Vigiar e Punir (2020), No Martins na Galeria Jack Bell. Foto: Divulgação. Na foto, a criança pinta uma figura do Mickey Mouse; o termo "rato" é utilizado para ser referir à polícia.

Em Social Signs, aberta esta semana em Londres, o trabalho de No Martins com a pintura é o foco, embora sua produção artística transite também pela performance, instalação e experimentação com objetos como lonas de caminhão e placas de metal. 

Algumas das questões chave do seu trabalho vem da observação dos cenários cotidianos da capital paulistana, onde ele nasceu. Destrinchando cuidadosamente essas cenas ordinárias, ele investiga temas como o racismo, a violência policial e o encarceramento em massa. Assim, traça uma arquitetura da violência em um mundo “habitado por uma mercadoria corporal”, em uma sociedade marcada por relações assimétricas de poder e dispositivos de poder e vigilância, como nota Diane Lima, curadora e pesquisadora responsável pelo texto crítico de apresentação de Social Signs.

Martins entrou na cena da arte urbana paulistana em 2003, por meio da pichação e do grafite. Entre os anos de 2007 e 2011, frequentou ateliês de gravura da Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, onde teve aulas com artistas como Kika Levy, Ulysses Bôscolo e Rosana Paulino, a quem ele se refere como uma mestra – ao destacar que foi com Paulino que aprendeu a olhar com calma para o trabalho. Segundo o artista, sua relação de aprendizado e consequente amizade com Paulino ofereceu uma entrada para o mundo das artes plásticas e visuais. “Eu era rua, somente rua, e isso era arte pra mim. Foi o contato com ela que me fez enxergar a possibilidade de ser um artista”. Paulino também foi a curadora da primeira individual de No Martins no Brasil.

Mesmo quem não está familiarizado com o conjunto de sua obra já pode ter visto a emblemática série #JaBasta!, um grito feito pelo artista para além das denúncias. A série foi elaborada com a sobreposição de diversos tipos de tecido, construindo uma espécie de estandarte de guerra. Ao Videobrasil, No lamenta: “111 tiros disparados pela polícia contra o carro de 5 jovens negros é estado de guerra, 80 tiros disparados pela polícia contra o carro de uma família também é estado de guerra”.

Foi partir dessa obra que Marcio Seligmann-Silva traçou a seguinte reflexão, em texto opinativo para a arte!brasileiros: “No Martins é parte de uma nova geração de artistas que compõem a contemporânea arte negra afrodescendente brasileira. Essa série #JáBasta! funciona como um catalizador para formular as demandas políticas antifascistas e contra a necropolítica que têm atuado sobre a população negra desde os tempos da escravidão. A impressionante força e originalidade da arte negra brasileira contemporânea responde à terrível ascensão de neo-fascismos que repetem hoje seus desígnios genocidas. Essa arte profundamente decolonial, produz uma ruptura da cumplicidade entre o ‘dispositivo estético’ e o ‘dispositivo colonial’. Ela diz um basta ao cubo branco (por demais branco) e a todos os classicismos.”

Campo Minado (2019), No Martins na Galeria Jack Bell. Foto: Divulgação.

A série #JáBasta! traz símbolos que evocam o regime de ver e ser visto, como a própria hashtag e as colagens de manchetes de jornal, que requerem uma interação explícita com o público. Algo similar ressurge em Campo Minado. A obra conta com dois autorretratos do artista, ambos sem seu rosto. Em um deles No é colocado contra a parede – na qual está escrito o número 13, a idade em que ele sofreu seu primeiro enquadro pela polícia -, e no outro ele é a figura de uma placa de trânsito indicando que ele não deveria transitar pelos espaços pintados na última parte do trabalho, a universidade, as galerias, as lojas – referenciadas por uma sacola da grife Chanel e uma câmera apontada para ele. Martins se mostra sem face nessa pintura como meio de escancarar a violência do racismo estrutural em provocar o impedimento social e a invisibilidade seletiva.

Se em Uma gravata extra ele protesta contra episódios de violência física e assassinato da população negra, em Campo minado ele lamenta uma forma velada de racismo que também surge nos trabalhos Estratagema e em um retrato de um policial negro descalço.

Estratagema faz parte do grupo de pinturas inéditas apresentadas na Galeria Jack Bell – que apresentam cuidado estético notável. Ela descreve uma cena onde uma pessoa negra joga xadrez contra ela mesma utilizando um tabuleiro de peças brancas. Segundo o artista: “Ela está criando estratégias para derrubar um sistema opressor, mas, ao mesmo tempo, também existem pessoas que tentam se encaixar em padrões brancos e acabam negando o que realmente são. É o que esse sistema quer dizer quando fala que você é pardo e não é negro. É um meio de tentar fazer você se encaixar no sistema dele, para fazer com que você vire uma peça que ele possa mover”.

Já o retrato do policial é imbuído de uma referência simbólica que, ao mesmo tempo, critica as mazelas ainda presentes da escravização dos negros e convida a um exercício de empatia com o retratado. Martins explica que a obra volta à ideia já abordada de estar em um campo minado. Uma das proposições dessa pintura é olhar o policial negro pelo seu lado humano. “Ele é uma pessoa comum quando está sem farda. É a ideia dele sempre estar em um campo minado, sempre estar em um campo de risco. Quando ele é o policial, ele está em uma zona de perigo no seu trabalho, recebendo esse mínimo que os policiais recebem, que não faz jus ao trabalho. Ao mesmo tempo, quando ele tira essa farda ele é um homem negro comum, e continua em uma zona de risco. As botas são tiradas para dizer isso: que estamos falando desse lado humano do policial”. 

O artista completa: “O sapato, no pós-libertação dos escravizados, se torna um símbolo de libertação. Podemos encontrar, por exemplo, imagens de ex-escravizados com sapato pendurado no pescoço, amarrados pelo cadarço, querendo mostrar sua liberdade, o escravizado o tempo todo anda com os pés descalços. Vemos esses pés descalços e agigantados que são pés transformados quando se anda a vida inteira descalço”.

Control (2020), No Martins para Social Signs na Galeria Jack Bell. Foto: Divulgação.

Uma gravata extra, por sua vez, remete ao episódio do assassinato do jovem Pedro Gonzaga, 19 anos, por um segurança do supermercado Extra que o asfixiou com um golpe de “gravata”. O caso se assemelha à morte de George Floyd, nos Estados Unidos, que gerou comoção mundial recentemente. As redes sociais entraram em protesto por Floyd com a hashtag Blackout Tuesday, por exemplo. Tal comoção provocou reflexões sobre uma certa “comoção seletiva” da sociedade brasileira perante as vidas da população negra.

Martins explica que não acha que a sociedade brasileira se comova mais com a morte de George Floyd do que com a de João Pedro, Guilherme Silva, Pedro Henrique, Jenifer Gomes, Kauan Peixoto, Kauã Rozário, Kauê dos Santos, Ágatha Félix, Ketellen Gomes ou a de qualquer outra pessoa negra brasileira. “O problema é que no Brasil essas mortes se tornaram normais, é comum você abrir o jornal e ler mais uma notícia dessas. Esses nomes são de algumas pessoas cujos casos ‘viralizaram’, mas talvez enquanto eu respondo sua pergunta, outra pessoa seja morta por uma arma de fogo do Estado”.

Um dia da caça, outro do caçador (2020), No Martins para a exposição Social Signs na Galeria Jack Bell. Foto: Divulgação.

Na obra Necropolítica, o pensador camaronês Achille Mbembe fala sobre as formas de soberania cujo projeto central não é a luta pela autonomia, mas a “instrumentalização generalizada da existência humana e a destruição material de corpos humanos e populações”. No Martins afirma que esse conceito de “direito de matar” foi implantado forçadamente na consciência da população que sofre diretamente com isso. Ele exemplifica a questão utilizando a frase “bandido bom é bandido morto”, que se tornou “uma ferramenta muito eficiente para o extermínio da população pobre e preta: nas reportagens de TV e em programas sensacionalistas ouvimos repetidamente a desculpa de que pessoas são mortas por terem passagem na polícia, ou por terem envolvimento com o tráfico de drogas”. 

Para Martins, as reflexões que o seu trabalho permite deveriam ser bem vindas no mundo da arte e na academia, mas não ficar retidas a espaços ainda tão restritos. “As grandes galerias raramente vão querer representar artistas vindos das margens, que não passaram por instituições também elitistas como FAAP, Belas Artes, USP ou qualquer outra fora do Brasil”, relata.

Apesar disso, para No, quanto mais pensadores abordarem esse problema, melhor. Ele faz uma ressalva, entretanto, que “essas discussões devem estar mais perto das pessoas que são atingidas e convivem com toda essa violência. Isso deveria estar sendo abordado nas escolas públicas, por exemplo”.

Em complemento, “na maioria das vezes, os primeiros contatos com a violência policial na periferia acontecem no período da adolescência, período escolar. Se fizermos uma visita à Fundação Casa com certeza não vamos encontrar nenhum menor interno nascido e criado no Jardim Europa, por exemplo, ou seja, o abuso de poder é destinado a uma parte específica da população, e esta deve participar desses debates”.

Caminhando pelas camadas de significado das pinturas de No Martins é possível perceber que seu trabalho funciona em múltiplos níveis de percepção e cabe também ao observador ter disposição para adentrar a narrativa visual do artista, assim como é necessário concentrar-se para ouvir.

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