Por Giuliano de Miranda
O Brasil é o único país batizado com o nome de uma árvore. Do cerne do pau-brasil se extrai a brasilina, substância que, em contato com o ar e a luz, se converte num pigmento vermelho intenso, cor de brasa. A mesma reação que produz o tom rubro denuncia, porém, o sofrimento da espécie submetida a podas drásticas e cortes violentos. É dessa ambivalência, em que riqueza e devastação nascem de um único gesto, que parte Brasilina: Poéticas de uma Nação Mátria, em cartaz na Galeria do Centro Cultural SESI, em Jardim da Penha, Vitória, até 31 de outubro.
Realizada pela Decoranea e pelo 1COMUM Coletivo, a exposição tem idealização de Isabela Castello e Fernando Caseira Nicolau, curadoria dividida entre Isabela e Isabel Portella e produção de Elaine Pinheiro. Os trabalhos, vindos de diferentes cidades e gerações, organizam-se em três eixos: Identidade, Natureza e Sociedade.

“É possível falar de história sem falar de corte, de trauma? E falar de corte, de trauma é regenerá-lo?”, pergunta Fernando, fundador do 1COMUM Coletivo. Sua investigação, iniciada em 2012 com o espetáculo Se eu fosse Iracema, gira em torno dos povos originários, da matriz étnica do país, do colonialismo e do pensamento decolonial, questões que atravessam também a concepção da mostra. A proposta, segundo ele, é encarar a ferida “sincera e profundamente”.
O subtítulo anuncia outra proposição. Pátria vem do latim e designa a terra paterna, palavra que, para o idealizador, “está desgastada e embebida na imoralidade”. Em seu lugar surge a ideia de nação mátria: a terra-mãe que gera, nutre e protege, vinculada à natureza, às ancestralidades e ao papel das mulheres na construção da vida social. Na mesma chave, Fernando imagina um novo Hino Nacional, “escrito e composto por muitas gentes, muitos povos”.
Há ainda uma reflexão sobre a bandeira. O lema “Ordem e Progresso” deriva de uma formulação de Auguste Comte que tinha o amor como princípio, termo suprimido na versão republicana. Resgatá-lo significa investigar “a falta que o amor nos faz como lema de uma nação”. Ou, nas palavras de Fernando: “Só há desejo onde há falta”.
Uma curadoria a quatro mãos
Isabel Portella chegou ao projeto quando o escopo já estava desenhado. Dos 32 nomes da mostra, indicou 16, artistas com quem vinha trabalhando e cujas pesquisas tocavam a natureza e os modos de ser brasileiro. Os outros 16 vieram de Isabela Castello.

A convivência entre arte e design, uma das marcas da mostra, interessa particularmente a Isabel. “Vejo muita aproximação entre esses dois campos. O objeto utilitário carrega também uma dimensão estética. O design nunca perde a sua porção de arte”, observa.

Entre os destaques que Isabel Portella aponta estão as colheres de pau de Mônica Pougy, reunidas entre amigos e familiares e gravadas com frases. Cada peça guarda uma procedência doméstica, a avó, a tia, e remete à cozinha como lugar onde mulheres de várias idades se encontram. “Quando falamos de comida, ligamos muito ao afeto. A colher de pau está no nosso dia a dia e é ancestral, atravessa muitas gerações”, comenta a curadora. Roberta Paiva, por sua vez, compra brinquedos de plástico no Saara, polo de comércio popular do centro carioca, e os converte em chocalhos e instrumentos de maculelê, aproximando o artigo industrial barato de formas arcaicas.
Vídeo, pintura, desenho, fotografia e objetos compõem o conjunto. “A separação dos eixos por cores traz uma distinção, mas tudo faz parte de uma mesma exposição. Estão separados e juntos, em diálogo”, avalia Isabel.
Em entrevista à ARTE!Brasileiros, Isabela Castello, artista, curadora e fundadora da Decoranea, comenta a origem do projeto, o desafio de sustentar beleza e violência numa mesma metáfora, o encontro entre arte e design, a montagem e os planos de itinerância para 2027.

A ferida e o afeto
arte!✱ – Como surgiu a parceria entre a Decoranea e o 1COMUM Coletivo, e em que momento a ideia da exposição se tornou um projeto concreto?
Isabela Castello: A ideia surgiu em 2024, quando conheci a galeria do SESI Cultura. Em fevereiro de 2025, numa reunião com a coordenadora Giselle Madeira, entendi que o espaço passaria por reformas e que poderíamos desenhar um projeto para 2026, após a reabertura.
Minha premissa era criar uma exposição que tensionasse e celebrasse a potência criativa, a exuberância e a complexidade cultural do Brasil. Para estruturar essa narrativa, convidei o artista e diretor Fernando Caseira Nicolau. Eu já acompanhava a pesquisa dele, tanto nas artes visuais quanto no teatro com o 1COMUM Coletivo. Nós nos conhecemos na Cow Parade Vitória/Vila Velha e, desde então, ficamos muito próximos. Desse encontro conceitual e afetivo entre a vocação curatorial da Decoranea e a investigação cênico-visual do Fernando nasceu o conceito da Brasilina.

arte!✱ – Por que partir de uma substância química, e não de uma imagem ou de um símbolo, para falar do Brasil?
IC – A brasilina, princípio ativo, seiva e pigmento rubro extraído do cerne do pau-brasil, carrega os dois lados da nossa história. Representa a riqueza natural, a cor e a criatividade do povo brasileiro, mas também lembra o começo de toda a exploração colonial que o território sofreu. Falar da substância é falar daquilo que corre nas veias do país, mostrando que a nossa identidade é feita tanto de beleza quanto de cicatrizes.
arte!✱ – A brasilina carrega uma história de corte e exploração colonial. Como equilibrar beleza e violência numa mesma metáfora sem estetizar a ferida?
IC – Esse foi o nosso grande desafio: mostrar a beleza e a exuberância do país, mas também evidenciar as desigualdades e contradições. O poder da arte reside justamente na capacidade de sustentar o paradoxo. Selecionamos obras que dialogam com as duas leituras da brasilina, em que a visualidade seduz, mas também nos confronta com a ferida e a memória do território. Os trabalhos friccionam essas duas camadas: a cor que embeleza é a mesma que sangra.
arte!✱ – O projeto recupera o amor da formulação positivista original do lema “Ordem e Progresso”. Por que trazer essa referência justamente agora?
IC – A palavra “amor”, presente na frase de Auguste Comte, acabou suprimida da nossa bandeira. Reivindicá-la é um ato de urgência política e poética. Queremos trazer de volta o afeto e a alteridade deixados de fora do lema oficial e mostrar como essa ausência ainda se reflete, em muitos momentos, nas fraturas da sociedade atual.
arte!✱ – A “nação mátria” substitui uma imagem tradicional da nação por outra. Como evitar que ela se torne um novo símbolo fixo, o que a crítica chamou de risco de uma figura “totêmica”?
IC – O conceito é um gesto de reinvenção simbólica. Pensar o país não apenas como a terra dos pais, mas incluir a ideia de terra-mãe, que nutre e sustenta. E incorporar também uma nação constituída por afetos e ancestralidades diversas, ligada tanto à natureza quanto às mulheres que, ao longo da história, sustentaram a vida social, cultural e espiritual do Brasil.

arte!✱ – Pensar o Brasil como terra-mãe pode dialogar com cosmologias indígenas e afro-brasileiras. Essas referências estiveram presentes na formulação do conceito?
IC – Com certeza, são a base de tudo. Não dá para pensar o Brasil como terra-mãe sem aprender com as visões indígenas e afro-brasileiras, que entendem a natureza como parte de nós e como ancestralidade, e não como algo a ser destruído. Não conseguimos incluir artistas indígenas nesta edição, mas pretendemos ampliar nas próximas.
Critérios e escolhas
arte!✱ – Como foi dividir a curadoria com Isabel Portella? Em que pontos vocês convergiram e onde houve divergência?
IC – Foi um processo de imensa interlocução intelectual e generosidade profissional. Nossa sintonia apareceu desde o início do ano, gerando um desejo imediato de colaboração. As convergências foram amplas, sobretudo no entendimento de que a mostra deveria espelhar uma pluralidade de linguagens e suportes. Foi um exercício de escuta mútua e de muito aprendizado da minha parte.

arte!✱ – Quais foram os critérios para chegar aos 32 nomes? Houve convite, chamada aberta ou os dois?
IC – O processo se deu por convites diretos a artistas cujas pesquisas estivessem intrinsecamente alinhadas ao conceito. O critério fundamental foi buscar uma diversidade real de linguagens e territórios: reunimos artistas de diferentes cidades, gerações e técnicas, justamente para mapear a pulsação da arte contemporânea no país hoje.

arte!✱ – A mostra reúne arte e design autoral lado a lado. O que essa aproximação revela que uma exposição só de artes visuais não revelaria?
IC – A Decoranea, minha plataforma de arte e design autoral, nasceu exatamente da proposta de comercializar produções que transitam entre esses dois universos, o que também move o meu trabalho artístico. Os objetos de design, desde que dialoguem conceitualmente com a exposição, carregam linguagem poética e podem refletir sobre território, matéria, memória, bioma e identidade. Arte e design compartilham a mesma matriz de pesquisa conceitual, afeto e busca por identidade. Na Brasilina, essa união revela um Brasil vivo, que não exclui, mas acolhe diversas formas de expressão criativa.
arte!✱ – Houve preocupação com a representação de diferentes regiões, gerações e origens entre os participantes?
IC – Conseguimos atender parcialmente a essa demanda. Temos artistas do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Pará, Minas Gerais e Paraná. Não foi possível ampliar mais em função do prazo de produção e do orçamento limitado. Mas pretendemos fazer um projeto de circulação em 2027 e, nas futuras edições, ampliar essa representação geográfica.
arte!✱ – Os eixos Identidade, Natureza e Sociedade se atravessam o tempo todo. Por que manter a divisão, se as fronteiras entre eles são tão porosas?
IC – Entendemos que seria mais interessante propor essa divisão em três temas, mesmo sabendo que há um atravessamento constante entre eles. O conceito de brasilidade é muito amplo, e os eixos funcionaram como uma lente metodológica que nos ajudou tanto na curadoria quanto no desenho da expografia, facilitando a navegação do público.

arte!✱ – A crítica aponta que a heterogeneidade dos trabalhos é, ao mesmo tempo, qualidade e problema da mostra. Como você recebe essa leitura?
IC – Recebo como uma validação, porque o Brasil é heterogêneo por essência. Somos feitos de uma mistura de espécies, solos, etnias, vozes e territórios, e essa multiplicidade deveria estar espelhada nas obras. Se a exposição tentasse domesticá-la sob uma estética homogênea, não seria o reflexo fiel do paradoxo que é o Brasil.
arte!✱ – Há alguma obra que, para você, sintetiza a ideia de Brasilina? Por quê?
IC – Acho difícil escolher uma. O Brasil é múltiplo, exuberante demais para caber em um trabalho só. Acredito que nem mesmo a exposição consegue delimitar o conceito de Brasilina. Nossa intenção nunca foi dar uma resposta final, mas propor o diálogo e a reflexão, fazer as pessoas sentirem e valorizarem a brasilidade, sem a pretensão de esgotar o tema.
arte!✱ – Algum trabalho mudou a forma como você pensava a exposição durante o processo?
IC – Sendo esta a minha primeira experiência na curadoria, aprendi que conceber uma mostra exige estar totalmente aberta ao processo e ao imprevisto. A minha própria obra na exposição, Eu-Rio: Amazonas, investiga poeticamente a metáfora dos rios e a importância de deixar fluir. Adotei essa mesma postura líquida diante do desafio.
arte!✱ – Como foi pensada a montagem no espaço da Galeria do SESI e quais desafios ela impôs?
IC – Tivemos alguns desafios, especialmente lidar com um orçamento apertado, prazos rígidos e uma equipe reduzida para uma grande quantidade e diversidade de obras. A Giulia Bravo, que nos assessorou na expografia, foi muito feliz e sensível na organização do espaço. E, assim como em todo o processo, as confluências certas fizeram as coisas fluírem bem.
arte!✱ – Algumas obras poderiam estar em mais de um eixo. Como vocês decidiram onde cada uma ficaria?
IC – Os eixos Identidade e Sociedade são mesmo muito interligados. Para decidir, escrevemos antes os textos de cada eixo, definindo bem o foco de cada um. Depois, olhávamos para a poética de cada obra e avaliávamos em qual deles ela conversaria melhor com os trabalhos ao redor e com a experiência do público.
Público e circulação
arte!✱ – Como o programa educativo de Tatiana Rosa traduz esses conceitos para públicos diversos, inclusive escolas?
IC – Estamos muito felizes com o número de visitas das escolas. Temos escutado dos professores como a exposição dialoga com tantos conceitos importantes dos seus conteúdos. O programa educativo da Tatiana Rosa leva para esses públicos um desdobramento do conceito curatorial.
arte!✱ – O que o bate-papo com os artistas trouxe de novo para a leitura da exposição, depois de aberta?
IC – É sempre muito rico poder dialogar com os artistas, conhecer mais a trajetória e as pesquisas de cada um e, especialmente, entender como a sua obra dialoga com o conceito da exposição.
arte!✱ – A crítica propõe pensar a brasilidade dentro do contexto latino-americano. A exposição poderia dialogar com artistas de outros países da região?
IC – Com certeza. Compartilhamos com os vizinhos da América Latina a mesma história de colonização, as dores e a imensa capacidade de resistir através da arte. Já temos um pezinho nesse diálogo: a mostra conta com uma artista equatoriana que vive em Vitória. No futuro, seria incrível expandir o projeto para fora das nossas fronteiras.
arte!✱ – Quais cidades estão no horizonte da circulação, e a mostra pode mudar ao chegar a novos territórios?
IC – Ainda estamos formatando o projeto, mas a ideia inicial é levar a mostra para três cidades em 2027. O Rio de Janeiro provavelmente será uma delas, até por ser a cidade da nossa co-curadora, Isabel Portella. Queremos muito levar a exposição também para capitais do Norte e do Nordeste.
Ela vai se transformar, com certeza. A Brasilina é um projeto vivo e, ao chegar a novos lugares, a intenção é absorver artistas locais e abrir espaço para novas narrativas. O conceito de brasilidade é poroso e dinâmico, por isso a exposição precisa respirar a realidade de cada lugar onde for montada.
SERVIÇO
Brasilina: Poéticas de uma Nação Mátria
Galeria do Centro Cultural SESI, Jardim da Penha, Vitória (ES)
Até 31 de outubro de 2026
Terça a sábado, das 10h às 20h. Entrada gratuita.





