Manto de Arthur Bispo do Rosário é colocado em bolha para desinfestação em método para dedetizar sua obra. FOTO: Divulgação

Localizado em Jacarepaguá na zona Oeste do Rio de Janeiro, o Museu Arthur Bispo do Rosário Arte Contemporânea, anteriormente nomeado Nise da Silveira, hoje é uma referência para a arte contemporânea. Ele ocupa um espaço dentro de do Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira, antigamente conhecido como Colônia Juliano Moreira.

Conhecida historicamente como um local que abrigou pessoas consideradas “desviadas” da sociedade, a instituição recebia internos com problemas psiquiátricos, além de alcoólatras e dependentes químicos. Marginalizadas pela sociedade e negligenciadas com o preconceito que sofriam no século XX, essas pessoas eram levadas para lá, onde ficavam isoladas do mundo externo.

No início da década de 50, foi criado um núcleo para abrigar as produções artísticas dos internos da Colônia. Muitos passavam parte do tempo se dedicando às atividades oferecidas pelo segmento de arteterapia.

Um dos pacientes da Colônia foi Arthur Bispo do Rosário, portador de esquizofrenia paranoide (segundo sua primeira ficha de internação), que dedicou-se com prazer a seu fazer artístico. Desde então, muito aconteceu em torno de sua figura. Teve seus trabalhos registrados em reportagens e documentários, mas só em 1982 teve peças expostas fora da Colônia, no MAM do Rio, com curadoria de Frederico Morais.

Após sua morte, em 1989, realizam-se várias mostras com obras do artista, dentro e fora do Brasil. Arthur, inclusive, representa o Brasil na 46ª Bienal de Veneza. E, em 2002, o espaço museológico dentro da Colônia passa a ter seu nome. Em 2012, se torna um dos principais artistas convidados da 30a Edição da Bienal de São Paulo, com cerca de 300 peças espalhadas em 300 m2.

 

Bispo tornou-se um dos grandes símbolos da reforma psiquiátrica e da luta anti-manicomial no Brasil, pela integridade e defesa dos pacientes com transtornos.

Curador do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea desde 2014, Ricardo Resende encontrou, com muito entusiasmo, um desafio pela frente ao assumir o cargo: “O meu trabalho tem sido de uma conscientização da instituição de uma necessidade e da importância de preservarmos e conservarmos o trabalho do Bispo”. Por conta dos materiais usado pelo artista, a obra é de caráter bastante vulnerável. Ricardo já teve, durante a carreira, experiências com instituições que se encontravam em estado precário, como o Museu de Arte Contemporânea, quando funcionava no prédio da Bienal, e o MAM-SP, antes de ser presidido por Milú Vilella.

O curador conta que desde que a obra foi trazida da cela de Bispo, em 1989, para uma exposição, nunca houve uma intervenção que cuidasse de sua preservação com tal intensidade como essa realizada desde 2017. De uns anos para cá, a equipe começa um trabalho de readequação da reserva técnica, onde ficam guardados os trabalhos, para que existissem condições ideais de conservação dos objetos. Ricardo ressalta o total apoio e condições dados por Raquel Fernandes, diretora do museu desde 2013, para que todo o trabalho começasse a ser realizado.

A obra do Bispo reúne centenas de objetos feitos de madeira, tecidos, plásticos e fios, que deram lugar a uma quantidade insetos. A desinfestação e higienização da obra começou em 2016, passando por um processo de construção de uma bolha hermeticamente fechada, na qual se mantém apenas o hidrogênio, tirando o oxigênio. “O processo consiste em asfixiar todos os seres viventes que possam existir na obra. Isso levou um ano”, conta Resende. Todas as 804 obras de Bispo, que constituem o acervo, passaram por essa técnica de desinfetação e higienização.

Ao mesmo tempo, aproveitou-se para iniciar um trabalho de catalogação de todo o acervo, feita pela própria equipe do museu, com coordenação de Christina Penna, que foi também responsável pela catalogação de Portinari. No momento, comenta Ricardo, o acervo consolidado já foi catalogado, mas ainda falta um material residual, que era desconhecido, e também estava na reserva técnica do museu. Além disso, toda a obra de Bispo foi fotografada por Rafael Adorján.

Patrocinadores

Esta sucessão de processos dará origem ao catálogo raisonné de Arthur Bispo do Rosário, que será impresso graças ao apoio dado pela Galeria Almeida e Dale  ao museu. “Eles nos proporcionaram à verba necessária para garantir o processo de catalogação e também assumiram o compromisso de imprimir o catálogo para nós”, diz o curador.

Além da novidade do catálogo raisonné, o museu que vinha tendo o apoio da Fundação Marcos Amaro na readequação da reserva técnica, com o objetivo de chegar a um padrão ideal de preservação e conservação e na renovação museográfica das salas expositivas, recebe hoje um novo patrocínio necessário para a reforma do Pavilhão Ulisses Viana, onde encontra-se a cela que Bispo viveu e desenvolveu grande parte de sua obra.

“Marcos Amaro agora está nos dando o aporte para que façamos a recuperação do pavilhão onde se encontra a cela do Bispo do Rosário, onde ele produziu grande parte de sua obra. Recentemente, descobrimos que a cela onde ele viveu foi toda  desenhada”, comenta Resende. Com esta descoberta, o local precisará passar por um processo de restauração retirando camadas de tinta pra revelação das obras.

As paredes da cela onde Bispo era mantido durante a internação guardam vestígios de sua passagem por lá. FOTO: Divulgação

O prédio terá reforma desde o telhado até a parte elétrica, tornando-se visitável para ser aberto ao público. O curador ainda conta que, com a recuperação do pavilhão onde Arthur foi mantido, existe um desejo de que o museu seja transferido para lá, dando uma ambientação melhor para a obra. [Com relação a importância desta iniciativa leia texto do Professor Dunker]

Firmando um histórico de colaborações a instituições e artistas, a Fundação Marcos Amaro (FMA) já apoiou também, este ano, a artista Brígida Baltar com o Prêmio de Arte Marcos Amaro, na SP-Arte. A artista da Galeria Nara Roesler recebeu 25 mil reais e teve a obra Venho do Mar (2017) adquirida pela instituição. No final de setembro, a FMA decidiu não apoiar apenas um artista com o prêmio aquisição em parceria com a ArtRio, mas sim um projeto. A contemplada foi a coletiva AMIGO EAV 2018.2, com curadoria de Bernardo Mosqueira, da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

O apoio ao museu Bispo do Rosário é o primeiro grande apoio da FMA a uma instituição, conta a diretora geral Raquel Fayad. Ela classifica a iniciativa de ajudar com o aporte necessário como algo “primordial”, considerando a grandeza de Bispo. Ela também destaca que esse é um dos papeis que a FMA procura cumprir: “Nós entendemos que não somos apenas nós que estamos desenvolvendo, mas que também precisamos criar uma rede de museus que necessitam de recursos para atingirem as condições ideais museológicas e museográficas de funcionamento”, ressalta.

Tombamento

Para manter a equipe do museu, a instituição conta com verba pública vinda da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Além disso, após ter dois pedidos de tombamentos negados (pelo INEPAC e pelo Iphan do RJ), o museu finalmente conseguiu que o acervo fosse tombado, agora pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan Nacional), em setembro passado.

 

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