Após cerca de quatro meses de isolamento social observando a movimentação nas redes sociais, o curador carioca Raphael Fonseca, 33, deu início a um projeto de fôlego. Estreou, no mês de julho de 2020, a série intitulada “1 curadorx, 1 hora”, com entrevistas gravadas com curadores e curadoras de variadas idades, regiões e áreas de interesse. Ao invés de transmitir ao vivo, Fonseca preparava as entrevistas, realizava a gravação, fazia pequenas edições se achasse necessário e postava o vídeo em seu canal no Youtube – e o áudio em formato de podcast nas plataformas. Oito meses depois, é assim que ele segue fazendo.

O resultado é o impressionante número de quase 120 conversas realizadas, cerca de 70 delas já disponibilizadas e, deste modo, a formação de um vasto arquivo público sobre curadoria de arte. A grandiosidade do projeto, feito sem apoio público ou privado, não estava em mente no início do processo e o que surgiu de modo despretensioso, em parte até para apaziguar certa solidão gerada pela quarentena, agora chega a fazer parte da bibliografia de cursos universitários. Ainda assim, mesmo com conversas densas, “1 curadorx, 1 hora” não deixa de ter um clima de informalidade e uma linguagem coloquial que tornam o conteúdo acessível também ao público não especializado.

Nos diálogos, que perpassam os processos formativos, trajetórias, memórias, experiências profissionais e ideias sobre curadoria, Fonseca parece cumprir mais um papel de repórter, entrevistador, do que de um curador que está ali para debater. “Mas de certa forma isso já tem a ver com o meu trabalho de curador. Para mim o exercício de curadoria é um exercício de pesquisa e de escuta dos artistas. Claro que você também fala, intervém, mas eu principalmente estou ali para aprender sobre arte e sobre as pessoas”, afirma. É de se destacar também a atenção dada a questões bastante pessoais das trajetórias dos entrevistados: “Me interessa muito que a pessoa conte como começou sua relação com a arte. Temos ali desde filhos de artistas ou críticos de arte até pessoas com uma trajetória como a minha, de famílias extremamente periféricas, sem nenhuma relação com a arte. Então esse dado sociológico é muito importante para o projeto”.

O papel de curador é nítido também quando Fonseca precisa selecionar os convidados – desta vez não artistas para uma exposição ou projeto, mas curadores para as conversas. E os nomes são os mais variados possíveis, passando por jovens como Tiago Sant’Ana, Pollyana Quintella, Bernardo Mosqueira, Isabella Rjeille, Hélio Menezes e Paulete Lindacelva até figuras estabelecidas há décadas como Tadeu Chiarelli, Denise Mattar, Fernando Bini, Fernando Cocchiarale, Marília Panitz, Solange Frakas e Marcus Lontra. Estão ali também Marcello Dantas, Ayrson Heraclito, Júlia Rebouças, Kiki Mazzucchelli, Fernanda Pitta, Clarissa Diniz, Naine Terena e muitos outros.

Apesar da diversidade – ou até mesmo para alcançá-la – Fonseca diz ter estabelecido alguns critérios básicos para a seleção. Em primeiro lugar, trazer pessoas que, mesmo que jovens, tenham uma prática regular de curadoria, uma bagagem na área. “Percebo que muitos curadores que atuam há muito tempo não são tão conhecidos para uma geração mais nova. E tem gente que começa a fazer curadoria e se coloca como se estivesse inventando uma coisa totalmente nova. E quando você escuta os relatos dos mais velhos você vê que muito já estava lá, já foi feito”, comenta Fonseca. Para ele, portanto, era importante aprender com as trajetórias destes profissionais e “lançar luz a curadores que atualmente não estão, digamos assim, tão no holofote como pessoas da minha geração”.

Neste sentido, Fonseca comenta que se tornou mais comum, recentemente, “ver uma pessoa que fez curadoria de uma exposição na vida e se proclama curadora”. E ele segue: “Não vejo problema, mas não sei se renderia para essas conversas do projeto.” Na verdade, Fonseca inclusive constata que parece haver uma mudança importante para esta categoria profissional na contemporaneidade: “Acho bacana que as pessoas queiram ser e se dizer curadores. Até porque usualmente é uma profissão que tem um lastro tão elitista que eu acho muito bom uma geração nova, periférica, ver que ser curador é uma possibilidade. Isso é muito empoderador. Mas se a médio e longo prazo elas efetivamente desempenharão esse papel e conseguirão ganhar a vida assim, aí eu já não sei”.

A dificuldade de ser curador no Brasil, justamente, é um dos assuntos recorrentes em boa parte das entrevistas. Fonseca lamenta a falta de um mercado estável para a área, seja no setor público ou privado, diferente do que se vê nos Estados Unidos e em outros países do primeiro mundo. “Existe uma precarização tremenda do equipamento público, e mesmo internamente há uma enorme assimetria geográfica na economia da cultura, com muitas instituições concentradas no sudeste”. Este contexto, explica ele, resulta em algumas características predominantes na trajetória dos profissionais, entre elas o fato de boa parte dos curadores ter também alguma outra profissão. Resulta também que a maioria trabalha basicamente com arte contemporânea e  brasileira – “quem no Brasil paga para que a gente vá fazer uma viagem de pesquisa curatorial no exterior? E como financiar a vinda de um artista de fora para fazer uma exposição aqui?”.

Por fim, com “1 curadorx, 1 hora”, Fonseca também tenta desmistificar a ideia do curador como uma figura poderosa, por vezes autoritária. “Talvez por existir pelo mundo um tanto de pessoas que exercem a curadoria desta maneira, acaba surgindo essa apreensão. Mas, para mim, o curador é só mais um trabalhador da cultura. Especialmente no Brasil, a figura do curador poderoso é quase uma ficção. O que mais tem são profissionais batalhando para pagar suas contas, tendo que negociar o tempo todo com esferas do poder público ou privado, cheios de planos não realizados e vivendo aos trancos e barrancos”. Se o curador no Brasil é um persistente, as duas centenas de entrevistas que Fonseca pretende concluir com seu projeto parecem ser uma prova disso.

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