Danilo Santos de Miranda. FOTO: Divulgação

Danilo Santos de Miranda, 76, é hoje uma das figuras mais atuantes e influentes na área cultural no país. Diretor regional do Sesc-SP (Serviço Social do Comércio) há 35 anos, promoveu uma enorme expansão e qualificação do trabalho da instituição no estado de São Paulo, voltado para cultura, educação, esporte, lazer, alimentação e meio ambiente. “É isso que eu chamo, amplamente, de sociocultural, esse campo vastíssimo que torna as pessoas mais capazes de se entenderem, conhecerem a si mesmas, conhecerem o outro e conhecerem o mundo a sua volta, indispensável para uma sociedade que pretende melhorar, crescer e se desenvolver”, diz ele em entrevista à ARTE!Brasileiros.

Tamanho reconhecimento da ação do Sesc-SP, que acaba de inaugurar uma grande unidade em Guarulhos, não foi suficiente para tirá-lo da mira do governo Jair Bolsonaro (PSL), especialmente de seu ministro da Fazenda, Paulo Guedes, que afirmou que pretende “meter a faca” no Sistema S. Formado por diversas instituições – como Sesc, Sesi, Senai e Sebrae – o sistema é financiado por taxas compulsórias cobradas na folha de pagamento das empresas (em 2018 teve um orçamento de cerca de R$ 17 bilhões) e tem um controle público através do Tribunal de Contas.

Para Miranda, nunca se viu uma incompreensão tão grande da importância do trabalho do Sesc desde sua fundação, nos anos 1940. “Falta conhecimento dessa complexidade, desses 72 aos de história realizando uma ação muito efetiva pelo Brasil afora e em São Paulo de modo específico. Temos muito capital de conhecimento acumulado, muita bagagem recolhida. Não se pode vir e dizer que vai cortar aqui ou ali pura e simplesmente.”

Mais do que isso, o diretor-geral da instituição, formado em sociologia e filosofia, se diz estarrecido com a falta de percepção da importância do conhecimento, da filosofia, da ciência, da pesquisa, do estudo, das artes e da cultura. Sem isso tudo, diz ele, surge o risco de formarmos um país “supermaterializado”, onde só vale aquilo que tem resultado prático e palpável. “E isso é o início do debacle, o início do fim, porque significa ter um povo sem informação, sem conhecimento e sem participação efetiva na sua história, no conhecimento de suas raízes, suas origens, seus destinos, suas perspectivas. E sobretudo é uma ameaça do ponto de vista ético, porque a partir daí vale a lei do mais forte, a lei do mais violento. E aí vamos criar uma sociedade de brucutus, o que é muito perigoso para o país.”

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

ARTE!Brasileiros – O Sesc acaba de abrir uma unidade em Guarulhos. Qual a importância dessa inauguração para o Sesc e para a cidade de Guarulhos?

Danilo Santos de Miranda – É muito importante para a cidade, para o Estado, enfim, para tudo o que nós fazemos. É uma realização já planejada há algum tempo, assim como outras que temos em previsão, e ela tem praticamente uma síntese da ação que o Sesc realiza. Tudo que o que fazemos está lá em Guarulhos. É uma unidade bem completa, eclética, bastante ampla, generosa do ponto de vista espacial e do ponto de vista programático. E está em uma cidade que tem a segunda maior população do Estado, depois da capital, e que estava carente de uma unidade com as características que o Sesc oferece. Então para nós é um encontro imenso de interesses. O nosso interesse em expandir a ação da instituição e o interesse enorme da cidade em ter um Sesc que pudesse atender a sua população e a das cidades próximas também. Existe ali perto uma população bastante carente, periférica, que necessita de muitas coisas que nós realizamos.

Existe nesta unidade uma pauta ambiental muito forte. É algo que o Sesc está buscando aprofundar?

Nós recebemos ali o complemento de uma área que quase dobra nosso terreno, e que é voltada para um programa amplo de educação ambiental junto às escolas do bairro e da cidade, junto à população e aos formadores de opinião. Ou seja, pensar sobre a relação com a natureza de um modo geral, pensar de maneira adequada sobre o uso dos produtos que a natureza oferece, seja para a alimentação, seja para a vivência das pessoas, para tudo que nós temos à disposição. Teremos oficinas, encontros, debates e a oportunidade até mesmo de realizar experiências com as crianças no que diz respeito à produção ligada à natureza, plantando, colhendo e realizando uma ação bastante efetiva.

Isso significa, portanto, que apesar das ameaças de cortes no Sistema S, o Sesc segue trabalhando normalmente, sem retrair sua atuação por medo do que pode vir?

Exato. Claro que nós temos uma antena muito bem ligada em tudo que está acontecendo à nossa volta. Mas é claro também que o modo mais prático e objetivo que temos é continuar trabalhando e mostrando a importância e o significado do que fazemos para a sociedade, para a população, para a melhoria de vida. Então nós tocamos esse barco com a maior naturalidade, querendo mostrar para as pessoas, sejam as que frequentam ou as que tomam decisões atualmente no país, que o que nós fazemos é indispensável, essencial para a população, para a sociedade e para o desenvolvimento do próprio país.

Isso é uma maneira, digamos, de reafirmar não a nossa importância enquanto instituição, não de dizer que a gente faz o melhor programa do mundo – não se trata de uma afirmação institucional pela vaidade, isso não nos interessa –, mas simplesmente de dizer que o campo sociocultural de modo geral, esse campo vastíssimo que torna as pessoas mais capazes de se entenderem, conhecerem a si mesmas, conhecerem o outro e conhecerem o mundo a sua volta, é indispensável para uma sociedade que se pretende melhorar, crescer e se desenvolver. Então nós temos que entender isso como algo absolutamente essencial. E a maneira que nós temos de fazer isso é continuar o nosso trabalho, levar adiante.

O Sesc, e mais especificamente o Sesc São Paulo, tem um longo e reconhecido trabalho nas áreas da Cultura e da Educação. Cultura e Educação, justamente, são áreas que parecem bastante ameaçadas nas políticas do atual governo federal. Como o senhor enxerga esse momento e quais os riscos que vê para a sociedade com as novas políticas e propostas? 

Eu acho muito perigoso, sobretudo, uma manifestação que se ouve com relação ao conhecimento, à informação, à ciência, à filosofia, à sociologia, como se fossem inimigos de um país que pretende se desenvolver, crescer e melhorar para todos. E também contra as artes e as manifestações do simbólico de modo geral, como se fossem coisas supérfluas, desnecessárias, desimportantes. Esse campo todo que eu chamo, muito vastamente e amplamente, de campo do sociocultural, seja do conhecimento ou seja das práticas, é vital e essencial. Eu espero que percebam cada vez mais e melhor como é perigosa essa afirmação de que o conhecimento, a filosofia, a ciência, a pesquisa, o estudo, as artes e a cultura não são importantes. Isso é muito perigoso e significa a formação de um país supermaterializado, onde só vale aquilo que tem resultado prático e palpável. E isso é o início do debacle, o início do fim, porque isso significa ter um povo sem informação, sem conhecimento e sem participação efetiva na sua história, no conhecimento de suas raízes, suas origens, seus destinos, suas perspectivas. E sobretudo é uma ameaça do ponto de vista ético, porque a partir daí vale a lei do mais forte, a lei do mais violento. E aí vamos criar uma sociedade de brucutus, o que é muito perigoso para o país.

Nesse sentido, como o senhor mesmo disse em entrevista recente à Folha de S.Paulo, existe um discurso de que as instituições do Sistema S deveriam focar principalmente na formação de profissionais, no que o senhor chamou de uma “perspectiva economicista precária”. Poderia explicar melhor o que quis dizer?

Existem dentro do chamado Sistema S as instituições vocacionadas para a formação profissional, que são necessárias e importantes desde os anos 1940, que foram criadas com essa perspectiva. Mas existem também dentro do Sistema S outras instituições que não são para isso, que trabalham na perspectiva do bem-estar, do lazer, da cultura, do esporte inclusivo e democrático – o esporte não competitivo, mas que inclusive abriu caminho para muitos atletas profissionais, como o Pelé, por exemplo. Isso tudo faz parte da nossa proposta como algo inerente ao nosso dia a dia. E uma coisa que eu acho fundamental, e digo sem querer gerar polêmica, é que, se conhecerem mais profundamente o nosso trabalho, se mergulharem efetivamente no que nós fazemos, do ponto de vista educativo, eles vão provavelmente não só respeitar e considerar os recursos que temos como adequados, ou irão até mesmo pensar em destinar mais recursos para que isso possa ser feito. Porque essa é, do nosso ponto de vista, a grande formação do povo, de uma maneira mais integral, mais plena, onde todos os aspectos do ser humano são levadas em conta. E aí não estou falando só da cultura e da educação, mas das atividades físicas, da alimentação, da saúde de modo geral, da questão ambiental, da nossa relação conosco mesmo, com o outro e com a sociedade à nossa volta. Tudo isso é essência do processo educativo, que nós procuramos fazer da maneira mais completa possível.

O Sesc Pompeia, projetado por Lina Bo Bardi e inaugurado em 1982. FOTO: Divulgação

A pluralidade de opiniões e de manifestações artísticas, o respeito à diversidade e o espaço para debates e discordâncias são marcas das atividades do Sesc. Você diria que essa é uma característica que incomoda alguns de nossos governantes, que parecem ter pouco apreço pela pluralidade e pelo debate?

Pode ser que sim. A diversidade é essencial em uma sociedade plural como a nossa. Em qualquer sociedade, eu diria. E, nesse sentido, contemplar as diversas linguagens e todas as questões que dizem respeito à diversidade – no tocante a raça, cor, religião, opção sexual, ao modo de enxergar as coisas, às visões sobre nossa história e política –, tudo isso é indispensável. E essa variedade é, sem dúvida, parte do DNA de origem do Sesc. Então a diversidade está na nossa essência, no nosso dia a dia.

Por um lado, o senhor fala de uma incompreensão do trabalho que é feito pelas instituições do Sistema S, do papel da arte e da cultura. Mas existe também uma percepção, por parte de muitos membros deste governo, de que as áreas culturais e as universidades seriam os nichos da esquerda, espaços de doutrinação, num discurso que cita um suposto “marxismo cultural”. Isso não significa que, mais do que uma incompreensão, existe mesmo uma escolha clara de um inimigo a ser combatido, digamos assim?

É verdade. E não classifica-se apenas genericamente as universidades e entidades, mas especificamente professores, artistas e intelectuais. Porque essas pessoas comprometidas com a análise social, com a visão ampla da sociedade em todos os sentidos, o artista que tem essa vocação não apenas de criar o encanto, o encantamento, mas também de apontar as questões e trazer à baila discussões sobre temas bastante polêmicos, fazem isso com a intenção de melhorar a sociedade. Partem do princípio de que a sociedade necessita evolução. Nós temos um grande, imenso e gravíssimo problema no país chamado desigualdade. Isso não precisa ser de direita, esquerda ou centro. É uma constatação objetiva, direta, está aí. Então qualquer pessoa com alguma sensibilidade, com algum conhecimento, com algum esforço, ao perceber isso, se torna uma pessoa com atitudes, opiniões e manifestações que são coerentes com esse ponto de vista. É natural, normal. Se de repente alguém considera isso uma posição contra o estado ou uma posição necessariamente esquerdista, isso é uma precipitação sem sentido.

Trata-se de uma evolução natural de qualquer sociedade, não da nossa. O pensamento sobre a necessidade da igualdade como patamar para uma vida melhor para todos é uma coisa natural. Isso é comunismo? Isso é marxismo? É exigir que todo mundo seja igual? Não, isso é a gente desejar que a sociedade seja melhor para todos, não apenas para alguns. Então nesse sentido existe uma atitude, no meio cultural, de apontar, contestar, polemizar e até mesmo transgredir. E estou falando aqui de transgredir do ponto de vista estético, não do ponto de vista legal e moral. As coisas mudam. O que seria da arte contemporânea se o Picasso em um determinado momento não tivesse rompido com os padrões da época e transformado sua arte em algo absolutamente revolucionário? E hoje, inclusive, ele já é visto como um homem do passado… Então do ponto de vista do pensamento de modo geral, da estética, existe uma evolução natural. Ou quem lida por exemplo com a discussão sobre gênero, que é um entendimento muito mais atual, presente e necessário – inclusive agora com a criminalização da homofobia.

Enfim, o que eu quero dizer é que trata-se de algo que a sociedade naturalmente evolui. Não adianta se colocar contra determinadas ações que vêm da sociedade, porque elas naturalmente se impõem, vão mais longe. Mesmo que não haja nenhum apoio ao mundo da cultura, aos artistas, que cortem a Lei Rouanet, mesmo que tudo seja vetado, não vai acabar com a cultura do país. Porque ela é natural, vem de qualquer jeito, vem como uma enxurrada em cima daqueles que eventualmente achem que isso não tem a menor importância. E provavelmente são aquelas pessoas que são contra a cultura e quando pegam o carro a primeira coisa que fazem é ligar o rádio para ouvir uma música. É natural, estão consumindo cultura o tempo todo, falando uma língua, usando uma roupa, se alimentando de um determinado jeito… e não percebem que estão consumindo cultura todo o tempo.

Estávamos falando mais dos possíveis cortes no Sistema S, mas o senhor falou agora também da reformulação na Lei rouanet. Houve ainda a retirada de patrocínios para projetos culturais por parte de empresas públicas e outras iniciativas nessa linha…

É lamentável. E inevitavelmente a sociedade reagirá de uma forma ou de outra.

Para o ex-ministro da cultura Juca Ferreira, hoje em dia quem trabalha com cultura está com medo, acuado. Você percebe este clima?

Noto manifestações das mais variadas. Noto que há um temor, já com as muitas dificuldades e impactos concretos. Isso gera um clima de bastante insatisfação. No meu contato com as universidades, do mesmo modo, percebo esse medo. Por outro lado posso dizer que vejo alguns sinais de boa vontade. Tive contato com algumas pessoas no próprio governo, na Secretaria de Cultura do Ministério da Cidadania, que estão atentas e bem-informadas, buscando caminhos para a superação dos problemas. Então há uma certa contradição no todo, mas talvez tenhamos algum caminho para encontrar saídas no futuro.

Nesse sentido mais propositivo, de buscar caminhos, como o senhor pensa que pode haver uma resistência à essas ameaças às áreas da Cultura, da Educação e ao Sistema S. É preciso vir à público, se unir, se manifestar?  

A primeira coisa que eu acho é que é preciso se manifestar. Eu tenho vindo à público quando posso, como responsável por uma instituição que pertence a esse “grupo dos S”. Acho que temos que falar, discutir. No nosso caso, apesar de discussões em andamento no governo, ainda não houve uma atitude efetiva de corte, um decreto, uma lei, uma proposta…

É mais um discurso do que uma prática?

Sim. E se isso vier a virar prática eu acredito que haverá uma natural reação – não estou pregando nada, mas observo de fora – de muita gente. E essa reação poderá desdobrar dentro do parlamento, da Justiça, de todas as instâncias que o país tiver, para poder esclarecer, aprofundar e tomar as decisões da maneira mais correta possível. Porque existe uma questão programática, ou seja, da importância das ações dessas instituições, mas além disso elas tem um arcabouço legal muito sólido, que não é tão fácil de retirar como se elas fossem parte do Estado, porque não são. Na realidade falta conhecimento dessa complexidade, 72 aos de história realizando uma ação muito efetiva pelo brasil afora e em SP de modo especial. Então isso tem muito capital de conhecimento acumulado, muita bagagem recolhida, então não se pode vir dizer que vai cortar aqui ou ali pura e simplesmente.

 

 

 

 

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