Obra Un Hombre que Camina 2
Obra Un Hombre que Camina 2, de Oscar Leone

O Desafio do (Im)possível é mais que um tema, é a marca da 13ª Bienal de Havana, exposição que volta ao circuito de arte depois de um hiato de mais de três anos. O momento é especial, coincide com os 500 anos da fundação de Havana e os 30 da Bienal. Por uma semana ando cerca de 35 quilômetros por entre vários bairros que acolhem o evento, em busca dos desafios propostos. Afinal, quando chegamos a uma bienal, em qualquer país, queremos ver como o evento captou, reproduziu e elegeu o que se faz no momento em arte. Há muitas mediações superpostas na Bienal de Havana desde a sua fundação em 1984: a arquitetura do lugar, sua carga histórica, a crise financeira local e a dos países participantes.

Vista pelo retrovisor, por quem esteve em todas as edições anteriores, esta é a mais enxuta, embora tenha 170 artistas, e a menos cenográfica. A curadoria é assinada pelo pool de curadores da Bienal capitaneada pelo crítico Nelson Herrera Ysla. O momento é de reflexão, não há purpurina para os olhos. Bienais fazem história desfazendo as realizações e significações anteriores. As últimas edições das bienais de São Paulo, Veneza e a Documenta de Kassel, comprovam essa tese, todas revelam uma crise de identidade na arte contemporânea. O fio que conduz boa parte das obras desta 13ª edição parece desencapado, assim como os que ligam os diálogos deste momento mundial.

Do Centro Wifredo Lam, sede da Bienal, saio com três trabalhos na cabeça. O primeiro deles, Verso-Recto-Recto-Verso, da indiana multimídia Rena Saini Kallat, uma imensa instalação que aborda a questão dos países divididos ou em conflito, como Índia/Paquistão, Estados Unidos/Cuba, Coreia do Norte/ Coreia do Sul, entre outros. Tiras largas de seda azul vão do teto ao chão-, são confeccionadas por tecelões de Bhuj, cidade indiana-, e exibem vocábulos em escrita convencional e em braile. O jogo de palavras transforma-se em um texto ininteligível tanto para os cegos como para os videntes. O desejo de surpreender é claro e consegue. Cada significado de uma palavra é conectado por vários outros. O resultado é confuso, crítico e proposital. A artista usa a cegueira como metáfora da amnésia coletiva que, em sua opinião, contamina os valores sobre os quais essas nações foram erguidas.

Ao entrar na sala de Oscar Leone, um jovem colombiano vide oartista, penso logo em Pierre Restany, o icônico crítico francês, já morto, que dizia não ter paciência para videoarte.

Logo de início percebo que as imagens podem se transformar num caldo ácido e crítico. A obra é longa, mais de uma hora, e vejo boa parte dela. Além do mais, lá fora o sol queima como no Senegal. Sequência de um homem que caminha (a terra) é uma vídeo performance que aparentemente fala da relação entre o homem e a paisagem, mas vai além. O personagem carrega nos ombros um pernil de vaca por extenso percurso entre colinas, vales, montanhas até chegar a Bogotá, centro político e financeiro da Colômbia.

O discurso visual parece logo ultrapassar o estágio do processo local e exprime a tensão em que vivem milhões de pessoas. Sua caminhada toca em territorialidade, fome, mutações subjetivas e sobrevivência. Leone já expôs Imagens da Natureza no Espaço das Artes ECA/USP, em 2017, e agora deixa em aberto uma reflexão sobre em que consiste a mutação que ainda nos espera no futuro.

Por último, adentro a instalação Blanco da cubana Tamara Campo que procura levar o espectador a vários deslocamentos pela sala ladeada de centenas de finos pedaços de plástico branco, que formam dois triângulos cujos eixos criam um ponto de tensão e de encontro. A intenção, embora não confessa, é cenográfica, mas fica atenuada pela museografia que a “instalou” em uma sala que deveria ter no mínimo o dobro de espaço. O que permanece é uma atitude antagônica, a intimidade. A ideia era fazer o visitante multiplicar deslocamentos testando sua percepção numa trama de entrega e reflexão.
Andando pelos pontos expositivos espalhados por Havana me lembro de ter visto nas edições anteriores colecionadores, diretores de museus, críticos, jornalistas e artistas estrangeiros tentando descobrir a produção cubana. Eles atuavam como exploradores da selva quando encontram uma cidade perdida.

Hoje isso está um pouco diferente, muitos museus  latino – americanos, europeus e americanos já conhecem a arte da Ilha, fato que coloca Cuba, eventualmente, na lista de algumas exposições relevantes.

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