Filha natural #6
Filha natural #6. Foto: Divulgação

A jornada da artista Aline Motta à procura de suas raízes e dos vestígios de seus antepassados é, sem dúvida, uma empreitada pessoal. O resultado, no entanto, diz respeito à memória coletiva de milhares de famílias brasileiras construídas (ou destruídas) no violento processo de formação do país, baseado na escravidão e na estrutura patriarcal.

“Levou um tempo até que eu adquirisse alguma maturidade e centramento psíquico para lidar com questões tão profundas e difíceis que dizem respeito a minha própria história e família”, conta a artista em entrevista à ARTE!Brasileiros. Esse tempo de maturação incluiu não só alguns primeiros trabalhos artísticos que tratavam de outros temas, realizados especialmente a partir do início desta década, mas também uma vasta trajetória como continuísta de cinema, iniciada em 2001.

Foi a partir de 2016, quando teve o projeto Pontes sobre Abismos selecionado pelo programa Rumos, do Itaú Cultural, que Motta, hoje aos 45 anos, passou a se dedicar em tempo integral aos trabalhos autorais, com uma produção multimídia que não deixou de lado o cinema, mas se desdobrou também em instalações, fotografias, textos, publicações e performances.

Além do projeto para o Rumos, obras como (Outros) Fundamentos, Se o Mar Tivesse Varandas, Filha Natural e Jogo da Memória – este último, vencedor da Bolsa ZUM do IMS e ainda em desenvolvimento – levaram a artista a diversas cidades do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia e a travessias além-mar para Portugal, Serra Leoa e Nigéria. E aprofundaram, de diferentes modos, uma pesquisa sobre a história familiar de Motta e, ao mesmo tempo, sobre a herança africana na formação do Brasil.

No último mês de setembro a artista foi agraciada, ao lado de Dalton Paula, Dora Longo Bahia, Ismael Monticelli e Rodrigo Bueno, com o Prêmio Marcantonio Vilaça, em sua 7a edição. Neste contexto, a ARTE!Brasileiros conversou com Motta sobre sua trajetória e produção. Leia abaixo.

Pontes sobre Abismos #8
Pontes sobre Abismos #8. Foto: Divulgação

ARTE!Brasileiros — Seu trabalho parece ter caminhado, ao longo dos anos, de modo mais contundente para discussões sociais e políticas. Elas não estavam ausentes anteriormente, mas pareciam menos explícitas do que as preocupações formais e de linguagem. Faz sentido pensar assim? Como você enxerga essa sua trajetória?

Aline Motta — Certamente discussões em torno de questões raciais foram ganhando corpo no meu trabalho paulatinamente, à medida que eu me sentia mais confiante e preparada para abordar esse assunto com o rigor e pesquisa que eu julgava necessários. Isso levou um tempo até que eu adquirisse alguma maturidade e centramento psíquico para lidar com questões tão profundas e difíceis que dizem respeito a minha própria história e família.

Através de uma pesquisa pessoal, sobre memória familiar, você trata também de um vasto universo da memória coletiva, que tem a ver com as violências históricas na formação do Brasil, com a escravidão, com o patriarcado. Queria que contasse um pouco sobre essa pesquisa e sobre o que descobriu a partir dela.

A pesquisa se iniciou tendo como base a genealogia da minha própria família, no caso eu sou fruto de um casamento interracial. Logo ficou evidente que a pesquisa genealógica sobre os familiares brancos poderia continuar ad infinitum, já que muitos eram primos e se casaram entre si, em consonância com os arranjos comuns em que se formaram muitas famílias de origem portuguesa no Brasil. Já em relação à família negra, precisei procurar em lugares não tão óbvios, mas encontrei, por exemplo, farta documentação sobre a escravidão no Vale do Paraíba, indo contra a ideia de que esses papéis foram queimados. Não foram. Então, é urgente que se dê visibilidade a essa documentação e se façam estudos críticos da iconografia, principalmente a do século XIX, para que ninguém mais possa se sentir no direito de propagar inverdades ou minimizar os efeitos da escravidão em nosso país.

Filha natural #5
Filha natural #5. Foto: Divulgação

Em uma entrevista, você afirmou que somos um país violentamente racista e que poucas medidas reparatórias foram implantadas ao longo do tempo. Até que ponto você diria que a arte pode ter também um papel reparatório, seja no sentido de “fazer justiça” ou no caminho mais de cura?

Talvez um trabalho em artes visuais possa despertar em um determinado público algumas conexões profundas, que podem levar a algum entendimento acerca de traumas pessoais, familiares, coletivos. Ainda assim é algo restrito e as artes visuais ainda são um campo muito elitista. Ou seja, falar em cura não dá conta dos complexos modos de ser e estar no mundo que precisamos enfrentar cotidianamente, muitas vezes abraçando uma série de contradições apenas para nos manter vivas ou nos comportar como é esperado de nós. Em relação ao conceito de “justiça”, sou bastante cética, já que a todo momento precisamos explicar o óbvio em relação a medidas reparatórias como cotas raciais, por exemplo, e mesmo assim essas poucas medidas são duramente contestadas.

Em seus trabalhos que lidam com memória, é notável também o lugar que assumem as “lacunas” e o “apagamento”. De que modo você lida com essas lacunas?

A partir do momento em que surgem lacunas, cabe à nossa imaginação criar um passado e um futuro para essa falta.

Até que ponto você diria que o apagamento e a manipulação da história e da memória são causadores (ou os perpetuadores) de violências e desigualdades no Brasil ainda hoje?

O modo proposital como esse apagamento é feito cotidianamente em nossa sociedade é só mais um fator que explica porque certas famílias continuam mandando nesse país desde as capitanias hereditárias.

Filha natural #6
Filha natural #6. Foto: Divulgação

Tanto no que se refere ao racismo quanto ao machismo, dois temas muito presentes em seu trabalho, parece haver um quadro bastante complexo na sociedade brasileira hoje. Se de um lado os movimentos negros e feministas ganharam força e protagonismo, de outro vemos um movimento conservador de forte perfil machista e racista tendo também cada vez mais espaço. Como você enxerga esse momento?

Espero que esses movimentos conservadores que, na verdade, atentam contra a vida – ao fim e ao cabo são discursos de morte –, voltem-se contra si mesmos. Perceba que a cultura negra em nosso país é uma cultura de resistência, portanto de afirmação da vida e de emancipação do ser, através de processos vividos coletivamente. Isso vai na direção contrária destes movimentos de motivação profundamente individualista, narcisista, militarmente hierarquizada, que não levam em conta a vida em comum.

Em seus trabalhos você se utiliza de diferentes linguagens e suportes – fotografia, vídeo, texto, performance, documentos. Queria que contasse um pouco como se dá esse trabalho. Normalmente, surgem primeiro os temas a serem trabalhados, os suportes, ou cada caso é diferente um do outro?

Eu acho que os trabalhos são verdadeiramente interdisciplinares, congregando vários campos de estudo e saberes artísticos, refletindo a minha formação um pouco fora dos padrões e que também não segue uma linearidade. Então, é natural para mim que os trabalhos se desdobrem em vários suportes ao longo de bastante tempo, o que, às vezes, me dá a sensação de que estou construindo um extenso e único trabalho.

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