O curador e crítico de arte Bernardo José de Souza [1] comenta a obra Porosity Valley 2: Trickster’s Plot, de Ayoung Kim. Uma das mais destacadas artistas contemporâneas da Coreia do Sul, Ayoung Kim foi a representante do país asiático na 56ª Bienal de Veneza de 2015, teve importantes mostras individuais no Festival de Melbourne e no Palais de Tokyo, em Paris, além de ter participado de diversas bienais e festivais de cinema ao redor do mundo.

Parte de sua obra, agora, integra uma exposição individual no site do Videobrasil Online. A mostra sucede Antropoceno: Coreia x Brasil 2019-2021, que ficou no ar até o começo deste mês, e compartilha da mesma parceria para sua organização com Juhyun Cho, curadora chefe do Ilmin Museum of Art, em Seul. A mostra é a quarta a ocupar o espaço do Videobrasil Online, inaugurado em setembro com o documentário Abdoulaye Konaté – Cores e Composições, seguido pela exposição Sacudimentos, de Ayrson Heráclito, e da mostra coletiva Antropoceno, das artistas sul coreanas.

Segundo Cho, Ayoung Kim apresenta, em vídeos, performances e instalações, questões contemporâneas como a história coreana moderna, a política do petróleo, o imperialismo territorial e a movimentação do capital no mundo. Em suas experimentações, a artista apresenta ainda um vasto trabalho com arquivos e com desenvolvimento de dados e evoca formas pouco familiares de ler, ouvir e pensar sobre as condições do mundo.

Acervo Comentado Videobrasil. Still de "Porosity Valley 2: Tricksters' Plot", de Ayoung Kim. Foto: Divulgação.
Still de “Porosity Valley 2: Tricksters’ Plot”, de Ayoung Kim. Foto: Divulgação.

Acervo Comentado Videobrasil é uma parceria entre arte!brasileiros e a Associação Cultural Videobrasil. A cada 15 dias publicamos, em nossa plataforma e em nossas redes sociais, uma parte de seu importante acervo de obras, reunido em mais de 30 anos de trajetória. Neste episódio, a obra Porosity Valley 2: Trickster’s Plot, de Ayoung Kim, é analisada pelo curador e crítico de arte Bernardo José de Souza, confira a seguir:

A obra sugere um mundo e uma mitologia alternativas para as migrações de todo tipo do século 21. Sequência de Porosity Valley, Portable Holes (2017), avança em relação ao trabalho anterior criando a figura fictícia do aglomerado de migrantes, minérios e dados conhecido como Petra Genetrix. Sobrepondo migrações de refugiados e digitais, ambas características das migrações do século 21, gera um tempo-espaço especulativo ao questionar as “formas de existir” e as “formas de representar” dos refugiados iemenitas que chegaram recentemente à Coreia do Sul.

Os trapaceiros (do título da obra) vieram para perturbar a ordem no vale, conhecida como “a mitologia do puro-sangue”. Eles ameaçam o rígido sistema imunológico do estado-nação, mas acabam por fortalecê-lo, ao transplantar nele sementes heterogêneas (xenotransplante). O que se reflete aqui é um estado de coisas no qual refugiados são tratados como uma espécie de disfunção ou vírus que ameaça o estado-nação. A seguir, desdobram-se cenas de controle biopolítico, tal como é vivido por Petra e pelos próprios refugiados iemenitas na Coreia.

Still de “Porosity Valley 2: Tricksters’ Plot”, de Ayoung Kim. Foto: Divulgação.

O trabalho questiona ideias de fronteira, atravessamento e coexistência ou simbiose. A suposta solidez do território e das fronteiras que imigrantes, refugiados, minerais e dados cruzam começa a desmoronar. Isso se deve ao movimento das placas tectônicas, elas mesmas eternamente sujeitas à migração e ao movimento. Nesse sentido, o trabalho reflete a Terra e seus estratos, o movimento de seus diversos agentes e as fronteiras e relações simbióticas que o impedem e facilitam.


[1] Bernardo José de Souza é curador e crítico de arte. Foi diretor artístico da Fundação Iberê Camargo até 2019. Tem desenvolvido nos últimos anos projetos curatoriais no campo das artes visuais contemporâneas, em colaboração com instituições brasileiras e estrangeiras como Instituto Francês, Instituto Inhotim, Prince Claus Foud, Mondriaan Fonds, KW Institute for Contemporany Art, entre outros. Foi Coordenador de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria de Cultura de Porto Alegre entre os anos de 2005 e 2013 e integrou as equipes de curadoria da 9˚ Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2013) e da 19˚ Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (São Paulo, 2015).

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