Laudelina de Campos Mello
Laudelina no Baile da Pérola Negra, Campinas, São Paulo, 1957. Arquivo Glória Bardi

Em maio, dias antes de o IMS Paulista inaugurar a exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello, veio à tona o caso de uma empregada doméstica de 19 anos, grávida, torturada pelos seus empregadores em Paço do Lumiar, no Maranhão.

Laudelina de Campos Mello parecia saber que casos assim não deixariam de existir tão cedo. Antes de morrer, em 1991, deixou sua casa para o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas, “pra continuar, pra usos e frutos: até quando existir a última empregada doméstica no Brasil”. A casa, até hoje, é a sede do sindicato.

Laudelina nasceu em 1904, em Poços de Caldas, no sul de Minas, em uma cidade — e em uma época — onde a população negra tinha dificuldade de acessar espaços públicos e culturais. Ainda jovem, trabalhou para famílias da elite local, como os Moreira Salles, fundadores do instituto que hoje a homenageia, e os Junqueira. Aos 16 anos, fundou o Clube 13 de Maio, que organizava festas para jovens negros barrados nos bailes brancos da cidade. Em 1922, mudou-se para São Paulo e, dois anos depois, para Santos, onde criou, em 1936, a Associação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas, no mesmo ano em que atuou no Partido Comunista. Na década de 1950, já em Campinas, criou uma escola de balé e, em 1961, a Associação das Empregadas Domésticas de Campinas, que depois se tornaria o sindicato. Morreu 22 anos antes da Emenda Constitucional 72, a PEC das Domésticas, que em 2013, sob o Governo Dilma, garantiu à categoria direitos que os trabalhadores com carteira já tinham.

Com curadoria da artista e educadora Renata Sampaio e da historiadora Raquel Barreto, e assistência do museólogo Phelipe Rezende, a mostra passou antes pelo IMS Poços e chega a São Paulo ampliada. São cerca de 160 itens, entre fotografias, reportagens, vídeos e documentos, e obras de aproximadamente 40 artistas. 

Para as curadoras, o ponto de partida é a origem do trabalho doméstico no Brasil. “Não há nada de mal com o trabalho doméstico. O problema é que, como o Brasil é uma sociedade em que a escravidão moldou as relações de trabalho, o trabalho doméstico foi carregado de um sentido muito negativo e definido como um lugar natural. Um lugar de negro, como dizia Lélia [Gonzalez], para a população negra brasileira”, afirma Raquel Barreto. “Dona Laudelina lutava pelo reconhecimento das trabalhadoras domésticas enquanto uma categoria da classe trabalhadora.”

Laudelina ouviu muitas vezes que não havia por que dar direitos a quem não gerava riqueza para o país. Em depoimento à pesquisadora Elisabete Aparecida Pinto, cuja dissertação de mestrado foi referência para a exposição, ela rebate: “Nós trazemos a economia, eles saem para trabalhar, principalmente a classe média, eles têm que trabalhar fora e então passam a escravizar a empregada doméstica”.

A herança da escravidão

A exposição se divide em sete núcleos. O primeiro, trata da história social do trabalho doméstico e de suas raízes na escravidão. As gravuras de Jean-Baptiste Debret aparecem mais como documento histórico. Renata argumenta que é difícil falar da herança do período colonial sem falar de Debret, já que suas pinturas ilustraram diversos livros de história e ajudaram a moldar o iminaginário coletivo daquele período. “É importante não ignorar o Debret, mas olhar com a criticidade histórica contemporânea”, diz. Esse olhar aparece na escolha de colocá-lo ao lado de Gê Viana, artista que se apropria de imagens de Debret para criar outras narrativas sobre aquele tempo.

Debret e Gê Viana são colocados lado a lado

Na pintura “Lavar a roupa suja da história”, Mariana Maia retrata lavadeiras, inspirada pelo ofício que Laudelina chegou a exercer ainda em Poços de Caldas. Já na instalação “Lavar e Erguer”, a mesma artista entrevista trabalhadoras e filhos de trabalhadoras domésticas. Na parede, uma bacia está fixada com a frase “Vozes Indomesticadas” gravada dentro. Dela, saem longas fitas vermelhas, cada uma apresenta uma das histórias que Mariana ouviu durante a pesquisa.

Obras de Mariana Maia

Apresentar apenas uma obra de Rosana Paulino foi um desafio para a curadoria, porque a imagem colonial atravessa o trabalho da artista há anos. A escolhida trata das amas de leite. Na obra, linhas saem dos seios das mulheres e terminam em garrafas com imagens históricas. Para Renata, a ama de leite resume uma contradição: num período em que o negro não era considerado gente, era ela quem alimentava “o bem mais precioso” da família.

 

Rosana Paulino, Ama de Leite

A parede dedicada ao trabalho doméstico nas artes visuais vai dos anos 1920, com a obra mais antiga da mostra, de Heitor dos Prazeres, até a produção contemporânea. Estão ali Maria Auxiliadora e Madalena Santos Reinbolt, artistas e trabalhadoras domésticas, começaram a pintar e não tiveram reconhecimento em vida. A história de Madalena mostra como eram ambíguas as relações com as empregadoras. Inicialmente, elas incentivaram o trabalho artístico de Madalena, mas não demoraram a demiti-la. Ter uma empregada artista era interessante, desde que isso não afetasse os afazeres da casa.

 

À esquerda, obra de Maria Auxiliadora. À direita, trabalho de Heitor dos Prazeres.

Arthur Bispo do Rosário também está presente: depois de um acidente, ele trabalhou como faz-tudo na casa do advogado que o ajudou. Enquanto a pintura “Panelada”, de Sidney Amaral, que foi professor, leva a pensar no lugar do homem negro nesse trabalho, às vezes como cozinheiro, jardineiro ou chofer. Ali também estão Glória Nogueira, a única artista da mostra que ainda trabalha como doméstica e que começou a pintar durante a pandemia, e a vassoura do coletivo Mulambö, com o título: “Queria um pincel, ganhei uma vassoura“.

Algumas das artistas, conta Renata, já “afirmam enquanto poética o lugar de filhas de trabalhadoras domésticas”. Esse era o critério desde o início, a maioria dos artistas da mostra tem histórias pessoais ligadas ao trabalho doméstico.

Histórico

O segundo núcleo é o mais documental e reúne registros da fundação das associações de Santos e de Campinas, dos congressos nacionais de trabalhadoras domésticas realizados a partir dos anos 1960 e uma série de fotografias de Laudelina em Brasília, durante a ditadura militar, como a única mulher em um grupo de homens. Ali está também um dos episódios menos conhecidos da sua biografia – e que surpreendeu as curadoras: entre 1942 e 1945, ela foi voluntária na Defesa Passiva Antiaérea e na Organização Feminina Auxiliar de Guerra, que apoiava os brasileiros na Segunda Guerra Mundial. A farda que usou e as condecorações que recebeu são os únicos objetos pessoais de Laudelina na exposição. Em diálogo, estão fotografias de Januário Garcia e do Zumví Arquivo Afro Fotográfico, de Lázaro Roberto, que registraram o movimento negro e a organização das lavadeiras na Bahia.

O terceiro núcleo parte de uma carta anônima enviada a Laudelina em 1961 por alguém que se apresentava como defensor das “patroas”. Ali estão manuais de “domesticação”, fichas policiais e médicas e anúncios racistas de emprego que ela combateu nos anos 1950. O núcleo trata também de como as telenovelas moldaram o imaginário sobre o trabalho doméstico, ao relegar atrizes negras a esses papéis até pouco tempo atrás. Na pintura de Kika Carvalho, homenageia atrizes como Léa Garcia, Ruth de Souza e Chica Xavier, que sentadas frente a uma mesa de café da manhã, como os das novelas de Manoel Carlos, parecem convidar o espectador a participar da cena.

Kika Carvalho, “Seu Chopin, desculpe”, 2025.

Festa, arte e feijoada

Outra surpresa para as curadoras foi a vocação de Laudelina para a produção cultural. Ela entendia que parte da luta era festa, alegria, autoestima e convivência. “Quando se torna sindicalista, transforma os bailes em uma política de promoção da celebração da beleza, da autoestima e da alegria negra”, diz o texto curatorial. “Para Laudelina, era importante ocupar todos os espaços que as pessoas brancas ocupavam em pé de igualdade, ter direito a tudo que elas também possuíam, inclusive o luxo.”

O núcleo Pérola negra reúne fotografias, convites e reportagens sobre os bailes que ela organizou, como o Baile Pérola Negra, o mais famoso, cuja grandiosidade aparece numa reportagem da revista O Cruzeiro. A música que toca na sala resulta de uma pesquisa do IMS sobre o repertório daquelas festas. “Quando a gente pensa nessas festividades de gala, vem muito o movimento negro americano. Pensar que isso, que parece cinema, aconteceu no Brasil, em Campinas…”, reflete Renata. Duas obras foram feitas para a mostra: um vestido de festa da Rainha Favelada e um trabalho de Mitti Mendonça que recria uma das fotografias encontradas na pesquisa. Parte das imagens vem da coleção de Gloria Bardi, funcionária da Unicamp que reúne fotografias dos bailes negros da cidade. A artista e DJ campineira Sabrina Savani completa o núcleo com uma frase que resume a ideia: “O que afasta a miséria é a festa”.

No quinto núcleo, Laudelina articuladora cultural, está o I Salão Campineiro dos Amigos das Belas-Artes, organizado por ela. Foi ali que se revelou o pintor Mário de Oliveira. Segundo a curadoria, Laudelina o viu pintando a parede de um açougue e disse: “Você não é um pintor de açougue, você é um artista”. A equipe localizou a família do pintor, e dois de seus quadros estão na exposição. O núcleo trata também da Escola de Bailados Santa Efigênia, que ela fundou em 1955 numa Campinas tão segregada que as meninas negras não eram aceitas nas escolas. A escola oferecia balé, jazz, sapateado, dança folclórica e, depois, música, e acabou atraindo também alunas brancas. Em diálogo, está a obra “Eu também sei dançar“, de Jefferson Medeiros.

O sexto núcleo surgiu por meio das conversas com mulheres que conviveram com Laudelina. Todas falaram, com saudade, da sua feijoada. Ela vendia acarajé, salgados e feijoadas, e essa renda sustentava os espaços de militância. Daí nasceu Cozinhar: gesto de luta, o único núcleo sem obra comissionada, porque os trabalhos existentes já tratavam do feijão, como o da Josi, com suas aquarelas pintadas a partir da água do grão.

O quartinho

Silvana Marcelina demarca no chão, com fitas azuis, um “quartinho de empregada” de um prédio real de Niterói, com 1,40 m de largura por 1,91 m de comprimento. O quarto não tem paredes, e um estrado de madeira suspenso marca a linha do teto. A obra integra a série “Dependências“, para a qual a artista fez uma chamada pública e coletou as medidas de quartinhos de apartamentos reais.

A pesquisa começou em 2021, ainda na pandemia, quando a mãe de Silvana, babá há 25 anos, passou três meses trabalhando para uma família sem receber. “Esse meu lugar de filha é complexo, porque eu consigo, talvez por estar distanciada, ter um olhar mais crítico. Mas minha mãe está lá, então tenho que respeitar também o lugar dela”, diz Silvana. Ela decidiu “digerir a angústia de outra forma” e levou o tema para o trabalho de conclusão do curso de artes visuais. Antes, havia se formado e feito mestrado em serviço social. Foi a primeira da família a entrar na universidade.

No quartinho, o visitante pode deitar na cama, colocar os fones e ouvir a mãe da artista contar sua experiência como babá, do pior e do melhor quarto em que já dormiu até o sonho de ver prosperar seu negócio de biscoitos. Na cabeceira estão livros que trazem a voz das trabalhadoras, como Eu, empregada doméstica, de Preta Rara. A intenção, explica Silvana, é contrapor ao confinamento e à precarização “a singularidade das mulheres que ocupam esse lugar, os sonhos que elas têm, o senso de dignidade, o olhar que elas têm para a profissão”. Por isso o quarto não tem paredes. Em outra versão da série, ainda menor, ela construiu as paredes e reproduziu em áudio frases como “ela é quase da família”. “Aquele, para mim, é o quarto do confinamento. Este é o quarto em que as vozes das mulheres escapam, conseguem reverberar para além desse lugar”, compara.

A mãe da artista, que costuma dizer que não entende o que a filha faz, só ouviu a gravação na exposição de formatura. Ao ver um visitante deitado na cama com os fones sobre as orelhas, perguntou o que ele estava ouvindo. “Ele está ouvindo você”, respondeu Silvana. Quando chegou sua vez, ela se deitou, ouviu a própria voz e se emocionou.

O direito ao descanso

O último núcleo leva o nome da frase de Laudelina sobre a casa e trata do direito a um lar, a um espaço de organização e ao descanso. Uma bandeira de Luiza Leão diz: um corpo cansado é um corpo facilmente dominável descansar é um ato revolucionário

Bandeira de Luiza Leão

A cadeira de balanço de Dyana Santos, obra interativa coberta por uma penca de balangandãs, integra o núcleo. Os pingentes de cobre e aço remetem ao trabalho doméstico, mas também à militância de Laudelina, à sua atuação na guerra e até à pista de patinação no gelo que ela promoveu, representada por um pequeno patins. “Quando a gente pensa na imagem da trabalhadora doméstica, ainda encaixota ela dentro dessa imagem da servidão, e a subjetividade, o lazer, ficam de lado. E Laudelina era múltipla”, diz a artista.

Os materiais vêm da história familiar de Dyana. O cobre, do pai, eletricista; e a costura e o bordado, que vêm da mãe e da avó. A mãe dela também trabalhou como empregada doméstica, dormindo na casa dos patrões, antes de se tornar costureira. Dyana se considera da primeira geração da família a ter acesso ao estudo, o que atribui às políticas afirmativas. Esta é a sua segunda cadeira. A primeira, feita em 2024 durante a residência Bolsa Pampulha, em Belo Horizonte, homenageava as mulheres que ajudaram Matias, homem escravizado na região do Barreiro que se rebelou depois de ser vendido. As duas, diz ela, tratam do “direito político ao descanso”.

Obra de Dyana Santos

O núcleo ganha novos contornos neste momento em que, no dia 16 de outubro, o Congresso promulgou a emenda constitucional que acaba com a escala 6×1. Em 60 dias, a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado, e chega a 40 horas em 14 meses. Entre as trabalhadoras domésticas, porém, a mudança ainda alcança uma parcela pequena da categoria, já que a maioria não tem registro formal. 

Neste ponto da mostra, são homenageadas também as mulheres que a curadoria chama de “Laudelinas contemporâneas”: a rapper Preta Rara, Benedita da Silva e Mirtes Renata de Souza, mãe do menino Miguel, que depois da morte do filho estudou direito e escreveu seu trabalho de conclusão de curso sobre trabalho escravo e trabalho doméstico. Em São Paulo, o TCC está exposto na íntegra. Também ali, o clipe de Boa Esperança, de Emicida, mostra trabalhadoras domésticas que se rebelam e tomam a casa dos patrões.

Segundo a curadoria, Laudelina se afastou da família de Poços de Caldas para que a casa ficasse para a luta. A equipe só conseguiu localizar um sobrinho, que esteve na abertura em Poços. “A gente deseja muito que trabalhadoras domésticas venham aqui e que se sintam orgulhosas, que se sintam identificadas na dona Laudelina”, diz Raquel.

Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello fica em cartaz até 22 de novembro, no IMS Paulista (Av. Paulista, 2424), com entrada gratuita.


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