Omar Salomão e Mirella Schena
Omar Salomão e Mirella Schena, curador e coordenadora artístico-cultural do Parque Cultural Casa do Governador, 2026. Foto: Fabíola Fraga.

Por Giuliano de Miranda

Entre esculturas, jardins e o mar, o Parque Cultural Casa do Governador consolidou-se como uma das iniciativas mais singulares da arte contemporânea brasileira. Reunindo obras de importantes artistas, exposições temporárias, ações educativas e uma proposta curatorial que transforma a paisagem em parte da experiência estética, o espaço tornou-se referência por integrar arte, natureza e formação de público em um mesmo projeto cultural.

Carlos Vilar
Escultura de José Carlos Vilar, Ondas, 2025, aço. Foto: Fabíola Fraga.

A experiência proposta rompe com o modelo tradicional dos museus fechados. O visitante encontra jardins, caminhos, árvores e o horizonte do mar integrados às obras. A paisagem se torna elemento constitutivo da própria experiência artística, já que cada caminhada produz novos enquadramentos, novas relações entre luz, vegetação e escultura, fazendo com que nenhuma visita seja igual à anterior.

Natan Dias
Escultura de Natan Dias, Movimento à tecnologia, 2021, aço, Foto: Fabíola Fraga.

Ao longo dos últimos anos, o Parque reuniu um acervo com artistas do Espírito Santo e nomes fundamentais da arte brasileira, em um diálogo permanente entre a produção local e o circuito nacional da arte contemporânea. Essa convivência amplia repertórios, fortalece a visibilidade dos artistas capixabas e insere o Estado em um cenário que historicamente concentrou suas principais instituições culturais entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Para o diretor curatorial, Omar Salomão, a experiência do visitante constitui o principal eixo do projeto: “Você caminha em meio as árvores e, de repente, encontra uma escultura. Em outro momento, ela aparece novamente sob outra luz, em outro enquadramento. O visitante está sempre em movimento, e a própria obra também muda de acordo com esse deslocamento, nesse contexto, caminhar transforma-se em parte da fruição estética. Nesse percurso, o visitante desacelera, observa a paisagem, percebe a mudança da luz e estabelece relações que dificilmente seriam possíveis em um ambiente expositivo convencional. A contemplação acontece em movimento, aproximando arte, arquitetura e natureza”.

Essa concepção também orientou a formação do acervo permanente de esculturas. Sem restringir a coleção exclusivamente à produção regional nem concentrá-la apenas em artistas consagrados de outros estados, o Parque construiu um conjunto capaz de promover encontros entre diferentes gerações, linguagens e pesquisas da arte contemporânea.

Um dos pontos altos desse expressivo acervo artístico está no Magic Square #3, Invenção da Cor, Penetrável, de Hélio Oiticica, uma das figuras centrais da arte brasileira do século XX. Sua presença amplia o diálogo entre a produção capixaba e um dos mais importantes legados da arte contemporânea brasileira, reforçando a vocação do Parque como espaço de intercâmbio, pesquisa e circulação de ideias. Na avaliação do curador, essa convivência entre artistas de diferentes origens e trajetórias amplia as possibilidades de leitura do público e contribui para inserir a produção realizada no Espírito Santo em um diálogo mais amplo com a arte contemporânea brasileira.

Hélio Oiticica
Obra de Hélio Oiticica, Magic Square #3, 1977/2026. Pintura sobre alvenaria, cobertura de policarbonato, granitina, 5 x 15 x 15 metros. Foto: Fabíola Fraga.

Outro núcleo importante é a Galeria Gabinete, espaço expositivo instalado no antigo gabinete da residência que hoje integra o Parque. Dedicada às exposições temporárias, a galeria amplia as possibilidades curatoriais da instituição ao apresentar não apenas obras concluídas, mas também processos de criação, pesquisas e experimentações artísticas. Em algumas mostras, o público acompanha etapas do trabalho dos artistas, aproximando-se dos caminhos que antecedem a realização das obras e ampliando sua compreensão sobre a arte contemporânea.

Mais do que reunir um acervo qualificado, porém, o Parque busca construir uma relação permanente com seus visitantes. Para o curador, grandes eventos, concertos e inaugurações são importantes, mas não definem o sucesso de uma instituição cultural. O verdadeiro desafio consiste em fazer com que as pessoas retornem ao espaço simplesmente pelo desejo de estar ali. É essa transformação que, segundo ele, já começa a acontecer. Essa mudança torna-se ainda mais evidente na forma como diferentes públicos passaram a ocupar o espaço.

Galeria Gabinete
Fachada da Galeria Gabinete. Foto: Fabíola Fraga.

Nos primeiros meses de funcionamento, muitos visitantes aproximavam-se das esculturas com certa cautela, inseguros diante da linguagem da arte contemporânea. Com o tempo, essa relação tornou-se mais espontânea. Crianças circulam livremente pelos jardins, famílias retornam com frequência e grupos de visitantes passam a reconhecer obras e artistas, incorporando o Parque aos seus roteiros culturais.

“O Parque cria outro tempo”, observa Omar Salomão. “Ao interromper o ritmo acelerado da cidade, ele convida as pessoas a caminhar sem pressa, observar, conversar e descobrir.”

José Bechara
Escultura de José Bechara, Falta, 2025, mármore, pedra sabão e aço pintado. Foto: Fabíola Fraga.

A construção desse vínculo cotidiano também se reflete na programação desenvolvida ao longo do ano. Para a coordenadora artístico-cultural do Parque, Mirella Schena, a identidade da instituição não está apenas nas grandes exposições ou eventos especiais, mas na continuidade das ações que aproximam diferentes públicos da arte contemporânea. “O nosso principal pilar é a educação”, afirma.

A partir desse princípio, o Parque estruturou a Escola Livre de Artes, programa que reúne visitas mediadas, oficinas, palestras, encontros, atividades para escolas e seminários. A iniciativa busca oferecer experiências continuadas de formação, transformando a mediação cultural em parte central da proposta da instituição, e não apenas em uma atividade complementar às exposições.

Segundo Mirella, o objetivo é ampliar continuamente essas ações, criando oportunidades para que visitantes de diferentes idades desenvolvam uma relação permanente com o espaço. A proposta inclui cursos de maior duração e novas parcerias com instituições de ensino e pesquisa, fortalecendo a dimensão educativa do Parque.  A experiência da visita deixa de se restringir à contemplação das esculturas e passa a estimular a observação, a reflexão e o diálogo sobre a produção artística contemporânea. Essa dimensão educativa é acompanhada por um trabalho permanente de conservação do acervo. Atualmente, o Parque reúne cerca de trinta obras, sendo vinte e oito permanentes, distribuídas por jardins e áreas abertas. Expostas diariamente à maresia, aos ventos e às variações climáticas características do litoral do Espírito Santo, as esculturas passam por monitoramento e manutenção especializados, garantindo sua preservação sem interferir na experiência do visitante.

As instituições culturais buscam aproximar novos públicos da arte contemporânea, sendo assim, o Parque demonstra que essa aproximação pode ser construída pela experiência cotidiana. A visita passa a fazer parte da rotina de moradores, estudantes, pesquisadores e turistas, transformando o espaço em um ambiente permanente de encontro entre arte, paisagem e conhecimento.

Castiel Vitorino
Instalação de Castiel Vitorino Brasileiro, Sutilezas do tempo, 2024, bambu a pique, estrutura de madeira, muro de pedra, quartzo bruto e cristal bruto. Foto: Fabíola Fraga.

No Espírito Santo, essa combinação transformou o Parque Cultural Casa do Governador em uma referência nacional para a arte contemporânea ao ar livre, um espaço de encontro, descoberta e permanência, onde a arte é parte da experiência cotidiana de seus visitantes.


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