Em um momento em que a arte indígena está cada vez mais presente em instituições culturais brasileiras, a terceira edição da Mostra Etnomídia Indígena propõe um passo além da mera representatividade, transformando o convencional “cubo branco” de uma galeria de arte em um espaço de convivência e sobreposição cultural.

A Mostra acontece na galeria Carmo Johnson, em São Paulo, e adota o formato feira-festival. A abertura ocorre dia 30 de maio, a partir das 14h, com um bate-papo mediado por Naine Terena, idealizadora do evento, e Gustavo Caboco, curador desta edição, com os artistas Ará Guarani, Liberio Boe e Isaac Amajunepá.

Com o subtítulo Festival de Impressos Indígenas, a mostra expande o conceito de “impressão” para além da gravura ou dos processos em papel. Para isso, abarca diversas linguagens, suportes e modos de produção artística, como literatura, artes têxteis e instalação, que carregam as marcas dos territórios e das experiências dos povos indígenas. 

Caboco exemplifica essa concepção com o painel o Jegua marangatu – grafismo sagrado, apresentado por Edson Benites (Gerpa filho) e Miguela Moura, ambos do Mato Grosso do Sul. “Eles trouxeram imagens de grafismo, aquilo que é impresso no corpo: especificamente três grafismos, então há um texto sendo contado”, afirma o curador. “Nesse caso, é uma impressão que é escrita, geralmente na pele, mas que foi levada para o tecido”. 

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O projeto convida o público a refletir não apenas sobre as obras apresentadas, mas também sobre as formas de circulação, convivência e construção de conhecimento que elas carregam. “Os artistas trazem suas impressões dos seus territórios de base. [A curadoria] pensa tanto o ponto de vista do artista, quanto do público, que criou impressões do que são as artes dos povos indígenas, e possibilita compreender nossa multiplicidade e diversidade”, pontua Caboco.

Um dos aspectos centrais desta edição é a expografia, desenvolvida em parceria com Liberio Uiagumeareu, do povo Boe Bororo. A galeria foi repensada para reproduzir a lógica de uma aldeia Boe a partir da organização física e referências conceituais, e interpretada por meio da sociabilidade indígena.

“É uma outra maneira de enxergar o mesmo ambiente por perspectivas diferentes”, afirma Caboco. “A expografia foi guiada pelos conceitos de ‘Pa Muga’, um espaço de convivência entre o indígena e o não indígena, e ‘Ce Muga’, o espaço indígena. Os dois estão em sobreposição, em aliança”. 

Essa abordagem se reflete na experiência do visitante: a mostra organiza seu percurso para incentivar o encontro, debate e convivência. Literatura, têxteis e obras visuais dialogam entre si para criar um ambiente mais próximo de uma experiência coletiva do que de uma contemplação silenciosa e individualizada.

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Assim que o visitante entra no espaço expositivo, se depara com a obra “Pajé Cara Branca”, de Isaías Miliano, das etnias Macuxi e Patamona. O artista traz a figura de seu avô, que foi um rezador, com o rosto branco devido à argila Tabatinga — evidenciando de antemão o peso que o passado tem para muitos destes artistas, que procuram em sua ancestralidade temas e elementos para desenvolver uma arte autoral e contemporânea. 

Caboco destaca também o conjunto de pinturas e objetos instalativos expostos pelo Coletivo REMBYAPÓ, do Espírito Santo, formado por Ara Guarani, Sônia Guarani e Claudiomiro Guarani, que fazem referência à cultura e aos modos de vida do seu povo. O curador aponta que, entre as escolhidas, há uma tendência de obras que tratam ou dialogam com questões territoriais. Os artistas participantes fazem parte de povos como os Guarani Ñandeva, Boe, Patamona, Manoki, Myky, Wapixana e Terena.

Outro elemento que diferencia a mostra é sua estrutura híbrida, de feira-festival. Além das obras expostas, o público encontrará livros de autores indígenas, cartazes, pôsteres, publicações e outros impressos disponíveis para circulação e aquisição. A escolha dialoga com práticas tradicionais de troca e encontro presentes em muitas comunidades indígenas e aproxima o projeto do formato de feiras de arte e publicações independentes.

A programação também inclui rodas de conversa, encontros e atividades formativas voltadas para a discussão das artes indígenas contemporâneas. Segundo Caboco, o objetivo é ampliar o repertório crítico do público e contribuir para o fortalecimento de reflexões sobre essa produção artística para além dos estereótipos.

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O curador identifica uma mudança importante no circuito da arte em relação aos últimos anos — se houve um período marcado pela descoberta e visibilidade repentina dessas produções, hoje a presença de artistas, pesquisadores e curadores indígenas é mais consistente, com maior protagonismo nos processos de construção de exposições, e não só presença em acervo — o que produz mudanças significativas na maneira como essas obras são apresentadas e interpretadas. “Talvez não estejamos mais em um momento de espetacularização, mas de aprofundamento”, reflete..

“A questão não é ‘dar voz’ aos artistas indígenas, mas reconhecer a existência de múltiplas formas de produção de conhecimento, estética e pensamento que já operam há muito tempo, mas que costumam ser invisibilizadas”, conclui o curador.

A Terceira Mostra Etnomídia permanece em cartaz na galeria Carmo Johnson até 20 de junho. Depois, parte para uma itinerância em Salvador, de 9 de julho a 2 de agosto e finaliza seu período expositivo em Brasília, de 20 de agosto a 6 de setembro.


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