Cena de "Sound Graden", de Jeamin Cha. Foto: Divulgação

Já faz alguns anos que, de modo crescente, as discussões em torno do Antropoceno se tornaram pauta fundamental na pesquisa e produção de artistas contemporâneos ao redor do mundo. Se temáticas como a destruição da natureza já estavam presentes nas artes visuais há mais tempo, a urgência da crise ambiental e a consolidação de um novo conceito – que se refere ao período em que a ação humana na natureza é tamanha e tão destrutiva que passa a representar uma ameaça à própria vida no planeta – se mostraram incontornáveis na criação artística realizada nas mais variadas linguagens e suportes. 

Dentro deste contexto, ainda parece raro no mundo ocidental, e no Brasil mais especificamente, um olhar atento para a produção oriental referente a esses temas, em países como, por exemplo, a Coreia do Sul. “Desde o início, o objetivo desse projeto curatorial era mostrar o Antropoceno não ocidental”, conta Juhyun Cho, curadora da mostra Antropoceno: Coreia x Brasil 2019-2021, em cartaz desde o começo de janeiro na plataforma Videobrasil Online. Suprir parte desta lacuna, portanto, é um dos objetivos da exposição, que reúne contundentes trabalhos audiovisuais de seis artistas coreanas contemporâneas: Hayoun Kwon, Sanghee Song, Ji Hye Yeom, Jeamin Cha, Eunji Cho e Song Min Jung.

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Cena de “Future Fever”, de Ji Hye Yeom. Foto: Divulgação

A data presente no título se refere ao início, em 2019, de um projeto mais amplo de cooperação entre a Associação Cultural Videobrasil e o Ilmin Museum of Art, em Seul – do qual Cho é a curadora chefe -, que apresentou uma mostra de artistas brasileiros no museu coreano. A segunda exposição, com os trabalhos dos artistas coreanos, seria realizada presencialmente no Brasil em parceria com o Sesc, mas acabou migrando para a nova plataforma do Videobrasil por conta da pandemia de Covid-19. Apesar da mudança forçada, o novo formato se mostrou coerente com a pesquisa da curadora coreana – bastante focada na relação entre arte e novas mídias – e com o suporte dos trabalhos, que misturam principalmente filmagens e animações 3D. 

Para Cho, a apresentação dos 11 vídeos – “altamente narrativos” e com duração entre 5 e 35 minutos – em ambiente virtual, permitindo ao visitante número irrestrito de acessos, a qualquer horário ao longo de um mês, “parece ser vantajosa para entregar mensagens ao público, que pode viver uma imersão e apreciação mais completa”. De fato, a disponibilidade de tempo parece favorecer a mostra, dada a densidade dos trabalhos, com narrativas por vezes fragmentadas e com múltiplas camadas de apreciação, em um emaranhado de visões sobre as questões sociais e geopolíticas da Coreia, mas também relacionadas às questões globais contemporâneas.     

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Cena de “Sound Graden”, de Jeamin Cha. Foto: Divulgação

Apesar dos diferentes temas tratados, a percepção sobre um mundo distópico legado ao futuro pelo Antropoceno percorre a maior parte dos trabalhos. Segundo Cho, “são artistas que operam na fronteira entre normalidade e aberração, em obras que, de formas diferentes, baseiam-se no documental”. O ficcional e os traços de surrealismo que surgem nos filmes e animações não deixam de estar conectados a realidades conflituosas enfrentadas no mundo, especialmente em regiões periféricas ou por grupos desfavorecidos. “Os trabalhos não apresentam a visão utópica de que este mundo capitalista será derrubado ou se tornará melhor, eles mostram a cegueira ou o lado invisível da crise e da realidade que enfrentamos”, afirma. “Os artistas estão falando diretamente sobre a crise e sobre quem está sofrendo com ela, por meio de fatos históricos e narrativas de ficção cientifica”, explica.

Entre os universos retratados surgem histórias passadas em lugares como a DMZ (Zona Desmilitarizada entre as Coreias do Sul e do Norte), os hospitais, ruas e estádios de Seul, as estradas do interior do país ou o mar de seu litoral, mas também em um povoado na Nigéria, em Paris ou em áreas da Amazônia brasileira. Há ainda lugares não identificáveis, vistos em épocas passadas ou futuras – por vezes com estética semelhante a de videogames – e referências a Leviatã, a Inteligência Artificial, a psicologia, ao militarismo e ao feminismo. 

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Cena de “Wild Seed”, de Min Jung Song. Foto: Divulgação

Mulheres coreanas 

Em consonância com o enfoque dado há mais de 30 anos pela Associação Cultural Videobrasil à produção artística do chamado Sul Global – termo referente a países ou grupos marginalizados no quadro geopolítico global -, a aproximação entre Brasil e Coreia permite traçar diálogos ainda pouco vistos nas instituições culturais de ambos os países. “Acima de tudo, pensei que a solidariedade centrada em cada área era significativa para que os objetos de discriminação, exclusão e alienação que a modernidade e o capitalismo global criaram pudessem adquirir uma nova identidade”, explica Cho.

Para Solange Farkas, diretora do Videobrasil, “é de grande relevância mostrar para o público sul-americano as visões filosóficas, políticas e ecológicas de mulheres artistas coreanas que exploram com extrema habilidade a relação entre a terrível crise global em curso e o impacto da atividade humana em nosso planeta”. O fato de serem apenas artistas mulheres, ressaltado por Farkas, não deixa de estar associado à busca pela visão dos grupos menos favorecidos, como explica a curadora coreana: “Eu também queria mostrar como o patriarcado do capitalismo explorou as mulheres e a natureza, e como é importante construir uma coalizão global com vítimas da corrida ocidental pela acumulação de capital, incluindo trabalhadores, povos originários e várias minorias sujeitas à opressão e discriminação pela sociedade moderna. Mas é claro que eu não acho que apenas artistas mulheres podem construir esta solidariedade”.

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Cena de “A Night with a Pink Dolphin”, de Ji Hye Yeom. Foto: Divulgação

Ao fim do período de um mês no ar, no dia 1º de fevereiro, Antropoceno: Coreia x Brasil 2019-2021 dá lugar na plataforma do Videobrasil a outra exposição concebida em parceria por Farkas e Cho, uma individual de Ayoung Kim. Uma das mais destacadas artistas contemporâneas do país asiático, Kim foi a representante da Coreia do Sul na 56a Bienal de Veneza de 2015, teve importantes mostras individuais no Festival de Melbourne e no Palais de Tokyo (Paris), além de ter participado de diversas bienais e festivais de cinema ao redor do mundo.

Segundo Cho, Ayoung Kim apresenta, em vídeos, performances e instalações, questões contemporâneas como a história coreana moderna, a política do petróleo, o imperialismo territorial e a movimentação do capital no mundo. Em suas experimentações, a artista apresenta ainda um vasto trabalho com arquivos e com desenvolvimento de dados e evoca formas pouco familiares de ler, ouvir e pensar sobre as condições do mundo. A mostra será a quarta a ocupar o espaço do Videobrasil Online, inaugurado em setembro com o documentário Abdoulaye Konaté – Cores e Composições, seguido pela exposição Sacudimentos, de Ayrson Heráclito, e da mostra coletiva Antropoceno, das artistas sul-coreanas.

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