e Hélio Oiticica.
O Outro Trans-Atlântico: Arte Ótica E Cinética No Leste Europeu e na América Latina Entre os Anos 50 e 70 foi organizada pelo Museu de Arte Moderna de Varsóvia (Polônia) em 2017 e foi exibida no Garage Museum of Contemporary Art, em Moscou (Rússia). Agora, é exibida no Sesc Pinheiros, até 28 de outubro, com entrada gratuita.
Em São Paulo, a mostra é composta por obras originalmente exibidas em Varsóvia e
Moscou, mas traz também obras de artistas latino-americanos, com curadoria de Marta Dziewańska, Dieter Roelstraete e Abigail Winograd.
Arte-Veículo, coletiva no Sesc Pompéia, abertura 28/8
A exposição coletiva destaca o uso da mídia de massa brasileira como um espaço de intervenção artística. Com curadoria de Ana Maria Maia, a mostra é resultado da pesquisa iniciada com a Bolsa Funarte de Estímulo às Artes Visuais e reúne 47 artistas e grupos estudados por ela. No dia 28 de agosto, durante a abertura, haverá as performances A corda, às 20h, e Vera Verão, às 21h.
Minerva Cuevas, Disidencia v. 2.0, 2008-2010
Minerva Cuevas: Dissidência, individual no Videobrasil, abertura em 30/8
Em parceria com a Galeria mexicana Kurimanzutto, a mostra aposta no casamento da arte e do ativismo, em um momento marcado por alterações na legislação que dizem respeito ao uso de agrotóxicos, o desmatamento da Amazônia e a demarcação de terras indígenas no Brasil.
Com uma produção artística marcada pela utilização do humor e da ironia na abordagem de temas político e ecológicos, “Dissidência” reúne sete sete obras em vídeo e uma projeção de slides. Há significativo recorte e demarcação da oposição e contestação ativa, como explica Gabriel Bogossian, curador ao lado de Solange Farkas.
German Lorca, Oca, parque do Ibirapuera (Ibirapuera Park), 1954. Cortesia da Galeria Utopica.
German Lorca: Moisaico do Tempo, individual no Itaú Cultural, abertura em 25/8
Um dos pioneiros da fotografia moderna brasileira ganha retrospectiva que marca 70 anos de sua carreira através de suas obras. Com curadoria de Rubens Fernando Jr. e assistência de José Henrique Lorca, a exposição conta com suas fotografias mais icônicas e apresenta também a transição entre suas diferentes facetas de atuação. Além disso, retratos de família, a primeira fotografia tirada por Lorca, autorretratos, medalhas, certificados, troféus e até mesmo registros que outros fotógrafos fizeram do artista dão corpo à retrospectiva.
Galerias
Romy Pocztaruk, Bombrasil 3, 2018
Romy Pocztaruk: BOMBRASIL, individual na Zipper, até 15/9
A artista traz simulações, refletindo sobre a posição a partir da qual interage com diferentes lugares e as relações entre os múltiplos campos e disciplinas com a arte. Diversas vezes premiado, o trabalho de Romy está presente em coleções como Pinacoteca do Estado de São Paulo e Museu de Arte do Rio.
Berna Reale, Comida Batizada, 2018
Berna Reale: Gula, individual na Galeria Nara Roesler, em SP, abertura em 25/8
Primeira exposição de Berna Reale na galeria é composta por seis séries fotográficas e uma instalação. Nela, a artista mantém “o mesmo eixo de questionamentos, mudou de direção, tornou-se menos explícita, menos literal, exigindo do espectador a decifração de signos mais sutis”.
Eugenio Dittborn, Nueve Sobrevivientes III (Plumas), 1943
Estratégias Conceituais, coletiva na Bergamin & Gomide, abertura em 25/8
Estratégias Conceituais é um experimento de inserção que reúne mais de 40 artistas e o dobro de obras. A exposição propõe-se ao excesso, que contamina os objetos que hoje tendem a transformar-se em mercadorias de grande circulação. Por meio da apresentação de estratégias de produção e disseminação, por vezes ideologicamente distintas obtém-se o resultado do confronto com o contexto do espaço expositivo de uma galeria de arte comercial no início do século XXI.
Antonio Dias, Labor Berlin, 1989
Antonio Dias: 1980-1989, individual no Auroras, abertura em 25/8
Para o espaço, “a produção de Antonio Dias durante a década de 1980 é marcada por uma compilação de gestos e símbolos e pelo interesse do artista em experimentar com materiais pictóricos orgânicos. Utilizando telas e folhas de jornal como suporte, Dias edifica essas obras entre as experiências construtivas e a arte povera, propondo algo que transborda as demonstrações lógicas, com uma certa espessura e apelo tátil da pintura”.
Artur Lescher, Aniltak, 2018
Artur Lescher, individual na Galeira Nara Roesler, abertura em 25/8
A exposição na Galeria Nara Roesler SP contará com texto de autoria de Juliano Pessanha, autor convidado da Flip 2018 e ganhador do prêmio APCA pelo livro Testemunho Transiente (Cosac Naify, 2015).
Há mais de trinta anos, Lescher apresenta um sólido trabalho como escultor, resultado de uma pesquisa em torno da articulação de matérias, pensamentos e formas. Neste sentido, o artista tem no diálogo singular, ininterrupto e preciso com o espaço arquitetônico e o design, e na escolha dos materiais, que passam pelo metal, pedra, madeira, feltro, sais, latão e cobre, elementos fundamentais para reforçar a potência deste discurso.
Yan Xing, The Aesthetics of Resistance, 2015
Yan Xing: Opfer, individual na Galeria Jaqueline Martins, abertura em 25/8
Duas instalações conceitualmente relacionadas exploram temas como negatividade, destruição, resistência e ordem, assim como suas possíveis ligações. Opfer, que significa ‘’vítima” em alemão, presta homenagem ao último filme do diretor russo Andrei Tarkovsky, “O sacrifício”. Por meio de estratégias intensas, a exposição explora criticamente a fabricação das narrativas na arte, na literatura, no cinema e teorias críticas.
Maria Laet, Dobra, 2015,
Maria Laet: Poro, individual na Galeria Marília Razuk, abertura em 27/8
Suave, silenciosa e pendular. Sem origem ou destino, como um corpo que existe por si só, a obra de Maria Laet reverbera o essencialismo da matéria. De forma quase instintiva, a artista se atém aos detalhes que passam despercebidos por olhares apressados e constrói intervenções poéticas, nas quais reflete o tempo e questiona, sutilmente, limites. Eis a linha que conduz Poro.
Andre Komatsu, ‘Acordo Social’, 2018
Andre Komatsu: Estrela Escura, individual na Galeria Vermelho, abertura em 25/8
O artista traz sua sexta exposição à Galeria Vermelho: Estrela Escura. Há destaque de personagens e qualidades comumente marginalizados no cotidiano. Por meio de novos desenhos, esculturas, pinturas, assemblages e instalações, Komatsu fala de um Brasil e mundo construídos pelo trabalhador e uma cultura de tendências e doutrinas esvaziadas. Além disso, o recolhimento em dispositivos de segurança – de residências com muros à literatura jornalistica que se segue, os desvios éticos que acompanham as tendências histórias, políticas e artísticas formadoras da América Latina são abordados.
Iran do Espírito Santo, ‘UHT 4’, 2018
Iran do Espírito Santo & Fred Sandback, dueto na Carpintaria, no RJ, abertura em 25/8
O dueto, realizado em conjunto com o Fred Sandback Estate e a David Zwirner Gallery, sublinha as afinidades criativas das vastas produções artísticas da dupla, ainda que suas trajetórias estejam separadas por intervalos geracionais e distâncias geográficas.
Feira
20ª edição da feira terá dezenas de expositores. FOTO: Julia Moraes /Divulgação
20ª Feira Tijuana, na Casa do Povo, nos dias 25/8 e 26/8
A Feira Tijuana de Arte Impressa é a primeira feira de publicações e livros de artista organizada no Brasil. Desde 2009, compila apresentação, distribuição e comercialização de publicações, livros de artistas, gravuras, pôsteres, etc.
De lá para cá, a Feira especializou-se em conectar editoras da América Latina e, desde 2016 tornou-se itinerante, tendo edições em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Lima e Buenos Aires.
Nova-iorquino radicado, desde a década de 1970, em Johannesburgo, na África do Sul, Roger Ballen é reconhecido por suas imagens um tanto sombrias, um tanto surrealistas. Recentemente, ganhou uma ala própria no Zeitz Museum of Contemporary African Art, na Cidade do Cabo. Agora, uma exposição do fotógrafo chega ao Brasil e se torna a primeira mostra internacional do Museu de Fotografia, em Fortaleza. Graduado em psicologia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, gosta de rotular seu trabalho como uma investigação do “lado das sombras” nas pessoas.
A abertura da mostra está marcada para dia 8 de setembro e se estenderá até janeiro de 2019. De acordo com a coordenadora do museu, Fernanda Oliveira, dentre as atividades que integram a exposição está uma conversa com o artista. Ela define Ballen como um artista de “identidade muito única” e revela a admiração do conselho administrativo do museu por por ele.
Fotografia ‘Take off’, também de 2012
Criador do estilo “ballenesco”, Roger fez questão de acompanhar todo o processo de concepção, tendo ele mesmo feito as impressões das 55 obras que estarão em exibição: “Ele é extremamente participativo, gosta de acompanhar de perto cada detalhe”, destaca Fernanda. Além da palestra, ele fará uma visita guiada para o público no dia da abertura.
Marcelo Brodsky, RJ, passeata dos cem mil, da série 1968 el fuego de las ideas, 2014-16. Cortesia Galeria Superficie
C
omo bem se sabe, seria um equívoco reduzir o que se conhece por Maio de 1968, que completa agora 50 anos, aos protestos, greves e embates ocorridos na França durante aquele mês. O que teve início com atos estudantis em Paris – na verdade em março, na universidade de Nanterre – se expandiu pelo mundo em um conjunto de eventos espaçados no tempo e com desdobramentos na política, no comportamento e na cultura.
Como simboliza um famoso cartaz da época – “corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês” – Maio de 1968 representou um embate entre gerações, entre visões de mundo conservadoras e progressistas. Influenciou não só movimentos e ativistas das mais variadas correntes de esquerda, mas também intelectuais e artistas de diversos cantos do mundo.
É por conta de tamanha reverberação que o que poderia parecer um assunto bastante específico, os reflexos de Maio de 1968 na fotografia de arte latino-americana, se revelou um vasto universo de investigação para o curador e historiador de arte Rodrigo Orrantia, 41. O colombiano radicado em Londres veio ao Brasil para participar do ciclo de debates Talks da SP-Arte/Foto, em mesa ao lado do célebre fotógrafo brasileiro Evandro Teixeira, e antes conversou com a ARTE!Brasileiros.
Segundo Orrantia, “a história política e cultural dos diferentes países do continente está fortemente interligada e foi influenciada desde o início por fenômenos globais como o verão de 1968”. Citando o reconhecimento internacional de artistas como a brasileira Rosangela Rennó, a chilena Paz Errázuriz e o argentino Marcelo Brodsky, além da realização de mostras como a retrospectiva “América Latina 1960/2013” na Fundação Cartier de Paris, Orrantia diz ver um aumento significativo na difusão da “fotografia histórica” do continente mundo afora. Leia abaixo a entrevista.
ARTE!Brasileiros – De que modo você percebe os impactos dos eventos de 1968 na produção artística latino-americana?
Rodrigo Orrantia – Penso que Maio de 1968 foi um dos primeiros “despertares” de uma geração excepcional. Sua influência é evidente na produção artística, mas também na cultura popular, principalmente na música. Na América Latina foi especialmente importante porque vários países eram governados por ditaduras, governos militares e de extrema direita. E Maio de 1968 se tornou sinônimo de resistência, dando força a uma geração que sofreu anos de censura e repressão, por vezes com tortura, prisões e desaparecimentos.
Mario Fonseca, Habeas Corpus 7b 1981. Cortesia Chantal Fabres Latin American Art e Austin Desmond Fine Art
Mais especificamente no campo da fotografia, que artistas você destacaria quando pensa na produção desta época?
Cada vez que descubro um artista desta geração é um novo mundo que se abre. E é importante mencionar que só agora muitos deles estão tendo o reconhecimento que merecem. Muitos passaram despercebidos ou mesmo pararam de produzir em algum momento. Durante os anos 1960 e 1970, ou mesmo no início dos 1980, a fotografia não era considerada arte como a pintura, o desenho ou a escultura. Então é muito estimulante ver como os artistas adotaram, em um momento tão controverso, a fotografia como meio de criação artística. Existem vários nomes que são muito importantes, como Luis Camnitzer no Uruguai, Felipe Ehrenberg no México, Brodsky na Argentina e muitos outros. Minha preocupação é que artistas desta geração estejam começando a morrer, como aconteceu recentemente com Ehrenberg e Graciela Sacco, e é urgente reconhecer e salvaguardar seus legados.
Estamos falando de artistas de vários países diferentes…
Em cada país o movimento de 1968 foi vivenciado de maneira distinta. E é interessante ver como muitos artistas, escritores, poetas e músicos da América Latina se dirigiram para Paris. Alguns deles exilados de seus países, outros buscando conectar-se com as vanguardas e os novos movimentos artísticos, especialmente a arte conceitual e a performance – com as quais dialogavam a fotografia, o cinema e as primeiras experiências com som e vídeo.
Maio de 1968 se refere a uma grande diversidade de ideologias, movimentos políticos e artísticos que atuaram em diferentes lugares do mundo. Ainda assim, você consegue perceber características comuns na produção dos artistas dos diferentes países?
É muito importante não cair na armadilha das generalizações. Pois 1968 não foi um movimento, como o entendemos na arte, foi mais a união de várias dissidências. Mas, ao mesmo tempo, existem certas características que lhe conferem uma personalidade. Originalmente era um grupo de estudantes, muito jovens, que acreditavam firmemente que poderiam construir um mundo melhor e, especialmente no caso da América Latina, socialmente mais justo.
E de que modo você diria que este contexto de governos autoritários no continente influenciou os trabalhos dos artistas? É possível perceber uma urgência maior em tratar de temas políticos na América Latina?
Penso que sim. E talvez seja isso que torna a produção na América Latina tão importante. Estamos falando de uma geração que arriscou tudo pelo seu trabalho. Os criadores visuais, artistas e fotógrafos tiveram que desenvolver uma linguagem muito sofisticada para passar pelos filtros da censura, para poder falar sobre suas próprias realidades e sobre o mundo por trás da cortina dos regimes. Em certo sentido, acho que a situação não mudou. No ano passado trabalhei com uma artista venezuelana em um projeto com vários fotógrafos do país, sob o regime de Nicolás Maduro. A urgência por questões políticas no contexto americano ainda está em vigor, e espero que a geração de 1968 seja um exemplo e uma influência positiva para os artistas e fotógrafos contemporâneos.
Graciela Sacco, Adelante ll 2015, série Cuerpo a cuerpo
Podemos olhar, naquele período, para produções fotográficas mais documentais ou mais artísticas, por vezes mais preocupadas com a forma ou com o conteúdo. Mas essas fronteiras nem sempre são tão nítidas… Como você percebe essa questão?
Nestas décadas a tradição fotográfica de documentar se encontrou com novas manifestações artísticas, como a performance, por exemplo. Mas também, e isso é fundamental para entender a fotografia na América Latina da época, muitos entenderam que a documentação poderia ser um exercício artístico e também político. Um bom exemplo é o trabalho de Paz Errázuriz no Chile, documentando as realidades escondidas ou perseguidas pela ditadura. O meio fotográfico abrange um amplo espectro de imagens, desde práticas muito preocupadas com o conteúdo até experimentos com as possibilidades expressivas do meio, onde a forma e especialmente o comportamento da luz foram muito importantes. Para mim o interessante é ver que nas décadas de 1960 e 1970 obras feitas com fotografia começaram a aparecer e ganhar prêmios em Salões Nacionais, de mãos dadas com a revolução gráfica da arte Pop. Os artistas libertaram o meio fotográfico, retiraram-no do quarto escuro e o levaram para as oficinas gráficas. Penso que isso permitiu novos diálogos entre conteúdo e forma. Foi o começo de um uma etapa de experimentação fabulosa. Isso se vê, por exemplo, nas primeiras instalações de Miguel Angel Rojas, na Colômbia, e nas obras de Graciela Sacco, na Argentina. Uma verdadeira libertação para a fotografia.
E olhando agora, décadas depois, como você vê a relevância destes trabalhos produzidos naquela época?
Para mim, estas obras só ganharam mais força ao longo do tempo. É somente agora, 50 anos depois, que podemos entendê-las em contexto. Você precisa dessa distância no tempo para vê-las mais claramente. É por isso que sinto essa necessidade urgente de registrar conversas com os artistas daquela geração que ainda estão vivos, para garantir seus legados e aprender com suas experiências.
Você disse certa vez que quando olha para fotografias históricas pensa em como aquelas pessoas registradas no passado olhariam para nós, para o mundo de hoje. Isso acontece no caso destas imagens latino-americanas?
Sim, penso muito sobre isso. Não apenas com a América Latina hoje, mas também a que verá essas imagens em 50 ou 100 anos, quando nós não estivermos mais aqui. As realidades ainda estão muito próximas, às vezes para o nosso pesar. Quando vejo muitas dessas imagens, sinto uma grande responsabilidade. Com os artistas, por um lado, mas acima de tudo com as histórias e as pessoas nessas fotografias. A responsabilidade de não permitir que caiam no esquecimento. Estas são as imagens que nos permitem e permitirão que as gerações futuras vejam em primeira mão a realidade de um continente. Elas são o começo de uma nova história ou da possibilidade de reescrever a história existente. E esse sempre foi o papel da arte.