Por Bibiana Belisário
Ainda era madrugada quando Maria José de Lima Soares girou a chave da porta de casa. Voltara do arraial poucas horas antes, mas o descanso nunca fez parte do calendário do dia 30 de junho. Havia um batalhão inteiro esperando que ela chegasse e o corpo conhecia esse percurso havia décadas. Dormir podia esperar. São Marçal, não.
Enquanto boa parte do Nordeste desperta para desmontar bandeirinhas e apagar as últimas brasas das fogueiras de Santo Antônio, São João e São Pedro, em São Luís acontece o contrário. É justamente quando junho parece chegar ao fim que a capital maranhense decide prolongá-lo por mais um dia celebrando o padroeiro e protetor do Bumba Meu Boi.

Antes das seis da manhã, a Avenida São Marçal, no bairro João Paulo, já não pertence aos carros. Realizado todos os dias 30 de junho há quase um século, o Encontro de Bois de São Marçal chega, em 2026, à sua 99ª edição. Reunindo dezenas de grupos, especialmente do sotaque de matraca, tornou-se o encerramento simbólico do ciclo junino maranhense.
Das esquinas surgem homens carregando enormes pandeirões de couro. Depois vêm as matracas. Primeiro uma, depois outra, até que centenas delas passam a conversar entre si. Madeira contra madeira, um estalo seco, contínuo, quase hipnótico. Antes mesmo que os olhos alcancem os primeiros batalhões, é o som que ocupa a cidade.
Então aparecem as cores. Chapéus bordados de miçangas refletem a luz recém-nascida do sol. Fitas dançam ao vento, cocares de penas desenham movimentos largos sobre a multidão, crianças seguram pequenas matracas com a mesma seriedade dos adultos. Não existe público claramente definido e quem chega para assistir acaba dançando. Até a madrugada de 1º de julho, a avenida se transforma num imenso corpo brincante que pulsa ao ritmo do bumba meu boi.

É ali que Maria do Maracanã chega. Seu nome de batismo quase desapareceu diante da dimensão que assumiu dentro da cultura popular maranhense. Presidenta do tradicional Boi de Maracanã, conhece cada etapa da festa que brilha diante dos olhos do público, mas também aquelas durante os outros onze meses do ano.
“É um momento de celebração de todo um trabalho de 365 dias que a gente fica no barracão. Hoje a gente vem consagrar esse momento no São Marçal. Não é fácil chegar até aqui. São muitas dificuldades, mas a gente consegue suportar e resistir para manter essa tradição da cultura popular do Maranhão viva.”
O trabalho não termina quando as matracas silenciam. “O ano todo a gente brinca. Tem visita nas comunidades, o domingo de Páscoa, quando a gente conhece as novas toadas. Depois vêm os ensaios, as prévias e o São João, que termina hoje aqui, em São Marçal.”
Com registros documentais desde o final do século XVIII, o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. Em 2019, o reconhecimento ultrapassou as fronteiras brasileiras, quando a UNESCO lhe concedeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
No Maranhão, brincar boi é assumir um compromisso com uma herança que se transmite pelos corpos e pelo som. Para a pesquisadora Diana Taylor, há saberes que sobrevivem menos nos arquivos do que no repertório: aquilo que os corpos repetem, cantam, dançam e ensinam uns aos outros.
As matracas continuam marcando o compasso quando o Boi de Maracanã entra na avenida e o batalhão avança como quem conhece exatamente o peso daquele momento. O manto bordado cintila enquanto o boi serpenteia, como se ganhasse respiração humana a cada passo. Em volta, centenas de pessoas caminham na mesma direção, espremidas entre vendedores de comidas típicas, espetinhos, garrafas de água equilibradas em caixas de isopor.
“Minha história é cheia de malabarismos”, resume Maria. No boi, ela começou ainda menina, como mutuca — personagem que corre ao redor do boi batendo matraca e animando o batalhão. Décadas à frente, assumiu uma responsabilidade que nunca imaginou desejar. Em 1996, seu companheiro Humberto do Maracanã, uma das maiores referências da cultura popular maranhense, decidiu que tinha que ter uma pessoa de confiança para cuidar do boi, e ela tornou-se presidenta do grupo.
“Eu queria era estar no batalhão, brincando, bebendo sem compromisso. Quem toca o sino não acompanha a procissão”, brinca. Logo completa: “É um cuidar redobrado. Um cuidado de carinho, de amor, de responsabilidade.”

Quem administra um boi carrega também suas preocupações permanentes. No Boi de Maracanã, mais de mil pessoas participam diretamente da brincadeira entre músicos, cantadores, bordadeiras, artesãos, brincantes e equipes de apoio.
“A gente chega de ônibus, a pé, de carona. Todo mundo dá seu jeito de chegar.” No fundo, ninguém chega apenas porque foi convocado, mas sim porque pertence.
Essa ideia atravessa o dia inteiro entre os diversos grupos que passam pela avenida e carregam consigo seus bairros antigos, os povoados do interior e uma ilha inteira de devoção. Se Maracanã é um dos nomes incontornáveis do sotaque de matraca, o Maioba ocupa lugar igualmente central na memória afetiva do Maranhão.
José Raimundo Ferreira Filho observa tudo sem esconder o orgulho. Diretor do Maioba, ele fala sobre continuidade. “Tudo começa da geração. Do meu avô, do meu pai e agora do filho, do neto. É uma geração contínua de paixão.”
Nascido no Paço do Lumiar, o grupo hoje ocupa um lugar central na memória da ilha. “A tradição vem se sustentando através do povo. Não é só o boi. É o povo que faz a tradição. O Boi da Maioba chega com aquela produção toda, mas, se não tiver o povo, ele não brinca. Sem o povo, não faz a Maioba.”
O que atravessa a Avenida São Marçal é uma genealogia inteira, onde cada brincante carrega consigo alguém que veio antes. À medida que a tarde avança, o calor diminui, mas a avenida só cresce. O cansaço aparece nos rostos, nas roupas encharcadas de suor, nas mãos marcadas pelas matracas. Ainda assim, ninguém parece disposto a abandonar o cortejo.
Há algo de romaria naquele caminhar, uma peregrinação feita de couro, madeira e canto. “A fé é o nome culminante que a gente se dá para resistir nesse cuidar. Porque não é fácil. É muito caro”, afirma Maria. São Marçal tornou-se aquele a quem se agradece por mais um ciclo cumprido e diante de quem se reafirma o desejo de seguir.
O bumba meu boi não atravessou mais de dois séculos de história brasileira permanecendo igual a si mesmo. Incorporou novas sonoridades, reinventou indumentárias, dialogou com tecnologias, passou a circular por outros espaços e conquistou novos públicos. Continuou reconhecível justamente porque nunca deixou de se transformar.
Mas nem mesmo São Marçal encerra completamente o ciclo. “A morte do boi acontece no segundo domingo de agosto”, explica Maria. Depois disso ainda vêm congressos, seminários, apresentações, viagens pelo Maranhão e por outros estados. O calendário da brincadeira apenas muda de ritmo.
A ideia de tempo espiralar, proposta por Leda Maria Martins, encontra em São Marçal uma expressão quase palpável. O passado reaparece cada vez que uma criança aprende uma toada, cada vez que um mestre ensina o compasso de uma matraca, cada vez que um batalhão volta a ocupar a avenida.
José Raimundo enxerga esse futuro diante dos próprios olhos. “Hoje em dia as crianças estão mais amorosas pelo boi. É uma geração que vai continuar.”
Quando Maria do Maracanã voltar a girar a chave da porta de casa, provavelmente já será noite outra vez e a festa terá terminado apenas por enquanto. Talvez consiga dormir um pouco mais do que na véspera, ou não. Mas a certeza é de que em poucos meses o barracão voltará a encher.
E, quando o próximo 30 de junho chegar, as primeiras matracas voltarão a responder umas às outras antes mesmo que o sol nasça. Como se, no Maranhão, junho nunca tivesse ido embora. Ou, quem sabe, como se algumas formas de memória simplesmente se recusassem a terminar.





