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Pedro Moraleida, a beleza da dor

Sentindo Um Cansanço Mortal Por Representar o Humano, Sem Fazer Parte do Humano, Serie Germânica de Faça Você Mesmo Sua Capela Sistina
Obra presente na mostra no Instituto Tomie Ohtake. FOTO: Divulgação

Pedro Moraleida, “menino” que se suicidou pouco após completar 22 anos, em 1999, teve sua obra artística, de uma força excepcional, silenciada por anos.

Após sua morte, seus pais, Luiz Bernardes e Nilcéa Moraleida, convidaram o professor Gastão Frota e colegas como Cinthia Marcelle, Sara Ramo e Emilio Maciel para olhar para o conjunto da obra produzida pelo artista em tão curto tempo. Desde então, pesquisadores e curadores como Rodrigo Moura e Veronica Stigger se debruçaram também sobre suas mais de 450 pinturas e quase 1450 desenhos.

Nas palavras de Paulo Miyada, curador da mostra no Instituto Tomie Ohtake, Moraleida “decidiu que a arte precisava ser sempre um grito, uma pústula, uma canção do sangue fervente. Alimentar-se de nossos desejos e traumas inconfessáveis, ao invés de polir a superfície cromada dos ambientes sofisticados”.

Aparentemente o percurso de Moraleida na arte esteve influenciado pela sua enorme curiosidade em filósofos que, nos anos 90, serviram de base para o pensamento contemporâneo. Bataille, Artaud, Deleuze, Derrida e Lacan estão, de uma ou outra forma, presentes em suas obras, que trazem a escatologia, a sexualidade e o corpo e utilizam-se delas sempre como uma afronta.

A intensidade e a violência da pintura de Moraleida perturba, necessariamente, porque na sua beleza radica uma profunda dor. Um ser que implode tudo o tempo todo, inconformado, que não consegue ter prazer. Corpos dilacerados, mãos amputadas. As mesmas mãos capazes de produzir essa obra. “O traço decidido de seus desenhos e a potência cromática de suas pinturas são alguns dos ingredientes que multiplicam a dureza de suas palavras”, diz Miyada.

Isto tudo pode ter lhe custado a vida. Afinal, romper com cânones morais e também estéticos sempre tem um preço.

Pedro Moraleida – Canção do Sangue Fervente 

Até 17 de fevereiro

Instituto Tomie Ohtake –  Av. Brigadeiro Faria Lima, 201

 

 

 

 

Individual na galeria Luciana Brito apresenta diferentes facetas de Fernando Zarif

Fernando Zarif
Obra de Fernando Zarif presente na mostra. FOTO: Divulgação
Fernando Zarif
Obras de Fernando Zarif presentes na exposição. FOTO: Divulgação

Artista dono de uma extensa e diversificada produção interdisciplinar – que transitou pela pintura, escultura, colagem, performance, literatura, música e teatro –, Fernando Zarif (1960-2010) ganha exposição individual na Luciana Brito Galeria com cerca de 50 obras pouco ou nunca antes exibidas.

A mostra, que fica em cartaz até 9 de março, apresenta três séries de obras bastante distintas entre si: pinturas maiores em tinta acrílica; esculturas verticais de metal; e um conjunto de colagens sobre tela em pequeno formato, num universo “duchampiano” onde surgem objetos como chaves, cadeados, fósforos e tesouras.

Morto precocemente aos 50 anos de idade, em 2010, Zarif fez sua primeira exposição em 1982, pouco tempo após abandonar o curso de arquitetura. O artista, que transitava com naturalidade entre a cultura erudita e o “underground”, tem sido retomado nos últimos anos em mostras, debates e pesquisas, num trabalho intenso realizado por parentes e amigos.

Em 2011, um ano após sua morte, a família do artista criou o Projeto Fernando Zarif, destinado a catalogar, preservar e difundir a vasta obra deixada. Localizado em São Paulo, o projeto abriga a biblioteca pessoal do artista, além de documentos, fotografias e escritos. Até o momento, já foram catalogadas e restauradas cerca de 2 mil obras.

Fernando Zarif

De 2/2 a 9/3

Luciana Brito Galeria – av. Nove de Julho, 5.162, São Paulo

Entrada gratuita

 

Anita Malfatti e o salão do Palacete do Conde Lara

O prédio hoje está numerado como 336 da rua Libero Badaró. O térreo, que sedia o restaurante Pirandello, é o número 332.

Na edição do último domingo, 27 de janeiro, o jornal O Estado de São Paulo publicou matéria na qual o pesquisador Edgar Santo Moretti teria descoberto o local exato onde teria sido realizada uma das primeiras – e mais importantes – exposições de Anita Malfatti, em dezembro de 1917.

O espaço que hoje se refere ao prédio no número 336, com térreo 332, na rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, àquela época era o número 111. Em 20 de maio de 1916, um engenheiro chamado Gustavo Lara Campos recebeu alvará da prefeitura pra construir um prédio ali. O seu contratante era Antonio de Toledo Lara, o conde Lara (1864-1935).

Antes de ser erguido um prédio, o local foi sede de uma loja de cerâmicas e também uma fábrica de coroa de flores para finados. Após o soerguimento do edifício, o Conde Lara começou a ceder o espaço do térreo para que fossem realizadas exposições de arte, especialmente as que ousassem. O local ficou conhecido como Salão da Líbero Badaró 111 ou como Salão do Palacete Lara.

Também existem referências históricas que nomeiam como Palacete Lara o número 185 da rua Álvares Penteado e também o prédio que hoje é conhecido como Palacete Tereza de Toledo Lara – nome da filha do conde – e hoje é sede da Casa de Francisca. O local é conhecido como ‘A Esquina Musical de São Paulo’  por já ter sido sede da Rádio Record e de várias lojas de instrumentos ao longo do século passado. Isso indica que todos os imóveis que pertenciam ao empresário, fundador da fábrica de bebidas Antarctica, recebiam o título de ‘Palacete Lara’.

Além de ter abrigado a exposição de Anita que serve como marco do movimento modernista, o salão anteriormente já havia recebido exposições de Alfredo Norfini e do argentino S.M. Franciscovich, dentre outros. Essa exposição de Malfatti, inaugurada em 12 de dezembro de 1917 e intitulada Exposição de Pintura Moderna, não foi a primeira mostra da artista, como muitos creem, mas foi fundamental pela substancialidade do modernismo em suas telas, que causou debates calorosos no meio cultural da época, culminando na Semana de Arte Moderna de 1922.

 

 

Frieze Art Fair realiza primeira edição em Los Angeles

Obra da artista Lisa Anne Auerbach, que terá projeto solo na feira. FOTO: Divulgação

Com o intuito de inserir definitivamente Los Angeles no circuito das grandes feiras de arte internacionais, a Frieze Art Fair realiza este ano sua primeira edição na metrópole californiana, reunindo 70 galerias em Hollywood entre os dias 15 e 17 de fevereiro.

Apesar de ser a segunda maior cidade americana – a maior da costa oeste – e de abrigar importantes museus, galerias e instituições culturais, Los Angeles ainda não hospedava uma feira de arte deste porte.

O evento se soma às já estabelecidas edições da Frieze em Londres e Nova York e, apesar de apresentar um número menor de galerias em relação à suas parceiras, traz casas de peso como David Zwirner, Gagosian e White Cube. Mendes Wood e Vermelho serão as duas galerias brasileiras presentes na edição.

A Frieze Los Angeles acontece nos estúdios da Paramount Pictures e conta também com uma intensa programação de conversas com artistas, debates e shows. Uma das táticas dos organizadores para atrair público e dar visibilidade ao evento foi inseri-lo no calendário da cidade entre a realização do Grammy, no dia 10, e do Oscar, no dia 24.

Campos de Invisibilidade – SESC Belenzinho

No dia 08 de novembro, o Sesc Belenzinho abriu as portas da exposição “Campos de Invisibilidade.” A curadoria é de Cláudio Bueno, Ligia Nobre e assistência curatorial de Ruy Cézar Campos, que também apresenta duas obras.

Por meio da organização de 23 produções de 18 artistas brasileiros e estrangeiros, propõe-se a imersão e reflexão sobre o que há efetivamente por trás das várias conquistas tecnológicas presentes no dia a dia do sujeito contemporâneo. Ou seja, quais os processos industriais e impactos geopolíticos por eles gerados. Fotografias, vídeos, áudios, mapas e instalações questionam o mito da imaterialidade implantado pelas tecnologias e denunciam os altíssimos custos para o meio ambiente.

Campos de Invisibilidade concentra trabalhos que carregam diferentes bagagens dos artistas brasileiros, ingleses, britânicos, colombianos, canadenses, franceses, africanos e franco-guianenses, com a reflexão comum.

Confira texto completo sobre a exposição, por Nayani Real, clicando aqui.

Na FAMA, Regina Parra explora a dinâmica dos corpos

Ainda pequena, Regina Parra colocou na cabeça que queria muito ser artista. O pai trabalhava com tecnologia e a mãe era dona de casa, ambos relutaram, mas nada faria com que aquela jovem mudasse de ideia. Com 11 anos, começou a ter aulas de pintura e se dedicar ao ofício que queria ter para o resto da vida. Mais tarde, começou a cursas Artes Visuais, porém deixou o curso para se dedicar às artes cênicas, onde ficou por três anos nos cursos ministrados por Antunes Filho no Centro de Pesquisas Teatrais (CPT).

A trajetória de Parra com as artes do corpo fica bem evidente na sua história, tendo em vista que logo após o CPT, voltou a estudar artes visuais, começando pela École Nationale Supérieure des Beaux Arts de Paris e depois se graduando bacharel na Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo.

Desde sua formação, Regina mantém uma frequência rotineira em exposições coletivas e individuais. Só em 2019, ela participou de sete coletivas e duas individuais. Uma dessas mostras solo é intitulada Eu me levanto, apresentada na Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA), em Itu. Fruto de um edital de ocupação lançado pela instituição, está em cartaz desde 17 de dezembro e será mantida até 9 de março.

O título da exposição vem de um poema da estadunidense Maya Angelou, que também deu origem ao nome da mostra que Sônia Gomes apresenta no MASP e na Casa de Vidro. A coincidência acontece em um momento que os escritos de Angelou, falecida em 2014, começa a ter forte presença nas discussões interseccionais de gênero no Brasil.

Assista o vídeo da performance Lasciva, realizada na abertura da mostra em dezembro.

MASP recebe obras de 19 artistas afro

DALTON PAULA, Zeferina, 2018 Óleo sobre tela, 45×61 cm/ Coleção do artista, Goiânia, Brasil/ Crédito: Paulo Rezende
Em 2018, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) dedicou todo o seu programa às histórias afro-atlânticas. A estratégia, que é desenvolver um eixo temático anual com histórias que desafiem narrativas históricas tradicionais, colocou-se em prática.

Masp recebe obras com foco contra-hegemônico

Foram 21 obras de 19 artistas afro doadas ao museu. Abdias Nascimento, Chico Tabibuia, Dalton Paula, Emanoel Araujo, Flávio Cerqueira, Jaime Lauriano, José Alves de Olinda, Lucia Laguna, Maxwell Alexandre, Mestre Didi, Rosana Paulino, Rosina Becker do Vale, Rubem Valentim, Sènéque Obin, Sonia Gomes, e os coletivos Ad Júnior, Edu Carvalho & Spartakus Santiago e Frente 3 de Fevereiro integram as novidades do acervo.
O conjunto de trabalhos reforça a presença de artistas afro no MASP e marca o ciclo de 2018 na coleção de um museu até então muito conhecido por seu acervo clássico europeu. A partir de abril de 2019 muitas dessas obras estarão expostas no Acervo em transformação. mostra de longa duração guarda a coleção do MASP nos icônicos cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi.
O diretor artístico do museu, Adriano Pedrosa, disse que a programação dedicada às histórias afro-atlânticas iniciou-se com as pesquisas desde 2014. “Essas aquisições deixam uma marca definitiva na coleção, conhecida por seus mestres europeus clássicos.” Seguindo a missão do museu, Pedrosa afirma que os mesmos esforços feitos em relação às obras de artistas afro serão dedicados às artistas mulheres. “Vamos continuar ampliando o escopo de trabalhos que trazemos para nossa coleção e expomos nos cavaletes de vidro”, finaliza.
Todos os trabalhos doados foram exibidos nas monográficas dedicadas aos artistas Araujo, Gomes, Valentim e Laguna, ou na exposição coletiva Histórias Afro-atlânticas. Em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, a última delas dedicou-se às relações entre a África, as Américas, o Caribe e também a Europa, do século 16 ao 21, eleita a melhor de 2018 pelo New York Times e Hyperallergic, e ganhadora do Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

As raízes de Sônia Gomes

sônia gomes, Correnteza, da série Raiz, 2018. Foto"Patricia Rousseaux
Sônia Gomes, Correnteza, da série Raiz, 2018. Foto”Patricia Rousseaux

Um dia, enquanto finalizava uma obra para a exposição vigente, Sônia Gomes percebeu que o corte feito na madeira que utilizava não deixava que a peça ficasse em pé. Ela levantou de onde estava sentada para observar melhor e pensou: “Ainda assim me levanto”. Não soube explicar de onde veio aquele sussurro em sua cabeça, mas não conseguiu parar de pensar nisso.

A artista, aliás, que seria um ótimo nome para aquela obra e, no fim, para a exposição, que está em cartaz no MASP e na Casa de Vidro, ambas as construções planejadas por Lina Bo Bardi, até março de 2019. A obra em questão se chamou, então Eu me levanto.

Em uma breve pesquisa na internet, depois descobriu que a frase era, na verdade, um verso de um poema da autora e ativista americana Maya Angelou. Teria algo de ancestralidade comum nessa reminiscência? Sônia acredita que sim, talvez. Esse acaso a encontra da mesma forma que quando ela se descobriu artista: “Não teve um momento que eu falei ‘agora eu vou ser artista’, não. Isso chegou para mim”, comenta.

A exposição Ainda assim me levanto é a primeira que faz parte de uma parceria entre as duas instituições. O projeto consiste em sediar uma mostra simultaneamente nos dois locais, uma vez por ano. É também a primeira curadoria, no MASP, de Amanda Carneiro, que atua como supervisora da Medição e programas públicos.

Ainda assim me levanto traz uma nova fase de Sônia Gomes, usando, desta vez, pedaços de troncos encontrados na beirada ou no fundo de rios do interior de Minas Gerais, seu estado de origem. Neles, Sônia faz seu trabalho com tecidos, manuseando-os das mais variadas maneiras, fluindo com seu trabalho habitual em um outro rumo.

A artista não se considera uma artista militante, mas não abdica de si como um corpo político, apesar de não levar isso ao seu trabalho de forma eminente. Já foi chamada de artista naïf, artista popular e também de artesã. Ela dispensa os rótulos: “Isso acontece porque eu sou negra, se eu fosse branca eles não estariam preocupados em me colocar nesse lugar”.

Ai Weiwei mergulha no Brasil

Ai Weiwei, The low of the journey (A lei da viagem). A obra que remete a travessia de refugiados ao redor do mundo, já foi exposta nos maiores museus. No Brasil entra na água, pela primeira vez, no Parque do Ibirapuera em São Paulo. Atualmente pode ser apreciada na Oca
Ai Weiwei, The low of the journey (A lei da viagem).
A obra que remete a travessia de refugiados ao redor do mundo, já foi exposta nos maiores museus. No Brasil entra na água, pela primeira vez, no Parque do Ibirapuera em São Paulo. Atualmente pode ser apreciada na Oca – Foto: Patricia Rousseaux

O acaso fez com que, exatamente num momento em que resistência parece ser a palavra chave para boa parte da população brasileira, esteja em cartaz em São Paulo uma ampla mostra de Ai Weiwei. A exposição do artista e dissidente chinês, que há décadas desafia o discurso hegemônico com ações e obras ao mesmo tempo ousadas e irreverentes, ocupa todo o espaço da Oca, no Parque do Ibirapuera. E retraça com bastante detalhe sua trajetória, incluindo alguns de seus trabalhos mais notáveis, bem como uma série de intervenções concebidas especificamente a partir do encontro de Weiwei com a paisagem e a cultura brasileira. Além de ser uma oportunidade rara de conhecer mais de perto sua força iconoclasta, a reunião desses trabalhos ajuda a entender as estratégias e poéticas que ele vem adotando nas últimas décadas, que conciliam questões universais como a liberdade de expressão e a perseguição aos refugiados, a um universo mais íntimo e pessoal.

É como se, calejado pelo regime de exclusão imposto a sua família ainda em sua primeira infância e por anos de resistência ao regime totalitário chinês – seu pai, o poeta Ai Qing, foi denunciado como inimigo do regime e exilado por 16 anos –, Weiwei tivesse se tornado psicologicamente impermeável à censura social. Indo mais além, nota-se em sua atitude uma estratégia de confronto às instituições e tradições impostas pela força e um desprezo provocador pelo status-quo. “A época em que me preocupava com o que as pessoas pensavam de mim ficou para trás há muito tempo”, disse ele em entrevista ao El País. Talvez por isso use com tanta falta de cerimônia sua própria imagem nos seus trabalhos.

Ai Weiwei trabalhou durante um ano pesquisando diferentes lugares no Brasil. Foto: Ai Weiwei Studio

Desde sua primeira ação mais desafiadora – a quebra de um vaso da dinastia Han com mais de dois mil anos de idade – ele coloca-se provocativamente em suas obras. Sua imagem reaparece constantemente, nas milhares de selfies que faz por onde passa (muitas delas mostrando o dedo do meio para símbolos de poder, como a Casa Branca) e que posta em sua concorrida conta no twitter. Ou em obras polêmicas como a que fez mimetizando a pose do menino sírio Aylan, encontrado morto nas areias de uma praia de Lesbos. Sua ação contundente em defesa dos refugiados, que gerou uma profusão de ações como o filme “Human Flow”, parece ter incomodado parte do circuito das artes, seja por seu uso excessivo da mídia, seja porque se sentiam mais confortáveis quando o alvo preferencial de Weiwei era o imperialismo chinês.

Em sua temporada brasileira, Weiwei deu ampla vazão a esse uso – para alguns despudorado, para outros desafiante – de sua imagem. Nos mais de 200 ex-votos que encomendou para artesãos cearenses (trocando provisoriamente o uso recorrente que faz da cerâmica e carpintaria chinesa pelo entalhe de madeira típico do nordeste brasileiro) há uma série de “retratos” seus realizando suas performances. E chegou ao ápice de transformar a si mesmo no símbolo de suas causas ao associar seu próprio corpo a um símbolo da natureza potente da Amazônia brasileira.

A obra “Raiz”

Um cativante vídeo entrelaça o “making of” de dois trabalhos distintos: a penosa modelagem do próprio corpo nu do artista para criar uma escultura em gesso – apresentada ao lado do corpo escultural de uma baiana, num questionável tributo à erotização tropical – e o esforço descomunal de modelar – para posteriormente reconstituir na China – um gigantesco pequi-vinagreiro, espécie em extinção, com mais de 30 metros de altura, encontrado em plena selva amazônica. A conclusão é evidente: “Essa árvore sou eu”, evidencia ele ao final.

Confesso admirador de Marcel Duchamp e Andy Warhol, cujas obras estudou em profundidade em seus anos de formação em Nova York (entre 1981 e 1993), Weiwei parece virar esses autores de cabeça para baixo quando associa a alta tecnologia, a fotografia e o vídeo, para dar um caráter simbólico a uma única árvore. Ou quando convoca 1,6 mil artesãos de uma região chinesa famosa por seu trabalho em cerâmica para realizar de forma massiva milhões de sementes de girassol. Tais pecinhas, reproduzidas de forma grandiosa e ao mesmo tempo individualizada (são pintadas à mão, uma a uma), condensam uma pluralidade de leituras: são claras representações do povo chinês, numa referência à alegoria de que Mao seria o sol e os girassóis seus seguidores, e ao mesmo tempo uma crítica ao ocidente, em sua visão do “made in China” como algo pobre e massificado. Uma versão deste trabalho, criado para a Tate Gallery, de Londres, ocupa o terceiro andar da Oca. Infelizmente a instalação é mantida a certa distância do público, que não tem contato direto ou proximidade com as sementes.

Ai Weiwei, Forever Bicycles. A obra foi montada pela primeira vez em 2014 e contém aproximadamente 1.250 bicicletas, Especialmente transportadas para o Brasil

Outro importante trabalho de sua trajetória presente na mostra é “Reto”, uma instalação feita com 164 toneladas de vergalhões de aço retirados dos escombros de mais de sete mil escolas da região de Sichuan, construídas precariamente por desvios e superfaturamentos e que vieram abaixo com o terremoto de 2008, acarretando a morte de milhares de estudantes da região. Inconformado com o esforço do governo de acobertar o incidente, o artista lançou uma campanha para levantar a identidade dos meninos mortos e realizou uma série de ações para jogar luz sobre a conduta criminosa das autoridades.

Talvez o aspecto mais interessante da produção de Weiwei seja sua capacidade de imantar as coisas de significado, de buscar na aparência ou na essência dos objetos e gestos uma potência de síntese que leve à reflexão e ao desejo de mudança. As palavras têm também grande peso na exposição, seja por meio das frases que reescreve sobre couro de boi usando o alfabeto armorial de Ariano Suassuna, seja por meio de frases de resistência espalhadas por todo o espaço expositivo, como aquela situada sobre a instalação “Reto”: “Se você desviar o olhar, você é conivente”.

Não por acaso, o artista se incomoda em ser enquadrado no campo de artista plástico. Diz não costumar ir às aberturas de suas exposições (muitas vezes, há que se reconhecer, por estar detido, como no caso da Bienal de Veneza de 2013, quando teve que ser representado pela mãe). E que levou muito tempo para se considerar um poeta, como o pai, até reconhecer que esta é a “única posição possível ao indivíduo no nosso mundo”.

 

A arte fala mais alto

Carlos Zílio, Identidade ignorada

Por Nayani Real

Carlos Zílio nasceu em 1944, no Rio de Janeiro. Psicólogo formado pela UFRJ, tornou-se doutor em Artes pela Universidade de Paris VIII, durante seu exílio na década de 1980. Antes disso, entre 1960 e 1970, participou ativamente da oposição ao regime militar ditatorial instalado no Brasil, por meio de uma arte engajada e militância política.

Em sua obra Identidade ignorada, 1974, Zílio aborda os desaparecimentos durante a ditadura militar no Brasil. A imagem porém faz-se atual e pertinente num momento em que a diversidade e as lutas identitárias são combatidas e censuradas pelo Estado e grupos sociais conservadores.

Nos últimos 20 anos, uma cultura de reconhecimento, valorização do outro, inclusão e respeito à individualidade  e a diversidade de grupos sociais, fez enormes avanços no Brasil e no mundo. As questões de gênero e posicionamentos políticos diferentes encontravam espaço na sociedade democrática. Hoje, a (re)ascensão de pensamentos conversadores e de extrema direita questionam comportamentos contemporâneos, utilizando-se de discursos autoritários e reducionistas.

 

Marcados | Claudia Andujar

Por Marcos Grinspum Ferraz

Para os médicos que acompanhavam Claudia Andujar nos territórios Yanomami, no início dos anos 1980, as fotos deveriam ser simples registros dos habitantes daquela região amazônica. Como os índios Yanomami não possuíam nomes próprios, os números nas placas penduradas em seus pescoços serviriam como identificação para que os profissionais pudessem fazer o trabalho de saúde pública necessário. Dado o contato crescente com o homem branco, a vacinação se tornava urgente para que epidemias não dizimassem os Yanomami. Para os médicos, “deveria ser um clique e acabou”, como contou Andujar anos depois. “Mas para mim não poderia ser assim.” De fato, a série Marcados é muito mais do que um trabalho de identificação. Os gestos, expressões e olhares dos Yanomami, captados pela câmera de Andujar, revelam o trabalho não apenas ético, mas estético da artista, com sua capacidade de apresentar mundos objetivos e subjetivos, de captar sutilezas e violências, esperanças e tragédias, corpos e almas. Não à toa as fotos integraram tantas exposições ao longo das décadas, incluindo a Bienal de São Paulo, tornaram-se parte do acervo do pavilhão da fotógrafa em Inhotim e viraram livro. Marcados – para viver ou morrer? – revela um mundo índio que, sempre ameaçado, parece correr risco ainda maior quando um presidente eleito diz ser contra demarcações de terra e promete acabar com o “coitadismo” das minorias. Contra tamanha violência e ignorância, vale lembrar das palavras do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: “Temos que aprender a ser índios, antes que seja tarde. Aprender como viver em um país sem destruí-lo, como viver em um mundo sem arrasá-lo e como ser feliz sem precisar de cartão de crédito. O encontro com o mundo índio nos leva para o futuro, não para o passado”. Em imagens, Claudia Andujar parece nos fazer esta mesma afirmação.

Projeto Brasil nunca mais | D. Paulo Evaristo Arns

Por Fabio Cypriano

Durante os anos 1970, cerca de 50 pessoas nas semanas mais movimentas procuravam o então cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, em busca de parentes desaparecidos. “O senhor tem alguma notícia do paradeiro de meu filho”, era uma frase que o cardeal ouvia de forma recorrente.

Por iniciativa dele, inspirado nas centenas de testemunhos colhidos na sede da Arquidiocese de São Paulo, em Higienópolis, mas em uma rede que integrou lideranças de outras religiões, jornalistas e advogados, foi criado o Projeto Brasil Nunca Mais, em agosto de 1979. Até março de 1985, em sigilo, um grupo trabalhou em 850 mil páginas de processos do Superior Tribunal Militar para a publicação de um relatório e um livro, que revelaram a gravidade das violações aos direitos humanos promovidas pela repressão política durante a ditadura militar. Lançado em 1985, o livro permaneceu na lista dos dez mais vendidos por 91 semanas consecutivas, tornando-se – à época – o livro de não-ficção brasileiro mais vendido de todos os tempos. Hoje em dia, o Projeto possui uma versão digital disponível em http://bnmdigital.mpf.mp.br/pt-br/.

 

Missão/Missões – Como Construir Uma Catedral | Cildo Meireles

Por Leonor Amarante

Uma de minhas obras políticas preferidas é a instalação Missão/Missões – Como Construir uma Catedral, realizada por Cildo Meirelles em 1987. A obra reforça a ideia de que o artista tem o compromisso moral de denunciar as atrocidades político-sociais em qualquer país, em qualquer época. Nesta instalação, Cildo aponta as práticas genocidas da igreja católica em suas Missões Jesuítas iniciadas em 1610 no Brasil, Paraguai e  Argentina. Na tentativa de evangelização dos índios da região, combinou-se força e violência, o que exterminou parte deles. Na instalação, o elo entre as duas estruturas, uma feita de ossos e outra de moedas, é construído com hóstias que ligam o chão de ouro ao céu macabro, em franca denúncia sobre as relações de poder da Igreja. A controvertida obra hoje faz parte do acervo da Daros-Latinamerica, em Zurique, na Suíça.

 

Operação Tutoia | Fernando Piola

Por Maria Hirszman

“Operação Tutoia”, trabalho realizado em 2007 e 2008 por Fernando Piola, desafia de forma contundente a estratégia de silenciamento em torno dos aparelhos de repressão e explicita, por meio de um lento processo de subversão das aparências, o caráter violento de instituições simbólicas da ditadura, como o Doi-Codi. Durante meses, o artista trabalhou no número 921 da Rua Tutoia, em São Paulo, apresentando-se como paisagista. E, semana a semana, substituiu as plantas do jardim por diferentes espécies de coloração vermelha, transformando o entorno da antiga sede do centro responsável pela detenção e tortura de milhares de pessoas e assassinato de 50 opositores ao regime em palco de uma ação ousada de intervenção urbana, denúncia política e investigação poética.

A ação subverteu o espaço das forças de poder e tornou visível o que  se pretendeu varrer da história e da memória. Os registros fotográficos (forma definitiva de um trabalho êfemero por natureza) hoje pertencem à coleção do Museu de Arte Contemporânea (MAC). E mostram como o tingimento da paisagem de vermelho, uma cor tão cheia de simbologias, foi pouco a pouco tornando concreta, pulsante e real a necessária tomada de consciência, não apenas em relação às brutalidade cometidas naquele local (que ainda hoje, surpreendentemente, abriga o 36º Distrito Policial da cidade), mas ao descaso em relação a um período negro de nossa história.

 

Assentamento | Rosana Paulino

Por Jamyle Rkain

O que acho mais belo na obra Assentamento, de Rosana Paulino, é como ela vai além de uma questão mais ampla de como os negros escravizados precisaram se reconstruir para caber em um local desconhecido ao qual foram levados. Gosto especialmente de olhá-la a partir de uma perspectiva que pensa especificamente sobre a mulher negra na sociedade.  A fotografia da mulher desconhecida registrada pela expedição Thayer, entre 1865 e 1866, refere-se a uma escrava. Rosana intervém na fotografia de sua forma, seccionando-a e sobrepondo nela a ideia da costura, enquanto o coração sangra. Isso me leva às discussões que os movimentos negros trazem também, de forma mais contemporânea, sobre a solidão da mulher negra. Esse assunto, muito discutido pelos feminismos negros, cuida de refletir sobre como a mulher negra heterossexual é facilmente abandonada pelos homens em um relacionamento amoroso, independente de brancos ou negros, por serem colocadas pela sociedade em uma posição diminuta. Talvez essa costura também possa ser o juntar dos cacos em uma situação dessas. Vejo essa discussão como algo essencial, embora seja preterida. Pontuo isso porque acredito que mesmo a obra trazendo uma perspectiva mais histórica, ela também mostra olhares do contemporâneo sobre assuntos das militâncias negras que são urgentes.